18/03/2019

Noções de Antropologia

I

 

Uma das crises que assolam a mentalidade coeva é crise a respeito do homem, é a crise antropológica. Diante disso surge a questão: “o que é homem?”. “Esta é a grande, a máxima interrogativa, a interrogativa das interrogativas[1]. Numa época tecnicista e que ama o dinheiro (a raiz de todos os males [cf. 1Tm 6.10]), o homem é tratado apenas como um produto com prazo de validade, e assim a pergunta em pauta vem como toda sua pertinência e atualidade. E não somente diante desta situação, mas sempre quando a sociedade se defronta com alguma crise aguda a questão vem à tona.

Esta pergunta pelo homem precisa ser olhada sob o prisma da compreensão antropológica e assim entender que esta pergunta pelo homem é formalmente a própria resposta. Diante disso, ver-se-á que tanto esta crise quanto a resposta pode ser definida pelas perguntas comuns a todos os homens (as perguntas fundamentais da razão humana): “o que sou? Donde vim? Para onde vou?”. O correto tratamento e a devida importância a esta questão é uma das chaves hermenêuticas para a antropologia filosófica.

Neste sentido, uma das questões sobremodo essenciais para uma saudável compreensão do problema a respeito do homem é o entendimento de antropologia filosófica de Max Scheler. Para isso, tecer-se-á algumas considerações ao ensaio “Notas sobre a Antropologia Filosófica de Max Scheler[2].

 

II

 

Uma questão elencada no ensaio é sobre a grandeza do filósofo em questão (no caso de Scheler). Scheler é o grande pensador da antropologia filosófica contemporânea. Em um verbete em seu livro “Kultur und Kritik” (Cultura e Critica), Jürgen Habermas aponta para Scheler como o legítimo fundador da antropologia filosófica[3].

Outra questão é a pertinência da estrutura feita por Scheler quando ele fala do duplo significado do homem. Assim, tem-se uma definição do homem com base em seus elementos constitutivos naturais; no entanto, há também uma definição, bem distinta da primeira, a qual Scheler pontua como o “conceito essencial do homem”.

Em relação a isso, Scheler pontua uma primeira definição a respeito da estrutura biofisiológica que está sendo tratada. O homem tem sua dimensão corpórea, o corpo como parte de uma unidade essencial. O corpo com todas as suas particularidades é a parte na qual o homem é comparado aos outros seres e animais, pois por essa dimensão o homem está inserido no reino animal.

Entretanto, será que é só essa a dimensão que torna o homem a coroa da criação? Ou será então que o homem não passa de um animal com características diferentes? É claro que não. É aqui que entra a segunda dimensão, a qual Scheler trata como essencial (Wesenbegriff). Ou seja, é a dimensão que faz com que o homem seja único no cosmos. É a palavra mestra, na qual, toda a realidade - em relação ao homem - está tanto contemplada com relação à criação como em relação ao homem. O homem é quem é, devido a esta essência.

Diante disso, surge uma terceira questão, também a respeito deste mesmo tema proposto por Scheler, na qual ele formula um pensamento necessário a este estudo: a essência do homem. Este é um conceito apodíctico, imprescindível. Só que este conceito precisa ser ampliado, e uma das formas de ampliá-lo é revisitar os tesouros esquecidos de uma grande tradição antes dele, que também o desenvolveu de uma forma bem peculiar; e certamente, o diálogo aberto com esta tradição enriquecerá o estudo sobre o homem.

Esta tradição é a tradição cristã. A teologia cristã desenvolveu ao longo dos séculos uma concepção, para utilizar o termo de Scheler, essencial, isto é, uma compreensão a respeito do homem que traz uma cosmovisão concreta e abrangente. E esta concepção também é compreendida através das perguntas fundamentais da razão humana. Pois onde existe o homem sempre estas questões o assombrarão: “quem sou? Donde vim? Onde estou? Para onde vou?”.

Tanto na realidade filosófica quanto na realidade da revelação o homem é um ser posicionado estrategicamente no cosmos; ele tem uma identidade e uma finalidade. Assim, ele é avaliado na revelação como o mordomo da criação divina, na filosofia como a parte mais elevada do cosmos.

