15/03/2021

Nótulas ao “De Modo Dicendi et Meditandi” de Hugo de São Vítor

Prólogo

 

Um dos escritos mais interessantes da idade média sobre a vida de estudos e meditações, é um opúsculo de Hugo de São Vítor (1096-1141); Hugo foi um importante teólogo e místico do século XII; além disso também foi cardeal; suas obras traspassaram o tempo e chegaram até os dias atuais; devido a importância e a influência de seus escritos, chamaram-no de segundo Agostinho.

A obra pedagógica de Hugo, em seu “Didascalicon”, que foi amplamente utilizada na idade média, é um dos melhores exemplos do verdadeiro método de aprendizado. É um pilar do que fora a educação cristã na idade média.

O estudo e a análise cuidadosa desta obra tem muito a oferecer a quem deseja seguir o caminho dos estudos. Uma obra única, e de porte elegante; não iremos analisá-la; mas antes de prosseguir-se, observe o que o próprio Hugo diz: “Existem duas coisas por meio das quais alguém é conduzido ao conhecimento, a saber, a leitura e a meditação, das quais a leitura vem em primeiro lugar, e é dela que se ocupa este livro, oferecendo os preceitos da arte da leitura. Por conseguinte, são três os preceitos mais necessários a leitura: primeiro, saber o que se deve ler; segundo, em que ordem se deve ler, isto é, o quem vem e o que vem depois; terceiro, de que modo se deve ler[1].

Como foi dito, não se seguirá na análise cuidadosa do “Didascalicon”, mas de outra de Hugo, igualmente importante, que também versa sobre a arte da leitura e da meditação; uma obra mais simples, no entanto, em nada perde em elegância e grandeza; é um pequeno opúsculo, “De Modo Dicendi et Meditandi[2] (Sobre o Modo de Aprender e Meditar); é um texto muito interessante que contém lições preciosas sobre o aprender e o meditar.

Assim, tecer-se-á algumas nótulas aos pressupostos elencados por Hugo de São Vítor neste opúsculo referido.

 

§ 1

 

O primeiro pressuposto elencado por Hugo é sobre a humildade: “Humilitas discera volenti necessaria”.

A humildade é necessária a quem deseja aprender; é o caminho para se seguir rumo ao conhecimento. Mas porque a humildade? Porque a humildade diz muito a respeito da postura que aquele que estuda tem de ter diante do saber.

Se o princípio do amor pelo saber, na perspectiva cristã, começa com a humildade, duas coisas devem ser elencadas: a primeira, a raiz desta humildade; segundo, os pressupostos do estudante.

A primeira, a raiz desta humildade; e sobre isso o texto sagrado é claro: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 1.7a). A raiz da humildade é o temor do Senhor. 

A segunda, sobre os pressupostos do próprio estudante. O próprio Hugo continua o texto interligando a virtude intelectual primeira, a humildade, com três pressupostos advindo dela para a vivência prática do estudante; ei-los: (1) o primeiro é que se não tenha como vil nenhuma ciência ou nenhum texto; (2) o segundo é que se não envergonhe de se aprender de ninguém; (3) o terceiro é que, ao alcançar-se a ciência, não se despreze os demais.

Nestes três pressupostos do estudante, se caminha rumo a muitos frutos bons em relação ao conhecimento, tanto que segundo Hugo, se alcança maior sabedoria quando se quer aprender de todos. Além disso estes três pressupostos também ajudam o estudante no caminho da veracidade e integridade intelectual, que Hugo, para exemplificar, cita o texto bíblico: “Examinai tudo. Retende o bem” (1Ts 5.20).

Após isso, Hugo conclui o primeiro pressuposto sobre o modo de aprender e meditar, pronunciando sábias palavras: “Nunca presuma de sua ciência; não queira parecer douto, mas sê-lo; busque o dito dos sábios, e procure ardentemente ter sempre os seus vultos diante dos olhos da mente, com um espelho”.

Este é o caminho da humildade que todo aqueles que de dedica aos estudos tem de palmilhar com esmero e perseverança.

 

§ 2

 

O segundo pressuposto elencado por Hugo é sobre as três coisas necessárias ao estudante: “Studenti tria necessaria”.

Hugo prossegue elencando três coisas que são necessárias ao estudante: uma em relação a natureza do estudo; a segunda, em relação ao exercício; e ainda sobre a disciplina da vida de estudos.

Sobre a natureza do estudo, que se analise com cuidado o que foi ouvido, e que assim, firmemente se retenha o que foi ouvido e percebido, meditando e ruminando o que fora aprendido.

Em relação ao exercício, deve ser cultivado o senso natural de trabalho e diligência; é a condição natural do que procura algum trabalho; e a diligência é uma qualidade essencial a se ter para que este trabalho seja bem feito e produtivo.

E, em relação a disciplina, que vivendo para a glória de Deus, se faça dos costumes, dos hábitos, um caminho para a ciência; na verdade o melhor lustre ao móvel do estudo, é a disciplina que se manifesta em prática e vivência.

Além disso, segundo Hugo, o estudante deve primar pelo engenho e pela memória; os dois juntos, pois um sem o outro estará fadado ao fracasso; eles são como as duas asas da ave, sem as quais a mesma não voa; o engenho refere-se ao uso, que quando em trabalho imoderado é embotado, e que quando em exercício moderado e constante é aguçado. Já memória segundo Hugo é a firme percepção das coisas, na alma.

Além disso, a noção de memória estava presente em Santo Agostinho; o bispo de Hipona fala sobre as maravilhas da memória; ele assevera: “Chegarei assim ao campo e aos vastos palácios da memória, onde se encontram os inúmeros tesouros de imagens de todos os gêneros, trazidas pela percepção. Aí é também depositada a atividade de nossa mente, que aumente, diminui ou transforma, de modos diversos, o que os sentidos atingiram, e também tudo o que foi guardado e ainda não foi absorvido e sepultado no esquecimento[3].

Por isso, Hugo dissera que a memória é principalmente ajudada e fortificada pelo exercício da meditação e de se reter o que aprende.

Além disso, mesmo em meio as maiores vicissitudes, é possível que a memória sirva como elemento para se chegar ao consolo; o profeta Jeremias, em suas lamentações segreda: “Quero trazer a memória aquilo que pode me dar esperança” (Lm 3.21).

