03/11/2014

Fundamentos que estão sendo destruídos

I

 

Uma das grandes lutas que a Igreja na contemporaneidade tem de travar é a respeito de um fundamento essencial da ordem social, bem como um fundamento essencial da vida humana, a saber: a família. Não se existe vida humana sem esta fundamental instituição. O próprio Deus foi quem estabeleceu a ordem familiar: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gn 2.24). Assim sendo, é de grande urgência uma defesa da família, desta tão importante instituição da vida humana, principalmente por parte da Igreja, que é a coluna e firmeza da verdade (cf. 1Tm 3.15).

Os grandes perigos que rondam a vida da família, são o que Salomão, no principal livro bíblico que trata de assuntos sobre o amor conjugal, que é a expressão de organização da família, chamou de “pequenas raposas” (cf. Ct 2.15). São as pequenas raposas que estão querendo destruir o fundamento da família. As pequenas raposas são mais difíceis de apanhar dos que as raposas grandes, pois o agricultor com problema de visão enxergará facilmente as raposas grandes, mas as raposas pequenas serão de difícil acesso a sua visão.

Por isso, se não for tomado o devido cuidado as raposinhas facilmente destruirão a vinha. É esse princípio que Salomão quer ensinar: não adianta se capturar as raposas grandes que todos veem, mas não capturar as pequenas raposas, que estão debaixo do nariz e estão destruindo pouco a pouco a vinha plantada por Deus no meio dos homens chamada família.

Certamente são grandes as influências que tentam destruir a família. Num tempo onde o positivo, segundo Comte, em sua posição sintética, é o relativo em oposição ao absoluto, se torna evidente que os valores absolutos não são mais toleráveis pela nova sociedade, que se constitui de um novo paradigma, se assim pode-se chamar, de uma suposta “releitura da família”. É um paradigma que tem como princípio reavaliar a realidade do tempo presente à luz do que se entende por família. É um novo modelo para um novo tempo, afirmam os destruidores da família. Mas será que este novo modelo é real, no sentido correto?  É claro que não. Pois, um dos frutos do positivismo é o utilitarismo no campo prático e ético.

 

II

 

O utilitarismo é uma civilização da produção e do desfrutamento da produção, é uma civilização das coisas e não das pessoas. Segundo João Paulo II, “no contexto da civilização do desfrutamento, a mulher pode tornar-se para o homem um objeto, os filhos um obstáculo para os pais, a família uma instituição embaraçante para a liberdade dos membros que a compõe[1].

É muito oportuna a exortação de João Paulo II em relação ao desenvolvimento de uma sociedade utilitarista. Esta sociedade supostamente quer liberdade. Mas como bem se sabe, não existe liberdade sem lei, ou então se terá anarquia. E Comte sabia muito bem disso; no entanto, um dos pontos da crítica de Comte é “o da hierarquia de modo conservador[2]. Portanto, em uma sociedade utilitarista não se terá anarquia na organização dos poderes da sociedade, mas se terá anarquia em relação aos valores absolutos, que consequentemente influenciará a organização dos poderes da sociedade.

Em uma sociedade utilitarista tem-se regras regendo a sociedade como um todo, mas não se tem princípios éticos e morais, e nem religiosos, regendo o indivíduo em si. Segundo o próprio Comte: “em uma palavra, a Humanidade substitui definitivamente a Deus, sem esquecer jamais seus serviços[3]. Portanto, os princípios de uma sociedade utilitarista são completamente contrários aos que Deus estabeleceu como fundamentos para a vida humana. O utilitarismo vitupera os mandamentos de Deus.

Certa feita, o Senhor Jesus ao ser arguido sobre quais eram os dois grandes mandamentos, respondeu: “E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.37-39). E quem é mais próximo do indivíduo em si do que sua família. Por isso, a primeira instância de responsabilidade, e maior delas, em relação ao segundo grande mandamento, é a própria família.

O utilitarismo traz consigo os vermes de uma goiaba podre. Ele traz consigo uma liberdade em detrimento da ética, da moral e da religião. É claro se mantém supostos “princípio éticos e morais”, segundo Comte, alcançados única e exclusivamente pela humanidade. Não existe princípios éticos e morais para o ser humano a parte de Deus. É como disse Dostoievski: “Se Deus não existe então tudo é permitido”. Deus é o verdadeiro e único fundamento absoluto da ordem moral.

