14/02/2024

A Ideia da Teologia do Terceiro Artigo

1. A fé cristã é manifesta em seu esplendor quando a honra devida ao Espírito é plenamente evidenciada; e esta breve sentença que deve permear toda e qualquer análise e estudo sobre o Espírito Santo, estabelecem um princípio através do qual se pode evocar a teologia do terceiro artigo. Pois, somente com a honra devida ao Espírito Santo, é que a glória de Deus e a fé são devidamente preservadas.

A honra devida ao Espírito Santo, se efetiva, na vida pessoal de cada cristão e na existência eclesial, a medida que se O conhece de maneira sempre renovada, como Aquele que não somente cuida e renova a terra (cf. Sl 104.31), mas também como Aquele que consola (cf. Jo 14.26), como Aquele convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (cf. Jo 16.8-11), e como Aquele que inunda o coração daqueles que em Cristo (cf. Jo 1.12) e que experimentam o amor de Deus (cf. Rm 5.5), e como Aquele que ilumina aqueles que creem para o conhecimento da Palavra de Deus.

2. Conhecer o Espírito Santo é conhecer Aquele que guia à verdade (cf. Jo 14.16-17), e que conduz a Igreja de maneira soberana. E, somente conhecendo-O, Sua Pessoa e Sua Obra, é que se pode honrá-Lo de maneira adequada; pois, somente conhecendo-O é que se pode amá-Lo. Além do mais, o próprio Espírito, que conduziu a Revelação de Deus Pai e de Deus Filho, também tem muito a dar a conhecer de Si mesmo; todavia, somente para aqueles que o buscam com afinco, com o propósito de dar glória a Deus, e de honrá-Lo de toda alma, mente e coração. Conhecer o Espírito Santo, é compreender que Ele age na alma, na mente e no coração dAquele que crê, de modo a conduzir todo o ser na contemplação de Deus e na comunhão com Deus.

3. Portanto, a invectiva de se elaborar uma teologia do terceiro artigo, é justamente para reorientar a reflexão teológica sob os ditames da Pessoa e da Obra do Espírito Santo; uma teologia do terceiro cobre todos os tópicos teológicos fundamentais e imprescindíveis, todavia, o faz sob o enfoque pneumático; e, a teologia do terceiro artigo, amparada no terceiro artigo dos símbolos de fé (os credos antigos) procura evidenciar a Pessoa e a Obra do Espírito Santo; o terceiro artigo do símbolo niceno-constantinopolitano é enfático ao afirmar: “Creio no Espírito Santo, Senhor e Vivificador”.

O Espírito Santo é Senhor e Vivificador; e muitas verdades gloriosas da Revelação estão imbuídas nestes dois qualificativos; portanto, conhecer o Espírito Santo a partir da designação do terceiro artigo dos símbolos credais, é uma forma de se formular e estabelecer a teologia do terceiro artigo a partir das descrições revelacionais sobre a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

4. Na verdade, a teologia do terceiro artigo é um fanal de iluminação para a compreensão dos primeiros dois artigos; o que é dito sobre Deus Pai no primeiro artigo, e o que é dito sobre Deus Filho no segundo artigo, é iluminado e mostrado em todo seu fulgor a partir do fundamento do terceiro artigo, por Deus Espírito Santo. Barth assevera: “Tudo o que deve ser acreditado, considerado e dito sobre Deus Pai e Deus Filho no entendimento dos 1º e 2º artigos deve ser mostrado e iluminado em seus fundamentos por Deus Espírito Santo, o vinculum pacis inter Patrem et Filium[1].

Logo, compreender a teologia do terceiro artigo, não somente é melhor refletir e compreender sobre o Espírito Santo; na verdade, a teologia do terceiro artigo é evocada para se melhor compreender e melhor entender a teologia do primeiro artigo e a teologia do segundo artigo.

5. Deste modo, como Barth assevera, a teologia do terceiro artigo está presente tanto na teologia do primeiro artigo quanto na teologia do segundo artigo; e, ambos os artigos, tem seu fundamento em Deus Espírito Santo, o vinculum pacis inter Patrem et Filium; e, aqui se tem uma das mais singulares proposições teológicas sobre o Espírito Santo; pois, a descrição do vinculum pacis é uma expressão homônima a vinculum amoris; portanto, afirmar o vinculum pacis é o mesmo que afirmar o vinculum amoris, e vice-versa; logo, ao se afirmar isso, se compreende que o Espírito Santo é o vinculum amoris, que explica tanto a Deus Pai quanto a Deus Filho; e aqui se evoca os princípios agostinianos da explicação da Trindade, na qual o Pai é o amans, o Filho é o amatur, e o Espírito é amor; o Pai é Aquele que ama, o Filho é aquele que é amado e o Espírito é o amor; esta imagem representativa, numa tentativa mais simples de se explicar a Trindade, é um modo de se entender o fundamento da teologia do terceiro artigo, através da qual, o Pai, o Filho e o Espírito são honrados e glorificados a partir da proposição da Trindade como Amor.