Portanto, memorizar o que se aprende, dá esperança à inteligência de que a mesma pode aprender mais e mais, num caminho sempre ascendente.

 

§ 3

 

O terceiro pressuposto elencado por Hugo é sobre a meditação: “De meditatione”.

Hugo prossegue no terceiro pressuposto, anunciando as ações que fortalecem o engenho; são duas: a leitura e a meditação.

Em relação a leitura, se estabelece pela investigação do sentido. E a leitura, para que se fortaleça o engenho; Hugo identifica três formas de ler, ou três tipos de leitores: (1) a daquele que lê o livro para alguém; (2) a daquele que lê o livro para o mestre; (3) a daquele que lê o livro por ele mesmo.

Nestes três tipos de leitores, alguns pontos devem ser destacados: primeiro, é sobre o leitor que lê o livro para alguém; ele o faz para que aquele que o ouve possa assimilar através de sua leitura o máximo de conteúdo possível, e então, na interpretação da leitura, perceber as nuances da linguagem, e da escrita do autor.

O segundo aspecto, é sobre o leitor que lê o livro para o mestre; e o faz tanto para demonstrar o aprendizado na leitura, quando para o mestre verificar se ainda existe alguma falta na leitura.

O terceiro aspecto, é sobre o leitor que lê o livro por ele mesmo; é o ato do leitor que busca aprender; ele lê, e na leitura reponta o primeiro estágio de seu aprendizado; sem leitura não há como aprender; sem leitura, não há aprendizado; assim, o leitor se põe diante do livro como alguém que quer aprender, e ao lê-lo o faz diante de si, como aquele que tem de aprender do livro, e que tem de aprender a aprender do livro, bem como guardar o que aprender em sua memória.

Nestes atos da leitura, reponta o fato de o leitor em cada livro ter um mundo novo.

C. S. Lewis fala sobre os tipos de leitores, e o compará-los identifica os que leem sem ler, e os que leem lendo; para ele essa era a diferença básica entre os leitores comuns e os literatos; quanto aquele lê de forma displicente, este lê de maneira atenciosa e proveitosa.

Lewis então, comenta a verdadeira postura do leitor diante de um livro, a postura daquele que realmente quer aprender sobre o livro e do livro. Ele confessa - e esta deve ser a confissão de todo leitor: “ao ler a grande literatura, eu me torno mil homens e, mesmo assim, continuo a ser eu mesmo. Tal como o céu noturno no poema grego, eu vejo com uma miríade de olhos, mas ainda sou eu quem o vê[4].

 

§ 4

 

O quarto pressuposto elencado por Hugo é sobre os três gêneros de meditação: “Mediationis tria genera”.

Após elencar que para o engenho é necessário a leitura, ele prossegue no segundo ponto, sobre a meditação; quem quer aprender realmente a ler precisa também aprender sobre a meditação.

A meditação sucede a leitura, não pelos mesmos processos da leitura, mas para cristalizá-la; Hugo diz que o princípio da doutrina está na leitura, e sua consumação na meditação. Na verdade, no próprio ato da meditação reponta um princípio também da vida chamada piedosa; Hugo diz: “Quem aprender a amar com familiaridade e a ela se dedicar frequentemente tornará a vida imensamente agradável e terá na tribulação a maior das consolações”.

A meditação é um ponto de fundamental importância aos meios de graça da vida cristã. O convite a leitura e a meditação nas Sagradas Escrituras é uma regra básica da vida cristã: “Não se aparte da tua boca o livro desta Lei; antes, medita nele de dia e noite, para que tenhas o cuidado de fazer conforme tudo quando nele está escrito...” (Js 1.9).

E para ajudar a compreensão a respeito da meditação, Hugo também apresenta três gêneros da mesma: (1) no exame dos costumes; (2) na indagação dos mandamentos; (3) na investigação das obras divinas.

Em relação ao primeiro, é uma constante da vida: o auto-exame; tantos dos seus próprios costumes, que dá origem a moral, quando dos costumes da ordem social vigente, para saber se a sociedade caminha com ordem ou com desordem. O auto-exame é uma característica fundamental para a meditação. Sócrates dizia que uma vida sem reflexão não é digna de ser vivida.

Em relação ao segundo, é sobre os mandamentos; é sobre indagá-los; não no sentido de criticá-los, mas no sentido de perguntar o que eles querem dizer, e assim, compreender o que significam para pô-los em prática. A indagação dos mandamentos, se torna um nexo na indagação dos costumes, já que os mesmos tem de ter um padrão para serem analisados.

Em relação ao terceiro, é a respeito da investigação das obras divinas; o mais sublime objeto de leitura e meditação; o mais excelso conteúdo, ao qual o leitor submete sua atenção; o salmista declarou: “Grandes são as obras do Senhor, procuradas por todos os que nelas tomam prazer” (Sl 111.2).

 

§ 5

 

O quinto pressuposto elencado por Hugo é sobre confiar a memória o que se aprende: “Memoriae commendanda quae sumus edocti”.

É a memória que guarda tudo que o engenho busca, e encontra; segundo Hugo é ela quem custodia o que foi aprendido.

A relação da memória com o aprendizado é muito importante, já que da mesma forma como o engenho é embotado pelo mal uso, assim também a memória pela falta de uso se embota; a memória também precisa de exercício equilibrado para estar bem afiada, e assim, poder se entregar, confiar a ela o que se aprende.

Mas Hugo fala de um porém; o que se deve confiar a memória o que se aprendeu de uma forma singular, a saber: dividir o que se aprender e recolhê-los, isto é, reduzi-los a alguns pressupostos, numa forma de epílogo, que segundo Hugo é uma recapitulação do que foi dito; a síntese formal do que fora abstraído.

Ainda pode-se elencar que esta ato de redução, pode ser feito através de confiar a memória os aforismos daquilo que se aprendeu. Por isso, sobre a memória, Agostinho diz: “Encontram-se também nela as noções apreendidas pelo ensinamento das ciências liberais e que ainda não esqueci [...] De fato, todas essas realidades não se introduzem na memória. São apenas imagens colhidas com extraordinária rapidez, dispostas como em compartimentos, de onde admiravelmente são extraídas pela lembrança[5].

