I
A
construção da sociedade humana desde os seus primórdios se dá na estreita
relação com o fenômeno religioso, fazendo com que cada cultura se evidencie e
se torne geradora de sentido. Isto faz com que a estrutura da sociedade de
forma geral sempre tenha o contato com o religioso, com o sagrado. Esta é
basicamente a forma primeira de toda a estruturação de toda a ordem social.
Diante disto, evidencia-se a importância da compreensão entre qualquer campo do
saber com o fenômeno religioso. E dentro deste diálogo, a forma mais congruente
aplicada ao longo de dois mil anos, é a relação entre religião e filosofia,
particularmente, entre a teologia cristã e a filosofia grega.
Esta
relação é de extrema importância no universitas
litterarum (totalidade das ciências); como o próprio nome indica é um
universo no qual todas as ciências se reúnem para discutir e entre si partilhar
suas indeléveis descobertas. Por isso, Karl Barth pensou a teologia no contexto
da universitas como ciência sui generis[1]. Neste contexto da alta
cultura, a experiência e o fruto deste diálogo entre a mãe de todas as ciências
(filosofia) e a que investiga o logos
de Deus, estabeleceu os padrões verificativos para todas as ciências, o que se tornara
algo enriquecedor no âmbito cultural.
Bento
XVI, ao pensar sobre esta realidade de trabalho conjunto, informa, como antigo
professor universitário, da profunda realidade e da grande experiência deste
encontro; ele diz que “a experiência de que, não obstante as múltiplas
especializações que por vezes nos tornam incapazes de comunicar entre nós,
formamos um todo e trabalhamos no todo da única razão com as suas várias
dimensões, encontrando-nos assim unidos também na responsabilidade comum pelo
reto uso da razão – esta realidade tornava-se uma experiência viva”[2].
Hegel, diz que esta conjuntura
entre filosofia e teologia “pode no nosso tempo ter perdido a sua
importância e, aparentemente, encontra-se mesmo quase desvanecida”, por
isso, e para que haja uma compreensão adequada de diálogo, precisa-se entender
que este “confronto é de natureza tal que o espírito humano se não pode
arredar de nenhuma das suas duas vertentes”[3].
Aliás, o próprio Hegel em sua “Introdução a História da Filosofia” declarou:
“Na realidade, porém, tudo o que somos, somo-lo por obra da história; ou,
para falar, com maior exatidão, do mesmo modo que na história do pensamento o
passado é apenas uma parte, assim no presente, o que possuímos de modo
permanente está inseparavelmente ligado com o fato de nossa existência
histórica”[4].
Esta relação é de uma ordem natural
ao ser humano. Por isso, urge a necessidade de se entender os pontos comuns e
os desafios desta relação, bem como entender que isso ocorreu na história da
teologia cristã. Mas, como uma chave interpretativa primeira, é necessário
entender, qual área especifica do saber filosófico que trata deste assunto, e
se ocupa com o fenômeno religioso de forma intrínseca, a saber: a filosofia da
religião.
II
Mas o que é filosofia da religião? Filosofia
da religião é o campo do saber que se confronta diretamente com a essência do
fenômeno religioso. É onde a consciência religiosa e suas particularidades são analisadas
racionalmente. Urbano Zilles diz: “A filosofia da religião tenta esclarecer
a possibilidade e a essência formal da religião na existência humana”, e
desta forma, “é uma reflexão realizada com a única ajuda da razão, sendo seu
objeto a religião e as condições em que esta é possível”[5].
É interessante que, ao tratar de
filosofia da religião, particularmente no campo da teologia, e assim a
filosofia, é necessário entender que existem diferenças e inquirir o ponto de
encontro e saber como trabalhá-lo. Esta também é uma tarefa decisiva da
filosofia da religião. Paul Tillich assevera: “Porque há um ponto na
doutrina da revelação e na filosofia em que ambas são a mesma coisa. Encontrar
este ponto, e a partir dele encontrar uma solução sintética, é a tarefa
decisiva da filosofia da religião”[6].
Esta tarefa da filosofia da
religião é demonstrada de forma explícita na relação entre filosofia e teologia
na história do pensamento ocidental. Desde a antiguidade, onde os mitos eram a
forma de explicar a realidade do mundo, até a idade média, onde a teologia era
a ciência magna, a relação entre filosofia e teologia era bem correlata.
Esta ideia, de relação e
entendimento mútuo, pode parecer utópica e até mesmo incoerente aos ouvidos
encharcados com a cera da modernidade, mas não era assim nos primeiros séculos.
Joseph Ratzinger afirmara: “A relação entre fé e filosofia parece, à
primeira vista, uma questão bastante abstrata. Mas não era uma questão abstrata
para os cristãos dos primeiros tempos da Igreja”[7].
