03/04/2021

Os Tópicos da Graça Comum

I

 

A contemplação das obras de Deus gera uma série infinda de estudos; vários são os campos de estudo que procuram trabalhar as questões sobre a obra da Criação; e realmente o senso de admiração que enche a mente e o coração humano ao se contemplar a Criação é o que fomenta o caminho para o estudo da natureza. O salmista assevera: “Como são maravilhosas as coisas que ele faz! Todos os que se alegram por causa delas querem entendê-las” (Sl 111.2 NTLH).

Que expressão magnífica: “todos os que se alegram (isto é, aqueles que as admiram) por causa delas querem entendê-las”. E é este anseio primordial que se conflui com o senso do bem, do belo e da verdade, que impulsiona o homem estudar e a querer entender a essência dos entes; e só há a possibilidade deste conhecimento a luz do próprio Criador; sem o Criador não há como se entender a criação; por isso, o Pregador assevera: “Porque o Senhor dá a sabedoria, e da sua boca vem o conhecimento e o entendimento” (Pv 2.6). Portanto, provém do próprio Senhor, o Criador de todas as coisas, a fonte de entendimento e conhecimento para que o homem possa entender a Criação (cf. Sl 94.10b).

Na verdade, o Criador em Sua infinita bondade e sabedoria traçara um caminho para a ciência, para que também sua obra pudesse ser entendida e compreendida; o profeta proclama sobre a sublimidade e majestade do Criador na criação: “Com quem tomou conselho, para que lhe desse entendimento, e lhe mostrasse as veredas do juízo, e lhe ensinasse sabedoria, e lhe fizesse notório o caminho da ciência?” (Is 40.14).

A questão que o profeta elenca, demonstra que o próprio Senhor talhou um caminho para a ciência, um caminho para o conhecimento; isto é realmente fantástico, pois além de demonstrar a incalculável sabedoria do Criador, também demonstra que é Ele mesmo quem define o que o homem sabe, bem como o que pode saber; se o conhecimento tem um caminho, logo, há de se ter também um caminho para se chegar a este conhecimento.

 

II

 

A sabedoria da obra divina, demonstrada na Criação, é um reflexo tanto da divindade do Criador como de Seu eterno poder (cf. Rm 1.20), e assim, também são um reflexo do que o Criador usou na Criação. A Criação tem em si reflexos das virtudes do Criador.

O livro de provérbios faz uma alusão a Sabedoria com a qual o Senhor criara todas as coisas; e a própria sabedoria personifica-se e toma a palavra dizendo qual foi sua obra na Criação: “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos e antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade, fui ungida; desde o princípio, antes do começo da terra. Antes de haver abismos, fui gerada; e antes ainda de haver fontes carregadas de águas. Antes que os montes fossem firmados, antes dos outeiros, eu fui gerada. Ainda ele não tinha feito a terra, nem os campos, nem sequer o princípio do pó do mundo. Quando ele preparava os céus, aí estava eu; quando compassava ao redor a face do abismo; quando firmava as nuvens de cima, quando fortificava as fontes do abismo; quando punha ao mar o seu termo, para que as águas não trespassassem o seu mando; quando compunha os fundamentos da terra” (Pv 8.22-29).

A expressão salomônica encontra uma gloriosa e excelsa explicação no prólogo do evangelho de João, onde o evangelista dos segredos de Deus afirma: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3). E ainda, a expressão salomônica encontra amparo naquilo que o Apóstolo diz: “o qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” (Cl 1.15-17).

A questão tratada tanto pelo evangelista dos segredos de Deus quanto pelo Apóstolo, mostram a sublimidade do Verbo de Deus, que é antes de todas as coisas, pois é Deus mesmo, bem como é através d’Ele que tudo o que existe se mantém; assim, a sabedoria divina na Criação, que o apóstolo João aplica como Logos, isto é, razão, é a própria razão da Criação, bem como de sua subsistência; assim, pode-se falar que a Criação é algo racional, que é a concreção do pensamento divino na realidade. A substância e a subsistência da Criação foram estabelecidas através do Logos.