 

§ 6

 

O sexto pressuposto elencado por Hugo é sobre as três visões da alma racional e sobre a diferença entre meditação e contemplação: “Animae rationali tres visiones. Meditationis et contemplationis discrimen”.

Hugo elenca as três visões (formas de percepção) da alma racional: através do pensamento, da meditação e da contemplação.

Em relação ao pensamento, este é quando a coisa se apresenta à alma em sua imagem, seja pelos sentidos, seja através do baú da memória. A meditação é esquadrinhar o pensamento que se teve, de forma a apreender dele, e assim, poder explicar-se o que sobre o mesmo está obnubilado.

A contemplação é quando a alma contempla as coisas em seus horizontes e perspectivas mais diversas e amplas. O pensamento abre à alma a coisa que se estuda, a meditação confirma e procura entender estas coisas em suas nuances, a contemplação abre as portas dos horizontes desta coisa.

A meditação é sempre sobre o que está oculto a inteligência; a contemplação se dá com coisas que segundo a inteligência são manifestas; a meditação procura buscar alguma coisa singular, enquanto a contemplação se estende a compreensão a variadas coisas.

A meditação, para Hugo, é um desatar do que é intricado. A contemplação, para ele, uma vivacidade da inteligência, que possuindo as coisas, se manifesta numa visão abrangente.

Desta forma, para Hugo, aquilo que a meditação busca, a contemplação possui.

 

§ 7

 

O sétimo pressuposto elencado por Hugo é sobre os dois gêneros de contemplação: “Contemplationis duo genera”.

Hugo prossegue para os dois gêneros de contemplação: um aos principiantes, outro aos perfeitos.

A contemplação dos principiantes, consiste na consideração da obra da criação; a contemplação dos perfeitos, consiste na contemplação do Criador. É a manifestação dos “degraus” na esfera da contemplação: primeiro começa-se com a criação, que manifesta a glória de Deus (cf. Sl 19.1), depois vai-se ascendendo até chegar a contemplação do Criador.

Hugo para exemplificar isso, destaca uma alegoria a respeito de Salomão, que em seus três livros presentes na bíblia: Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos.

Para Hugo, em Provérbios, Salomão principiou meditando; no Eclesiastes, elevou-se ao primeiro grau da contemplação (a dos principiantes); e em Cânticos dos Cânticos, transportou-se ao amor de Deus por seu povo, e o amor do povo de Deus para com Deus.

Estas três fases elencadas por Hugo a respeito de Salomão, ele as identifica como: a primeira, meditação; a segunda, especulação; a terceira, contemplação.

Em relação a meditação, com a perturbação das paixões, que obnubilam a mente inflamada pela piedosa devoção; em relação a especulação, a novidade que fora descoberta sublima a alma em admiração; em relação a contemplação, que alcança a doçura, e a mesma se transforma em alegria e contentamento.

Assim, para Hugo, na meditação tem-se a solicitude; na especulação tem-se a admiração; na contemplação, a doçura.

As três bases, sob as quais todo estudioso deve se edificar: solicitude, admiração e doçura.

 

§ 8

 

O oitavo pressuposto elencado por Hugo é sobre as três partes da exposição: “Tria expositione”.

Hugo então prossegue ao que ele chama de exposição; é a parte sobre o modo de ensinar; já passou pelas formas de aprender, através da leitura, da meditação, da especulação e da contemplação; agora vai a exposição.

Para Hugo a exposição tem três partes: a letra, o sentido e a sentença.

A letra diz respeito as palavras, a concatenação das palavras, que Hugo chama de construção.

O sentido é a linha simples que a letra tem diante de si como seu primeiro semblante.

A sentença, o que a letra e o sentido procuram dizer, é uma mais profunda inteligência, a qual não pode ser encontrada senão através da interpretação.

Para Hugo, para que ocorra uma exposição perfeita, requer-se estas três características: a letra, depois o sentido e depois a sentença.

Nestes três aspectos delineia-se o ato hermenêutico daquele que busca ensinar.

 

§ 9

 

O nono pressuposto é sobre os três gêneros de vaidade: “Vanitatum tria genera”.

Hugo então prossegue alertando sobre os perigos da vaidade, um mal sem par a todo aquele que quer estudar e ensinar, bem como um alerta sobre as vaidades que se possa encontrar no caminho de estudos; por isso, ele enumera três perigos relacionados a vaidade: a vaidade da mutabilidade, a vaidade da cobiça e a vaidade da mortalidade.

A vaidade da mutabilidade diz respeito as coisas que por natureza caducam, se tornam mutáveis e corruptíveis. A vaidade da cobiça diz respeito ao amor desordenado pelas coisas mutáveis e vãs. A vaidade da mortalidade diz respeito a condição humana, a vaidade da vida, que passa como um sopro (cf. Tg 3.14).

Estas vaidades, respectivamente, são tidas pelo evangelista dos segredos de Deus como as concupiscências deste mundo: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida (cf. 1Jo 2.16).

Por isso, ao entender estas vaidades, deve-se prosseguir de forma que não se deixe dominar por elas; as quais, no mais das vezes, são facilmente sedutoras e mortíferas.

Assim, não se deve apegar a nenhuma de suas manifestações, mas sim fugir das mesmas, e prosseguir rumo a meditação e avançar paulatinamente aos seus estágios.

 

§ 10

 

O décimo pressuposto elencado por Hugo é sobre as obrigações da eloquência: “Eloquentiae munia”.

Hugo fala sobre a eloquência e para tal, emprega uma expressão de Santo Agostinho que diz que o homem eloquente deve falar a fim de que ensine, deleite e submeta; que em suma são as normas da arte retórica.

O ensinar refere-se a necessidade, o deleite a suavidade deste ensino à alma, e o submeter à vitória na explicação e aplicação deste ensino.

Hugo prossegue analisando e descreve ao que se refere estes três tópicos: um pelas coisas que dizemos, e os outros dois, pelo modo com as dizemos; o que cumpre isto cabalmente, é verdadeiramente um homem eloquente, isto é, é alguém que ensina em sinceridade e verdade.

No mais, Hugo elenca novamente Santo Agostinho, quando este diz que será eloquente aquele que puder ensinar o pequeno com humildade, o moderado com moderação e o grande com elevação. Em suma, nisto concerne a arte de ensinar, a qual só é dominada por aqueles que dominaram e vivenciam plenamente a arte de aprender. 