6. Portanto, elucubrar e analisar o terceiro artigo, é princípio preponderante da análise teológica; pois, é através do terceiro artigo que os outros aspectos da fé são melhor entendidos e melhor compreendidos; pois, o Senhor Jesus assevera: “Mas, quando vier aquele Espírito da verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso, vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.13-15).  O Espírito Santo é quem guia a toda a verdade, pois fala de tudo que tiver ouvido na comunhão com o Pai e o Filho, e anunciará aos fiéis o que há de vir, isto é, anunciará tudo quanto diz respeito ao Pai e ao Filho sobre os mistérios que desde tempos eternos estiveram ocultos (cf. Rm 16.25-27).

Todavia, ao outorgar a iluminação para a compreensão do Pai e do Filho, o Espírito também quer conduzir os homens a compreensão de Si, no mistério inefável da Santíssima Trindade; portanto, o Espírito quer conduzir os eleitos a uma revelação mais precisa e profunda sobre Si na economia da Trindade; e, para compreender esta excelsa proposição, há de se adentrar ao estudo da teologia do terceiro artigo, e se entender quais os princípios e quais as pressuposições básicas que devem guiar a edificação da teologia do terceiro artigo; e, para compreender estas pressuposições básicas se faz necessário compreender no que consiste a ideia da teologia do terceiro artigo.

7. Por isso, o primeiro aspecto geral a ser evocado é a ideia da teologia do terceiro artigo; e, nisto, está delineado a teologia em sua natureza e propósito; pois, a teologia só se desenvolve pela obra do Espírito Santo; e a teologia só atinge seu propósito pela obra do Espírito Santo; portanto, a existência teológica é pneumática em sua essência e natureza; a teologia, como reflexão sobre Deus e das coisas enquanto em relação com Ele, só “vinga”, para utilizar um esquecido termo da ortodoxia luterana, sob a obra soberana do Espírito Santo; como Barth afirma, o ar fresco e movimentado do Espírito do Senhor é o único ambiente em que a teologia poderá vingar[2].

8. Com isso, a teologia, sendo reflexão sobre Deus, é guiada pelo Espírito Santo na reflexão sobre o próprio Deus; e a revelação é o meio pelo qual o Espírito Santo guia os homens na reflexão teológica e na compreensão sobre Deus; logo, a lógica da revelação é o que deve permear os preceitos fundamentais da reflexão teológica; pois, necessariamente, a existência teológica só se efetiva desta maneira; portanto, a ideia da teologia do terceiro artigo tem imbuída em si a existência teológica, fato esse que as mais das vezes passa desapercebido dos próprios estudiosos da teologia; todavia, a teologia, em sua natureza e propósito, só “vinga”, só se estabelece e se desenvolve sob a orientação soberana do Espírito Santo.

9. Assim sendo, os principais aspectos na reflexão sobre Deus, a doutrina de Deus, são elucubrados sob a Orientação do Espírito Santo; e a reflexão sobre Deus, geralmente é feita sob dois aspectos: o Deus Uno e o Deus Trino; é assim, por exemplo, que Tomás de Aquino estabelece na “Summa Theologiae”, primeiro a análise sobre o Deus Uno, depois a análise sobre o Deus Trino. 

A reflexão sobre o Deus Uno mostra a perfeição de Deus, Sua natureza e caráter santíssimo, a partir da descrição bíblica: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4); portanto, a reflexão sobre o Deus Uno é o primeiro aspecto, a partir do entendimento revelacional, sobre o qual, se reflete e elucubra sobre Deus - aspecto este estabelecido pelo Espírito Santo; a unidade de Deus é um mistério glorioso com o qual a reflexão teológica tem de lidar, o qual, por sua vez, é orientado pelo Espírito Santo para designar todo o esplendor das verdades que são imbuídas no estudo sobre o Deus Único e Verdadeiro; pois, o Espírito Santo, em sua obra como cultor da revelação, tem por função tornar conhecidas as verdades gloriosas sobre Deus.

10. E, em relação a reflexão sobre o Deus Trino, o Espírito Santo, revela a Deus Pai, revela a Deus Filho, e anuncia tudo quanto tiver ouvido (cf. Jo 16.13), no altissonante mistério da comunhão da Trindade; a unidade e a trindade de Deus, a unidade na trindade e a trindade na unidade, são um mistério que o Espírito Santo explica, mas que os homens não podem compreender em sua inteireza; por isso, o Espírito Santo é o “vinculum amoris”, entre o Pai e o Filho, é um vínculo que permite aos homens, através da fé, compreenderem o bendito mistério da Trindade; somente através deste “vinculum amoris” é que os que creem podem compreender o mistério da Santíssima Trindade; e é o Espírito Santo quem conduz o entendimento sobre a Trindade, através do qual, tanto o Pai quanto o Filho quanto o Espírito Santo são adorados, pois, são co-iguais em poder, glória e majestade. 

