1. A fé
cristã é manifesta em seu esplendor quando a honra devida ao Espírito é
plenamente evidenciada; e esta breve sentença que deve permear toda e qualquer
análise e estudo sobre o Espírito Santo, estabelecem um princípio através do
qual se pode evocar a teologia do terceiro artigo. Pois, somente com a honra
devida ao Espírito Santo, é que a glória de Deus e a fé são devidamente
preservadas.
A
honra devida ao Espírito Santo, se efetiva, na vida pessoal de cada cristão e
na existência eclesial, a medida que se O conhece de maneira sempre renovada,
como Aquele que não somente cuida e renova a terra (cf. Sl 104.31), mas também
como Aquele que consola (cf. Jo 14.26), como Aquele convence o mundo do pecado,
da justiça e do juízo (cf. Jo 16.8-11), e como Aquele que inunda o coração
daqueles que em Cristo (cf. Jo 1.12) e que experimentam o amor de Deus (cf. Rm
5.5), e como Aquele que ilumina aqueles que creem para o conhecimento da
Palavra de Deus.
2.
Conhecer o Espírito Santo é conhecer Aquele que guia à verdade (cf. Jo
14.16-17), e que conduz a Igreja de maneira soberana. E, somente conhecendo-O,
Sua Pessoa e Sua Obra, é que se pode honrá-Lo de maneira adequada; pois,
somente conhecendo-O é que se pode amá-Lo. Além do mais, o próprio Espírito,
que conduziu a Revelação de Deus Pai e de Deus Filho, também tem muito a dar a
conhecer de Si mesmo; todavia, somente para aqueles que o buscam com afinco,
com o propósito de dar glória a Deus, e de honrá-Lo de toda alma, mente e coração.
Conhecer o Espírito Santo, é compreender que Ele age na alma, na mente e no
coração dAquele que crê, de modo a conduzir todo o ser na contemplação de Deus
e na comunhão com Deus.
3.
Portanto, a invectiva de se elaborar uma teologia do terceiro artigo, é
justamente para reorientar a reflexão teológica sob os ditames da Pessoa e da
Obra do Espírito Santo; uma teologia do terceiro cobre todos os tópicos
teológicos fundamentais e imprescindíveis, todavia, o faz sob o enfoque
pneumático; e, a teologia do terceiro artigo, amparada no terceiro artigo dos
símbolos de fé (os credos antigos) procura evidenciar a Pessoa e a Obra do
Espírito Santo; o terceiro artigo do símbolo niceno-constantinopolitano é
enfático ao afirmar: “Creio no Espírito Santo, Senhor e Vivificador”.
O
Espírito Santo é Senhor e Vivificador; e muitas verdades gloriosas da Revelação
estão imbuídas nestes dois qualificativos; portanto, conhecer o Espírito Santo
a partir da designação do terceiro artigo dos símbolos credais, é uma forma de
se formular e estabelecer a teologia do terceiro artigo a partir das descrições
revelacionais sobre a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
4. Na
verdade, a teologia do terceiro artigo é um fanal de iluminação para a
compreensão dos primeiros dois artigos; o que é dito sobre Deus Pai no primeiro
artigo, e o que é dito sobre Deus Filho no segundo artigo, é iluminado e
mostrado em todo seu fulgor a partir do fundamento do terceiro artigo, por Deus
Espírito Santo. Barth assevera: “Tudo o que deve ser acreditado, considerado
e dito sobre Deus Pai e Deus Filho no entendimento dos 1º e 2º artigos deve ser
mostrado e iluminado em seus fundamentos por Deus Espírito Santo, o vinculum
pacis inter Patrem et Filium”[1].
Logo,
compreender a teologia do terceiro artigo, não somente é melhor refletir e
compreender sobre o Espírito Santo; na verdade, a teologia do terceiro artigo é
evocada para se melhor compreender e melhor entender a teologia do primeiro
artigo e a teologia do segundo artigo.
5.
Deste modo, como Barth assevera, a teologia do terceiro artigo está presente
tanto na teologia do primeiro artigo quanto na teologia do segundo artigo; e,
ambos os artigos, tem seu fundamento em Deus Espírito Santo, o vinculum
pacis inter Patrem et Filium; e, aqui se tem uma das mais singulares
proposições teológicas sobre o Espírito Santo; pois, a descrição do vinculum
pacis é uma expressão homônima a vinculum amoris; portanto, afirmar
o vinculum pacis é o mesmo que afirmar o vinculum amoris, e
vice-versa; logo, ao se afirmar isso, se compreende que o Espírito Santo é o vinculum
amoris, que explica tanto a Deus Pai quanto a Deus Filho; e aqui se evoca
os princípios agostinianos da explicação da Trindade, na qual o Pai é o amans,
o Filho é o amatur, e o Espírito é amor; o Pai é Aquele que ama, o Filho
é aquele que é amado e o Espírito é o amor; esta imagem representativa, numa
tentativa mais simples de se explicar a Trindade, é um modo de se entender o
fundamento da teologia do terceiro artigo, através da qual, o Pai, o Filho e o
Espírito são honrados e glorificados a partir da proposição da Trindade como
Amor.