***

E termina aqui estas nótulas ao “De Modo Dicendi et Meditandi” de Hugo de São Vítor. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém. 



[1] Hugo de São Vítor, Didascalicon: Sobre a Arte de Ler [Campinas, SP; Kírion, 2018], pág. 25-27.

[2] cf. PL 176, pág. 877-880. Quanto a este texto se tem uma tradução disponível na internet como “O Modo de Aprender e Ensinar”, a qual é muito boa. Por isso, se o prezado leitor quiser verificar é um texto aberto e que está disponível para leitura na internet. 

[3] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São Paulo: Paulus, 2002], livro X, cap. 8, n. 12, pág. 278.

[4] C. S. Lewis, Um Experimento em Crítica Literária [Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019], pág. 151-152.

[5] Santo Agostinho, Op. Cit., livro X, cap. 9, n. 16, pág. 281. 


18/02/2021

Cristianismo e Graça Comum

I

 

Uma questão que, de certa forma, suscitou debates e mais debates em relação a teologia foi a respeito da relação entre o cristianismo e a graça comum.

No entanto, a graça comum para o cristianismo é uma doutrina fundamental, principalmente no que diz respeito as operações divinas no mundo; mas, nem sempre as formas, o conteúdo e as explanações da doutrina estão límpidas e harmoniosas tal como devem ser; por isso, tem-se tanta confusão a respeito deste assunto.

Para clarificar esta questão, propomo-nos a analisar a questão sob alguns prismas, os quais são: a questão de um ponto de contato nas Escrituras, a questão do resgate do lugar e da importância da doutrina da Graça Comum para o cristianismo, a questão do entendimento das manifestações da Graça Comum no mundo como um todo, a questão da salvação e sua relação com a Graça Comum, e a questão do senhorio de Cristo e sua relação com a Graça Comum.

 

II

 

Para começarmos a entender a relação entre cristianismo e graça comum, temos de voltar brevemente ao período apostólico; elencar-se-á um exemplo, o discurso do Apóstolo no Areópago, que situa-nos muito bem nesta questão; o Apóstolo faz um discurso explicando aos filósofos ali presentes sobre o “Deus Desconhecido”: “Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas; e de um só fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação, para que buscassem ao Senhor, se, porventura, tateando, o pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós; porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração” (At 17.25-28).

O discurso do Apóstolo é um monumental exemplo de como se deve tratar essa questão. O Apóstolo diz que o Deus que aqueles homens no Areópago chamavam de “Desconhecido”, era o Criador de todas as coisas, o Deus verdadeiro; e isto é algo interessante, isto é, o Apóstolo encontrou um “ponto de contato” na filosofia grega para falar do Deus verdadeiro, como também o encontrou na poesia: “como também disseram alguns de vossos poetas”.

Este “ponto de contato” fora ampliado por alguns teólogos posteriores na tentativa de entender a filosofia de forma geral, e a cultura grega como um todo, e sua contribuição para a fé cristã, como por exemplo, fizeram São Justino Mártir, São Clemente de Alexandria e outros; assim, figurou na patrística a tentativa de entender como era essa relação de filosofia grega e teologia cristã, das contribuições do saber grego para a reflexão teológica.

No decorrer dos tempos, houveram outros teólogos que trabalharam a questão; na escolástica medieval houve a síntese com o pensamento aristotélico, o qual grandemente contribuiu para a estrutura granítica, límpida, harmoniosa e estupenda das Summaes; Santo Tomás Aquino é o maior exemplo deste tipo de síntese.

 

III

 

O polímata holandês Abraham Kuyper diz que houve um “longo esquecimento” da doutrina da graça comum; e nisso está totalmente certo; Kuyper assevera: “... era necessário, portanto, que séria e precisamente o antigo dogma da graça comum fosse removido do pó das eras e colocado diante de nós em clara luz. Aquele que se fecha no círculo de sua instituição eclesiástica fica satisfeito com o estudo da graça particular; mas quem recebeu a vocação de atuar também no campo científico, cívico e pedagógico, deve orientar-se também no campo que está além da instituição das igrejas, e esse mesmo campo permanece além do horizonte de nossa fé, a menos que cheguemos seriamente a termos com aquela maravilhosa doutrina da graça comum, que nos explica o regimento de Deus na vida extra-eclesiástica[1].

A Graça Comum é o elemento que ajuda aqueles que tem vocação extra-eclesial, isto é, aqueles que atuam no mundo, sejam nas ciências, nas artes, na política, no ensino, e para estes, a Graça Comum funciona como um elemento ordenador e unificador para que entendam a realidade a partir das Escrituras, e assim a aplicação da Graça Comum a cada esfera da vida comum funciona como este elemento que unifica suas crenças como cristãos e suas atividades nas mais diversas esferas da vida.

Ainda, o resgate da Graça Comum do “pó das eras” também funciona como um propulsor no resgate de um dogma de suma importância para a Igreja; tende-se a se valorizar somente a questão da graça particular, da salvação, e isto, porque muito em sua vocação única em relação a Igreja, não conheciam a questão da graça comum, ou não se interessam para ajudar nas questões envolvendo este mundo e ação cristã. No entanto, o resgate da Graça Comum é de vital importância, e mesmo àqueles que não tenham vocação pública secular é necessário que também ensinem todo conselho de Deus, de maneira eficaz e eficiente.

Entretanto, este resgate não é algo muito simples, apesar da latente necessidade; assim, pensa-se no resgate do baú do tempo deste dogma essencialmente cristão, mas, no entanto, a figuração desta doutrina ainda enfrenta sérias dificuldades em relação a aceitação e entendimento por parte de muitos na Igreja.

Isto provém devido a um entendimento obscurecido a respeito da Criação; os cristãos sabem e confessam que Deus criou todas as coisas do nada, que Ele mesmo sustenta sua criação pela sua palavra criadora (cf. Jo 1.1-3; Hb 1.3); também sabem da corrupção do pecado, e de suas consequências nefastas, porém, não entendem a maneira como as Escrituras denotam a questão de que Deus preserva ainda as coisas da corrupção total pela sua Graça, que preserva e conserva na humanidade coisas boas, as quais ainda que não sirvam para a salvação, no entanto, em relação as atividades humanas são essenciais.

