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13/05/2019

A razão do ateísmo: será que tem mesmo Razão?

I

 

A compreensão do fenômeno religioso desde os tempos do iluminismo tem ganhado diferentes conotações por parte de filósofos e teólogos. O iluminismo proporcionou alguns avanços na elucidação do pensamento humano e na interpretação do fenômeno religioso, aplanando o caminho para uma compreensão equilibrada e racional sobre o mesmo, mas “ao mesmo tempo abriu as portas para um adversário perigoso para a fé: o ateísmo moderno”[1].

O ateísmo moderno tem-se se apresentado como uma alternativa mais plausível do que a fé, ou seja, tem-se mostrado e definido como uma cosmovisão de valor fundamental para quem o segue. Mas será que realmente o é? Será que a crítica dos que assim pensam, não é apenas o mesmo dogmatismo por eles criticado? Assim, todo homem tem sua cosmovisão, e assim, todo homem se torna um “dogmático” a partir disto, até mesmo um ateu.

A realidade da compreensão racional da religiosidade é uma realidade que não pode ser negada. Mas, mesmo assim, os ativistas do ateísmo têm se mostrado avessos a religião, principalmente ao cristianismo, afirmando que a construção da vida para o progresso tem de ser sem Deus e sem o cristianismo; ledo engano dos ateus; sem Deus, e sem o cristianismo, não há construção e nem edificação da vida.

Mas será que esta assertiva do ateísmo tem fundamento, ou é apenas uma assertiva religiosa contra o cristianismo? O certo é que apesar de toda confissão negativa com relação a religião, o ateísmo tem-se forjado como uma crença tão religiosa quanto o cristianismo, só que confessando que não possuem fé ou crença.

Desta forma, a suposta não religiosidade do ateísmo tem sido a estrutura da cosmovisão ateísta na sociedade pós-moderna. O ateísmo tem se tentado se mostrar neutro, com sua suposta cientificidade, para então desorganizar e desestruturar a razão religiosa. Neste pretexto, surge o ateísmo que “valoriza” o religioso (uma espécie de agnosticismo), mas que não aceita nenhum fundamento primeiro e último da existência.

E com esta “neutralidade” o ateísmo tem se mostrado como uma razão superior ou mais evoluída para a vida humana. Na verdade, o ateísmo e seus pressupostos tem se mostrado como última medida para o homem. Assim, urge a necessidade de interpretar os fundamentos deste pensamento não religioso, para compreender o porquê desta suposta “razão superior” do ateísmo moderno.

 

II

 

O ateísmo contemporâneo foi concebido pela radicalização da ênfase do iluminismo na autoridade da razão; depois foi gestado por grandes filósofos do pensamento moderno, trazendo a lume a cosmovisão ateia para a configuração da sociedade pós-moderna. Urbano Zilles diz que: “O ateísmo moderno nasce com a radicalização do iluminismo francês e, depois, com Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud. Tal ateísmo penetrou em todas as camadas sociais, e sob o pretexto de cientificidade, ameaça a fé em Deus e o cristianismo”[2].

Por isso, para compreender o ateísmo moderno, precisa-se chegar à resposta da questão: será que a razão anunciada pelo ateísmo moderno realmente tem Razão? Será que a razão do ateísmo moderno, que intitulamos que tem cognitio, realmente tem Razão, que intitulamos Logos. Será que o ateísmo tem logos, ou será que tem apenas um modo de cognitio?

Esta questão é de suma importância, já que para que qualquer movimento arrole para si pressupostos fundantes da ordem social, é necessário que tenham seus pressupostos fundamentais no Logos, isto é, em um pressuposto primeiro e último que dá sentido à realidade, e não em cognitio, que é fruto apenas do labor e do cogitar humano, e que não é a realidade mesma. A cognitio é importante desde que esteja submissa ao Logos, pois a cognitio só é diante da luz do Logos. Desta forma, analisar-se-á duas figuras das quatro propostas por Zilles para aclarar o ateísmo contemporâneo.

