“Tu contaste as minhas vagueações; põe as minhas
lágrimas no teu odre; não estão elas no teu livro?” (Sl 56.8).
Prólogo.
1.
São João afirma: “E Deus limpará de seus olhos toda lágrima” (Ap 21.4);
ora, estas palavras competem ao que o salmista afirmara neste salmo; o Deus de
toda consolação (cf. 2Co 1.3), recolhe e enxuga os olhos dos fiéis toda lágrima
que lhes sobrevém devido as provações desta vida; a grandeza da consolação com
Deus consola os fiéis é comparada ao enxugar da lágrima de uma pessoa, algo que
expressa proximidade e compaixão; de fato, é isto o que Deus faz ao consolar os
fiéis em suas tribulações, a fim de que os fiéis possam consolar outros em suas
tribulações (cf. 2Co 1.4). Entendamos, pois, o que diz o salmista.
Parte I.
2. Os
ensinamentos do salmista são assaz importantes e preciosos, principalmente
porque ensinam sobre o sofrimento; e é necessário se entender sobre o
sofrimento, pois “a vida é luta renhida” (Gonçalves Dias). “Porventura,
não tem o homem guerra sobre a terra? E não são os seus dias como os dias do
jornaleiro?” (Jó 7.1). Portanto, os ensinamentos do salmista são muito
úteis à vida nossa cotidiana. E, quanto a isso, o salmista faz duas coisas:
primeiro, o salmista narra suas aflições (v. 5-6); segundo, o salmista descreve
seu proceder diante das tribulações (v. 7-8).
3. O
salmista narra suas aflições de modo a não somente confessar-se diante de Deus,
mas também para confessar-se diante dos homens; o lamento do salmista é um modo
dele irromper em confiança a Deus; pois, ao lamentar-se com sinceridade diante
de Deus, o próprio Deus viria a seu encontro para lhe confortar e lhe ajudar,
tal como diz a Escritura: “Esperei com paciência no Senhor, e ele se
inclinou para mim, e ouviu o meu clamor. Tirou-me de um lago horrível, de um
charco de lodo; pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos” (Sl
40.1-2).
4.
Ora, o salmista narra suas aflições de três modos: primeiro, seus inimigos
distorcem suas palavras: “Todos os dias torcem as minhas palavras” (v.
5a); ora, os ímpios são mestres em torcer as palavras verdadeiras e sinceras;
pois, aqueles que distorcem as palavras alheias o fazem na intenção de dominar este
alguém; portanto, os ímpios tentam dominar sobre outras pessoas. “Eles
somente consultam como o hão de derribar da sua excelência; deleitam-se em
mentiras; com a boca bendizem, mas, no seu interior, maldizem” (Sl 62.4).
5.
Segundo, o pensamento dos homens ímpios são sempre para o mal: “todos os
seus pensamentos são contra mim para o mal” (v. 5b); ora, os homens ímpios
pensam e imaginam maldades, isto é, concebem maldades e praticam maldades, já
que os seus corações sempre tendem para o mal. O salmista defronta-se com
homens ímpios, que vivem em maldades e que promovem maldades. “A tua
habitação está no meio do engano; pelo engano recusam a conhecer-me, diz o
Senhor” (Jr 9.6).
6.
Terceiro, os homens ímpios ficam a espreita esperando algum erro: “Ajuntam-se,
escondem-se, espiam os meus passos, como aguardando a minha morte” (v. 6);
ora, os homens ímpios, em suas impiedades, buscam algum erro do justo para o
acusar; no entanto, as acusações dos ímpios expressam o que os próprios ímpios
são; os ímpios acusam do que praticam. “Os seus pés correm para o mal e se
apressam para derramarem o sangue inocente; os seus pensamentos são pensamentos
de iniquidade; destruição e quebrantamento há nas suas estradas” (Is 59.7).
Parte II.
7.
Depois de narrar sua aflição, o salmista também descreve seu proceder diante de
suas tribulações; e ao fazer isso, ensina a como nós devemos proceder ao
experienciarmos as tormentas das tribulações que se nos acometem. Pois, aquele
que participa das aflições também participa da consolação. “E a nossa
esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das
aflições, assim o sereis também da consolação” (2Co 1.7). Por isso, o
salmista descreve sua aflição, narra sua aflição, de modo a ensinar a todo o
povo de Deus como se portar em meio as provações a fim de usufruírem das
consolações. “Quem me dera, agora, que as minhas palavras se escrevessem!
Quem me dera que se gravassem num livro! E que, com pena de ferro e com chumbo,
para sempre fossem esculpidas na rocha!” (Jó 19.23-24).
8. E
o salmista descreve seu proceder de três maneiras: primeiro, descrevendo que
Deus contou suas vagueações: “Tu contaste as minhas vagueações”
(v. 8a); ora, Deus conta os passos de Seus servos, isto é, Deus conhece os
caminhos de Seus servos. “Os passos de um homem bom são confirmados pelo
Senhor, e ele deleita-se no seu caminho” (Sl 37.23). Pois, aquele que
conhece a Deus o próprio Deus caminha junto: “o anjo do Senhor acampa-se ao
redor dos que o temem, e os livra” (Sl 34.6).
9. Segundo, ensinando que Deus recolheu suas lágrimas
num odre: “põe as minhas lágrimas no teu odre” (v. 8b); ora, este odre
está junto de Deus, no qual Ele recolhe todas as lágrimas dos santos, para no
futuro derramar Sua ira como juízo pelo sofrimento que os homens ímpios
infligiram em Seus servos: “E veio outro anjo e pôs-se junto ao altar, tendo
um incensário de ouro; e foi-lhe dado muito incenso, para o pôr com as orações
de todos os santos sobre o altar de ouro que está diante do trono. E a fumaça
do incenso subiu com as orações dos santos desde a mão do anjo até diante de
Deus. E o anjo tomou o incensário, e o encheu do fogo do altar, e o lançou
sobre a terra; e houve depois vozes, e trovões, e relâmpagos, e terremotos”
(Ap 8.3-5).
10. Terceiro, anuncia o consolo de saber que todas as
suas lágrimas estão escritas num dos livros de Deus: “não estão elas no teu
livro?” (v. 8c); ora, a Sagrada Escritura ensina que Deus tem muitos livros
(cf. Ap 20.12a); e um destes livros é o livro no qual Deus recolhe as lágrimas
de Seus servos; em comparação é como se Deus escrevesse em um livro cada
lágrima que os santos derramam neste mundo; e isto significa duas coisas:
primeiro, Deus vê o sofrimento de Seus servos; segundo, Deus julga com justiça
aqueles que infligem sofrimentos em Seus servos.
11.
Ora, é parte da fé a certeza de que Deus recolhe em Seu odre as lágrimas de Seus
servos, ou seja, Deus contempla tudo aquilo que Seus servos sofrem neste mundo;
pois, a vida daquele que crê está totalmente guardada em Deus e por Deus. A
Ele, pois, glória eternamente, pois cuida dos Seus servos com cuidado
incomparável. Amém.
Em setembro de 2013.