Se não fora esta obra de preservação pela Graça divina para com a Criação, o mundo a muito já estaria num caos interminável. Por isso, o filósofo holandês Herman Dooyeweerd diz: “Pela Palavra criadora, por meio da qual todas as coisas foram feitas e que se fez carne como Redentor, Deus também sustenta o mundo caído pela 'graça comum', ou seja, a graça dada à comunidade da humanidade como um todo, sem distinção entre pessoas regeneradas e apóstatas. Porque também o homem redimido, em sua natureza pecaminosa, continua a ser parte da humanidade caída. Por meio da graça comum, a difusão do pecado é restringida e a demonização universal da humanidade caída é refreada, de modo que centelhas da luz do poder, da bondade, da verdade, da justiça e da beleza de Deus ainda brilham mesmo em culturas conduzidas pela apostasia[2].

IV

 

Ora, basta olhar para a história das religiões e observar quanta coisa elas construíram em algumas culturas e que permanecem até hoje com o sensus aestheticus, com o sensus religare, e o sensus relere; todas as religiões procuram dar uma resposta a estes dois sensos: o de religar e o de reler. Dois sensos que trabalham juntos no coração humano, já que este é o órgão da religião: religar para poder reler, reler para poder religar.

Rudolf Bultmann fala sobre uma espécie de conexão existente entre a fé cristã, enquanto religião, e as religiões em geral; Bultmann afirma: “No caso de se entender a fé cristã como fenômeno da religião em geral e, segundo a sua conceituação cristã, como o fenômeno religioso supremo, e se além disso se entender ainda a religião como fenômeno do espírito humano, fica naturalmente subentendido por si mesmo que existe uma concatenação contínua entre a religião cristã e as religiões não-cristãs. A observação histórico-religiosa parece confirmar esse parecer, pois sem dúvida alguma pode-se encarar as religiões pagãs como estágios preliminares ou fenômenos paralelos à religião cristã; poder-se-á afirmar ainda que nesta alcançou seu desenvolvimento pleno aquilo que naquelas está presente apenas de forma embrionária, ou que neste veio a se consumar aquilo que naquelas, por causa de algum descaminho, atingiu forma distorcida ou menos perfeita[3].

Por exemplo, a China, uma cultura milenar, que se mantém através dos tempos com os mesmos princípios, os quais, quando analisados no fundo, se observa algo em comum com os princípios que conduziram a sociedade ocidental, conquanto o motivo religioso chinês (ou o de qualquer outra religião oriental) seja totalmente oposto ao cristianismo.

Outrossim, o Dr. Albert Schweitzer dissera algo interessante sobre o pensamento e a cultura indiana; ele elenca que o pensamento indiano, em toda a sua grandeza e extensão, difere do pensamento do Ocidente, devido a questão de sua cosmovisão ser diferente; Schweitzer diz: “Sabemos muito pouco sobre qualquer pensamento exceto o nosso, especialmente sobre o pensamento indiano. A razão pela qual é tão difícil familiarizar-se com isso é que o pensamento indiano, em sua própria natureza, é totalmente diferente do nosso próprio, em grande parte devido ao que a ideia de mundo e negação da vida desempenha nele. Ao passo que nossa visão de mundo europeia moderna, como a de Zaratustra e dos pensadores chineses, é, em princípio, uma afirmação do mundo e da vida. A afirmação do mundo e da vida consiste nisto: que o homem considera a existência como ele a experimenta em si mesmo e como ela se desenvolveu no mundo como algo de valor per se e, portanto, se esforça para deixá-la atingir a perfeição em si mesmo, enquanto dentro de sua própria esfera de influência ele se esforça para preservá-lo e promovê-lo. A negação do mundo e da vida, por outro lado, consiste em considerar a existência como ele a experimenta em si mesmo e como ela é desenvolvida no mundo como algo sem sentido e doloroso, e ele resolve de acordo (1) paralisar a vida em si mesmo mortificando sua vontade de viver, e (2) renunciar a todas as atividades que visam a melhoria das condições de vida neste mundo[4].

O grandioso, profundo e sempre atual estudo do Dr. Schweitzer nos mostra algo interessante, a saber: a estrutura interna do pensamento indiano e seu caráter de antítese totalmente enraizado no que o bom doutor chama de “negação do mundo e da vida”; é uma espécie de misticismo indiano, que demonstra que a vida é, para o pensamento indiano, algo extremamente doloroso, algo que não vale a pena; deste princípio no pensamento indiano surge a questão das castas, e muitas outras coisas.

No entanto, ainda não seja nosso objetivo analisar a questão do pensamento indiano em profundidade, a questão que o bom doutor trabalha, ajuda-nos muito a compreender a antítese do pensamento indiano, onde, devido a questão da formação religiosa indiana, com raízes no antigo xamanismo, é um exemplo apodítico de uma cultura que se edificou em oposição ao que se entende por graça comum.

Aí surge o questionamento: como eles poderiam edificar o pensamento em relação a graça comum, se naquela época nem existia o conceito? Simples, uma raiz da graça comum nas culturas ao longo da história é vista pela questão da afirmação do mundo e da vida; quando não, a rejeição da lei natural foi tão profunda que gerou uma rejeição do mundo e da vida; entretanto, mesmo assim, ainda existe ali a questão da Graça Comum, no entanto, muito obnubilada pela forma como se encara a realidade.

O Dr. Schweitzer também fala que o princípio de negação do mundo e da vida também se conflui na recusa e na renúncia a todas as atividades que visam a melhoria das condições de vida neste mundo; se há esta rejeição no campo prático da própria ação humana, logo, não há possibilidade de se ter uma doutrina que fale sobre esta questão; agora observe a situação, em algumas áreas do cristianismo ocorre a mesma rejeição, nos mesmos princípios do pensamento indiano; o que é uma lástima, mas é justamente por isso que se faz necessário resgatar o dogma da graça comum do “pó das eras”.  

