I
A
contemplação das obras de Deus gera uma série infinda de estudos; vários são os
campos de estudo que procuram trabalhar as questões sobre a obra da Criação; e
realmente o senso de admiração que enche a mente e o coração humano ao se
contemplar a Criação é o que fomenta o caminho para o estudo da natureza. O
salmista assevera: “Como são maravilhosas as coisas que ele faz! Todos os
que se alegram por causa delas querem entendê-las” (Sl 111.2 NTLH).
Que
expressão magnífica: “todos os que se alegram (isto é, aqueles que as
admiram) por causa delas querem entendê-las”. E é este anseio primordial
que se conflui com o senso do bem, do belo e da verdade, que impulsiona o homem
estudar e a querer entender a essência dos entes; e só há a possibilidade deste
conhecimento a luz do próprio Criador; sem o Criador não há como se entender a
criação; por isso, o Pregador assevera: “Porque o Senhor dá a sabedoria, e
da sua boca vem o conhecimento e o entendimento” (Pv 2.6). Portanto, provém
do próprio Senhor, o Criador de todas as coisas, a fonte de entendimento e
conhecimento para que o homem possa entender a Criação (cf. Sl 94.10b).
Na
verdade, o Criador em Sua infinita bondade e sabedoria traçara um caminho para
a ciência, para que também sua obra pudesse ser entendida e compreendida; o
profeta proclama sobre a sublimidade e majestade do Criador na criação: “Com
quem tomou conselho, para que lhe desse entendimento, e lhe mostrasse as
veredas do juízo, e lhe ensinasse sabedoria, e lhe fizesse notório o caminho da
ciência?” (Is 40.14).
A
questão que o profeta elenca, demonstra que o próprio Senhor talhou um caminho
para a ciência, um caminho para o conhecimento; isto é realmente fantástico,
pois além de demonstrar a incalculável sabedoria do Criador, também demonstra
que é Ele mesmo quem define o que o homem sabe, bem como o que pode saber; se o
conhecimento tem um caminho, logo, há de se ter também um caminho para se
chegar a este conhecimento.
II
A
sabedoria da obra divina, demonstrada na Criação, é um reflexo tanto da
divindade do Criador como de Seu eterno poder (cf. Rm 1.20), e assim, também
são um reflexo do que o Criador usou na Criação. A Criação tem em si reflexos
das virtudes do Criador.
O
livro de provérbios faz uma alusão a Sabedoria com a qual o Senhor criara todas
as coisas; e a própria sabedoria personifica-se e toma a palavra dizendo qual
foi sua obra na Criação: “O Senhor me possuiu no princípio de seus caminhos
e antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade, fui ungida; desde o
princípio, antes do começo da terra. Antes de haver abismos, fui gerada; e
antes ainda de haver fontes carregadas de águas. Antes que os montes fossem
firmados, antes dos outeiros, eu fui gerada. Ainda ele não tinha feito a terra,
nem os campos, nem sequer o princípio do pó do mundo. Quando ele preparava os
céus, aí estava eu; quando compassava ao redor a face do abismo; quando firmava
as nuvens de cima, quando fortificava as fontes do abismo; quando punha ao mar
o seu termo, para que as águas não trespassassem o seu mando; quando compunha
os fundamentos da terra” (Pv 8.22-29).
A
expressão salomônica encontra uma gloriosa e excelsa explicação no prólogo do
evangelho de João, onde o evangelista dos segredos de Deus afirma: “No
princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele
estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele
nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3). E ainda, a expressão salomônica
encontra amparo naquilo que o Apóstolo diz: “o qual é imagem do Deus
invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as
coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam
dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para
ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele”
(Cl 1.15-17).
A
questão tratada tanto pelo evangelista dos segredos de Deus quanto pelo
Apóstolo, mostram a sublimidade do Verbo de Deus, que é antes de todas as
coisas, pois é Deus mesmo, bem como é através d’Ele que tudo o que existe se
mantém; assim, a sabedoria divina na Criação, que o apóstolo João aplica como Logos,
isto é, razão, é a própria razão da Criação, bem como de sua subsistência;
assim, pode-se falar que a Criação é algo racional, que é a concreção do
pensamento divino na realidade. A substância e a subsistência da Criação foram
estabelecidas através do Logos.