Por isso, Abraham Kuyper diz: “Portanto, se o pensamento de Deus é eterno, e se a totalidade da criação deve ser compreendida simplesmente como o fluxo deste pensamento divino, de tal modo que todas as coisas vieram à existência e continuam a existir por meio do Logos - isto é, mediante a razão divina, ou mais particularmente, através do Verbo -, então o caso é: o pensamento divino se encontra incorporado em todas as coisas criadas. Então, não há nada no universo que deixe de expressar - de encarnar - a revelação do pensamento de Deus [...] Todas a criação nada mais é do que a cortina visível por detrás da qual irradia a operação excelsa desse pensamento divino[1].

A Criação é a concreção dos pensamentos divinos, e quem se dedica a estudá-la, elucubra e descobre estes pensamentos, ainda que apenas de raspão; mas mesmo assim já é algo e tanto, pois estabelece as formas como o Criador se deu a conhecer nas entranhas de Sua Criação. É por isso que o salmista diz que todos os que admiram a Criação querem entender estas maravilhas. Rui Barbosa assevera: “Ouvi-nos Senhor..., cujos tesoiros não diminuem, por mais que se despendam em maravilhas com a criação; em liberalidades com as criaturas. Para que estas se venham a multiplicar em descendentes, que os sigam no vosso caminho, e mais uma geração e outras e outras passem, contemplando, abençoando e servindo o Criador benfazejo de todas as coisas[2].

 

III

 

A Criação, como tal, fora obra do Logos divino (cf. Jo 1.1-3; Cl 1.15-17); como se sabe logos significa razão, lógica; portanto, a Criação é racional, tem uma lógica intrínseca presente em suas entranhas. A lógica intrínseca presente em cada esfera da Criação é a assinatura de Seu autor, é o carimbo da obra divina. Assim, poder-se-á falar em lógica da Criação; lógica no sentido de precisão, e ligação entre todas as partes apontando para o todo, e o todo demonstrando a excelência das partes.

No livro do profeta Jeremias, há uma efusiva declaração sobre a obra do Criador: “Ele fez a terra com o seu poder, e ordenou o mundo com a sua sabedoria, e estendeu os céus com o seu entendimento. Fazendo ele ouvir a sua voz, grande estrondo de águas há nos céus, e sobem os vapores desde o fim da terra; faz os relâmpagos com a chuva e tira o vento dos seus tesouros” (Jr 51.14-15).

A expressão no livro do profeta Jeremias tem alguns pontos interessantes: (i) primeiro, diz que o Senhor ordenou o mundo com Sua sabedoria; (ii) segundo, diz que Ele estendeu os céus com Seu entendimento; (iii) terceiro, diz que Ele faz os relâmpagos com a chuva; (iv) quarto, diz que tira o vento dos Seus tesouros.

Estes quatro pontos demonstram que a sabedoria e o entendimento do Criador se exemplificam em suas obras, ordenadas com sabedoria; a expressão ordenada com sabedoria denota o logos, já que todas as ordenações do cosmos foram criadas em perfeita ordem, e se mantém esta ordem devido a obra da Graça Comum.

Além do que, na obra da Criação denota-se que o Criador tirou muitas coisas de Seus tesouros para embelezar Sua obra magnífica. É obviamente uma figura de linguagem comum àquele tempo do profeta Jeremias, mas sua colocação é muito precisa, já que ao se investigar as belezas e maravilhas da Criação, se tem justamente esta impressão, a saber: que muitos tesouros foram colocados de modo preciso em vários aspectos da Criação, e que se tornam imprescindíveis ao funcionamento da mesma, como é o caso do relâmpago e da chuva, do vento, etc. A beleza da Criação é aferida a partir da Suma-Beleza do Criador.

 

IV

 

Nesta mesma perspectiva, ainda surge outra questão, a qual se elenca: se o Criador fez todas as coisas com beleza, sabedoria e entendimento, e isso é expressão do seu pensamento concretizado na obra da Criação como um todo, então toda a criação segue este ordenamento de forma precisa e inconfundível.

No entanto, há outra coisa a se falar sobre isso, que é a corrupção do Pecado; o pecado corrompeu a ordem perfeita da criação original, tirando-a do eixo; e o mal moral se infiltrou no coração do homem, bem como corrompeu a perfeição moral da Criação original; mas o próprio Criador mantém sua obra da corrupção total do cosmos. Sobre isso o salmista diz: “Todos esperam de ti que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e enchem-se de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras a respiração, morrem e voltam ao próprio pó. Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.27-30).