No entanto, nesta afirmação surge um problema; pois, em algumas escolas teológicas e/ou filosóficas há um distanciamento do objeto formal da teologia, e da filosofia, e assim, surgem concepções inadequadas sobre o homem. Assim, segundo Scheler, tem-se uma antropologia teológica, uma filosófica, e uma científica-natural, mas não se tem uma ideia unitária do homem. Este é o problema central. Precisa-se revisitar, ad fontes, o diálogo aberto entre as escolas do saber que mais contribuíram sobre o homem, e entender o que as mesmas declararam antes das influências não salutares da filosofia contemporânea, e quem sabe assim abre-se o caminho para uma compreensão não reducionista sobre o ser humano.

Assim, poder-se-á afirmar como São João Crisóstomo, que “o valor do homem consiste no conhecimento da verdadeira doutrina e na retidão da vida”. Ou seja, este conhecimento essencial do e sobre o homem é a realidade fundamental que prescreve o homem como a parte mais elevada do cosmos, o qual é objeto de estudo da antropologia filosófica. Ou seja, como aquele que tem valor essencial dentro do cosmos.

E assim, todo o conhecimento, toda a inteligência, toda a verdadeira razão que deve girar de forma concêntrica em torno da explicação da essência do homem, e, consequentemente, isto traduzir-se-á em vida, pois a valoração do que é humano é a valoração da própria vida, e vice-versa. É nesta expectativa e neste fervor antropológico que se deve adentrar nestes estudos, para que, havendo uma compreensão haja um crescimento, e assim, uma correta aplicação e, consequentemente, uma hermenêutica da continuidade para com a história do pensamento antropológico ocidental; desta forma, Scheler, com suas reflexões serve como ponto de intermediação e de aferidor de medida filosófico no caminho destas formulações.

 

III

 

Outra questão, é sobre a multiformidade da vida humana. Ao se refletir sobre a vida humana observa-se suas várias facetas e características, as quais pontificam e estabelecem aquilo que é realmente humano; de certa forma, ao lidar com o ser humano por este prisma, logo se entende a importância das órbitas de relacionamento; o ser humano se relaciona consigo mesmo, com o seu próximo, com Deus e com a comunidade a sua volta; de fato, o ser humano é um ser relacional.

A questão refletida por Santo Agostinho a respeito da natureza humana é assaz pertinente: “Qual a minha natureza? Uma vida variada e multiforme, imensamente ampla[4]. Na multiforme evidenciação da vida está a sua grandeza; grandeza esta que em alguns momentos se torna obscurecida devido as condições baixíssimas impostas por vários fatores, os quais buscam vituperar a dignidade humana; mas, mesmo diante de situações e condições que tentam vituperar a dignidade humana, a compreensão sobre a multiformidade da vida se estabelece como a chave hermenêutica para o entendimento sobre o que é próprio do ser humano.

O homem nas suas mais variadas manifestações culturais, sejam ocidentais ou orientais, demonstra alguns troncos em comum; isto é, apesar das diferenças culturais, algumas até abissais quando observado o cotidiano de um ou de outro, tem-se alguns pontos em comum seja em que lugar for, seja em que condição for; estes troncos em comum são aquilo que demonstram a natureza humana.

Um dos troncos é a felicidade; o homem tem anseio de satisfação; isto foi apoditicamente falado por Aristóteles quando disse que a ética é teleológica; Santo Agostinho identifica isso como a necessidade do repouso em Deus.

Descartes fala de uma moral de provisão, sendo que a mesma estabelece as normas que permite se aproximar da verdadeira virtude; neste raciocínio, é evidente que, para a virtude, a norma (o método) é imprescindível. Logo, em Descartes para a felicidade o caminho é o método; Spinoza fala sobre o caminho libertador a que o homem pode chegar ao conhecimento da alma, e, então, o da virtude suprema.

De certa forma, aquilo de que Descartes falava do método, e Spinoza falava do conhecimento libertador, sendo o esforço para este a primeira e única base para a virtude; e estes e outros tantos filósofos possuem uma visão imprecisa sobre o ser humano; com isso, para se caminhar adequadamente na reflexão sobre o ser humano, é necessário um guia filosófico seguro, livre destes erros.