Separada dele, a ordem moral desintegra-se, pois o homem não é só matéria; é um ser espiritual, dotado de inteligência e liberdade. João XXIII assevera: “O erro mais radical na época moderna é considerar a exigência espiritual do homem como expressão do sentimento ou da fantasia, ou então como produto de uma circunstância histórica, que se há de eliminar como elemento anacrônico e obstáculo ao progresso humano[4].

Santo Agostinho dissera: “Criastes-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós[5]. Portanto, o ser humano não pode viver independente de Deus, pois quanto mais o ser humano conhece a Deus mais identifica a necessidade d’Ele. Isso é exemplificado na experiência gloriosa do profeta Isaías, que contemplou a santidade de Deus e exclamou: “Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos” (Is 6.5).

Outra grande influência que se casa com o positivismo é a teoria da evolução, tornada popular por Charles Darwin. Em síntese diz que o universo está indo de níveis desorganizados para níveis mais organizados, e isto inclui a vida do homem. A evolução é biológica em sua concepção original, mas se amalgamou a noção positivista de progresso, pois Darwin trabalhou com a seleção natural que diz que somente as espécies mais fortes sobreviverão, e Comte, somente as ideias mais preponderantes vão idealizar o progresso. Portanto, se estabeleceu uma junção ideal para os inimigos da família: positivismo e darwinismo.

Mas novamente, se tudo é progresso e tudo está em evolução, então porque não o conceito de família? Esta é a pergunta motivadora dos destruidores da família. Amalgamaram evolucionismo e positivismo, e, então, se tem a criação da proposição da evolução em vista do progresso positivista; e basicamente tudo passa a ser engendrado nesta proposição.

E a inculturação que provêm desta simbiose, procura a todo custo mudar o conceito original de família, pois se a humanidade está rumo ao progresso tem-se que deixar os valores que supostamente são religiosos, que são tidos como empecilhos ao progresso. Eles querem esvaziar a sociedade de todos os valores bíblicos.

Os positivistas querem se esvaziar de tudo o que for absoluto, pois numa sociedade em progresso, e que está saindo de níveis desorganizados para níveis mais organizados diz o que é absoluto é estático, e para os positivistas tudo que é estático é prejudicial ao progresso.

Por isso, a suposta religião positiva que Comte propugna é uma religião da saída do cristianismo.

 

III

 

Num mundo onde o progresso se vale de tal forma, o religioso se torna anacrônico. Se filosoficamente tem-se o positivismo, logo ter-se-á tudo explicado pela evolução da matéria com exclusão de Deus; se filosoficamente tem-se este pensamento, logo a teologia se chegará ao ponto de assumir o relativismo dogmático. Observe que, neste sentido, parte-se do positivismo de Comte e o evolucionismo de Darwin, o que chega até a influenciar a teologia nos sécs. XIX e XX, gerando a corrupção da teologia.

E a corrupção da teologia nada mais é do que uma teologia impregnada com positivismo, evolucionismo e outros “ismos” disfarçados que minam os dogmas da fé e a vida na fé. As novidades teológicas escondem-se sob a capa da destruição da razão e da verdade. Sob esta capa, se esconde o erro. Com a corrupção da teologia dominando os valores religiosos, por fim ter-se-á:

1. Primeiro, uma busca desenfreada por novidades. Isto atinge principalmente os mais jovens. Numa sociedade onde tudo é progresso, o que aparentemente passou da validade, é anacrônico e precisa ser rejeitado. Nunca se produziu tanto para satisfazer as necessidades alheias de consumo, ao mesmo que em que estas necessidades se tornam em expressão de coisas sempre piores. 

2- Segundo, a ânsia por liberdade-libertinagem. O ser humano é livre por natureza, e isso não há como negar; todavia, o que os homens querem não é a liberdade, mas a libertinagem. Como Michel Quoist disse: “O sonho do homem é ser totalmente senhor de sua existência[6]. Como muito bem disse Quoist, é o que se vê em voga. O ser humano busca intensivamente o que a destruição da cultura desfigurara, e nesta busca acaba por se escravizar numa ânsia doentia pela libertinagem. Conquanto a liberdade seja dogma da fé, e pressuposto inalienável da vida humana, a ânsia pela libertinagem na cultura coeva é na verdade não ânsia da verdadeira liberdade, mas a ânsia da libertinagem sócio-cultural da vida sem Deus.