A expressão do salmista é sobre a obra de Deus ao enviar seu Espírito na obra de preservação e conservação do mundo para que ele continue “funcionando”; na verdade é a operação divina para que o cosmos seja preservado em suas funções primordiais, as quais são: a temporização em dia e noite, e com isto as estações do ano; o orvalho, que refresca pela noite a terra, dando-lhe nutrientes; etc. Assim, compreende-se o porquê de o salmista dizer que se o Senhor esconder o rosto, isto é, deixar de fazer sua obra, a Criação perece, e morre.

Assim, quando o Senhor envia o Espírito sobre a face da terra, logo, as coisas são criadas e recriadas de novo no sentido de se fortalecerem para suas funções determinadas, e a terra é renovada para a labuta do outro dia. É isso também que o salmista diz quanto o sol sai do seu lugar e vai andando e andando até voltar para ele novamente (cf. Sl 19.4-6), quando então aparece a lua para governar a noite, assim, um dia conversa com outro dia e uma noite conversa com outra noite (cf. Sl 19.2-3), etc.

 

V

 

Outra questão que é sobre a existência do povo de Deus, e sua relação com as instituições fundamentais da vida humana; na verdade, é a expressão da relação entre a missão do povo de Deus, tanto da Antiga Aliança quanto da Nova Aliança, e sua relação com o funcionamento e o desenvolvimento das instituições humanas fundamentais.

O povo da Antiga Aliança, fora o guardião das revelações de Deus a humanidade, bem como da existência da Revelação escrita de Deus. O Apóstolo diz que os israelitas são os guardiões desta “primeira” revelação de Deus a humanidade: “... são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas; dos quais são os pais, e dos quais é Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém!” (Rm 9.4-5).

O Israel Antigo é herdeiro da revelação divina através da lei, dos concertos, do culto, das promessas, dos pais, de Cristo, que veio pela carne ao mundo através da cultura judaica e como cumprimento as promessas de Israel.

Eric Voegelin fala sobre a história e importância de Israel como criadora do próprio sentido de história para as elucubrações culturais e revelacionais posteriores sobre o assunto; a partir do Salmo 136, Voegelin traça este paralelo sobre a história de Israel, numa expressão muito singular, na qual ele diz: “O drama da criação divina passa por três grandes atos: a criação do mundo, o resgate do Egito e a conquista de Canaã. Cada um dos três atos arranca significado do que não tem sentido: o mundo emerge do nada, Israel do Sheol do Egito e a terra prometida do deserto. Os atos, portanto, interpretam uns aos outros como obras da criação divina e como as etapas históricas nas quais um reino de significado cresce: Na história, Deus continua sua obra de criação, e a criação do mundo é o primeiro evento na história. A essa concepção, o termo história do mundo pode ser aplicado no sentido prenhe de um processo que é criação do mundo e história ao mesmo tempo. Em sua extensão, a narrativa do Antigo Testamento examina o processo desde a solidão criativa de Deus até sua conclusão através do estabelecimento dos servos de Yahweh na terra da promessa. Como nos Hinos de Amon, podiam-se discernir estruturas especulativas que na história posterior seriam diferenciadas, então podemos discernir na compactação do simbolismo histórico israelita os contornos dos três grandes blocos de especulação tomista: Deus, a criação e o retorno da criação para Deus. Que a história israelita contém essa estrutura especulativa, embora ainda em forma indiferenciada, é o segredo de sua perfeição dramática[3].

A questão elencada por Voegelin demonstra a importância do povo de Deus no todo da sociedade ocidental, e até mesmo da oriental; se como o Apóstolo diz que de Israel provém a estrutura da teologia sacra, e de suas nuances fundamentais, e no cristianismo isto se cumpre cabalmente no sentido de cumprimento das profecias sobre Cristo e a Salvação, logo, a ordem da história, e de suas instituições, passa pelo legado hebraico-cristão[4].

Isto observa-se na confluência da relação na sociedade, entre, por exemplo, filosofia grega, direito romano e religião cristã. As instituições edificadas sobre estes três aspectos, foram sublimadas pela resolução que a Igreja é expressão formativa e visível do povo de Deus aqui na terra.  O fermento do reino de Deus já começou levedar a massa do mundo aos poucos, preparando-o para a Consumação dos séculos, e em relação a isso a Igreja é a guardiã do depositum fidei.