 

III

 

Primeiro, Ludwig Feuerbach; Feuerbach foi uma das figuras mais proeminentes na estrutura formulada em função da crítica religiosa, particularmente, da crítica ao cristianismo. Ele foi um grande crítico do fundamento religioso. Com ele a virada antropológica do cientificismo de Descartes ganha conotação e importância, para se substituir Deus pelo homem. No momento “em que a cultura deslocou seu centro de gravidade de Deus para o homem, e deu-se início a um processo de secularização, era inevitável que, antes ou depois, o homem reivindicasse para si mesmo todos os títulos que cabiam a Deus (ciência, poder, criação, providência, etc.) e que, consequentemente, tirasse do caminho esse insuportável rival chamado Deus”[3].

Com esta realidade, Feuerbach atestou que: “a tarefa dos tempos modernos foi... a transformação e a resolução da teologia em antropologia”[4]. Desta forma, tem-se o primeiro grande mestre do ateísmo moderno formulando a base antropológica de sua “crença”. Ele com sua postura de tirar Deus de cena para colocar o homem, estabelece um fundamento para todos os grandes mestres ateus posteriores.

 

IV

 

Segundo, Friedrich Nietzsche; Nietzsche fora um dos grandes mestres do ateísmo. Nietzsche elaborara uma estrutura de argumento nas linhas de Feuerbach, mas que difere dele nos desdobramentos deste ateísmo na vida cotidiana. A grande virada antropológica é definida em Nietzsche com a “morte de Deus”. Ele diz: “o acontecimento de maior grandeza nos últimos tempos - o fato de que ‘Deus está morto’, ou seja, o fato de que a fé no Deus cristão despojou-se de sua plausibilidade - já lança suas primeiras sombras na Europa”[5].

Com esta expressão, ele se tornou o símbolo de tudo o que se diz ateu ou zomba de Deus, embora o pensamento de Nietzsche não deva ser analisado com simplismos.

E a teologia procurou dar respostas a esta questão. A teologia desenvolveu respostas emocionais a Nietzsche, chamando-o de diabólico, e coisas similares, mas também tentou fazer uma síntese a partir do entendimento errôneo de suas ideias, na chamada “teologia da morte de Deus”.

Alguns teólogos proeminentes do século XIX e do século XX desenvolveram uma concepção de um Deus não institucionalizado pelo cristianismo, sem as amarras da tradição, dos templos, transformando o cristianismo em uma superstição inventada pelos homens, que não tem nada a ver com o evangelho de Jesus Cristo.

Esta ideia em suposta síntese com Nietzsche começou com o desenvolvimento do interesse pelo legado teológico de Dietrich Bonhöeffer, pastor luterano assassinado pelo regime nazista. As ideias expostas por Bonhöeffer de certa forma foram levadas muito além de sua interpretação no seu contexto de desenvolvimento, o transformando num teólogo sistemático no nível de Karl Barth, o que ele não era, e assim, sua concepção simples, de tentativas e experiências, passam a serem assertivas e ganham conotações de interpretação mundial. Bonhöeffer tem sim grandeza para ser estudado e lembrado sempre, mas não com conotações sistemáticas absolutas.

A partir de suas declarações em “Resistência e Submissão”, obra que contém seus escritos da prisão (1943-1945), onde ele desenvolve suas reflexões depois da prisão pelo regime nazista, é que surge a problemática. Nas interpretações descuidadas desta obra, surge o legado para a significação da “teologia da morte de Deus”. Desta forma, pensadores desvairados como William Hamilton e Thomas J. Altizer propuseram uma interpretação radical da visão de mundo amadurecido, e em resposta radical ao pedido de Bonhöeffer para uma interpretação de Deus no secular, cunham a “teologia da morte de Deus”.

Esta proposta da teologia protestante aos questionamentos de Nietzsche não trouxe certezas racionais para o legado teológico cristão, apesar de toda a controvérsia envolvendo o assunto e toda interpretação descuidada dos teólogos contemporâneos; mas mesmo assim, as assertivas de Nietzsche precisam ser salientadas, pois ele ajuda a desconstruir a pseudomoralidade dominadora, e a entender a contradição da vida hodierna.