Ora, Santo Agostinho é um guia seguro para se elucubrar sobre a natureza humana, bem mais do que Descartes, Spinoza e outros; pois, nas Confissões, trata do problema do “eu” pensante, do “cogito”; nos Solilóquios e na Vida Feliz, o caminho para a virtude; na Doutrina Cristã, o problema da intepretação e da linguagem; etc.

Outro tronco, é o da necessidade; altamente ligada com a felicidade, porém distinta, pois a necessidade é o que se manifesta da mesma forma em todos os homens; e isto porque o ser humano é um ser deliberante; suas necessidades são as necessidades básicas da existência; são elas: físicas, emocionais e espirituais; físicas para o mantenimento do corpo, emocionais para a virtude da alma, espirituais para a vida do espírito; as físicas são alimentação, exercício, o cuidado com o corpo, etc.; as emocionais são o amor, a bondade, a comunicação, as virtudes naturais, etc.; as espirituais são a necessidade do transcendente, do religare, do relere, etc.

Isto se manifesta abertamente nas proposições éticas. Das necessidades básicas surge a necessidade de algo experiencial que beneficie todos, para que horrores terríveis tais como a miséria, a fome, etc., não se tornem algo aceitável; para isso, é necessário um contrato social que molde as ações de todos sob um princípio de autoridade; da mesma forma, se isto ocorre, há também a necessidade de explicitação da natureza humana com seus direitos fundamentais, que é basicamente a fórmula para aplicar no contrato social as necessidades básicas, as quais devem ser protegidas e salvaguardas pelo império da lei. Ou seja, deve-se ter no estamento social uma norma que defenda os direitos das necessidades básicas que o ser humano tem.

[...]

Desta forma, o âmago da questão ética-moral sempre se mostrará presente onde o ser humano estiver; disto, há de saber que o homem tanto se mostra como sabedor da moral como seu contrário; há uma tensão entre o certo e o errado, entre a grandeza da multiformidade e a baixeza da deformidade, entre ser e não ser.

Esta tensão, quando entendida, pode ser abolida ao compreender-se as duas condições do homem, ou seja, as duas principais formas pelas quais ele deve ser entendido: que não é nada, pois veio do pó da terra, mas tem uma grandeza a luz de seu Criador e de seu mandato cultural. O mavioso poeta judaico já se indagava: “Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste; que é o homem mortal pra que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Contudo, pouco menor o fizeste do que os anjos e de glória e de honra o coroaste. Fazes com ele tenha domínio sobre as obras de tuas mãos; tudo puseste debaixo dos teus pés: todas as ovelhas e bois, assim como animais do campo; as aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo passa pela vereda dos mares” (Sl 8.3-8).

Tendo em vista esta perspectiva, sempre há de se confluir o entendimento sobre a baixeza e a grandeza do ser humano; a baixeza, devido a que veio do pó e ao pó tornará (cf. Gn 3.19); e a grandeza do ser humano com o seu mandato cultural perante a criação, bem como o seu mandamento ético para com seu semelhante, e o mais importante de todos: seu relacionamento pactual com o criador. Nas palavras de São Basílio de Cesareia: “... encontro duas afirmações, a saber, que o homem é nada e que é grande o homem. Se ponderas apenas a natureza, é nada e nada é merecedor; se, porém, pensar na honra que lhe foi conferida, o homem é grande ... desta sorte ele nada é, tomando-se em consideração a matéria do que foi feito (pó da terra), mas é grande por causa da honra que lhe foi outorgada (ser imagem e semelhança de Deus, e o administrador da obra da criação)[5] (em parênteses: acréscimo meu). 

Laudate Deo



[1] Battista Mondin, O Homem, Quem é Ele? Elementos de Antropologia Filosófica [São Paulo: Paulus, 1980], pág. 5. 

[2] Anor Sganzerla, Antonio José Romera Valverdade, Ericson Falabreti, Natureza Humana em Movimento: Ensaios de Antropologia Filosófica [São Paulo: Paulus, 2012], pág. 225-236. 

[3] Ibidem. Pág. 225. 

[4] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São Paulo: Paulus, 2002], livro X, cap. 17, n. 26, pág. 289. 

[5] São Basílio de Cesareia, Homilia sobre Lucas 12 - Homilias sobre a Origem do Homem - Tratado sobre o Espírito Santo [1° edição. São Paulo: Paulus, 1999], pág. 62-63. 


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