Por isso, para se resgatar a
verdadeira relação entre filosofia e teologia, é preciso entender como isto
ocorreu na história do pensamento ocidental e depois na história da teologia
cristã; para resgatar um diálogo que está desvanecido, é necessário voltar ao
passado para avançar para o futuro. Juan Estrada afirma: “A leitura
atualizada do passado é a que nos permite uma reflexão sistemática para abordar
a situação em que vivemos e para inspirar-nos na tradição sem permitir que
sejamos bloqueados e paralisados por ele como se fosse algo fechado e acabado”[8].
Este designativo entre fé e razão é
bastante profícu, pois compreende um vasto período na formação do pensamento
ocidental. Por isso, voltar-se-á ao passado da teologia, com vista a
compreender o que os Padres da Igreja pensavam e indagavam sobre esta relação.
Os Pais da Igreja pensavam nisto, escreviam sobre isto e boa parte de sua
reflexão teológica levou a isso. Uma compreensão bastante singular é a que se
detém na ideia de que a filosofia grega, assim, como o judaísmo, serviu de
preparação ao cristianismo. São Clemente de Alexandria diz: “Antes da vinda
do Senhor, a filosofia era indispensável aos gregos para conduzi-los à justiça;
agora se torna útil para conduzi-los à veneração de Deus. Ela serve de formação
preparatória aos espíritos que querem chegar à fé pela demonstração. ‘Teu pé não
tropeçará’, como diz a Escritura, se atribuis à Providencia tudo o que é bom,
tanto grego quanto cristão. Deus é a causa de todas as coisas boas, uma
imediatamente e por si mesma, como o Antigo e o Novo Testamento; outras por
corolário, como a filosofia. Mesmo a filosofia talvez também tenha sido dada
como um bem direto aos gregos, antes que o Senhor tivesse ampliado até eles o
seu chamado, pois ela realizava a educação deles, exatamente como a Lei dos
Judeus, para ir até Cristo. A filosofia é um trabalho preparatório; ela abre o
caminho àquele que Cristo depois torna perfeito...”[9].
Outro importante Pai da Igreja a
valorizar o conhecimento em relação com a fé foi Santo Agostinho. Ele formula a
realidade do fundamentar a fé racionalmente. Ele expõe isto de forma pungente
quando trata de um texto bíblico que diz: “se o não crerdes, certamente, não
permanecereis” (Is 7.9b). Os termos são, crer (credideritis), e permanecer (intelligetis),
no sentido de compreender, entender. Ou seja, se não há o crer não há
entendimento, se não há entendimento não há permanência. Santo Agostinho,
expondo este texto, diz: “Intellige ut
credas... crede ut intelligas”[10] (Creio para entender...
entendo porque creio).
A razão em Agostinho não é
ignorada, apenas tem seu lugar adequado. Ele crê para entender. Ele crê na
Palavra (Logos), para então depois
disso começar a entender. Em Agostinho a revelação antecede a filosofia, mas consequentemente,
o saber racional, acompanha a formulação sistemática do crer. Daí a máxima “crer
e compreender”, dos grandes teólogos posteriores, num binômio inseparável,
“contudo nessa sequência irreversível, o crer antecedendo o compreender”[11].
Esta é basicamente a posição da
teologia com respeito ao relacionamento com a filosofia. O elemento racional
está presente desde o início, mas não é ele quem governa as ações, mas sim o
coração, o centro do eu. A partir desde centro o homem tem condição de
raciocinar, e então, analisar, e, como consequência, passar a contemplação[12]. A filosofia torna-se
teológica, que por sua vez, torna-se teologia contemplativa. Nesta fase, que
atinge a plenitude no período escolástico, tem-se a formulação da alta cultura.
Por isso, “o desenvolvimento da teologia nos períodos especulativos, em que
o homem emprega a inteligência e o saber epistêmico na analise de crenças
religiosas, que tem uma raiz emergente muito mais poderosa do que julgam
muitos, e que traz a marca da alta cultura...”[13].
Todavia, ao se tratar desta
realidade, é clarividente que surge um abismo na mesma relação na modernidade. Na
modernidade, a ciência se torna a expressão de todas as coisas, e a reflexão
filosófica é deixada como algo anacrônico, e a teologia, como reacionária. E
assim, toda a estrutura de alta cultura, da mais sublime plenitude do saber
filosófico e teológico, se esvai como algo inútil, derrocado, anacrônico. Por
isso, urge, nas palavras de Hegel, resgatar estes polos do conhecimento, que
sempre devem continuar dialogando entre si e confrontando-se, pois, “todo conhecimento está arraigado na fé e
toda fé inclui um importante elemento de conhecimento” [14].
A modernidade se fechou em apenas
um campo do saber, e por isso está inevitavelmente fadada ao dogmatismo
irrefletido. A modernidade se diz neutra em matéria de reflexão racional e/ou
religiosa, mas isso não passa de mito. Pois nenhum campo do saber pode rejeitar
aquelas práticas e pensamentos que foram suas fundantes, sem cair em completa
falta de senso crítico. A ciência só tem suas práticas de verificação, pois a
teologia, no período monástico, teve pessoas que se dedicaram a estudar a
partir de uma qualidade de texto, as escrituras reveladas, e partir deste texto
construir, juntamente com a filosofia, a estrutura sistemática e colossal de
interpretação e análise de textos.