Por isso, toda resposta ao ateísmo tem de se fundar na razão do ateísmo (que é apenas uma espécie mal-feita de cognitio), para então demonstrar que a construção do mundo baseada nesta cosmovisão é contrária a realidade da Razão Universal (Logos).

 

V

 

Estes são dois dos mestres da crítica religiosa dos tempos atuais, mas será que a sua direção “racional” é mesmo racional? As suas “razões” transformaram o ateísmo num fato social, que impregna a sociedade em todas as suas áreas. “O ateísmo é, para a nossa sociedade e sua cultura, aquilo que a religião foi para a sociedade e as culturas que a precederam”[6]. Assim, os mestres desta nova cultura são passíveis de crítica ou não? Desta forma, formula-se uma crítica a crítica dos mestres do ateísmo: será que a razão (cognitio) formulada por estes mestres é a verdadeira Razão (Logos)?

 A configuração que eles dão a realidade é retomada de uma centralidade no ceticismo, algo de suma periculosidade à formação cultural de uma sociedade. Com a falácia dos argumentos céticos, os ateus estão estruturando uma parcialidade argumentativa que transforma em uma contradição formal e dialética ao ser observado em sua raiz primeira.

E observe-se que a lógica argumentativa do ateísmo é que eles não têm uma base afirmativa própria, pois não se utiliza de nenhuma regra de fé para poder se estabelecer. Sendo assim, torna-se irrefutável, não pela irrefutabilidade dos argumentos, mas pelo ceticismo pelos quais se estabelecem.

Pois só se pode refutar algo que tenha princípios próprios. E já que, na concepção dos mestres do ateísmo, o mesmo não tem bases afirmativas, não pode ser refutado, tornando-se assim o ideal adequado dos homens irracionais para a ‘liberdade” do homem irracional, fora da tutela da tradição e autoridade, e, em especial do Deus cristão.

Desta forma, a razão do ateísmo, ou seja, a sua cognitio (que aparenta ser um Logos) torna-se o novo ditame cultural. Assim, o ateísmo tem tentado se mostrar como uma atitude de “não-fé”, mas esquece-se que a fé não é definida apenas pelos que creem afirmativamente em algum deus, há fé também entre os que não creem em algum deus.

Pois, se há uma “imparcialidade afirmativa” ou uma “neutralidade” por parte dos ateus, há certamente uma afirmação morfológica de caráter religioso nisto, apesar de toda a negatividade e incredulidade. Mário Ferreira dos Santos afirma: “Ademais, pretendeu o ceticismo evitar o dogmatismo e terminou por cair noutro dogmatismo, mas estreito e mais chocante que o dogmatismo clássico... Na verdade isso prova que toda tentativa do espírito humano de querer fugir ao afirmativo é ainda uma afirmação, inevitável, imprescindível, fatal”[7].

Por isso, a incredulidade como um ditame da cultura moderna, também é uma atitude de fé; não existe proposta para a cultura que não seja uma atitude “crente”. Paul Tillich afirmara: “A incredulidade, portanto, é sinal de típica atitude autônoma da cultura; mas o é somente quanto a sua intenção. Na realidade, todo ato cultural criativo é também um ato crente”[8].

Não existe criação cultural que não seja proveniente de alguma fé, ainda que seja uma fé negativa, uma “fé” ateia, mas certamente, uma direção crente nas possibilidades da não crença, em instituir toda uma visão de mundo sob a égide do ceticismo.

Por isso, se estabelece importância de verificar se poder-se-á construir uma sociedade edificada sob os auspícios do cristianismo ou sob os do ateísmo? Se as duas atitudes demonstram fé, qual é a mais racional? Se os mestres do ateísmo moderno são passíveis de crítica assim como o que eles criticam, será que a construção de um mundo com Deus não é viável e mais plausível?

A estrutura de plausibilidade que o ateísmo fornece, em sua essência, é a mesma que Sócrates lutou contra (os sofistas) no seu projeto de edificar uma moralidade com fundamento em um Ser Superior. Ele lutou pela certeza de que existia um Deus bom e sábio que fornece a base para uma posição ética e para uma visão de mundo com fundamento afirmativo. Com isso, há uma ordem moral estabelecida com fundamento em algum Ser Superior.