Estes são apenas alguns dos fatores que a corrupção da teologia traz para a vida da igreja. Uma teologia corrompida não se preocupará em manter a dignidade humana, vista de maneira visível na família.

 

IV

 

A Escritura afirma claramente: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). A palavra grega para Verbo é logos. O Logos do universo é Jesus. Mas segundo o Dr. Gilvan Fogel existe um novo logos, o logos moderno: “O ‘logos’ moderno, isto é, o sentido, a direção, a determinação moderna, que define o novo modo de ser... este moderno ou novo 'logos' determinada toda ação, toda atividade do homem no chamado mundo moderno, isto é, no novo modo de ser[7].

O logos moderno chama-se relativismo. O logos moderno rejeita aquele que é o verdadeiro Logos. O logos moderno deturpa a verdadeira imagem do Logos eterno. A teologia corrompida aceita vários “logos”, mas eles são apenas ídolos vãos e passageiros. Não se pode aceitar que esses falsos “logos”, que vem sob a capa do progresso. O Logos verdadeiro é o Senhor Jesus. Ele é a diretriz, Ele é o caminho, Ele é a verdade, Ele é a vida (cf. Jo 14.6). “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3).

O logos eterno é o que veio para salvar o que se havia perdido (cf. Lc 19.10). Ele veio para restaurar a dignidade do homem. O homem foi criado à imagem de Deus. “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). Mas o Pecado corrompeu esta imagem e semelhança, o Pecado corrompeu a imagem do homem. Mas Jesus veio para restaurar esta imagem e semelhança, para abrir, a quem n’Ele crê, um novo e vivo caminho pelo seu sangue (cf. Hb 10.20), e assim regenerar o homem pelo lavar do Espírito Santo (cf. Tt 3.5).

Portanto, se o Senhor Jesus, o filho unigênito de Deus, o Logos eterno veio para restaurar a condição do homem; então, como os cristãos que professam ser seguidores deste Cristo, podem se render aos falsos “logos” que querem destruir a família. Pois destruído o homem, destruída está a família. E destruída a família se enfraquece a Igreja, e se se destrói a família e se enfraquece a Igreja, então se destrói a sociedade.

 

V

 

O grande projeto de uma sociedade utilitarista é destruir o homem. Michel Quoist diz: “O homem produz cada vez mais e, perpétuo esfomeado, lança-se sobre esses bens sem nunca se sentir saciado. Infernal círculo vicioso, onde as necessidades crescem mais depressa do que nascem as coisas, e onde o homem escravo debruça-se para colher os frutos da matéria, e acaba por cair de joelhos diante desse novo ídolo[8].

O que Quoist disse é de extrema importância, o homem sempre está buscando novas maneiras de se alimentar, mas sempre permanece um esfomeado existencial. O utilitarismo quer deixar o homem cada vez mais com fome, mesmo em meio a tantos manjares podres, ocasionando a desnutrição da alma.

E quanto mais o homem se alimenta dos manjares utilitaristas, mais sente fonte. E a fome em excesso leva a morte. Não a morte física somente, mas a morte emocional e principalmente a morte para as coisas espirituais.

Entretanto, como se fará para vencer estes projetos utilitaristas que querem destruir o homem, a família e a Igreja? Apercebe-se da resposta a esta pergunta através da resposta à outra pergunta, a saber: quem é o homem? E para responder a esta questão precisa-se responder ainda outra questão primeiro: quem é Deus? Santo Agostinho fez esta indagação: “Perguntei-o à terra e disse-me: ‘Eu não sou’. E tudo o que nela existe respondeu-me o mesmo. Interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me: ‘Não somos o teu Deus; busca-o acima de nós’. Perguntei aos ventos que sopram; e o ar, com seus habitantes respondeu-me: ‘Anaxímenes está enganado; eu não sou o teu Deus’. Interroguei o céu, o Sol, a Lua, as estrelas e disseram-me: ‘Nós também não somos o Deus que procura’. Disse a todos os seres que me rondeiam as portas da carne: ‘Já que não sois o meu Deus, falai-me do meu Deus, dizei-me, ao menos, alguma coisa d’Ele’. E exclamaram com alarido: ‘Foi Ele quem nos criou’[9].

