06/06/2020

Meditação sobre o documentário Human

I

 

Vós me pedistes uma meditação sobre o documentário Human; alguns meses atrás escrevi uma breve recensão sobre este documentário, e ao fazer esta meditação, certamente muito do que aqui é dito já fora analisado ou esboçado nesta recensão ou em outros escritos que evocam algo sobre este documentário. Entendido isso, meditar-se-á brevemente sobre este documentário sobre a dialógica “ética e humanismo”.

O documentário Human (2015), produzido pelo fotógrafo Yann Arthus-Bertrand é um ponto de contato com os temas e os problemas éticos. O documentário bem os apresenta nas mais variadas dimensões da vida humana, tanto no sentido sócio-político quanto na pessoal-social. Desta forma, a relação entre ética e filosofia política com a realidade a qual o ser humano está inserido se demonstra de maneira multiforme, pois a manifestação da vida humana é em multiformidade ou multipluralidade.

Ao se observar os diferentes matizes culturais, bem como seus respectivos padrões éticos, constata-se a universalidade de um princípio, ou em outras palavras uma manifestação daquilo que é humano demasiadamente humano, a saber, o amor. No documentário, se apresentam várias situações difíceis, algumas delas até chocantes, mas sempre se fala sobre o amor, e o amor em suas variadas dimensões, mas certamente aquele que se sobressai-se é o amor da caridade, reflexo direto do amor divino.

Este amor é a manifestação da maior compaixão humana, que perdoa o que é perdoável, que aceita, que procura entender as diferenças e que assim procura mudar, transcender-se; é evidente que onde há a manifestação deste amor, o mesmo brotará e assim sucessivamente espalhará seus pólens aos campos férteis da natureza humana.

Este aspecto da dimensão ética, muito bem elaborada pela ética cristã, sendo o mesmo um princípio universal, é evidentemente apresentado nas questões em que envolve culturas ocidentais; mas há também o envolvimento nas culturas orientais, onde a manifestação do mesmo se mostra evidente. O amor permeia todas as culturas, seja no Ocidente seja no Oriente.

 

II

 

O documentário propõe este caminho, talvez para começar a apresentar outras facetas, que se não fora pelo antídoto do amor, seriam praticamente impossíveis; mas sendo o amor aquilo que tira o absurdo da existência, logo a manifestação do amor torna a moral em algo comum a todos.

Há também algumas outras manifestações daquilo que é humano, principalmente em relação a ética; em certos casos, não há o padrão moral absoluto, mas há a atitude de fé frente aos desafios, para ocasionar mudanças, ou seja, o ser que procura mudar situações difíceis, pois é responsável por sua existência.

Outro problema ético que versa é o da pobreza, aquela baixa condição que acutila muitíssimo a dignidade humana, e que ressoa nas mentes mais aguçadas perguntas sobre a economia, a política, a desigualdade, etc. De certa forma, muitos fazem com que esta realidade se torne mercado político para manifestações contrárias prometendo trazer liberdade, conquanto para isso também cometem erros grotescos.

Na verdade, aquilo que é humano deve ser moral, logo, ético, para o bem de si e do próximo; visando a virtude inerente ao ato, o ser humano vive uma vida para bem comum, daquilo que falava Platão, das virtudes cardeais, sendo que intercalando-as com as pepitas de ouro da comunhão fraternal, gera-se a possibilidade de uma sociedade mais equilibrada. O lema agostiniano da manifestação da cidade de Deus na cidade dos homens é algo adequado para se compreender isto.

Outrossim, é a validade destes conceitos que se manifesta naquilo que Mujica fala sobre a sobriedade. A mesma sobriedade que os místicos cristãos falavam em relação ao desenvolvimento da vida piedosa, aquilo que de certa forma fundamenta o desenvolvimento da cultura; por exemplo, São Bento falava em sua regra sobre ora et labora, certamente um caminho para a sobriedade pessoal, social, comunitária e cultural.

Desta maneira, a sobriedade ajuda a evitar caminhos extremos por elementos culturais dominantes ou não, quando os mesmos são nocivos, como por exemplo, a ditadura do ter apresentado pela sociedade ocidental como uma forma de viver, etc.

Ainda, outro traço muito importante que permeia o documentário, é o das belas paisagens, da diversidade do belo na vida humana; apesar de ser ética e não estética, o senso do belo deve estar presente na ética, vice-versa. A vida humana precisa de beleza, e apesar dos desafios que se impõe tentando fechar o ser humano a estas realidades anti-beleza, sempre há de se ter em vista àquela virtude de que falava Aristóteles que visa a felicidade, poia a maior felicidade que há, mesmo em condições contrárias, é poder contemplar as maravilhas e as belezas da vida humana; em meio ao desespero encontrar um caminho de esperança, em meio a solidão e a humilhação um caminho de amor; esta é uma escola que ensina a esperança.

O interessante é que, uma das maiores belezas da vida humana apresentada no documentário é a família; mesmo em condições onde não existe o amor familiar, o mesmo nunca deixa de ser valioso, até mesmo para aqueles que sofrem com o desamor familiar; aquela instituição feita pelo benfazejo Criador está no âmago da vida humana, pois é o primeiro centro cultural e social que cada ser humano está inserido em sua vida, sendo a mesma um elemento indissolúvel para o desenvolvimento da vida humana.

Estas breves palavras dão um magro esquema do que se refere este documentário; e diante de vós as tendo pronunciado, as encerro aqui certo do que fora falado. 

Laudate Deo


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