Aqui se há de fazer uma diferença sobre que algo que já se falou anteriormente; a Igreja é a comunidade visível que vive sob os ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos, bem como configura-se como um corpo sob um cabeça, e isto não só em relação a vida eclesial, mas também em relação a humanidade; o mundo é um corpo visível, que também tem um cabeça que é Cristo, conquanto sua explicitação seja apenas para o funcionamento da humanidade como tal, não sendo expressão da salvação individual, mas sim do domínio universal de Cristo. Cristo é Rei sobre tudo e sobre todos.

A expressão da vivência do povo de Deus em relação a vivência da sociedade humana é uma chave pela qual se entende em qual posição cada um está, bem como é a chave para se entender como o cristão deve se relacionar com ambas, e com base neste entendimento, poder-se-á falar em uma espécie de duas esferas gerais: a da Igreja e a do Mundo.

A esfera da Igreja, aquele governada primariamente em vista as coisas eternas, enquanto corpo de Cristo, sob a liderança constituinte, graciosa e advocatícia de Cristo; já a esfera do Mundo, governada em relação as coisas físicas, enquanto corpo da humanidade, também sobre a liderança monárquica de Cristo, o Rei. Mas ainda, nesta diferenciação, deve ficar evidente que a Igreja é definida basicamente como vida corporativa na Redenção em Jesus Cristo em sua realidade orgânica, e o Mundo é definido basicamente como vida corporativa nas Instituições fundamentais da vida humana sob a influência do Pecado, mas sujeitos a Soberania de Cristo.

Friedrich Schleiermacher tem uma expressão interessante, a saber: sobre a diferença entre a vida corporativa no pecado e a vida corporativa a partir de redenção em Jesus Cristo: “Estamos cientes de todas as aproximações na vida cristã ao estado de bem-aventurança, baseada em uma nova vida corporativa divinamente efetuada, que funciona em oposição a vida corporativa de pecado e a miséria que nela se desenvolveram[5].

A questão proposta por Schleiermacher é, de forma geral, muito pertinente já que ajuda a elencar a diferença que existe entre a Igreja e o Mundo em relação as perspectivas da Graça Comum; e mundo aqui, novamente digo, não é o sistema governado por Satanás, o qual jaz no maligno (cf. 1Jo 5.19), mas o cosmos criado por Deus, e sustentado pela atividade do próprio Deus para não sucumbir a corrupção completa do Pecado. Ainda que o mundo jaz no maligno devido ao Pecado, e ao distanciamento do homem de Deus, entretanto, o próprio Deus preserva o mundo para que siga seu caminho até o fim.

Assim, quando Schleiermacher faz a diferenciação entre “a vida corporativa na redenção em Jesus Cristo” e “a vida corporativa de pecado e miséria”, logo ele também está apenas explicitando a questão sobre a realidade da ação da Graça de Deus no mundo: a Graça Comum e também a Graça Salvadora, conquanto ajam de maneiras diferentes, mas para um mesmo propósito, a saber: a glória de Cristo! Por isso, Kuyper diz: “... a graça particular não se limita à herança espiritual, mas realmente reivindica o mundo das coisas visíveis. A partir deste ponto, agora é demonstrável que a graça particular..., não poderia ter seguido seu curso sem a graça comum. Pois é precisamente a graça comum que, em face da maldição e da morte, manteve e ainda mantém a realidade das coisas[6].

Assim, tem-se que a Graça Comum mantém a realidade das coisas para que a redenção total seja executada; a redenção total de todas as coisas é elencada pela expressão “redenção cósmica”. A questão da redenção fora elencada pelo Apóstolo: “E tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados, e pôs em nós a palavra da reconciliação” (2Co 5.18-19).

A expressão que o Apóstolo utiliza para mundo é κόσμον, isto é, cosmos, designando todo o universo; logo, a redenção é para todo o cosmos; e isto é também atestado ao longo das Escrituras; elenca-se dois exemplos:

O primeiro exemplo, é na expressão do próprio Apóstolo, em relação a expectação da Criação como um todo: “Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Rm 8.20-22).