 

V

 

Analisemos, pois, a questão das manifestações da graça comum; ainda se pode observá-la na edificação literária dos povos; grandes obras foram talhadas; entre os gregos a obra de Homero, um grande monumento da inteligência humana: uma poesia incomparável; entre os romanos, basta lembrar de Virgílio, o grande poeta ocidental; e muitos outros exemplos: Dante, Camões, Cervantes, Shakespeare, Milton, Vieira, Dickens, Dostoiévski, Machado, etc.

Isto é um reflexo da graça comum, bem como a filosofia grega, o direito romano, ou ainda a filosofia árabe, e similares; e isto, porque Deus, pela sua Palavra criadora sustenta todas as coisas; agora, imagina se não houvessem leis que freassem as situações adversas do meio social, imagina se não houvesse o direito para estabelecer as normas naturais e positivas para a formação de um Estado de Direito; quanto a isso, basta observar a ordem social indiana, uma estrutura da negação do mundo e da vida, a qual é totalmente desordenada.

Por isso, Dooyeweerd assevera: “Por meio da graça comum, Deus, em primeiro lugar, sustenta as ordenanças de sua criação e por meio delas mantém a ‘natureza humana’. Essas ordenanças são as mesmas para cristãos e não cristãos. A graça comum de Deus é evidente no fato de que, mesmo o mais ímpio governante deve, continuamente, inclinar-se e capitular diante dos decretos de Deus se quiser que os resultados positivos de suas obras sejam duradouros. Mas, sempre que essas ordenanças, diversificadas no tempo, não sejam compreendidas a aceitas à luz de sua raiz religiosa (o mandamento religioso de amor, de serviço a Deus e ao próximo), uma capitulação ou sujeição a elas permanecerá como algo meramente incidental ou fragmentário. É por isso que a cultura apóstata sempre revela uma desarmonia, proveniente de uma atitude idólatra, que torna absolutos certos aspectos da criação de Deus à custa de outros aspectos igualmente essenciais[5].

A questão vai desde a preservação da natureza humana em sua forma única, isto é, nas características que o definem como ser humano, ainda que distante de Deus: é isso que diz o filósofo quando fala em manter a “natureza humana”, isto é, as características essenciais do ser humano em seu corpo, alma e espírito.

Outra coisa dita é sobre a graça comum que opera nos governantes; é a verdade, a qual diz o profeta Daniel: “ele remove os reis e estabelece os reis” (cf. Dn 2.21b); também, a sabedoria bíblica adverte que pela sabedoria divina é que os reis governam: “Por mim governam os reis, e os príncipes ordenam justiça” (Pv 8.15).

A sabedoria bíblica também exclama sobre a forma como o Senhor conduz os reis e os governantes deste mundo: “Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do SENHOR; a tudo quando quer o inclina” (Pv 21.1). O Senhor inclina o coração dos governantes, seja através de sua vontade soberana, seja através de vontade permissiva, seja através dos elementos da graça comum; pois quando o rei se ensoberbece contra as ordenanças divinas, ocorre aquilo que o filósofo holandês dissera: então a sujeição e o respeito do povo serão apenas algo fragmentado e pueril, e, logo, o principado, o governo, o reinado se tornará algo imperito, ineficiente, corrompível e corruptível, e assim, não honrará a Deus nem a sua Palavra e não servirá para o bem do povo. 

Assim, compreende-se que a graça comum não tira a completa diferença entre os princípios bíblicos e os princípios pagãos; na verdade, torna-os mais límpidos, principalmente na esfera extra-eclesial; Dooyeweerd afirma: “Em tudo isso, é imperativo entender que a ‘graça comum’ não enfraquece nem elimina a antítese (oposição) entre o motivo básico da religião cristã e os motivos básicos apóstatas. A graça comum, de fato, só pode ser entendida sobre a base da antítese. Teve início com a promessa feita no paraíso de que Deus poria inimizade entre a semente da serpente e a semente da mulher, da qual Cristo haveria de nascer. A raiz religiosa da graça comum é Jesus Cristo, o Rei, sem o qual Deus não olharia para sua criação caída com graça[6].

 

VI

 

A graça comum além de ser um dogma importantíssimo do cristianismo também contribui para que a vivência da Igreja neste mundo seja feita com prudência e equilíbrio, para não cair numa espécie de misticismo oriental que, como no pensamento indiano, estabelece para si a negação do mundo e da vida. Notadamente, a fé cristã é diametralmente oposta a esta perspectiva de negação do mundo e da vida, conforme aparece no pensamento indiano, que, por mais incrível que pareça, está se formando em muitos locais do mundo ocidental. 

Herman Bavinck fala sobre a importância do cristianismo, que as pessoas percebem sua importância a medida que se desvinculam dos ídolos da época: “Quem se liberta dos ídolos da época, da opinião pública, dos preconceitos dominantes na ciência e na escola; quem olha para si mesmo, sóbrio e vigilante, e que assume o mundo e o homem, a natureza e a história, como eles realmente o fazem, a convicção é sempre mais fortemente imposta a si mesmo de que o cristianismo é a única religião cuja contemplação do mundo e da vida se ajusta ao mundo e à vida[7].

O cristianismo é a única religião que em sua contemplação do mundo e da vida oferece respostas satisfatórias e necessárias a estas questões. Por isso, o cristianismo é a única religião que se ajusta ao mundo e à vida, não porque se ajusta no sentido de se submeter, mas se ajusta no sentido se ser a única cosmovisão que demonstra o todo como ele é, e as partes como elas são.

Assim, é um fato inegável que a graça comum é um elemento presente na história da humanidade, e como o cristianismo também faz parte desta história, logo, sua importância como coluna e firmeza da verdade (cf. 1Tm 3.15) para guardar a verdade.

Dooyeweerd afirma: “A revelação da graça comum de Deus, apresentada à sua criação caída como uma totalidade ainda integral, protege a cristandade bíblica do orgulho sectário que leva um cristão a fugir do mundo e a rejeitar, sem motivo, tudo o que surge na cultura ocidental, além da imediata influência da religião. Lampejos da glória original da criação de Deus brilharão em todas as fases da cultura, em maior ou menor grau, mesmo que o desenvolvimento humano tenha ocorrido sob a orientação de poderes espirituais apóstatas. A humanidade não pode negar esse fato sem ser acusada de grande ingratidão[8].