Assim, será que nesta suposta
neutralidade cientifica não está a raiz dos problemas conceituais, e consequentemente,
práticos, da sociedade atual? E desta forma, “será que muitos dos dilemas
que enfrentamos na vida, na ciência, na Teologia e, até mesmo, na Filosofia,
não são por falta, paradoxalmente, de uma reflexão filosófica transdiciplinar”[15]. É evidente que sim.
Muitos dos questionamentos atuais se dão por falta deste diálogo.
Por isso, a cultura dialogal entre
estes campos do saber é uma chave hermenêutica para abrir as portas para o
avanço humano, social, cultural, espiritual e científico. Mas, de um diálogo em
ordem a verdade. Pois, só há diálogo onde há participação na verdade.
III
A filosofia da religião é
fundamental no resgate desta relação entre fé e razão, pois trata da religião
em suas estruturas racionais. E em se tratando do cristianismo, ainda mais,
pois o cristianismo é uma religião fundada na expressão da razão, o Logos. Assim sendo, é necessário
resgatar o legado do passado relacional entre estas duas linhas de frente do
saber humano, e saber pontuá-las de maneira adequada, sem radicalismos
fideístas e nem racionalistas, pois uma fé que não raciocina e uma razão que se
acha autônoma, não são boas contribuições para o crescimento humano. Toda a
cultura ocidental, bem como boa parte das ciências, é fruto deste diálogo
maduro, saudável e em muitos casos, amigável.
A teologia precisa se abrir aos
saberes da filosofia, pois, para os Padres da Igreja, esta é trazida a luz pela
fé, e é usada para melhor explicar elementos da fé. A filosofia precisa ser
humilde e saber que existe uma Razão além da razão humana, que está presente na
própria razão humana, mas que a transcende.
E a teologia com serenidade e
alegria, sui generis, se tornando
mais sabia ao raciocinar, e a filosofia mais digna e respeitável ao entender
que precisa alargar o uso da razão. Pensar é uma dignidade do crer, e crer é
ter a dignidade de pensar. Crer e Pensar é ter a humildade de saber que tanto o
crer como o pensar estão debaixo do mesmo Logos:
para os fiéis, o do evangelho de João (Cf. Jo 1.1-2), Jesus Cristo; para os
pensadores, o Logos da sabedoria grega[16].
Em suma, este deve ser o caminho da
filosofia da religião.
Laudate Deo!
[1] Karl Barth, Introdução a Teologia Evangélica [11° edição. São Leopoldo, RS:
Sinodal/EST, 2016], pág. 17.
[2] Bento XVI, Fé, Razão e Universidade: Recordações e Reflexões, 2 de setembro de
2006.
[3] G. W. F. Hegel, Prefácio a “Filosofia da Religião” de
Hinrichs (1822): Sobre Fé e Razão [Edição Eletrônica. Covilhã, Portugal:
Universidade da Beira Interior, 2011], pág. 3.
[4] In: Os Pensadores Volume 30: Hegel [1° edição. São Paulo: Abril
Cultural, 1974], pág. 327.
[5] Urbano Zilles, Filosofia da Religião [1° edição. São
Paulo: Paulus, 1991], pág. 5.
[6] Paul Tillich, Filosofia de La Religion [1° edição. Buenos Aires, Argentina:
Ediciones Megalopolis, 1973], pág. 12.
[7] Joseph Ratzinger, Natureza e Missão da Teologia [2°
edição. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012], pág. 13.
[8] Juan Antonio Estrada, Deus nas Tradições Filosóficas Volume 1:
Aporias e Problemas da Teologia Natural [1° edição. São Paulo: Paulus, 2003],
pág. 17.
[9] In: Jacques Liébaert, Os Padres da Igreja [3° edição. São
Paulo: Loyola, 2013], pág. 88.
[10] Santo Agostinho, Sermão 43,
n. 7.
[11] Rudolf Bultmann, Crer e Compreender: Ensaios Selecionados
[São Leopoldo, RS: Sinodal, 2001], pág. 6.
[12] “Da fé passa-se à razão, mas
desta passa-se à contemplação” (Mário Ferreira dos Santos, Convite a Filosofia e a História da
Filosofia [5° edição. São Paulo: Logos, 1957], pág. 166).
[13] Mário Ferreira dos Santos, O Homem perante o Infinito [3° edição.
São Paulo: Logos, 1960], pág. 36.
[14] Herman Bavinck, Dogmática Reformada Volume 1: Prolegomena
[1° edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2012], pág. 26.
[15] Jairo da Mota Bastos, Filosofia da Religião [Batatais, SP:
Claretiano, 2013], pág. 35.
[16] cf. Heráclito, Fragmento 50.
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