6.
Portanto, elucubrar e analisar o terceiro artigo, é princípio preponderante da
análise teológica; pois, é através do terceiro artigo que os outros aspectos da
fé são melhor entendidos e melhor compreendidos; pois, o Senhor Jesus assevera:
“Mas, quando vier aquele Espírito da verdade, ele vos guiará em toda a
verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos
anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é
meu e vo-lo há de anunciar. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso, vos disse
que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.13-15). O Espírito Santo é quem guia a toda a
verdade, pois fala de tudo que tiver ouvido na comunhão com o Pai e o Filho, e
anunciará aos fiéis o que há de vir, isto é, anunciará tudo quanto diz respeito
ao Pai e ao Filho sobre os mistérios que desde tempos eternos estiveram ocultos
(cf. Rm 16.25-27).
Todavia,
ao outorgar a iluminação para a compreensão do Pai e do Filho, o Espírito
também quer conduzir os homens a compreensão de Si, no mistério inefável da
Santíssima Trindade; portanto, o Espírito quer conduzir os eleitos a uma
revelação mais precisa e profunda sobre Si na economia da Trindade; e, para
compreender esta excelsa proposição, há de se adentrar ao estudo da teologia do
terceiro artigo, e se entender quais os princípios e quais as pressuposições
básicas que devem guiar a edificação da teologia do terceiro artigo; e, para
compreender estas pressuposições básicas se faz necessário compreender no que
consiste a ideia da teologia do terceiro artigo.
7. Por
isso, o primeiro aspecto geral a ser evocado é a ideia da teologia do terceiro
artigo; e, nisto, está delineado a teologia em sua natureza e propósito; pois,
a teologia só se desenvolve pela obra do Espírito Santo; e a teologia só atinge
seu propósito pela obra do Espírito Santo; portanto, a existência teológica é
pneumática em sua essência e natureza; a teologia, como reflexão sobre Deus e
das coisas enquanto em relação com Ele, só “vinga”, para utilizar um esquecido
termo da ortodoxia luterana, sob a obra soberana do Espírito Santo; como Barth
afirma, o ar fresco e movimentado do Espírito do Senhor é o único ambiente em
que a teologia poderá vingar[2].
8.
Com isso, a teologia, sendo reflexão sobre Deus, é guiada pelo Espírito Santo
na reflexão sobre o próprio Deus; e a revelação é o meio pelo qual o Espírito
Santo guia os homens na reflexão teológica e na compreensão sobre Deus; logo, a
lógica da revelação é o que deve permear os preceitos fundamentais da reflexão
teológica; pois, necessariamente, a existência teológica só se efetiva desta
maneira; portanto, a ideia da teologia do terceiro artigo tem imbuída em si a
existência teológica, fato esse que as mais das vezes passa desapercebido dos
próprios estudiosos da teologia; todavia, a teologia, em sua natureza e
propósito, só “vinga”, só se estabelece e se desenvolve sob a orientação
soberana do Espírito Santo.
9.
Assim sendo, os principais aspectos na reflexão sobre Deus, a doutrina de Deus,
são elucubrados sob a Orientação do Espírito Santo; e a reflexão sobre Deus,
geralmente é feita sob dois aspectos: o Deus Uno e o Deus Trino; é assim, por
exemplo, que Tomás de Aquino estabelece na “Summa Theologiae”, primeiro
a análise sobre o Deus Uno, depois a análise sobre o Deus Trino.
A
reflexão sobre o Deus Uno mostra a perfeição de Deus, Sua natureza e caráter
santíssimo, a partir da descrição bíblica: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso
Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4); portanto, a reflexão sobre o Deus Uno é o
primeiro aspecto, a partir do entendimento revelacional, sobre o qual, se
reflete e elucubra sobre Deus - aspecto este estabelecido pelo Espírito Santo;
a unidade de Deus é um mistério glorioso com o qual a reflexão teológica tem de
lidar, o qual, por sua vez, é orientado pelo Espírito Santo para designar todo
o esplendor das verdades que são imbuídas no estudo sobre o Deus Único e
Verdadeiro; pois, o Espírito Santo, em sua obra como cultor da revelação, tem
por função tornar conhecidas as verdades gloriosas sobre Deus.
10.
E, em relação a reflexão sobre o Deus Trino, o Espírito Santo, revela a Deus
Pai, revela a Deus Filho, e anuncia tudo quanto tiver ouvido (cf. Jo 16.13), no
altissonante mistério da comunhão da Trindade; a unidade e a trindade de Deus,
a unidade na trindade e a trindade na unidade, são um mistério que o Espírito
Santo explica, mas que os homens não podem compreender em sua inteireza; por
isso, o Espírito Santo é o “vinculum amoris”, entre o Pai e o Filho, é
um vínculo que permite aos homens, através da fé, compreenderem o bendito
mistério da Trindade; somente através deste “vinculum amoris” é que os
que creem podem compreender o mistério da Santíssima Trindade; e é o Espírito
Santo quem conduz o entendimento sobre a Trindade, através do qual, tanto o Pai
quanto o Filho quanto o Espírito Santo são adorados, pois, são co-iguais em
poder, glória e majestade.