Por isso,
Abraham Kuyper diz: “Portanto, se o pensamento de Deus é eterno, e se a
totalidade da criação deve ser compreendida simplesmente como o fluxo deste
pensamento divino, de tal modo que todas as coisas vieram à existência e
continuam a existir por meio do Logos - isto é, mediante a razão divina, ou
mais particularmente, através do Verbo -, então o caso é: o pensamento divino
se encontra incorporado em todas as coisas criadas. Então, não há nada no
universo que deixe de expressar - de encarnar - a revelação do pensamento de
Deus [...] Todas a criação nada mais é do que a cortina visível por detrás da
qual irradia a operação excelsa desse pensamento divino”[1].
A Criação
é a concreção dos pensamentos divinos, e quem se dedica a estudá-la, elucubra e
descobre estes pensamentos, ainda que apenas de raspão; mas mesmo assim já é
algo e tanto, pois estabelece as formas como o Criador se deu a conhecer nas
entranhas de Sua Criação. É por isso que o salmista diz que todos os que
admiram a Criação querem entender estas maravilhas. Rui Barbosa assevera: “Ouvi-nos
Senhor..., cujos tesoiros não diminuem, por mais que se despendam em maravilhas
com a criação; em liberalidades com as criaturas. Para que estas se venham a
multiplicar em descendentes, que os sigam no vosso caminho, e mais uma geração
e outras e outras passem, contemplando, abençoando e servindo o Criador
benfazejo de todas as coisas”[2].
III
A Criação,
como tal, fora obra do Logos divino (cf. Jo 1.1-3; Cl 1.15-17); como se
sabe logos significa razão, lógica; portanto, a Criação é racional, tem
uma lógica intrínseca presente em suas entranhas. A lógica intrínseca presente
em cada esfera da Criação é a assinatura de Seu autor, é o carimbo da obra
divina. Assim, poder-se-á falar em lógica da Criação; lógica no sentido de
precisão, e ligação entre todas as partes apontando para o todo, e o todo
demonstrando a excelência das partes.
No
livro do profeta Jeremias, há uma efusiva declaração sobre a obra do Criador: “Ele
fez a terra com o seu poder, e ordenou o mundo com a sua sabedoria, e estendeu
os céus com o seu entendimento. Fazendo ele ouvir a sua voz, grande estrondo de
águas há nos céus, e sobem os vapores desde o fim da terra; faz os relâmpagos
com a chuva e tira o vento dos seus tesouros” (Jr 51.14-15).
A
expressão no livro do profeta Jeremias tem alguns pontos interessantes: (i) primeiro,
diz que o Senhor ordenou o mundo com Sua sabedoria; (ii) segundo, diz que Ele
estendeu os céus com Seu entendimento; (iii) terceiro, diz que Ele faz os
relâmpagos com a chuva; (iv) quarto, diz que tira o vento dos Seus tesouros.
Estes
quatro pontos demonstram que a sabedoria e o entendimento do Criador se
exemplificam em suas obras, ordenadas com sabedoria; a expressão ordenada com
sabedoria denota o logos, já que todas as ordenações do cosmos foram
criadas em perfeita ordem, e se mantém esta ordem devido a obra da Graça Comum.
Além
do que, na obra da Criação denota-se que o Criador tirou muitas coisas de Seus
tesouros para embelezar Sua obra magnífica. É obviamente uma figura de
linguagem comum àquele tempo do profeta Jeremias, mas sua colocação é muito
precisa, já que ao se investigar as belezas e maravilhas da Criação, se tem
justamente esta impressão, a saber: que muitos tesouros foram colocados de modo
preciso em vários aspectos da Criação, e que se tornam imprescindíveis ao
funcionamento da mesma, como é o caso do relâmpago e da chuva, do vento, etc. A
beleza da Criação é aferida a partir da Suma-Beleza do Criador.
IV
Nesta
mesma perspectiva, ainda surge outra questão, a qual se elenca: se o Criador
fez todas as coisas com beleza, sabedoria e entendimento, e isso é expressão do
seu pensamento concretizado na obra da Criação como um todo, então toda a
criação segue este ordenamento de forma precisa e inconfundível.
No
entanto, há outra coisa a se falar sobre isso, que é a corrupção do Pecado; o
pecado corrompeu a ordem perfeita da criação original, tirando-a do eixo; e o
mal moral se infiltrou no coração do homem, bem como corrompeu a perfeição
moral da Criação original; mas o próprio Criador mantém sua obra da corrupção
total do cosmos. Sobre isso o salmista diz: “Todos esperam de ti que lhes
dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a
tua mão, e enchem-se de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se
lhes tiras a respiração, morrem e voltam ao próprio pó. Envias o teu Espírito,
e são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104.27-30).