Por isso, São Justino Mártir apresenta uma admirável compreensão entre a realidade de busca socrática, e por esta distinção na filosofia clássica como um todo, e da doutrina estabelecida pelo cristianismo. Ele argumenta sobre a presença do Logos tanto nos escritos filosóficos quanto em sua plenitude na Revelação. Ele diz que: “Não é que os ensinam Platão sejam estranhos a Cristo, mas não são semelhantes em tudo, bem como dos outros, estoicos, poeta e escritores. Cada um deles, na verdade, via parcialmente aquilo que do Logos divino disseminado (no mundo) se assemelhava a si, falou, sim; porém, contradizendo-se sobre as coisas essenciais, mostram que não possuem uma ciência superior, nem um saber irrefutável... pois uma coisa é a semente e a imitação (da verdade), dada segundo a capacidade (humana), e outra, o próprio objeto do qual há participação e imitação (a saber: a verdade que é Cristo) por graça (divina)”[9].

 

VI

 

Por isso, será que o racionalismo é suficiente para construir um modo de vida adequado? É claro que não, pois reduz todo o aspecto da vida a compreensão científica e/ou naturalista. Por isso, a suposta razão do ateísmo não é a Razão Universal que estabelece os padrões da cultura, da vida humana e da religião. Esta Razão Universal, o Logos, foi, é, e sempre será uma pessoa: Jesus Cristo! Por isso, nenhuma síntese entre as críticas ateístas com a teologia são o caminho para a construção da racionalidade, pois, apesar de todas as críticas, nenhuma delas é capaz de construir uma razão duradoura e estável.

Assim, diante de um ateísmo como configuração de vida que não se encanta, que não para extasiado diante do sublime, do belo, há apenas uma possibilidade de reposta, a própria pessoa de Cristo: O Deus Encarnado, que é a Razão Universal.

Quanto a isso, o próprio Nietzsche, que desenvolveu toda uma aguda crítica ao cristianismo (em muitos aspectos, uma crítica corretíssima), chega a conclusão de que, excluindo Deus, o homem se tornaria o centro, mas acabaria se esquecendo da dignidade própria. Por isso, ele descreve: “Nós, que somos homens do conhecimento, não conhecemos a nós próprios; somos de nós mesmos desconhecidos - e não sem ter motivo (a morte de Deus). Nunca nós nos procuramos: como poderia, então que nos encontrássemos algum dia? Com razão alguém disse: ‘onde estiver o teu tesouro, ai estará também o teu coração’”[10] (o exemplo de Cristo) (em parênteses: acréscimo meu).

Quando o coração do homem está nele mesmo, ele não se compreende e não se encontra, pois foi criado para o encanto, e o niilismo mostra como o homem está desencantado com a vida e, portanto, não pode se encontrar. E o homem só se encontra a medida que encontra a Deus, tal como Santo Agostinho dissera: “Quando te procuro é meu Deus, procuro a felicidade da vida. Procurar-te-ei, para que minha alma viva. O meu corpo, com efeito, vive da minha alma, e a alma vive de ti”[11].

Conquanto as razões últimas da estrutura de plausibilidade do ateísmo caiam na contradição formal e dialética, muitas de suas críticas racionais são reais e verídicas; mas a solução não é esquecer e rejeitar a fé como algo anacrônico que atrapalha o progresso, mas sim elevá-la a sua real posição, para então compreender o porquê das críticas e estabelecer um caminho racional para um entendimento produtivo.

Esse não é o caminho que o ateísmo propõe e nem proporá, mas certamente deve ser o caminho da filosofia da religião; e não somente o é dela, mas também da teologia, que é o discurso racional sobre Deus; da mesma maneira como o é da filosofia, o amor pelo saber, que em dado momento se transforma em encanto, em contemplação, em muitos casos em arte, tornando-se em “filocalia”, amor pela beleza. Este é o encanto que o cristianismo deve demonstrar na luta contra o ateísmo em favor da vida, da educação, da economia, da ciência, das artes, da filosofia, etc.