A Trindade é o mistério pneumático por excelência; o qual, ao ser estudado com esmero e reverência, é guiado em seus mais íntimos recônditos pelo Espírito Santo, que revela as profundezas de Deus (cf. 1Co 2.10). Os Mistérios concernentes ao Deus Trino são conduzidos no temor e na reverência sob a orientação do Espírito Santo, que impede que os homens adentrem a estes mistérios de maneira dissoluta bem como impede aqueles que reverentemente estudam sobre este assunto de caírem em erros e heresias.

11. Deste modo, o Espírito Santo, ao guiar a reflexão teológica, a ilumina diante dos três principais aspectos da fé, naquilo que a partir dos símbolos de fé, são conhecidos como os três artigos da fé; o primeiro artigo, sobre Deus Pai; o segundo artigo, sobre Deus Filho; o terceiro artigo, sobre Deus Espírito Santo; nos princípios estabelecidos pelos Santos Padres: Deus Pai e a criação, Deus Filho e a salvação, Deus Espírito Santo e santificação; logo, a reflexão teológica se estabelece nesta tríplice perspectiva, que permeia todos os outros aspectos doutrinários; pois, a compreensão sobre a Trindade, é o aspecto principal da fé; como Tomás de Aquino afirma: “a fé cristã consiste principalmente na confissão da Santíssima Trindade[3].

E é o aspecto que encerra o intelecto em admiração, que se prosterna em adoração, e que a medida desta adoração cresce em compreensão e entendimento, no mais sublime aspecto da fé que busca compreensão.

12. Logo, a ideia da teologia do terceiro artigo tem permeada em si as estruturas dos dois outros artigos de fé, tanto para melhor explicá-los, quanto para melhor entender o próprio terceiro artigo; assim, a teologia do terceiro artigo procura iluminar a compreensão sobre o primeiro artigo e sobre o segundo artigo, de modo que, a partir desta compreensão, se possa obter um entendimento mais apurado e burilado sobre o terceiro artigo; na verdade, na ordem da Revelação, o Espírito Santo revelou ao Pai e ao Filho, para depois conduzir os fiéis a uma comunhão mais profunda consigo mesmo.

A teologia do terceiro artigo reconfigura o entendimento sobre o primeiro artigo e sobre o segundo artigo, de maneira tal que, ao se estudar especificamente o terceiro artigo, se terá uma riqueza de percepção e de insights ainda mais aprofundada, pois, o próprio Espírito Santo é o “Sugeridor” (esta sentença é evocada pelo teólogo italiano Raniero Cantalamessa!); com isso, pode-se afirma que o Espírito Santo, ao guiar e orientar o estudo sobre o primeiro e o segundo artigo, é o Sugeridor dos insights teológicos, bem como nestes insights, outorga o entendimento sobre Sua Pessoa, como Sugeridor dos insights pneumáticos.

E os insights pneumáticos açambarcam a ampla gama de insights teológicos, e os coloca de maneira mais precisa e mais adequada a cada área do saber teológico. Ora, o Espírito Santo é o Doctor Ecclesiae, o Professor da Igreja; então, é Ele quem ilumina os insights teológicos e os aplica de maneira mais adequada no desenvolvimento da própria reflexão teológica; donde, a necessidade dos insights pneumáticos e sua aplicabilidade significativa para o todo das reflexões teológicas.

13. Assim sendo, tendo em mente a compreensão e a centralidade da perspectiva trinitária, se observa que tudo na existência teológica é sob tríplice perspectiva; a vida cristã, a existência eclesial, a liturgia, a existência teológica, é sob tríplice perspectiva; e a tríplice perspectiva sempre é evocada a partir da Santíssima Trindade.

Pois, tudo em relação as coisas espirituais e em relação as coisas naturais, é em tríplice perspectiva; pois, toda a obra da Criação é obra do Deus Trino; e, só existe a compreensão sobre a tríplice perspectiva, sob o triperspectivismo, a partir do Sugeridor; é o Espírito Santo quem orienta a compreensão sob a tríplice perspectiva, da qual Ele mesmo é o cultor.

O Espírito Santo é o Cultor da tríplice perspectiva na ordem da realidade e é o Orientador para a compreensão sobre as coisas de Deus. E o entendimento sobre estes aspectos delineia a compreensão sobre a ideia que permeia a noção da teologia do terceiro artigo.

Laudate Deo



[1] Karl Barth, Nachwort, In: Heinz Bolli (ed.), Schleiermacher-Auswahl [München und Hamburg: Siebenstern Taschenbuch Verlag, 1968], pág. 310.

[2] cf. Karl Barth, Introdução à Teologia Evangélica [11ª ed. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2016], pág. 39.

[3] Tomás de Aquino, De Rationibus Fidei, cap. I. 


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