A
expressão do salmista é sobre a obra de Deus ao enviar seu Espírito na obra de
preservação e conservação do mundo para que ele continue “funcionando”; na
verdade é a operação divina para que o cosmos seja preservado em suas funções
primordiais, as quais são: a temporização em dia e noite, e com isto as
estações do ano; o orvalho, que refresca pela noite a terra, dando-lhe
nutrientes; etc. Assim, compreende-se o porquê de o salmista dizer que se o
Senhor esconder o rosto, isto é, deixar de fazer sua obra, a Criação perece, e
morre.
Assim,
quando o Senhor envia o Espírito sobre a face da terra, logo, as coisas são
criadas e recriadas de novo no sentido de se fortalecerem para suas funções
determinadas, e a terra é renovada para a labuta do outro dia. É isso também
que o salmista diz quanto o sol sai do seu lugar e vai andando e andando até
voltar para ele novamente (cf. Sl 19.4-6), quando então aparece a lua para
governar a noite, assim, um dia conversa com outro dia e uma noite conversa com
outra noite (cf. Sl 19.2-3), etc.
V
Outra
questão que é sobre a existência do povo de Deus, e sua relação com as
instituições fundamentais da vida humana; na verdade, é a expressão da relação
entre a missão do povo de Deus, tanto da Antiga Aliança quanto da Nova Aliança,
e sua relação com o funcionamento e o desenvolvimento das instituições humanas
fundamentais.
O
povo da Antiga Aliança, fora o guardião das revelações de Deus a humanidade,
bem como da existência da Revelação escrita de Deus. O Apóstolo diz que os
israelitas são os guardiões desta “primeira” revelação de Deus a humanidade: “...
são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e os concertos, e a
lei, e o culto, e as promessas; dos quais são os pais, e dos quais é Cristo,
segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém!” (Rm
9.4-5).
O
Israel Antigo é herdeiro da revelação divina através da lei, dos concertos, do
culto, das promessas, dos pais, de Cristo, que veio pela carne ao mundo através
da cultura judaica e como cumprimento as promessas de Israel.
Eric
Voegelin fala sobre a história e importância de Israel como criadora do próprio
sentido de história para as elucubrações culturais e revelacionais posteriores
sobre o assunto; a partir do Salmo 136, Voegelin traça este paralelo sobre a
história de Israel, numa expressão muito singular, na qual ele diz: “O drama
da criação divina passa por três grandes atos: a criação do mundo, o resgate do
Egito e a conquista de Canaã. Cada um dos três atos arranca significado do que
não tem sentido: o mundo emerge do nada, Israel do Sheol do Egito e a terra
prometida do deserto. Os atos, portanto, interpretam uns aos outros como obras
da criação divina e como as etapas históricas nas quais um reino de significado
cresce: Na história, Deus continua sua obra de criação, e a criação do mundo é
o primeiro evento na história. A essa concepção, o termo história do mundo pode
ser aplicado no sentido prenhe de um processo que é criação do mundo e história
ao mesmo tempo. Em sua extensão, a narrativa do Antigo Testamento examina o
processo desde a solidão criativa de Deus até sua conclusão através do
estabelecimento dos servos de Yahweh na terra da promessa. Como nos Hinos de
Amon, podiam-se discernir estruturas especulativas que na história posterior
seriam diferenciadas, então podemos discernir na compactação do simbolismo histórico
israelita os contornos dos três grandes blocos de especulação tomista: Deus, a
criação e o retorno da criação para Deus. Que a história israelita contém essa
estrutura especulativa, embora ainda em forma indiferenciada, é o segredo de
sua perfeição dramática”[3].
A
questão elencada por Voegelin demonstra a importância do povo de Deus no todo
da sociedade ocidental, e até mesmo da oriental; se como o Apóstolo diz que de
Israel provém a estrutura da teologia sacra, e de suas nuances fundamentais, e
no cristianismo isto se cumpre cabalmente no sentido de cumprimento das
profecias sobre Cristo e a Salvação, logo, a ordem da história, e de suas
instituições, passa pelo legado hebraico-cristão[4].
Isto
observa-se na confluência da relação na sociedade, entre, por exemplo,
filosofia grega, direito romano e religião cristã. As instituições edificadas
sobre estes três aspectos, foram sublimadas pela resolução que a Igreja é
expressão formativa e visível do povo de Deus aqui na terra. O fermento do reino de Deus já começou
levedar a massa do mundo aos poucos, preparando-o para a Consumação dos séculos,
e em relação a isso a Igreja é a guardiã do depositum fidei.