Por isso, é mais do que clarividente que a razão (cognitio) do ateísmo não tem Razão (Logos); o ateísmo não tem um Logos, e por isso deifica sua cognitio, e com isso perde toda a validade e plausibilidade. No entanto, o cristianismo tem um Logos, e por isso todo a sua cognitio é sublimada e tem inconcussa vitalidade. Eis a razão do ateísmo: a edificação da irracionalidade; eis a razão do cristianismo: a edificação da racionalidade. E isso é um fato inegável. 

Laudate Deo! 



[1] Jairo da Mota Bastos, Filosofia da Religião [1° edição. Batatais, SP: Claretiano, 2013], pág. 102.

[2] Urbano Zilles, Filosofia da Religião [1° edição. São Paulo: Paulus, 1991], pág. 99.

[3] Battista Mondin, Quem é Deus? Elementos de Antropologia Teológica [1° edição. São Paulo: Paulus, 1997], pág. 166.

[4] Ludwig Feuerbach, Princípios da Filosofia do Futuro [Edição Eletrônica. Covilhã: Universidade da Beira Interior, 2008], pág. 6.

[5] Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência [São Paulo: Martin Claret, 2003], livro V, n. 343, pág. 181.

[6] Mondin, Op. Cit., pág. 141.

[7] Mário Ferreira dos Santos, Enciclopédia das Ciências Filosóficas e Sociais Volume 4: Teoria do Conhecimento [3° edição. São Paulo: Logos, 1958], pág. 112.

[8] Paul Tillich, Filosofia de La Religion [1° edição. Buenos Aires: Ediciones Megalopolis, 1973], pág. 65-66.

[9] In: Jacques Liébaert, Os Padres da Igreja Volume 1 [3° edição. São Paulo: Loyola, 2013], pág. 52.

[10] Friedrich Nietzsche, Genealogia da Moral: Uma Polêmica [São Paulo: Companhia das Letras, 2009], pág. 7.

[11] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São Paulo: Paulus, 2002], livro X, cap. 20, n. 29, pág. 292. 


30/03/2019

O caminho da filosofia da religião

I

 

A construção da sociedade humana desde os seus primórdios se dá na estreita relação com o fenômeno religioso, fazendo com que cada cultura se evidencie e se torne geradora de sentido. Isto faz com que a estrutura da sociedade de forma geral sempre tenha o contato com o religioso, com o sagrado. Esta é basicamente a forma primeira de toda a estruturação de toda a ordem social. Diante disto, evidencia-se a importância da compreensão entre qualquer campo do saber com o fenômeno religioso. E dentro deste diálogo, a forma mais congruente aplicada ao longo de dois mil anos, é a relação entre religião e filosofia, particularmente, entre a teologia cristã e a filosofia grega.

Esta relação é de extrema importância no universitas litterarum (totalidade das ciências); como o próprio nome indica é um universo no qual todas as ciências se reúnem para discutir e entre si partilhar suas indeléveis descobertas. Por isso, Karl Barth pensou a teologia no contexto da universitas como ciência sui generis[1]. Neste contexto da alta cultura, a experiência e o fruto deste diálogo entre a mãe de todas as ciências (filosofia) e a que investiga o logos de Deus, estabeleceu os padrões verificativos para todas as ciências, o que se tornara algo enriquecedor no âmbito cultural.

Bento XVI, ao pensar sobre esta realidade de trabalho conjunto, informa, como antigo professor universitário, da profunda realidade e da grande experiência deste encontro; ele diz que “a experiência de que, não obstante as múltiplas especializações que por vezes nos tornam incapazes de comunicar entre nós, formamos um todo e trabalhamos no todo da única razão com as suas várias dimensões, encontrando-nos assim unidos também na responsabilidade comum pelo reto uso da razão – esta realidade tornava-se uma experiência viva”[2].

Hegel, diz que esta conjuntura entre filosofia e teologia “pode no nosso tempo ter perdido a sua importância e, aparentemente, encontra-se mesmo quase desvanecida”, por isso, e para que haja uma compreensão adequada de diálogo, precisa-se entender que este “confronto é de natureza tal que o espírito humano se não pode arredar de nenhuma das suas duas vertentes”[3].