A história, bem como a cultura caminham sob a égide do comando divino, sob a atuação da Graça Comum; este é o princípio fundamental da filosofia cristã da história, bem como o ponto de partida para a investigação a respeito do conteúdo e da formação da história como um todo organizado e sistemático.

E esta questão se sobreleva no entendimento de que “a graça comum...  coloca todo o curso da cultura humana em seu campo de visão. Ele afirma que a graça comum é, em grande medida, responsável por fazer da história como um todo o que foi, é e continuará sendo[9].

A questão é por demais complexa e requer uma série exaustiva de explicações, no entanto, para clarificar brevemente a questão, esta sentença acima evocada é uma chave hermenêutica no entendimento sobre graça comum; e uma chave, porque, se todo o desenvolvimento da história o é desta forma, devido a operação da graça comum, logo, só há a possibilidade de se entender a história, quando se entende a graça comum; por isso, a graça comum é uma parte integrante da filosofia cristã da história.

Assim, o cristianismo enquanto coluna e firmeza da verdade, assim como uma religião histórica, também é fonte para que a doutrina da Graça Comum seja preservada; desta forma, cristianismo e graça comum se interligam tanto por causa desta ser uma doutrina fundamental, bem como por causa da mesma ser um elemento fundamental para que o cristão interprete a história, e ainda, por causa da validade desta se formar como uma fonte para elucubração sobre como a Igreja e o cristão devem agir no mundo nas mais diversas esferas da vida humana: da família ao trabalho, da Igreja ao estado, da universidade ao seminário, da catedral a humildade capela, da religião a ciência, do homem de estudos ao simples camponês, da mansão a palafita, da filosofia a teologia, etc.

 

VII

 

A questão a respeito da Graça Comum só é entendida cabalmente quando se entende seu lugar em relação a graça particular, isto é, em relação a Salvação. Assim, salvação e graça comum se confluem num mesmo patamar doutrinário, pois são manifestações da graça de Deus, esta uma graça irradiada a todos os homens, os daquela, uma graça particular, irradiada aos eleitos para a salvação eterna.

Há uma expressão do salmista que muito se eleva devido a sua simplicidade tanto quando por sua profundidade; é quando ele fala sobre as benignidades do Senhor para com seu povo, e dentre estas, ele fala sobre a maior destas, a saber: a salvação, a redenção; o salmista diz: “É ele que perdoa todas as tuas iniquidades e sara todas as tuas enfermidades; quem redime a tua vida da perdição e te coroa de benignidade e de misericórdia” (Sl 103.3-4).

A questão sobre a salvação deve ser demonstrada em seus termos bíblicos, a saber: como uma obra divina; somos salvos, e somo-lo por causa da atuação divina; não é por obras, mas pela fé, mediante a graça; o Apóstolo diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9).

E Deus ao salvar é soberano, Ele é totalmente livre para salvar quem quer; o profeta Isaias pronuncia que o Senhor é o Salvador: “Porque eu sou o Senhor, teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador; dei o Egito por teu resgate, a Etiópia e Sebá, por ti” (Is 43.14); e ainda nas palavras do próprio Senhor: “Olhai para mim e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” (Is 45.22), e também: “Faço chegar a minha justiça, e não estará ao longe, e a minha salvação não tardará; mas estabelecerei em Sião a salvação e em Israel, a minha glória” (Is 46.13).

E, a partir destes aspectos, chega-se a algumas conclusões:

Primeiro, se a doutrina da liberdade soberana de Deus, na qual Ele escolhe quem quer, é um pilar da fé.

Segundo, se o Redentor é o próprio Senhor, logo, é Ele mesmo quem dá vida a Igreja tenha vida.  

Terceiro, se o Redentor é quem anuncia a Salvação, e conclama aos homens que se voltem a Ele, e olhem para Ele, logo, a própria conceituação da salvação é a partir da obra divina.

Quarto, se a graça salvífica é obra divina, logo, a graça comum também o é, já que ambas estão interligadas, e que Deus somente olha com graça para com sua criação, devido a morte de Seu Filho, o qual estava morto antes da fundação do mundo (cf. Ap 13.8); assim, a graça comum é uma obra divina, a qual o Criador concede aos homens a capacidade de entender seu pensamento imbuído na Criação, e isto devido a Redenção.

Por isso, Bavinck assevera: “É a graça comum que torna possível a Graça especial, prepara o caminho para ela, e depois lhe dá o suporte; e a Graça especial por sua vez, ergue a graça comum ao seu próprio nível e coloca-a a seu serviço. Ambas as revelações têm como proposito a conservação da raça humana; a primeira sustentando-a e a segunda redimindo-a; e desta forma as duas cumprem a sua finalidade, que é glorificar todas as excelências de Deus[10].

 

VIII

 

Outra questão que se sobressai a respeito da graça comum e o cristianismo é sobre o senhorio de Cristo; Cristo é soberano sobre todas as coisas (cf. Fp 2.9-11), e sua soberania observa-se tanto na Igreja quanto no mundo, apesar de que no mundo nem sempre consegue se observar isto com clareza, conquanto seja uma realidade inegável. Por isso, o Senhor Jesus afirmara: “Outra parábola lhes disse: O Reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado” (Mt 13.33).

Por isso, Kuyper afirma: “Em primeiro lugar, na natureza, porque todos os poderes que Deus cria neste mundo como o Criador gradualmente chegam à plenitude. Em segundo lugar, a ação do pecado, que ataca a ordem de Deus. Terceiro, a ação da Graça Comum nas vidas de todas as nações. E em quarto lugar, procedendo da ação de Cristo, que sempre significa a manifestação do reino dos céus e abrange todo o campo de nossa vida humana. A ação da natureza continuou por todas essas idades e, nos últimos séculos, levou a revelações que mudaram completamente a face deste mundo. A ação do pecado não cessou em todas aquelas eras, para suscitar nova justiça e enganar as nações. E da mesma forma a ação da Graça Comum não cessou de trabalhar contra essa injustiça, em parte para detê-la e tornar possível uma vida humana fecunda sob o Governo dado por Deus nos Estados que se tornaram históricos. Agora tudo isso aconteceu, e essa tríplice ação funcionou incansavelmente, cada uma de seu próprio princípio e em virtude de sua própria ordem, e o complexo desse tríplice ação está diante de nós no curso histórico desses dezenove séculos[11].