Aqui
se há de fazer uma diferença sobre que algo que já se falou anteriormente; a Igreja
é a comunidade visível que vive sob os ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos,
bem como configura-se como um corpo sob um cabeça, e isto não só em relação a
vida eclesial, mas também em relação a humanidade; o mundo é um corpo visível, que
também tem um cabeça que é Cristo, conquanto sua explicitação seja apenas para
o funcionamento da humanidade como tal, não sendo expressão da salvação
individual, mas sim do domínio universal de Cristo. Cristo é Rei sobre tudo e
sobre todos.
A
expressão da vivência do povo de Deus em relação a vivência da sociedade humana
é uma chave pela qual se entende em qual posição cada um está, bem como é a
chave para se entender como o cristão deve se relacionar com ambas, e com base
neste entendimento, poder-se-á falar em uma espécie de duas esferas gerais: a
da Igreja e a do Mundo.
A
esfera da Igreja, aquele governada primariamente em vista as coisas eternas,
enquanto corpo de Cristo, sob a liderança constituinte, graciosa e advocatícia
de Cristo; já a esfera do Mundo, governada em relação as coisas físicas,
enquanto corpo da humanidade, também sobre a liderança monárquica de Cristo, o
Rei. Mas ainda, nesta diferenciação, deve ficar evidente que a Igreja é
definida basicamente como vida corporativa na Redenção em Jesus Cristo em sua
realidade orgânica, e o Mundo é definido basicamente como vida corporativa nas
Instituições fundamentais da vida humana sob a influência do Pecado, mas sujeitos
a Soberania de Cristo.
Friedrich
Schleiermacher tem uma expressão interessante, a saber: sobre a diferença entre
a vida corporativa no pecado e a vida corporativa a partir de redenção em Jesus
Cristo: “Estamos cientes de todas as aproximações na vida cristã ao estado
de bem-aventurança, baseada em uma nova vida corporativa divinamente efetuada,
que funciona em oposição a vida corporativa de pecado e a miséria que nela se
desenvolveram”[5].
A
questão proposta por Schleiermacher é, de forma geral, muito pertinente já que
ajuda a elencar a diferença que existe entre a Igreja e o Mundo em relação as
perspectivas da Graça Comum; e mundo aqui, novamente digo, não é o sistema
governado por Satanás, o qual jaz no maligno (cf. 1Jo 5.19), mas o cosmos
criado por Deus, e sustentado pela atividade do próprio Deus para não sucumbir
a corrupção completa do Pecado. Ainda que o mundo jaz no maligno devido ao
Pecado, e ao distanciamento do homem de Deus, entretanto, o próprio Deus
preserva o mundo para que siga seu caminho até o fim.
Assim,
quando Schleiermacher faz a diferenciação entre “a vida corporativa na
redenção em Jesus Cristo” e “a vida corporativa de pecado e miséria”,
logo ele também está apenas explicitando a questão sobre a realidade da ação da
Graça de Deus no mundo: a Graça Comum e também a Graça Salvadora, conquanto
ajam de maneiras diferentes, mas para um mesmo propósito, a saber: a glória de
Cristo! Por isso, Kuyper diz: “... a graça particular não se limita à
herança espiritual, mas realmente reivindica o mundo das coisas visíveis. A
partir deste ponto, agora é demonstrável que a graça particular..., não poderia
ter seguido seu curso sem a graça comum. Pois é precisamente a graça comum que,
em face da maldição e da morte, manteve e ainda mantém a realidade das coisas”[6].
Assim,
tem-se que a Graça Comum mantém a realidade das coisas para que a redenção
total seja executada; a redenção total de todas as coisas é elencada pela
expressão “redenção cósmica”. A questão da redenção fora elencada pelo Apóstolo:
“E tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus
Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, isto é, Deus estava em Cristo
reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados, e pôs em nós
a palavra da reconciliação” (2Co 5.18-19).
A
expressão que o Apóstolo utiliza para mundo é κόσμον, isto é, cosmos,
designando todo o universo; logo, a redenção é para todo o cosmos; e isto é
também atestado ao longo das Escrituras; elenca-se dois exemplos:
O
primeiro exemplo, é na expressão do próprio Apóstolo, em relação a expectação
da Criação como um todo: “Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por
sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a
mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da
glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está
juntamente com dores de parto até agora” (Rm 8.20-22).