Aliás, o próprio Hegel em sua “Introdução a História da Filosofia” declarou: “Na realidade, porém, tudo o que somos, somo-lo por obra da história; ou, para falar, com maior exatidão, do mesmo modo que na história do pensamento o passado é apenas uma parte, assim no presente, o que possuímos de modo permanente está inseparavelmente ligado com o fato de nossa existência histórica”[4].

Esta relação é de uma ordem natural ao ser humano. Por isso, urge a necessidade de se entender os pontos comuns e os desafios desta relação, bem como entender que isso ocorreu na história da teologia cristã. Mas, como uma chave interpretativa primeira, é necessário entender, qual área especifica do saber filosófico que trata deste assunto, e se ocupa com o fenômeno religioso de forma intrínseca, a saber: a filosofia da religião.

 

II

 

Mas o que é filosofia da religião? Filosofia da religião é o campo do saber que se confronta diretamente com a essência do fenômeno religioso. É onde a consciência religiosa e suas particularidades são analisadas racionalmente. Urbano Zilles diz: “A filosofia da religião tenta esclarecer a possibilidade e a essência formal da religião na existência humana”, e desta forma, “é uma reflexão realizada com a única ajuda da razão, sendo seu objeto a religião e as condições em que esta é possível”[5].

É interessante que, ao tratar de filosofia da religião, particularmente no campo da teologia, e assim a filosofia, é necessário entender que existem diferenças e inquirir o ponto de encontro e saber como trabalhá-lo. Esta também é uma tarefa decisiva da filosofia da religião. Paul Tillich assevera: “Porque há um ponto na doutrina da revelação e na filosofia em que ambas são a mesma coisa. Encontrar este ponto, e a partir dele encontrar uma solução sintética, é a tarefa decisiva da filosofia da religião”[6].

Esta tarefa da filosofia da religião é demonstrada de forma explícita na relação entre filosofia e teologia na história do pensamento ocidental. Desde a antiguidade, onde os mitos eram a forma de explicar a realidade do mundo, até a idade média, onde a teologia era a ciência magna, a relação entre filosofia e teologia era bem correlata.

Esta ideia, de relação e entendimento mútuo, pode parecer utópica e até mesmo incoerente aos ouvidos encharcados com a cera da modernidade, mas não era assim nos primeiros séculos. Joseph Ratzinger afirmara: “A relação entre fé e filosofia parece, à primeira vista, uma questão bastante abstrata. Mas não era uma questão abstrata para os cristãos dos primeiros tempos da Igreja”[7].

Por isso, para se resgatar a verdadeira relação entre filosofia e teologia, é preciso entender como isto ocorreu na história do pensamento ocidental e depois na história da teologia cristã; para resgatar um diálogo que está desvanecido, é necessário voltar ao passado para avançar para o futuro. Juan Estrada afirma: “A leitura atualizada do passado é a que nos permite uma reflexão sistemática para abordar a situação em que vivemos e para inspirar-nos na tradição sem permitir que sejamos bloqueados e paralisados por ele como se fosse algo fechado e acabado”[8].

Este designativo entre fé e razão é bastante profícu, pois compreende um vasto período na formação do pensamento ocidental. Por isso, voltar-se-á ao passado da teologia, com vista a compreender o que os Padres da Igreja pensavam e indagavam sobre esta relação. Os Pais da Igreja pensavam nisto, escreviam sobre isto e boa parte de sua reflexão teológica levou a isso. Uma compreensão bastante singular é a que se detém na ideia de que a filosofia grega, assim, como o judaísmo, serviu de preparação ao cristianismo. São Clemente de Alexandria diz: “Antes da vinda do Senhor, a filosofia era indispensável aos gregos para conduzi-los à justiça; agora se torna útil para conduzi-los à veneração de Deus. Ela serve de formação preparatória aos espíritos que querem chegar à fé pela demonstração. ‘Teu pé não tropeçará’, como diz a Escritura, se atribuis à Providencia tudo o que é bom, tanto grego quanto cristão. Deus é a causa de todas as coisas boas, uma imediatamente e por si mesma, como o Antigo e o Novo Testamento; outras por corolário, como a filosofia. Mesmo a filosofia talvez também tenha sido dada como um bem direto aos gregos, antes que o Senhor tivesse ampliado até eles o seu chamado, pois ela realizava a educação deles, exatamente como a Lei dos Judeus, para ir até Cristo. A filosofia é um trabalho preparatório; ela abre o caminho àquele que Cristo depois torna perfeito...”[9].

