I
Vós me pedistes uma meditação sobre o documentário
Human; alguns meses atrás escrevi uma breve recensão sobre este documentário, e
ao fazer esta meditação, certamente muito do que aqui é dito já fora analisado
ou esboçado nesta recensão ou em outros escritos que evocam algo sobre este
documentário. Entendido isso, meditar-se-á brevemente sobre este documentário
sobre a dialógica “ética e humanismo”.
O documentário Human (2015), produzido pelo fotógrafo
Yann Arthus-Bertrand é um ponto de contato com os temas e os problemas éticos.
O documentário bem os apresenta nas mais variadas dimensões da vida humana,
tanto no sentido sócio-político quanto na pessoal-social. Desta forma, a
relação entre ética e filosofia política com a realidade a qual o ser humano
está inserido se demonstra de maneira multiforme, pois a manifestação da vida
humana é em multiformidade ou multipluralidade.
Ao se observar os diferentes matizes culturais, bem
como seus respectivos padrões éticos, constata-se a universalidade de um
princípio, ou em outras palavras uma manifestação daquilo que é humano
demasiadamente humano, a saber, o amor. No documentário, se apresentam várias
situações difíceis, algumas delas até chocantes, mas sempre se fala sobre o
amor, e o amor em suas variadas dimensões, mas certamente aquele que se
sobressai-se é o amor da caridade, reflexo direto do amor divino.
Este amor é a manifestação da maior compaixão humana,
que perdoa o que é perdoável, que aceita, que procura entender as diferenças e
que assim procura mudar, transcender-se; é evidente que onde há a manifestação
deste amor, o mesmo brotará e assim sucessivamente espalhará seus pólens aos
campos férteis da natureza humana.
Este aspecto da dimensão ética, muito bem elaborada
pela ética cristã, sendo o mesmo um princípio universal, é evidentemente
apresentado nas questões em que envolve culturas ocidentais; mas há também o
envolvimento nas culturas orientais, onde a manifestação do mesmo se mostra
evidente. O amor permeia todas as culturas, seja no Ocidente seja no Oriente.
II
O documentário propõe este caminho, talvez para
começar a apresentar outras facetas, que se não fora pelo antídoto do amor,
seriam praticamente impossíveis; mas sendo o amor aquilo que tira o absurdo da
existência, logo a manifestação do amor torna a moral em algo comum a todos.
Há também algumas outras manifestações daquilo que é
humano, principalmente em relação a ética; em certos casos, não há o padrão
moral absoluto, mas há a atitude de fé frente aos desafios, para ocasionar
mudanças, ou seja, o ser que procura mudar situações difíceis, pois é
responsável por sua existência.
Outro problema ético que versa é o da pobreza, aquela
baixa condição que acutila muitíssimo a dignidade humana, e que ressoa nas
mentes mais aguçadas perguntas sobre a economia, a política, a desigualdade,
etc. De certa forma, muitos fazem com que esta realidade se torne mercado
político para manifestações contrárias prometendo trazer liberdade, conquanto
para isso também cometem erros grotescos.
Na verdade, aquilo que é humano deve ser moral, logo,
ético, para o bem de si e do próximo; visando a virtude inerente ao ato, o ser
humano vive uma vida para bem comum, daquilo que falava Platão, das virtudes
cardeais, sendo que intercalando-as com as pepitas de ouro da comunhão
fraternal, gera-se a possibilidade de uma sociedade mais equilibrada. O lema
agostiniano da manifestação da cidade de Deus na cidade dos homens é algo
adequado para se compreender isto.
Outrossim, é a validade destes conceitos que se
manifesta naquilo que Mujica fala sobre a sobriedade. A mesma sobriedade que os
místicos cristãos falavam em relação ao desenvolvimento da vida piedosa, aquilo
que de certa forma fundamenta o desenvolvimento da cultura; por exemplo, São
Bento falava em sua regra sobre ora et labora, certamente um caminho
para a sobriedade pessoal, social, comunitária e cultural.
Desta maneira, a sobriedade ajuda a evitar caminhos
extremos por elementos culturais dominantes ou não, quando os mesmos são
nocivos, como por exemplo, a ditadura do ter apresentado pela sociedade
ocidental como uma forma de viver, etc.
Ainda, outro traço muito importante que permeia o
documentário, é o das belas paisagens, da diversidade do belo na vida humana;
apesar de ser ética e não estética, o senso do belo deve estar presente na
ética, vice-versa. A vida humana precisa de beleza, e apesar dos desafios que
se impõe tentando fechar o ser humano a estas realidades anti-beleza, sempre há
de se ter em vista àquela virtude de que falava Aristóteles que visa a
felicidade, poia a maior felicidade que há, mesmo em condições contrárias, é poder
contemplar as maravilhas e as belezas da vida humana; em meio ao desespero encontrar
um caminho de esperança, em meio a solidão e a humilhação um caminho de amor;
esta é uma escola que ensina a esperança.
O interessante é que, uma das maiores belezas da vida
humana apresentada no documentário é a família; mesmo em condições onde não
existe o amor familiar, o mesmo nunca deixa de ser valioso, até mesmo para
aqueles que sofrem com o desamor familiar; aquela instituição feita pelo
benfazejo Criador está no âmago da vida humana, pois é o primeiro centro
cultural e social que cada ser humano está inserido em sua vida, sendo a mesma
um elemento indissolúvel para o desenvolvimento da vida humana.
Estas breves palavras dão um magro esquema do que se
refere este documentário; e diante de vós as tendo pronunciado, as encerro aqui
certo do que fora falado.
Laudate
Deo!
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