A Trindade
é o mistério pneumático por excelência; o qual, ao ser estudado com esmero e
reverência, é guiado em seus mais íntimos recônditos pelo Espírito Santo, que
revela as profundezas de Deus (cf. 1Co 2.10). Os Mistérios concernentes ao Deus
Trino são conduzidos no temor e na reverência sob a orientação do Espírito
Santo, que impede que os homens adentrem a estes mistérios de maneira dissoluta
bem como impede aqueles que reverentemente estudam sobre este assunto de caírem
em erros e heresias.
11.
Deste modo, o Espírito Santo, ao guiar a reflexão teológica, a ilumina diante
dos três principais aspectos da fé, naquilo que a partir dos símbolos de fé,
são conhecidos como os três artigos da fé; o primeiro artigo, sobre Deus Pai; o
segundo artigo, sobre Deus Filho; o terceiro artigo, sobre Deus Espírito Santo;
nos princípios estabelecidos pelos Santos Padres: Deus Pai e a criação, Deus
Filho e a salvação, Deus Espírito Santo e santificação; logo, a reflexão
teológica se estabelece nesta tríplice perspectiva, que permeia todos os outros
aspectos doutrinários; pois, a compreensão sobre a Trindade, é o aspecto
principal da fé; como Tomás de Aquino afirma: “a fé cristã consiste
principalmente na confissão da Santíssima Trindade”[3].
E é o
aspecto que encerra o intelecto em admiração, que se prosterna em adoração, e
que a medida desta adoração cresce em compreensão e entendimento, no mais
sublime aspecto da fé que busca compreensão.
12.
Logo, a ideia da teologia do terceiro artigo tem permeada em si as estruturas
dos dois outros artigos de fé, tanto para melhor explicá-los, quanto para
melhor entender o próprio terceiro artigo; assim, a teologia do terceiro artigo
procura iluminar a compreensão sobre o primeiro artigo e sobre o segundo
artigo, de modo que, a partir desta compreensão, se possa obter um entendimento
mais apurado e burilado sobre o terceiro artigo; na verdade, na ordem da
Revelação, o Espírito Santo revelou ao Pai e ao Filho, para depois conduzir os
fiéis a uma comunhão mais profunda consigo mesmo.
A
teologia do terceiro artigo reconfigura o entendimento sobre o primeiro artigo
e sobre o segundo artigo, de maneira tal que, ao se estudar especificamente o
terceiro artigo, se terá uma riqueza de percepção e de insights ainda mais
aprofundada, pois, o próprio Espírito Santo é o “Sugeridor” (esta sentença é
evocada pelo teólogo italiano Raniero Cantalamessa!); com isso, pode-se afirma
que o Espírito Santo, ao guiar e orientar o estudo sobre o primeiro e o segundo
artigo, é o Sugeridor dos insights teológicos, bem como nestes insights,
outorga o entendimento sobre Sua Pessoa, como Sugeridor dos insights
pneumáticos.
E os
insights pneumáticos açambarcam a ampla gama de insights teológicos, e os
coloca de maneira mais precisa e mais adequada a cada área do saber teológico.
Ora, o Espírito Santo é o Doctor Ecclesiae, o Professor da Igreja;
então, é Ele quem ilumina os insights teológicos e os aplica de maneira mais
adequada no desenvolvimento da própria reflexão teológica; donde, a necessidade
dos insights pneumáticos e sua aplicabilidade significativa para o todo das
reflexões teológicas.
13.
Assim sendo, tendo em mente a compreensão e a centralidade da perspectiva
trinitária, se observa que tudo na existência teológica é sob tríplice
perspectiva; a vida cristã, a existência eclesial, a liturgia, a existência
teológica, é sob tríplice perspectiva; e a tríplice perspectiva sempre é
evocada a partir da Santíssima Trindade.
Pois,
tudo em relação as coisas espirituais e em relação as coisas naturais, é em
tríplice perspectiva; pois, toda a obra da Criação é obra do Deus Trino; e, só
existe a compreensão sobre a tríplice perspectiva, sob o triperspectivismo, a
partir do Sugeridor; é o Espírito Santo quem orienta a compreensão sob a
tríplice perspectiva, da qual Ele mesmo é o cultor.
O
Espírito Santo é o Cultor da tríplice perspectiva na ordem da realidade e é o
Orientador para a compreensão sobre as coisas de Deus. E o entendimento sobre
estes aspectos delineia a compreensão sobre a ideia que permeia a noção da
teologia do terceiro artigo.
Laudate Deo!
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