Outro importante Pai da Igreja a valorizar o conhecimento em relação com a fé foi Santo Agostinho. Ele formula a realidade do fundamentar a fé racionalmente. Ele expõe isto de forma pungente quando trata de um texto bíblico que diz: “se o não crerdes, certamente, não permanecereis” (Is 7.9b). Os termos são, crer (credideritis), e permanecer (intelligetis), no sentido de compreender, entender. Ou seja, se não há o crer não há entendimento, se não há entendimento não há permanência. Santo Agostinho, expondo este texto, diz: “Intellige ut credas... crede ut intelligas”[10] (Creio para entender... entendo porque creio).

A razão em Agostinho não é ignorada, apenas tem seu lugar adequado. Ele crê para entender. Ele crê na Palavra (Logos), para então depois disso começar a entender. Em Agostinho a revelação antecede a filosofia, mas consequentemente, o saber racional, acompanha a formulação sistemática do crer. Daí a máxima “crer e compreender”, dos grandes teólogos posteriores, num binômio inseparável, “contudo nessa sequência irreversível, o crer antecedendo o compreender”[11].

Esta é basicamente a posição da teologia com respeito ao relacionamento com a filosofia. O elemento racional está presente desde o início, mas não é ele quem governa as ações, mas sim o coração, o centro do eu. A partir desde centro o homem tem condição de raciocinar, e então, analisar, e, como consequência, passar a contemplação[12]. A filosofia torna-se teológica, que por sua vez, torna-se teologia contemplativa. Nesta fase, que atinge a plenitude no período escolástico, tem-se a formulação da alta cultura. Por isso, “o desenvolvimento da teologia nos períodos especulativos, em que o homem emprega a inteligência e o saber epistêmico na analise de crenças religiosas, que tem uma raiz emergente muito mais poderosa do que julgam muitos, e que traz a marca da alta cultura...”[13].

Todavia, ao se tratar desta realidade, é clarividente que surge um abismo na mesma relação na modernidade. Na modernidade, a ciência se torna a expressão de todas as coisas, e a reflexão filosófica é deixada como algo anacrônico, e a teologia, como reacionária. E assim, toda a estrutura de alta cultura, da mais sublime plenitude do saber filosófico e teológico, se esvai como algo inútil, derrocado, anacrônico. Por isso, urge, nas palavras de Hegel, resgatar estes polos do conhecimento, que sempre devem continuar dialogando entre si e confrontando-se, pois, “todo conhecimento está arraigado na fé e toda fé inclui um importante elemento de conhecimento” [14].

A modernidade se fechou em apenas um campo do saber, e por isso está inevitavelmente fadada ao dogmatismo irrefletido. A modernidade se diz neutra em matéria de reflexão racional e/ou religiosa, mas isso não passa de mito. Pois nenhum campo do saber pode rejeitar aquelas práticas e pensamentos que foram suas fundantes, sem cair em completa falta de senso crítico. A ciência só tem suas práticas de verificação, pois a teologia, no período monástico, teve pessoas que se dedicaram a estudar a partir de uma qualidade de texto, as escrituras reveladas, e partir deste texto construir, juntamente com a filosofia, a estrutura sistemática e colossal de interpretação e análise de textos.

Assim, será que nesta suposta neutralidade cientifica não está a raiz dos problemas conceituais, e consequentemente, práticos, da sociedade atual? E desta forma, “será que muitos dos dilemas que enfrentamos na vida, na ciência, na Teologia e, até mesmo, na Filosofia, não são por falta, paradoxalmente, de uma reflexão filosófica transdiciplinar”[15]. É evidente que sim. Muitos dos questionamentos atuais se dão por falta deste diálogo.

Por isso, a cultura dialogal entre estes campos do saber é uma chave hermenêutica para abrir as portas para o avanço humano, social, cultural, espiritual e científico. Mas, de um diálogo em ordem a verdade. Pois, só há diálogo onde há participação na verdade.