O
segundo exemplo, é na expressão do Príncipe dos Apóstolos, dizendo que este
cosmos será desfeito pelo fogo: “aguardando e apressando-vos para a vinda do
Dia de Deus, em que os céus, em fogo, se desfarão, e os elementos, ardendo, se
fundirão?” (2Pe 3.12).
Assim,
observa-se que estes dois textos apontam para duas perspectivas distintas, mas
através de uma mesma realidade, a saber: a redenção de Jesus Cristo é cósmica,
redime todo o universo, entretanto, o universo corrompido pelo pecado terá de
ser desfeito, destruído, para a criação de um novo céu e uma nova terra (cf. Ap
21.1-7), para a consumação definitiva e eterna da redenção de todas as coisas.
Ainda,
resta-nos uma explicação sobre a questão do povo de Deus e sua relação com as
instituições gerais da humanidade; na verdade, exemplificar-se-á a partir da
questão pela qual se forma um dos mais importantes fios da civilização
ocidental, a saber: o direito romano. Na expressão do direito romano
encontra-se uma questão, ao se voltar a formação do direito romano, chamada de jus
civile ou direito quiritário.
A jus
civile tem como fonte os costumes e as leis régias[7]; os costumes são a
continuidade histórica de alguma tradição que se forma em norma e padrão de
comportamento na esfera social, já as leis régias são a expressão de
regulamentos daqueles que tem a autoridade religiosa e civil para guiar povo,
que muitas vezes era exercida pela mesma pessoa, na figura de um rei-sacerdote,
que era muito comum nos primórdios do desenvolvimento da civilização humana, e
como ainda o é nas religiões xamânicas.
Assim,
a jus civile tem suas fontes: os costumes e as leis régias, que foram a
forma como se edificara a questão do direito quiritário; e como a base geral do
direito romano começa com esta questão, logo tê-la-á como princípio também do
desenvolvimento posterior deste. Da mesma forma é com a questão do povo de Deus
e a instituições humanas gerais; o povo de Deus é como a figura de ampliação e
desenvolvimento destes povos, no sentido de a expressão e a configuração do
povo de Deus aqui na terra ser como o fermento que ao ser aplicado no bolo (a
civilização como um todo) leveda toda a massa (cf. Mt 13.33); assim como foi
verificada na questão do jus civile e sua atuação a partir de suas
fontes em relação ao direito romano, também o é em relação ao povo de Deus e
sua relação com as instituições humanas fundamentais.
A
existência do povo de Deus sublima esta questão, e como tal, gera uma fonte
interna que permite manter o que de melhor fora gerado nas civilizações
clássicas, as mesmas civilizações que sob a égide da Graça Comum preparam o
mundo para a πλήρωμα τοῦ χρόνου (a plenitudes dos tempos: cf. Gl 4.4); a
presença do povo de Deus é o que sublima o que de melhor estes povos geraram e
cunharam em relação a existência humana, bem como como é o que demonstra sobre
a realidade de uma vida superior, a saber: a realidade da vida eterna.
VI
Assim,
pode-se prosseguir, após estas elucubrações em relação a Graça Comum e a
Salvação, a Graça Comum e o Senhorio de Cristo, bem como a exposição do lugar
do povo de Deus e o desenvolvimento das instituições da vida humana; agora,
passar-se-á a questão dos homônimos teológicos para o conceito de Graça Comum. Os
homônimos mais comuns, são aqueles que estão inseridos a questão da própria
Graça, a saber: Graça Particular e Graça Preveniente.
Quanto
a isso, a expressão de Herman Bavinck é categórica: “É a graça comum que
torna possível a Graça especial, prepara o caminho para ela, e depois lhe dá o
suporte; e a Graça especial por sua vez, ergue a graça comum ao seu próprio
nível e coloca-a a seu serviço. Ambas as revelações têm como proposito a
conservação da raça humana; a primeira sustentando-a e a segunda redimindo-a; e
desta forma as duas cumprem a sua finalidade, que é glorificar todas as
excelências de Deus”[8].
Assim,
Graça Comum prepara o caminho para a Graça Particular, dando forma a Graça que
antecede a Graça Salvadora, a chamada Graça Preveniente. Kuyper afirma: “por
esta ‘graça preparatória’ entende-se certa preparação, não na graça comum, mas
na graça particular, uma preparação que tem um caráter geral ou surge do homem”[9].
