13/06/2020

Algumas Digressões sobre Filosofia

Nota Preliminar.

 

Este escrito compõe-se de reflexões soltas, aqui chamadas de digressões, dado seu caráter não-sistemático, simples e orgânico, a partir de algumas indagações sobre assuntos filósofos, que foram feitas entre março e setembro de 2020.

 

I

 

A definição da pergunta “que é o homem?”, passa pelo entendimento do homem como um ser cultural, e amalgamado a isso como sujeito e objeto da cultura; como sujeito, produz cultura, molda, cria, estabelece e reestabelece padrões culturais; como objeto, é atingido diretamente pela produção cultural, e por isso toda atividade cultural coloca o homem como um ser aberto a outro, aberto ao mundo, o que estabelece um ponto de contato entre o homem e o transcendente. Desta forma, a produção cultural, em termos de mandato cultural, é uma realidade indubitavelmente humana. A cultura sempre estabelece um ponto de tensão, uma busca, uma fé, um interesse pelo supremo, como afirmara Paul Tillich; por isso, na e para a cultura o homem se abre para a sua completude em todas as dimensões, sem nenhum reducionismo; bem como na cultura, se esvai qualquer neutralidade em relação ao transcendente.

 

II

 

O homem, através da cultura, se mostra um ser aberto a educação, posto esta ser uma necessidade fundamental; mas não somente a educação, mas também ao direcionamento a produção cultural, a sua realização neste mundo perante os outros e perante o sublime. Assim, a tarefa da educação é proporcionar ao homem o entendimento desta realidade e assim elevá-los aos ditames da alta cultura, da cultura que é estabelecida em ordem a verdade, a bondade e a beleza; da mesma forma, como o homem tem múltiplas dimensões, a cultura terá uma multiplicidade de manifestações, e na educação, o homem aprende a respeitá-las e a tê-las como objetos de respeito e admiração.

A educação é um processo inerente a realidade cultural, pois sem educação de qualidade não há desenvolvimento da cultura, e assim, funda-se uma realidade humana livre, responsável, e comprometida com a vida digna. Por isso, Tolkien chama a atividade humana na cultura de atividade “subcriadora”; portanto, realizadora, promovedora da dignidade humana. Se a cultura-educação é uma atividade criadora, logo é social e laboriosa, ou seja, acontece no contato com o outro e com o mundo, bem como é transmitida com esforço, labor. A educação é assim, a cultura também.

Por isso, a educação acontece quando respeita as dimensões do homem em sua totalidade e trabalha, se esforça, para transmitir a dignidade do homem em sua essência tanto na produção cultural quanto na realização cultural. Por esta razão, é que Santo Agostinho diz: “com efeito, de todos os milagres de que o homem é instrumento, o maior milagre é o próprio homem” (De Civ. Dei, X, 2). O maior milagre da educação é a integração da multiformidade da vida humana, pois como dissera Agostinho o maior milagre do homem é o próprio homem.

Esta é uma tarefa magna da educação, o próprio homem enquanto homem se realizando como homem, tendo a sua dignidade respeitada, e assim produzindo cultura.

 

III

 

O homem é um caniço pensante...”; ora, esta sentença de Pascal sintetiza no que consiste a antropologia; o homem no universo ocupa um lugar essencial e peculiar; devido a todo o paradoxo da vida, Pascal elabora uma comparação entre o universo e o homem, ou seja, entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno; assim o homem é como um caniço, o menor da natureza, porém é maior do que o universo, porque pensa.

Com efeito, Pascal é um grande crítico do racionalismo, que reduz tudo a mera explicação racional, a qual nada tem de racional. Por isso, Pascal se utiliza da figura do caniço, que sintetiza toda a debilidade humana; mas o homem é um caniço “pensante”, e o adjetivo pensante é o que qualifica a dignidade do homem, tal como o próprio Pascal afirma: “toda a nossa dignidade consiste pois, no pensamento”; e, para Pascal, no caminho do pensar corretamente, o homem precisa da mente e do coração, ou seja, “se elevar”. E ao se elevar, o homem passa a conhecer sua condição ontológica.