 

III

 

A filosofia da religião é fundamental no resgate desta relação entre fé e razão, pois trata da religião em suas estruturas racionais. E em se tratando do cristianismo, ainda mais, pois o cristianismo é uma religião fundada na expressão da razão, o Logos. Assim sendo, é necessário resgatar o legado do passado relacional entre estas duas linhas de frente do saber humano, e saber pontuá-las de maneira adequada, sem radicalismos fideístas e nem racionalistas, pois uma fé que não raciocina e uma razão que se acha autônoma, não são boas contribuições para o crescimento humano. Toda a cultura ocidental, bem como boa parte das ciências, é fruto deste diálogo maduro, saudável e em muitos casos, amigável.

A teologia precisa se abrir aos saberes da filosofia, pois, para os Padres da Igreja, esta é trazida a luz pela fé, e é usada para melhor explicar elementos da fé. A filosofia precisa ser humilde e saber que existe uma Razão além da razão humana, que está presente na própria razão humana, mas que a transcende.

E a teologia com serenidade e alegria, sui generis, se tornando mais sabia ao raciocinar, e a filosofia mais digna e respeitável ao entender que precisa alargar o uso da razão. Pensar é uma dignidade do crer, e crer é ter a dignidade de pensar. Crer e Pensar é ter a humildade de saber que tanto o crer como o pensar estão debaixo do mesmo Logos: para os fiéis, o do evangelho de João (Cf. Jo 1.1-2), Jesus Cristo; para os pensadores, o Logos da sabedoria grega[16].

Em suma, este deve ser o caminho da filosofia da religião.

Laudate Deo!



[1] Karl Barth, Introdução a Teologia Evangélica [11° edição. São Leopoldo, RS: Sinodal/EST, 2016], pág. 17.

[2] Bento XVI, Fé, Razão e Universidade: Recordações e Reflexões, 2 de setembro de 2006.

[3] G. W. F. Hegel, Prefácio a “Filosofia da Religião” de Hinrichs (1822): Sobre Fé e Razão [Edição Eletrônica. Covilhã, Portugal: Universidade da Beira Interior, 2011], pág. 3.

[4] In: Os Pensadores Volume 30: Hegel [1° edição. São Paulo: Abril Cultural, 1974], pág. 327.

[5] Urbano Zilles, Filosofia da Religião [1° edição. São Paulo: Paulus, 1991], pág. 5.

[6] Paul Tillich, Filosofia de La Religion [1° edição. Buenos Aires, Argentina: Ediciones Megalopolis, 1973], pág. 12.

[7] Joseph Ratzinger, Natureza e Missão da Teologia [2° edição. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012], pág. 13.

[8] Juan Antonio Estrada, Deus nas Tradições Filosóficas Volume 1: Aporias e Problemas da Teologia Natural [1° edição. São Paulo: Paulus, 2003], pág. 17.

[9] In: Jacques Liébaert, Os Padres da Igreja [3° edição. São Paulo: Loyola, 2013], pág. 88.

[10] Santo Agostinho, Sermão 43, n. 7.

[11] Rudolf Bultmann, Crer e Compreender: Ensaios Selecionados [São Leopoldo, RS: Sinodal, 2001], pág. 6.

[12] “Da fé passa-se à razão, mas desta passa-se à contemplação” (Mário Ferreira dos Santos, Convite a Filosofia e a História da Filosofia [5° edição. São Paulo: Logos, 1957], pág. 166).

[13] Mário Ferreira dos Santos, O Homem perante o Infinito [3° edição. São Paulo: Logos, 1960], pág. 36.

[14] Herman Bavinck, Dogmática Reformada Volume 1: Prolegomena [1° edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2012], pág. 26.

[15] Jairo da Mota Bastos, Filosofia da Religião [Batatais, SP: Claretiano, 2013], pág. 35.

[16] cf. Heráclito, Fragmento 50. 


Os maiores atiradores da história

Diante de algumas indagações a respeito de um aspecto específico da história militar, a saber, sobre os maiores atiradores da história (snip...