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18/06/2026

Guerra e Paz: Uma meditação filosófica

Prólogo

 

A dialógica entre guerra e paz é algo que permeia totalmente a vida humana, aceitem os homens isso ou não; aliás, o Pregador, na antiguidade, já houvera alertado sobre esta dialógica inegável e imutável da vida humana: “tempo de guerra e tempo de paz” (Ec 3.8b); ora, sendo esta dialógica algo inegável a vida humana, se faz necessário compreender o que se deve entender sobre a guerra e o que se deve entender sobre a paz, a fim de não se decair em lentes ideológicas que buscam velar o que concerne a guerra e o que concerne a paz.

Portanto, tendo em vista a necessidade de se entender corretamente a dialógica entre guerra e paz, se faz uma meditação filosófica a fim de aclarar estes e outros aspectos, para pelo menos se desenvolver uma compreensão abalizada a respeito desta dialógica que nunca deixará de existir na vida humana neste mundo; a tensão entre guerra e paz é algo inescapável a vida humana.

 

I

 

Ao se falar sobre a guerra, se deve evocar a questão sobre o belicismo; pois, aqueles que não compreendem de fato no que consiste guerra, no que consiste sua necessidade e no que consiste suas consequências hediondas, serão permeados pelo belicismo; mais propriamente, o assenhoramento ideológico da guerra; o belicismo é assenhoramento ideológico da guerra; ora, mesmo que seja algo terrível existem algumas ocasiões onde a guerra se faz necessária; além destas ocasiões, se houver utilização da guerra, então se tem assenhoramento ideológico da guerra; ou dito em outros termos, a não ser para defender a liberdade, a existência nacional, etc., ou para combater algum crime terrível e hediondo praticado em massa, não se é permissível a guerra por razões racionais.

Assim, cumpre entender no que consiste o belicismo; e para isso são evocadas seis proposições, as quais são:

1. O belicismo é a utilização da guerra para propósitos de expansão desnecessária; muitas nações utilizam-se da guerra para alcançar uma expansão desnecessária e ilegal, a fim de vários propósitos nefastos; ora, quem se utiliza da guerra para este fim é belicista.

2. Ademais, o belicismo é a utilização da guerra para destruir outra nação ou grupo sem que este tenha cometido crimes hediondos; os belicistas advogam a destruição de nações ou grupos específicos a fim de ganharem status ou poder; e neste caso, quando se chega a situações extremas, propagam até mesmo a ideia de purificação racial; esses e outros aspectos amalgamados demonstram belicismo.

3. Ademais, o belicismo é a utilizar a guerra para propósitos de enriquecimento ilícito; muitos se utilizam da guerra para enriquecer e roubar minerais e riquezas de territórios que pertencem a outrem; quem se utiliza da guerra para este fim é belicista.

4. Ademais, o belicismo é aproveitar-se da guerra para criar uma máquina de propaganda, na qual se propaga uma série de mentiras programas para gerar um estado de sonho nas pessoas, as quais acabam por apoiar sem se aperceber guerras fratricidas e sanguinárias como se fosse algo bom e necessário; a propaganda belicista busca gerar nas pessoas a indolência quanto a percepção da maldição da guerra.

5. Ademais, o belicismo é utilizar a guerra para fins nacionalistas; o nacionalismo é notadamente belicista; por isso, como o nacionalismo é algo irracional (e incompatível com a fé), então o belicismo também é algo irracional; aliás, as burrices programadas instituídas pelo nacionalismo chegam ao ponto de se inventarem os mais imbecilóides sofismas em favor da guerra nacionalista; por isso, onde há nacionalismo logo haverá belicismo.

6. Ademais, o belicismo é instrumentalizar a guerra para qualquer propósito outro além do que é racionalmente descrito como “necessário”; como fora analisado e descrito anteriormente, existem situações onde a guerra infelizmente se faz necessária; todavia, a utilização da guerra além destas situações, obviamente demonstra os tentáculos do belicismo.

Ora, estas proposições evocadas num sentido geral demonstram alguns aspectos de no que consiste o belicismo; em suma, o belicismo é a utilização da guerra para qualquer propósito que não seja as razões aceitáveis para se utilizar do instrumento da guerra; portanto, o belicismo é a instrumentalização da guerra para qualquer propósito de quando a guerra não se faz necessária.

Deste modo, toda instrumentalização da guerra tende ao belicismo; pois, o belicismo corrompe a compreensão sobre a guerra, bem como desfigura a pressuposição racional sobre a guerra, tanto quanto o pacifismo. Belicismo e pacifismo aparentemente são dois princípios contrários, mas os dois levam para o mesmo fim, a saber, guerra total.