Quando se entende o que Agostinho entendeu, e vê-se o Criador, pois, vendo Deus como criador, o ser humano entende a sua grande necessidade. Como o próprio Agostinho declarou: “Criastes-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa Vós”. O ser humano como criatura de Deus só encontra resposta para sua verdadeira necessidade no Criador.

Pois, a grande sede do ser humano não é de coisas, mas sim d’Aquele que pode saciar a fome de eternidade.

Portanto, responde-se a pergunta quem é Deus: Ele é o criador de todas as coisas e de todos os seres humanos.

Entendido isso, se pode prosseguir para a primeira pergunta: quem é o homem? O salmista indagara: “Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?” (Sl 8.4). Esta pergunta é de extrema importância para a nossa vida, para que se compreenda quem se é. Primeiro entende-se quem é Deus, depois entende-se quem é o homem. Deus é o criador e soberano do universo, e quem é o homem? O próprio salmista responde: “Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés: Todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, as aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares” (Sl 8.5-8).

O ser humano é a coroa da criação divina. Portanto, não se pode banalizá-lo a ponto de torná-lo uma coisa, e nem o elevar a ponto de torná-lo um deus. Quando se entende quem é Deus, entende-se o que é o homem, e entendendo-se o que é o homem, pode-se exclamar como o salmista: “Ó SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome sobre toda a terra!” (Sl 8.9).

O salmista exclamou o seu louvor a Deus pela beleza de sua criação. Quando se compreende quem é Deus, e o que é o homem, certamente não cairá nas ciladas de se entregar-se ao próprio “eu” e suas vontades pecaminosas, e assim negar, ignorar ou esquecer a Deus. Pois a ausência de Deus no mundo é o que tanto o degrada.

 

VI

 

Jacques Leclerq cunhara uma enigmática sentença interrogativa: “Aonde vai a igreja de hoje”. Pois, qual será o rumo de uma Igreja que se vende à corrupção da teologia? Qual será o futuro de uma Igreja que se abre para a destruição da cultura em nome da razão e do progresso? A Igreja de hoje tem caminhado a largos passos para uma secularização sistêmica, já que se rende ao secularismo doutrinário a tempos. Vê-se o fruto do positivismo e dos outros “ismos” dentro da Igreja, que se juntam com a secularização.

O que o utilitarismo contribui para a desvalorização da família, a secularização contribui para uma Igreja corrompida. E uma teologia corrompida não poderá lutar contra as destruições dos valores absolutos, pois querendo ou não, a teologia faz parte dessa destruição.

Segundo Louis Markos para os teólogos, e os cristãos, que enveredam pela corrupção da teologia: “O teste final de verdade não é a revelação (a Bíblia e os credos da Igreja), mas a razão; em outras palavras, as doutrinas seriam as verdades eternas reveladas por Deus que a igreja tem preservado, e sim teorias artificiais apresentadas por teólogos cuja bagagem cultural e gostoso morais diferem dos nossos[10].

E, uma Igreja que não anda na verdade está fadada ao fracasso. Pois a verdade eterna permanecerá eterna. O Senhor Jesus disse: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24.35). Por isso, precisa-se resistir à secularização da Igreja, precisa-se resistir à profanação do sagrado. Deve-se sim, batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (cf. Jd 1.3).

A pureza doutrinária é vital à sobrevivência da Igreja, principalmente diante da destruição da cultura e dos inimigos da família.

 

VII

 

Ludwig Feuerbach dissera: “A tarefa dos tempos modernos foi... a transformação e a resolução da teologia na antropologia[11]. Esta frase de Feuerbach faz compreender de maneira clara e concisa no que se tem transformado a teologia hodierna. A teologia, que em síntese é o estudo de Deus, só permanece no nome, pois o que se tem visto sendo chamado de teologia é na verdade antropologia. Estão disfarçando teologia de antropocentrismo. Estão transmutando o estudo sobre Deus no estudo sobre o homem. E qual o problema? O problema está em se transformar o estudo sobre Deus no estudo sobre o homem. Há sim de se estudar sobre o homem, mas somente depois de se estudar sobre Deus; essa é a ordem sistemática da revelação.

Portanto, tem-se de compreender isto se quiser se chegar a algum lugar com a teologia e a antropologia. Urge compreender quem é Deus se se quer chegar a uma compreensão de quem é o homem. É claro que uma boa teologia, uma teologia saudável não irá cometer este erro, esta teologia saberá manter em seu devido lugar a antropologia. Mas numa teologia errônea, a antropologia tende a assumir um lugar que não é dela e isto gera o individualismo, o relativismo e o humanismo secularista, os quais adentram a vida da Igreja.