O segundo exemplo, é na expressão do Príncipe dos Apóstolos, dizendo que este cosmos será desfeito pelo fogo: “aguardando e apressando-vos para a vinda do Dia de Deus, em que os céus, em fogo, se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão?” (2Pe 3.12).

Assim, observa-se que estes dois textos apontam para duas perspectivas distintas, mas através de uma mesma realidade, a saber: a redenção de Jesus Cristo é cósmica, redime todo o universo, entretanto, o universo corrompido pelo pecado terá de ser desfeito, destruído, para a criação de um novo céu e uma nova terra (cf. Ap 21.1-7), para a consumação definitiva e eterna da redenção de todas as coisas.

Ainda, resta-nos uma explicação sobre a questão do povo de Deus e sua relação com as instituições gerais da humanidade; na verdade, exemplificar-se-á a partir da questão pela qual se forma um dos mais importantes fios da civilização ocidental, a saber: o direito romano. Na expressão do direito romano encontra-se uma questão, ao se voltar a formação do direito romano, chamada de jus civile ou direito quiritário. 

A jus civile tem como fonte os costumes e as leis régias[7]; os costumes são a continuidade histórica de alguma tradição que se forma em norma e padrão de comportamento na esfera social, já as leis régias são a expressão de regulamentos daqueles que tem a autoridade religiosa e civil para guiar povo, que muitas vezes era exercida pela mesma pessoa, na figura de um rei-sacerdote, que era muito comum nos primórdios do desenvolvimento da civilização humana, e como ainda o é nas religiões xamânicas.

Assim, a jus civile tem suas fontes: os costumes e as leis régias, que foram a forma como se edificara a questão do direito quiritário; e como a base geral do direito romano começa com esta questão, logo tê-la-á como princípio também do desenvolvimento posterior deste. Da mesma forma é com a questão do povo de Deus e a instituições humanas gerais; o povo de Deus é como a figura de ampliação e desenvolvimento destes povos, no sentido de a expressão e a configuração do povo de Deus aqui na terra ser como o fermento que ao ser aplicado no bolo (a civilização como um todo) leveda toda a massa (cf. Mt 13.33); assim como foi verificada na questão do jus civile e sua atuação a partir de suas fontes em relação ao direito romano, também o é em relação ao povo de Deus e sua relação com as instituições humanas fundamentais.

A existência do povo de Deus sublima esta questão, e como tal, gera uma fonte interna que permite manter o que de melhor fora gerado nas civilizações clássicas, as mesmas civilizações que sob a égide da Graça Comum preparam o mundo para a πλήρωμα τοῦ χρόνου (a plenitudes dos tempos: cf. Gl 4.4); a presença do povo de Deus é o que sublima o que de melhor estes povos geraram e cunharam em relação a existência humana, bem como como é o que demonstra sobre a realidade de uma vida superior, a saber: a realidade da vida eterna.

 

VI

 

Assim, pode-se prosseguir, após estas elucubrações em relação a Graça Comum e a Salvação, a Graça Comum e o Senhorio de Cristo, bem como a exposição do lugar do povo de Deus e o desenvolvimento das instituições da vida humana; agora, passar-se-á a questão dos homônimos teológicos para o conceito de Graça Comum. Os homônimos mais comuns, são aqueles que estão inseridos a questão da própria Graça, a saber: Graça Particular e Graça Preveniente.

Quanto a isso, a expressão de Herman Bavinck é categórica: “É a graça comum que torna possível a Graça especial, prepara o caminho para ela, e depois lhe dá o suporte; e a Graça especial por sua vez, ergue a graça comum ao seu próprio nível e coloca-a a seu serviço. Ambas as revelações têm como proposito a conservação da raça humana; a primeira sustentando-a e a segunda redimindo-a; e desta forma as duas cumprem a sua finalidade, que é glorificar todas as excelências de Deus[8].

Assim, Graça Comum prepara o caminho para a Graça Particular, dando forma a Graça que antecede a Graça Salvadora, a chamada Graça Preveniente. Kuyper afirma: “por esta ‘graça preparatória’ entende-se certa preparação, não na graça comum, mas na graça particular, uma preparação que tem um caráter geral ou surge do homem[9].