 

II

 

A paz, em sentido teológico, é o que deseja todos os homens de bem; e em sentido filosófico, a paz é parte da vida virtuosa; assim sendo, a paz é algo que faz parte da vida, tanto quanto a guerra; entretanto, os homens de bem hão de ter predileção pela paz e hão de amar a paz; pois, somente assim a maldição da guerra não se torna algo corriqueiro, e quando esta se fizer necessária, se saberá como proceder diante das terríveis consequências da guerra.

Portanto, cumpre compreender no que consiste a paz; para isso, se põe a indagação: o que é paz? Para responder a esta indagação se evoca cinco proposições:

1. A verdadeira paz não é ausência de conflito ou de problemas; pois, muitos, imbuídos pelos grimórios do pacifismo, estão de tal modo desfibrados que buscam uma paz de cemitério, como se a própria vida fosse desprovida de conflitos, vicissitudes e problemas; a verdadeira paz, no sentido existencial-social, é a ausência de males que destroem a vida humana de maneira deliberada.

2. Ademais, a verdadeira paz não é ausência de armas; pois, como George Washington dissera: “estar preparado para a guerra é a melhor maneira de preservar a paz”; o kantismo é que propaga que paz é ausência de armas; portanto, a verdadeira paz não é a ausência de armas, mas a sobriedade consciente de utilizá-las somente de quando realmente se faz necessário e não como a propaganda belicista promove.

3. Ademais, a verdadeira paz é demonstrada no respeito absoluto pela liberdade; os pacifistas instituíram uma propaganda que o inimigo da paz são as guerras, enquanto que na verdade o maior inimigo da paz é a vituperação da liberdade; fala-se contra a guerra, mas não fala-se nada em relação a destruição da liberdade; acomodar-se com a destruição da liberdade e incomodar-se com a guerra é hipocrisia: ambas são terríveis, posto que as mais das vezes a última é consequência da primeira.

4. Ademais, a verdadeira paz é demonstrada na fraternidade social; ora, a fraternidade social só existe sob a liberdade; por isso, onde não há liberdade não haverá fraternidade social; e onde não há fraternidade social se formará uma sociedade de conflitos; e isso atinará os pacifistas para cada vez mais atormentarem a ordem social em busca de uma falsa paz, a paz de cemitério; a sociedade de conflitos que emerge através da falta de fraternidade social é uma ampla sementeira para os pacifistas, que buscam através de conflitos apregoar e impregnar uma compreensão errônea sobre a paz.

5. Ademais, a verdadeira paz é o desejo de todas as pessoas de bem; ora, as pessoas de bem são as que vivem de acordo com a reta razão e de acordo com as virtudes; assim, os pacificadores são aqueles que vivem de maneira ordenada e de maneira virtuosa; aqueles que não são virtuosos de maneira nenhuma desejarão a verdadeira paz, antes buscarão substitutos para a mesma; por isso, a verdadeira paz requer virtude e ordem; tanto o é, que no sentido jurídico isto diz respeito a observação e a preservação da lei e da ordem, imprescindíveis para a paz social.

 

III

 

E, a partir disso, convém também entender o pacifismo. Pois, aqueles que não compreendem corretamente no que consiste a paz serão dominados pelos grimórios do pacifismo; pois, o pacifismo é o assenhoramento ideológico da paz; assim, a guisa de conclusão desta meditação, cumpre evocar a compreensão sobre o pacifismo.

Ora, quanto a isso, se deve evocar dois aspectos: primeiro, como se dá o assenhoramento político da paz, ou seja, no que consiste o pacifismo; segundo, como se institui o pacifismo pela impregnação passiva de hábitos, ou seja, como o pacifismo passa a ser aceito como algo correto.

1. Primeiro, como se dá o assenhoramento político da paz, ou seja, no que consiste o pacifismo; pois, o pacifismo é uma doutrina estranha tanto a reta razão quanto a revelação; o pacifismo é irracional e anti-revelacional.

Ora, o pacifismo é instituídos em tempos modernos a partir de dois princípios gerais: primeiro, através do kantismo que evoca um pacifismo de cemitério como parte de uma ética da razão prática; ora, o kantismo é anti-cristianismo e anti-razão; logo, a dialética da paz propugna por Kant em “À Paz Perpétua” é algo irracional e irreal, já que Kant propugna de maneira filosófica um tipo de paz que não condiz com a realidade, nem pela elucubração com o lume da luz interior nem pela elucubração com o lume da luz superior; a paz que Kant propugna não tem base nem filosófica nem teológica; a paz kantiana é a paz daqueles que buscam “mundos irreais”. Por isso, o pacifismo é fuga da realidade.