E a consequência disso é que o mundo de hoje dá muita ênfase no indivíduo em si, na verdade, na divinização do “eu” sem deus. Isto tem gerado um fator degradante na sociedade. O individualismo cria uma ilusão de independência social e espiritual.

Cria-se uma sociedade que faz acepção de pessoas, simplesmente por aquilo que elas têm; deixa-se de ser, para preocupar-se em ter. O ter eleva-se sobre o ser. Os bem materiais se elevam sobre o caráter; e a dignidade passa a ser medida pelo ter. O papa Pio XII dissera que esta época se distingue das outras épocas, pois: “... sua monstruosa obra-prima consiste em transformar o homem num gigante do mundo físico, à custa de seu espírito reduzido a pigmeu, no mundo sobrenatural e eterno[12].

Hoje, o materialismo se transformou num consumismo individualista, pois para supostamente satisfazer a necessidade dos seres humanos consome-se cada vez mais. E o homem que pensa que está se transformando num gigante sozinho não passa de obra de manipulação da massa. Pois, tornando-se consumista se transforma igualmente na massa consumidora. E nisto o indivíduo se torna apenas parte da massificação.

O absurdo da busca por se saciar através do consumo tem sido algo devastador. Este desejo se transforma numa enorme busca por novidades. Uma busca que não tem fim. Uma busca que acaba num ciclo vicioso. Pois sempre que uma novidade é experimentada ela deixa de ser novidade, e assim precisa-se de outra novidade e assim por diante, sem ter fim.

Além disso, pode-se observar que, a busca por novidades é na verdade algo abstrato, pois quando a novidade é experimentada se torna concreta. Portanto, chega-se a conclusão de que a busca por novidades advém mais de um desejo interno do que de um desejo externo.

Um desejo interno que somente Deus pode satisfazer. Um contentamento que somente Deus pode realizar no coração do ser humano. A defesa da família deve ser feita por aqueles que encontraram em Deus a fonte de saciação para a alma. O contentamento da comunhão com Deus é o fundamento da força da família. E sobre o este contentamento, vale lembra o que dissera Madame Guyon[13]:

Meu Senhor, tão plena de doce contentamento;

Passo meus anos de banimento!

Onde quer que eu more, moro contigo.

No céu, na terra ou no mar.

Lugares buscamos ou lugares evitamos,

E a alma em nenhum encontra a felicidade;

Mas, com um Deus para nos dirigir o caminho,

É igual alegria ir ou ficar.

E, é neste contentamento, com este contentamento, e em função deste contentamento, que os cristãos hão de lutar contra a destruição dos fundamentos que tem assolado a sociedade, a família e a Igreja. 

Glória a Deus



[1] João Paulo II, Carta as Famílias [8° edição. São Paulo: 2010], pág. 51.

[2] Severo Hryniewicz, Para Filosofar Hoje [5° edição. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2001], pág. 444.

[3] Ibidem. Pág. 443.

[4] João XXIII, Mater et Magistra [13° edição. São Paulo: Paulinas, 2010], pág. 68-69.

[5] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São Paulo: Paulus, 2002], livro I, cap. 1, n. 1, pág. 19.

[6] Michel Quoist, Construir o Homem e o Mundo [35° edição. São Paulo: Duas Cidades, 1987], pág. 17.

[7] Gilvan Luiz Fogel, Que é Filosofia? [1° edição. São Paulo: Ideias e Letras, 2014], pág. 65.

[8] Quoist, Op. Cit., pág. 10.

[9] Santo Agostinho, Op. Cit., livro X, cap. 6, n. 9, pág. 275-276.

[10] Louis Markos, Apologética Cristã para o Século XXI [1° edição. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2013], pág. 287.

[11] Ludwig Feuerbach, Princípios da Filosofia do Futuro [Covilhã: Universidade da Beira Interior, 2008], pág. 6.

[12] In: João XXIII, Op. Cit., pág. 76. 

[13] In: A. W. Tozer, A Vida Crucificada: Como Viver uma Experiência mais Profunda [1° edição. São Paulo: Vida, 2013], pág. 1. 


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