E esta condição para Pascal é de miséria. O homem penetrando em si mesmo com sua razão sabe que não pode compreender tudo, que é limitado. Isto leva o homem a uma compreensão racional e a uma relação consigo mesmo (Kierkegaard), e nesta relação, por sua condição de conseguir pensar sobre os mistérios da natureza, mas não conseguir penetrar nos mistérios da própria existência, traz ao homem a angústia, tal como afirmara Kierkegaard.

Desta forma, esta dialética entre grandeza e pequenez fora demonstrada pelos filósofos da seguinte maneira: em sua grandeza o homem situa-se para a eternidade (cristianismo), mas em sua pequenez para o tempo-espaço (Bruno); em sua grandeza o homem é o animal racional (Aristóteles), mas em sua pequenez apenas um animal doente (Nietzsche); em sua grandeza o homem é um caniço pensante (Pascal), mas em sua pequenez é uma máquina (La Mettrie).

Estas definições defrontam-se com uma realidade existencial profunda, começada pela verdade do “caniço” indo até a dignidade do “pensante”. O universo é grande, mas não consegue pensar sobre esta grandeza; em contrapartida o homem é pequeno, mas consegue pensar sobre a grandeza do universo. E esta é uma peculiaridade da antropologia pascalina, que leva em consideração ao formular a ideia de homem os paradoxos da condição humana.

 

IV

 

O conhecimento natural é um aio que guia até a revelação, porém insuficiente sem a revelação no que tange aos assuntos divinos. Na verdade, através da natureza o homem vê reflexos de um conhecimento superior; este conhecimento superior provêm da revelação, que planifica, exemplifica e fundamenta aquilo que vem do conhecimento natural apenas como relances de algo superior e mais sublime; por isto, este conhecimento demonstra sua superioridade em relação ao conhecimento natural, porém sem que o mesmo seja negligenciado; pelo conhecimento natural pode-se de perceber que existe um Deus, porém somente na revelação se conhece sobre a pessoalidade de Deus. Por isso, há a aschesis, ou seja, o exercício da subida do conhecimento natural ao revelado, a via do conhecimento natural até a revelação.

 

V

 

Paul Ricouer destaca, em sua filosofia da hermenêutica, o que se chama caminho da “via longa” – isto é, o caminho da conciliação entre a interpretação e os métodos das ciências. Ricouer fora influenciado pelo existencialismo e pela fenomenologia, além é claro da teologia de Barth e Bultmann, o que legou a ele características peculiares em sua forma de interpretar o texto filosófico e a realidade.

No caminho da conciliação, Ricouer estabeleceu alguns princípios, formando dois tópicos: o primeiro, no qual se tem a busca da verdade, a ontologia da compreensão, formando o itinerário original a interpretação da realidade; o segundo, a rigidez da demitologização científica, do método crítico das ciências, formando o itinerário derivado da interpretação.

Isto faz com que Ricouer atribua a interpretação o conceito de símbolo; ou seja, o caminho da interpretação tem um sentido direito, literal, e outro indireto, figurado; o segundo desvelado após o primeiro; é uma expressão científica para a hermenêutica dos dois sentidos da exegese bíblica.

 

VI

 

O problema ontológico, o de saber que entes existem e como existem, é explicado por Russel em termos de um atributo geral de qualquer objeto; para isto, é necessário que haja descrições definidas; as descrições não são nomes que existem em si mesmos, mas algo que só existe dentro de um contexto. Santo Agostinho dizia que se existe algo inefável que não pode ser explicado totalmente, o pelo menos dizer que é inefável já torna este algo entendível. Russel define as estruturas conceituais como algo que entra em relação com o pensador, ou seja, com os possíveis objetos de pensamento; e assim, o ser pertence a tudo o que pode ser levado em consideração seja como ente real seja como ente de razão. Embora, o ato de ser esteja além das definições propostas por Russel.