A questão proposta é um todo bem explicado, sobre o desenrolar da história, a da sagrada e a da profana, que andando juntamente, tem seus governos controlados pelo mesmo Senhor, a saber, Cristo, conquanto, na Igreja seja um governo pessoal e absoluto, e no mundo, um governo permissivo, isto é, na Igreja Cristo governa como o cabeça de um corpo, que é o seu próprio corpo, o qual, tem seus membros, e esses membros são chamados pelo próprio Cristo de irmãos (cf. Hb 2.11), e no mundo, que também é um corpo, mas o corpo da humanidade, onde os homens todos são membros do corpo da humanidade, e assim, estão todos sob o olhar atento do Rei dos Reis; outra questão é a diferença de relacionamento, enquanto todos estão sob a autoridade de Cristo, somente os da Igreja, isto é, aqueles que creem em seu nome, estão sob seus cuidados singulares, e com sua presença eterna.

De fato, a história é o palco dos grandes feitos de Deus, seja em seu povo, seja nas nações; o salmista declara: “O SENHOR tem estabelecido seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Sl 103.19). O próprio Senhor declara ao seu povo: “Atendei-me, povo meu e nação minha! Inclinai os ouvidos para mim, porque de mim sairá a lei, e o meu juízo se estabelecerá como luz dos povos” (Is 51.4).

Desta forma, sendo que provém do próprio Senhor a luz dos povos, bem como o seu reino domina sobre tudo, sabe-se que a manifestação geral do reino de Deus vai dando seus reflexos aos poucos, igual ao fermento que leveda a massa; este é o senso do progresso histórico, bem como a fonte de entendimento que o próprio Senhor, o Salvador, através do estabelecimento de seu Reino, dos princípios e regulamentos deste reino, vai conduzindo a história para seu derradeiro fim, na Consumação.

Por isso, o desenvolvimento histórico é obra da graça de Deus; portanto, “... a graça comum deve ser distinguida. Por um lado, há um efeito isolado da graça comum que, limitado a tempo e lugar, abençoa alguns grupos étnicos, mas que possui apenas um poder limitado de desenvolvimento, e uma vez que o limite desse poder é atingido, ou fica parado ou declina e petrifica. As características dessas operações isoladas de graça comum são: 1°- que é limitado localmente e não se espalha por todo o mundo; 2°- que está temporariamente limitado e tem significado apenas por alguns séculos; e 3°- que depois de um curto período de tempo ela atingiu sua maturidade plena e não pode ir mais longe. E contra isso existe agora uma linha inteiramente diferente de graça comum, que carrega a vida de nossa geração como uma geração e, como tal, avança e avança em nossa vida humana. O fruto desta ação da graça comum é um desenvolvimento humano, que não está vinculado a nenhum grupo de pessoas, mas está destinado a abençoar todas as nações. Um desenvolvimento que não está limitado a um determinado século, mas que continua constantemente no decorrer de todas as épocas. E, finalmente, um desenvolvimento que não está limitado por um certo limite de progresso, mas progride cada vez mais, dando passos gigantescos em cada novo século, não em uma, mas em todas as áreas da vida humana. Ao primeiro tipo de graça comum pertence o que você vê na antiga América, na China, no Japão, na Índia e em parte o que você observa no Islã. O segundo tipo de operação da graça comum, por outro lado, inclui o desenvolvimento humano, que começou na Babilônia e no Egito, então floresceu provisoriamente na Grécia e em Roma, quando foi assumido pelo Cristianismo, e desde então sob os auspícios da Cruz de Cristo já se reproduziu na Europa e na América por dezoito séculos. Em suma, pode-se chamar a primeira de ação especial da graça comum a serviço de certos povos e épocas; a segunda, de ação geral da graça comum a serviço do desenvolvimento de nossa raça humana[12].

Assim sendo, como corolário, pode-se dizer que a graça comum é o meio como Deus concede aos homens a capacidade de entender os pensamentos que inseriu em suas obras; é como se cada aspecto da criação, desde o mais simples até o mais complexo, fosse uma “tese”, uma “resolução” a ser descoberta e estudada, para a glória do próprio Criador, bem como para o bem da humanidade; é isto que dá sentido a existência da ciência, pois sem este princípio a ciência se torna ressequida. E o mesmo se diz da filosofia, das artes e da história como um todo.

E, por fim, que se saiba que este é o propósito de se estudar a graça comum e de verificar as relações básicas e ordenativas entre o cristianismo enquanto religião e a graça comum.

Laudate Deo



[1] Abraham Kuyper, De Geemene Gratie Derde Deel: Het Practish Gedeelte [4° edição. Kampen: J. H. Kok, 1939], pág. 11.

[2] Herman Dooyeweerd, Raízes da Cultura Ocidental: As Opções Pagã, Secular e Cristã [1° edição. São Paulo: Cultural Cristã, 2015], pág. 52-53.

[3] Rudolf Bultmann, Crer e Compreender: Ensaios Selecionados [São Leopoldo, RS: Sinodal, 2001], pág. 218.

[4] Albert Schweitzer, Indian Thought and its Development [Londres: Hodder and Stoughton Limited, 1936], pág. 1-2.

[5] Dooyeweerd, Op. Cit., pág. 53.

[6] Ibidem.

[7] Herman Bavinck, Christelijke Wereidbeschouwing [Kampen: J. H. Bos, 1904], pág. 11.

[8] Dooyeweerd, Op. Cit., pág. 54.

[9] Cornelius Van Til, Graça Comum e o Evangelho [1° edição. São Paulo: Cultura Cristã, 2018], pág. 52.

[10] Herman Bavinck, Teologia Sistemática [Santa Bárbara d'Oeste, SP: SOCEP, 2001], pág. 39-40.

[11] Abraham Kuyper, Pro Rege Derde Deel: Het Koningschap van Christus in Zijn Werking [1° edição. Kampen: J. H. Kok, 1912], pág. 269.

[12] Abraham Kuyper, De Gemeene Gratie Tweede Deel: Het Leerstellig Gedeelte [4° edição. Kampen: J. H. Kok, 1939], pág. 181-182. 


Soneto 9

No tempo da infância, de criança, o aprendizado é tempera à personalidade; por isso, a verdadeira festança é progredir na decência, am...