24/09/2013

Sermão No Teu Odre

Tu contaste as minhas vagueações; põe as minhas lágrimas no teu odre; não estão elas no teu livro?” (Sl 56.8).

 

Prólogo.

 

1. São João afirma: “E Deus limpará de seus olhos toda lágrima” (Ap 21.4); ora, estas palavras competem ao que o salmista afirmara neste salmo; o Deus de toda consolação (cf. 2Co 1.3), recolhe e enxuga os olhos dos fiéis toda lágrima que lhes sobrevém devido as provações desta vida; a grandeza da consolação com Deus consola os fiéis é comparada ao enxugar da lágrima de uma pessoa, algo que expressa proximidade e compaixão; de fato, é isto o que Deus faz ao consolar os fiéis em suas tribulações, a fim de que os fiéis possam consolar outros em suas tribulações (cf. 2Co 1.4). Entendamos, pois, o que diz o salmista.

 

Parte I.

 

2. Os ensinamentos do salmista são assaz importantes e preciosos, principalmente porque ensinam sobre o sofrimento; e é necessário se entender sobre o sofrimento, pois “a vida é luta renhida” (Gonçalves Dias). “Porventura, não tem o homem guerra sobre a terra? E não são os seus dias como os dias do jornaleiro?” (Jó 7.1). Portanto, os ensinamentos do salmista são muito úteis à vida nossa cotidiana. E, quanto a isso, o salmista faz duas coisas: primeiro, o salmista narra suas aflições (v. 5-6); segundo, o salmista descreve seu proceder diante das tribulações (v. 7-8).

3. O salmista narra suas aflições de modo a não somente confessar-se diante de Deus, mas também para confessar-se diante dos homens; o lamento do salmista é um modo dele irromper em confiança a Deus; pois, ao lamentar-se com sinceridade diante de Deus, o próprio Deus viria a seu encontro para lhe confortar e lhe ajudar, tal como diz a Escritura: “Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor. Tirou-me de um lago horrível, de um charco de lodo; pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos” (Sl 40.1-2).

4. Ora, o salmista narra suas aflições de três modos: primeiro, seus inimigos distorcem suas palavras: “Todos os dias torcem as minhas palavras” (v. 5a); ora, os ímpios são mestres em torcer as palavras verdadeiras e sinceras; pois, aqueles que distorcem as palavras alheias o fazem na intenção de dominar este alguém; portanto, os ímpios tentam dominar sobre outras pessoas. “Eles somente consultam como o hão de derribar da sua excelência; deleitam-se em mentiras; com a boca bendizem, mas, no seu interior, maldizem” (Sl 62.4).

5. Segundo, o pensamento dos homens ímpios são sempre para o mal: “todos os seus pensamentos são contra mim para o mal” (v. 5b); ora, os homens ímpios pensam e imaginam maldades, isto é, concebem maldades e praticam maldades, já que os seus corações sempre tendem para o mal. O salmista defronta-se com homens ímpios, que vivem em maldades e que promovem maldades. “A tua habitação está no meio do engano; pelo engano recusam a conhecer-me, diz o Senhor” (Jr 9.6).

6. Terceiro, os homens ímpios ficam a espreita esperando algum erro: “Ajuntam-se, escondem-se, espiam os meus passos, como aguardando a minha morte” (v. 6); ora, os homens ímpios, em suas impiedades, buscam algum erro do justo para o acusar; no entanto, as acusações dos ímpios expressam o que os próprios ímpios são; os ímpios acusam do que praticam. “Os seus pés correm para o mal e se apressam para derramarem o sangue inocente; os seus pensamentos são pensamentos de iniquidade; destruição e quebrantamento há nas suas estradas” (Is 59.7).

 

Parte II.

 

7. Depois de narrar sua aflição, o salmista também descreve seu proceder diante de suas tribulações; e ao fazer isso, ensina a como nós devemos proceder ao experienciarmos as tormentas das tribulações que se nos acometem. Pois, aquele que participa das aflições também participa da consolação. “E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação” (2Co 1.7). Por isso, o salmista descreve sua aflição, narra sua aflição, de modo a ensinar a todo o povo de Deus como se portar em meio as provações a fim de usufruírem das consolações. “Quem me dera, agora, que as minhas palavras se escrevessem! Quem me dera que se gravassem num livro! E que, com pena de ferro e com chumbo, para sempre fossem esculpidas na rocha!” (Jó 19.23-24).

8. E o salmista descreve seu proceder de três maneiras: primeiro, descrevendo que Deus contou suas vagueações: “Tu contaste as minhas vagueações” (v. 8a); ora, Deus conta os passos de Seus servos, isto é, Deus conhece os caminhos de Seus servos. “Os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor, e ele deleita-se no seu caminho” (Sl 37.23). Pois, aquele que conhece a Deus o próprio Deus caminha junto: “o anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra” (Sl 34.6).

9. Segundo, ensinando que Deus recolheu suas lágrimas num odre: “põe as minhas lágrimas no teu odre” (v. 8b); ora, este odre está junto de Deus, no qual Ele recolhe todas as lágrimas dos santos, para no futuro derramar Sua ira como juízo pelo sofrimento que os homens ímpios infligiram em Seus servos: “E veio outro anjo e pôs-se junto ao altar, tendo um incensário de ouro; e foi-lhe dado muito incenso, para o pôr com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que está diante do trono. E a fumaça do incenso subiu com as orações dos santos desde a mão do anjo até diante de Deus. E o anjo tomou o incensário, e o encheu do fogo do altar, e o lançou sobre a terra; e houve depois vozes, e trovões, e relâmpagos, e terremotos” (Ap 8.3-5).

10. Terceiro, anuncia o consolo de saber que todas as suas lágrimas estão escritas num dos livros de Deus: “não estão elas no teu livro?” (v. 8c); ora, a Sagrada Escritura ensina que Deus tem muitos livros (cf. Ap 20.12a); e um destes livros é o livro no qual Deus recolhe as lágrimas de Seus servos; em comparação é como se Deus escrevesse em um livro cada lágrima que os santos derramam neste mundo; e isto significa duas coisas: primeiro, Deus vê o sofrimento de Seus servos; segundo, Deus julga com justiça aqueles que infligem sofrimentos em Seus servos.

11. Ora, é parte da fé a certeza de que Deus recolhe em Seu odre as lágrimas de Seus servos, ou seja, Deus contempla tudo aquilo que Seus servos sofrem neste mundo; pois, a vida daquele que crê está totalmente guardada em Deus e por Deus. A Ele, pois, glória eternamente, pois cuida dos Seus servos com cuidado incomparável. Amém. 

Em setembro de 2013. 


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