 

VII

 

Kant dissera que Aristóteles descobriu tudo o que era necessário em relação a lógica; assim, ele mesmo definira a lógica como uma doutrina baseada nos princípios a priori; por isso, pode-se pensar em algumas questões: o que Kant entendia por lógica? Como Kant aplicava a lógica em relação ao todo do conhecimento? A resposta a estas duas questões descortina o núcleo dos erros teoréticos do sistema kantiano.

 

VIII

 

As tendências hermenêuticas, compreendidas a partir da contribuição de Gadamer, a partir de quando a hermenêutica fora definitivamente aferida no status de disciplina por si, tende a se tornar cada vez mais amplas no bojo de todas as ciências; pode-se aperfeiçoar as linhas hermenêuticas existentes, bem como estabelecer novas perspectivas para áreas do conhecimento que ainda não tenham conceitos gerais de interpretação no seu âmbito particular; de certa forma, num âmbito mais universal, tem-se teorias hermenêuticas que vão sendo encaixadas no âmbito restrito de cada área do saber.

E isto é valoroso, pois a cada nova descoberta e/ou avanço cultural há a possibilidade de novas perspectivas hermenêuticas, já que a experiência da verdade, ou o desvelar da verdade, transcende o método cientifico, posto não existir apenas a verdade científica, mas a verdade num prisma abrangente, o qual quando observado tem suas características particulares, as quais estão sujeitas a universalidade da verdade.

Pois, por exemplo, existe verdade na linguagem, verdade nas artes, verdade na filosofia, verdade na ciência, etc., as quais estão sujeitas a Verdade Primeira, da qual emanam. Desta forma, há a possibilidade da aplicação do conceito do todo para as partes e das partes para o todo; mas para isso, na multiplicidade da manifestação da verdade, há se ter a Verdade, da qual provém tudo o que é verdadeiro, e para a qual toda multiplicidade da verdade aponta.

 

IX

 

A verdade que está inserida na linguagem, isto é, a verdade do que é dito corretamente e genuinamente; ou a verdade do que é belo; ou a verdade do amor pelo saber; ou a verdade da observação e experimentação; etc.; todas as manifestações da verdade apontam para a Verdade Primeira, a verdade eterna, a qual não é uma coisa, mas uma Pessoa, a saber, Jesus Cristo, “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2.3).

 

X

 

A compreensão sobre o belo é um dos temas mais significativos da vida humana; não se vive sem a experiência de beleza, pois a alma humana tende ao belo assim como as aves para voar.

Aristóteles dissera que o belo é um prazer despertado nas faculdades pensantes; é a expressão deste prazer de forma racional, através de algum meio “artístico”; e esta expressão, se for verdadeira, sempre se manifesta no caminho da ordem, da simetria, da integridade, do resplendor. Pois, o belo se coaduna com o conceito de bem, tanto que os gregos costumeiramente os afirmavam em conjunto, com o conceito de kalokagathía (beleza-bondade).

Platão diz no “Filebo” que “a potência do bem refugia-se na natureza no belo”; realmente, o belo é a fortaleza do bem, e o bem é a ação do belo; e este belo que advém e transforma-se em elemento racional, que tem em si ação (o bem), e que expressa a verdade, tornar-se-á em obra de arte; e se a mesma transcender o meio, a moda e o momento histórico, configurar-se-á, como dizia Hippolyte Taine, como patrimônio da humanidade.

Assim, a compreensão do belo é algo imprescindível para a cultura filosófica, bem como é um elemento necessário à nossa cultura desencantada. Dostoiévski profetizara que a “beleza salvará o mundo”. E esta é uma esperança natural que todos os homens de bem devem possuir.

 

XI

 

A bioética num mundo que cada vez mais se desenvolve tende a se encaixar em todos os prismas do desenvolvimento científico-filosófico; isto demonstra que cada esfera do saber humano tem de ter uma ética ligada a vida; uma ética que pontifique o caminho de atuação frente aos desenvolvimentos científicos, mas que não fira a dignidade humana. Pois, os pensadores hodiernos, diante de tantos avanços científicos, terão na bioética uma disciplina que os ajudará a trilhar os caminhos da ciência sem desvincular-se e nem ultrapassar os limites da dignidade humana. 

***

E termina aqui este escrito. Laudate Deo


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