A
questão sobre a Graça Preparatória, conquanto seja um termo costumeiramente
tido como homônimo a Graça Comum, contudo, em relação aos seus princípios
fundamentais e funcionais, difere da mesma em relação ao propósito; pois,
embora seja uma expressão homônima a Graça Comum, ocorre-se alguns enganos em
relação a Graça Preveniente, mas deve se dizer prontamente que apesar de serem
homônimas num primeiro momento, Graça Comum e Graça Preparatória não são
sinônimas; por isso, há de se ter sempre em conta que os limites de atuação de
cada um destes termos; portanto, há de se ter em mente que tudo o que é praeviens
ou preaparans é do terreno da Graça Comum, não do terreno da Graça Salvadora,
mas é um preâmbulo em relação a Graça Salvadora.
Com
efeito, tudo o que é preparatório é comum e por isso disposto a todos os
homens, tudo o que particular é somente aos cristãos, por isso disposto somente
a partir da eleição em Cristo. Assim, a Graça Salvadora é disponível a todos
indistintamente (cf. 1Tm 2.4), conquanto só recebam a salvação aqueles que
foram graciosamente eleitos, escolhidos, vocacionados e chamados em glória,
isto é, aqueles que creem (cf. Rm 8.29-30).
VII
Ora,
com isso se compreender os tópicos da Graça Comum, isto é, os lugares comuns da
Graça Comum; na verdade, cada perspectiva elencada tem seu lugar nos lugares
comuns desta doutrina tão maravilhosa; infelizmente não se explorou todos estes
lugares comuns, mas com certeza, os que aqui foram evocados certamente dão
suporte para um debate sobre este assunto na esfera teórica.
Desde
a questão da Graça Comum e seu relacionamento com a doutrina da vida cristã, no
seu relacionamento com a ética cristã até as perspectivas da Graça Comum em
relação com a salvação, com o senhorio de Cristo, a existência do povo de Deus,
na Antiga e na Nova Aliança e sua relação com as instituições humanas, e também
na explicação do sendo religioso presente no ser humano, e demonstrado em sua
religiosidade idólatra, tem-se os lugares comuns da doutrina da Graça Comum,
entendidos e compreendidos através de vários aspectos, desde as manifestações
religiosas do homem natural (idolatria) até o desenvolvimento de aspectos
necessários para a vida humana, como a ciência e a filosofia.
Todos
estes aspectos são de suma importância ao se elencar a questão da Graça Comum;
e existem muitos outros que não foram elencados aqui, mas que certamente devem
e serão trabalhados em outros escritos, obviamente formando uma compreensão mais
apurada a este respeito; no entanto, como estrutura de elucubração inicial,
estes tópicos são essenciais para se começar a compreensão a respeito do
assunto.
No
mais, que a doutrina da Graça Comum eleve o nosso coração em gratidão ao
Senhor, por Sua tão maravilhosa Graça, concedida gloriosamente em Cristo Jesus,
nosso Senhor.
Laudate Deo!
[1] Abraham Kuyper, Sabedoria
e Prodígios: Graça Comum na Ciência e na Arte [1° edição. Brasília, DF:
Monergismo, 2018], pág. 37-38.
[2] Rui Barbosa, Discursos no
Instituto dos Advogados Brasileiros - Discurso no Colégio Anchieta [São
Paulo: Martin Claret, 2010], pág. 151.
[3] Eric Voegelin, The
Collected Works of Eric Voegelin Volume 14: Order and History Volume I - Israel
and Revelation [Columbia: University of Missouri Press, 2001], pág.
177-178.
[4] Aqui isto se refere a questão
hebraica enquanto povo da revelação no Antigo Testamento; pois, a pressuposição
aqui refere-se ao Israel antigo e não ao Estado de Israel moderno. Refere-se a
cultura hebraica antes de Cristo e não ao sionismo.
[5] Friedrich
Schleiermacher, The Christian Faith in Outline [Edimburgo: W. F.
Henderson Publisher, 1922], pág. 37.
[6] Abraham Kuyper, De
Gemeene Gratie Tweede Deel: Het Leerstellig Gedeelte [4° edição. Kampen: J.
H. Kok, 1939], pág. 683.
[7] cf. Luiz Antonio
Rolim, Instituições de Direito Romano [2° edição. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2003], pág. 45-46.
[8] Herman Bavinck, Teologia
Sistemática [Santa Bárbara d'Oeste, SP: SOCEP, 2001], pág. 39-40.
[9] Kuyper, Op.
Cit., pág. 199.
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