A questão sobre a Graça Preparatória, conquanto seja um termo costumeiramente tido como homônimo a Graça Comum, contudo, em relação aos seus princípios fundamentais e funcionais, difere da mesma em relação ao propósito; pois, embora seja uma expressão homônima a Graça Comum, ocorre-se alguns enganos em relação a Graça Preveniente, mas deve se dizer prontamente que apesar de serem homônimas num primeiro momento, Graça Comum e Graça Preparatória não são sinônimas; por isso, há de se ter sempre em conta que os limites de atuação de cada um destes termos; portanto, há de se ter em mente que tudo o que é praeviens ou preaparans é do terreno da Graça Comum, não do terreno da Graça Salvadora, mas é um preâmbulo em relação a Graça Salvadora.

Com efeito, tudo o que é preparatório é comum e por isso disposto a todos os homens, tudo o que particular é somente aos cristãos, por isso disposto somente a partir da eleição em Cristo. Assim, a Graça Salvadora é disponível a todos indistintamente (cf. 1Tm 2.4), conquanto só recebam a salvação aqueles que foram graciosamente eleitos, escolhidos, vocacionados e chamados em glória, isto é, aqueles que creem (cf. Rm 8.29-30).

 

VII

 

Ora, com isso se compreender os tópicos da Graça Comum, isto é, os lugares comuns da Graça Comum; na verdade, cada perspectiva elencada tem seu lugar nos lugares comuns desta doutrina tão maravilhosa; infelizmente não se explorou todos estes lugares comuns, mas com certeza, os que aqui foram evocados certamente dão suporte para um debate sobre este assunto na esfera teórica.

Desde a questão da Graça Comum e seu relacionamento com a doutrina da vida cristã, no seu relacionamento com a ética cristã até as perspectivas da Graça Comum em relação com a salvação, com o senhorio de Cristo, a existência do povo de Deus, na Antiga e na Nova Aliança e sua relação com as instituições humanas, e também na explicação do sendo religioso presente no ser humano, e demonstrado em sua religiosidade idólatra, tem-se os lugares comuns da doutrina da Graça Comum, entendidos e compreendidos através de vários aspectos, desde as manifestações religiosas do homem natural (idolatria) até o desenvolvimento de aspectos necessários para a vida humana, como a ciência e a filosofia.

Todos estes aspectos são de suma importância ao se elencar a questão da Graça Comum; e existem muitos outros que não foram elencados aqui, mas que certamente devem e serão trabalhados em outros escritos, obviamente formando uma compreensão mais apurada a este respeito; no entanto, como estrutura de elucubração inicial, estes tópicos são essenciais para se começar a compreensão a respeito do assunto.

No mais, que a doutrina da Graça Comum eleve o nosso coração em gratidão ao Senhor, por Sua tão maravilhosa Graça, concedida gloriosamente em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Laudate Deo



[1] Abraham Kuyper, Sabedoria e Prodígios: Graça Comum na Ciência e na Arte [1° edição. Brasília, DF: Monergismo, 2018], pág. 37-38.

[2] Rui Barbosa, Discursos no Instituto dos Advogados Brasileiros - Discurso no Colégio Anchieta [São Paulo: Martin Claret, 2010], pág. 151.

[3] Eric Voegelin, The Collected Works of Eric Voegelin Volume 14: Order and History Volume I - Israel and Revelation [Columbia: University of Missouri Press, 2001], pág. 177-178.

[4] Aqui isto se refere a questão hebraica enquanto povo da revelação no Antigo Testamento; pois, a pressuposição aqui refere-se ao Israel antigo e não ao Estado de Israel moderno. Refere-se a cultura hebraica antes de Cristo e não ao sionismo.

[5] Friedrich Schleiermacher, The Christian Faith in Outline [Edimburgo: W. F. Henderson Publisher, 1922], pág. 37.

[6] Abraham Kuyper, De Gemeene Gratie Tweede Deel: Het Leerstellig Gedeelte [4° edição. Kampen: J. H. Kok, 1939], pág. 683.

[7] cf. Luiz Antonio Rolim, Instituições de Direito Romano [2° edição. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003], pág. 45-46.

[8] Herman Bavinck, Teologia Sistemática [Santa Bárbara d'Oeste, SP: SOCEP, 2001], pág. 39-40.

[9] Kuyper, Op. Cit., pág. 199. 


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