Segundo, através da acoplação do pacifismo kantiano pelo marxismo; ora, o marxismo toma o pacifismo kantiano como parte de sua luta para implementar uma revolução mundial; na verdade, o pacifismo se torna um dos estágios para o marxismo implementar sua revolução mundial tal como afirmara Lênin[1]; assim, o pacifismo além de ser proveniente de Kant, é amalgamado e transmutado pelo marxismo; assim, a partir desta sentença de Lênin, o pacifismo fora impregnado na doutrina marxista.

Portanto, como o pacifismo é parte da doutrina marxista, então onde há propagação do pacifismo se tem a propagação do marxismo e do kantismo; e é de se estranhar como se tem inúmeros “cristãos” que promovam e defendam o pacifismo; pois, os “cristãos” que promovem o pacifismo estão promovendo kantismo e marxismo; a propagação do pacifismo é a propagação de duas doutrinas anti-cristãs; aliás, é estranho até que os próprios marxistas propaguem pacifismo, pois o pacifismo também não condiz com a doutrina marxista.

A base filosófica do pacifismo é o kantismo, e a base sócio-política do pacifismo se impregna no marxismo. Os pacifistas são, sem exceção, kantianos, mesmo os pacifistas que se dizem “cristãos”; pois, a aquiescência a uma doutrina, mesmo que inconsciente, demonstra sujeição a esta doutrina; e quem está sujeito a uma doutrina ideológica é serviçal da vontade de poder desta ideologia.

2. Segundo, como se institui o pacifismo pela impregnação passiva de hábitos, ou seja, como o pacifismo passa a ser aceito como algo correto; pois, a busca pela paz, algo bom, é transmogrifada em pacifismo de maneira inconsciente, e assim se torna em algo maléfico; o pacifismo se impregna de modo quase que imperceptível, e se torna a palavra de ordem, mesmo sendo o pacifismo um dos maiores inimigos da paz.

Ora, o pacifismo é impregnado de dois modos: primeiro, pela propagação de uma falsa ideia de paz; o pacifismo não é paz, e paz não é pacifismo; o pacifismo é indolência de quem deixou de lutar diante das contradições da vida; por isso, os pacifistas arrolam condutas indolentes como mote para quando vem alguma situação difícil, tal como a guerra, pois querem deixar de lado a conduta correta diante das dificuldades; o pacifismo desfibra a conduta reta.

Segundo, pela propagação de doutrinas que incentivam o belicismo; muitas doutrinas ideológicas dizem propagar e defender a paz, quando na verdade o fazem apenas para engano e manipulação propagandística, como por exemplo faz o sionismo; as doutrinas pacifistas são de fato doutrinas belicistas; assim, propaga-se a ideia de falsa paz pela máquina de propaganda quando na verdade incentivam as mais injustas e cruéis guerras; o belicismo se torna impregnado inconscientemente quando há aceitação passiva do belicismo; pois, o belicismo impregna de tal modo que torna a compreensão sobre a guerra desfigurada, impossibilitando qualquer ação efetiva contra as guerras injustas.

[...]

Assim, filosoficamente se chega a conclusão de que o pacifismo não é o contrário da guerra ou o antídoto para a guerra; mas, o pacifismo é a preparação inconsciente para a guerra - e guerra total (tal como o belicismo).

A descrição aprofundada e precisa da doutrina e da práxis pacifista, somada com a descrição da ação dos pacifistas, é um excelente meio para que se compreender como o pacifismo é utilizado cabalmente como um instrumento do belicismo. E a análise fenomenológica do pacifismo atesta isso de maneira apodítica. 

E termina aqui esta meditação filosófica. θεῷ χάρις! 



[1] cf. Vladimir Lênin, Os Destinos Históricos da Doutrina de Karl Marx, parte II. 


18/02/2026

Meditação sobre a Europa

Prólogo

 

A Europa, como se sabe, em todos os sentidos, está em crise; e a fim de compreender esta crise há de se compreender a causa desta crise; mas para entender a causa da crise europeia, que em suma, é um signo para designar toda a crise da sociedade ocidental, se faz necessário fazer uma anamnese da Europa; ora, para se fazer isso o procedimento mais utilizado é para designar um ponto onde a crise se torna mais visível; por exemplo, Ortega y Gasset descreveu que pensava que é em Berlim que se deveria falar da Europa.

No caso de Ortega y Gasset, ao rememorar os acontecimentos terríveis do séc. XX, sem sombra de dúvida, se fala da Europa a partir de Berlim; todavia, os acontecimentos terríveis do séc. XX são apenas um dos efeitos do real problema europeu; por isso, a causa da crise da Europa não provém de Berlim; no entanto, é possível se entender a crise da Europa a partir de um ponto único? Sim é possível; mas, para se fazer isso, se deve voltar no tempo um pouco mais, a uma cidade que não existe a quase 600 anos, a antiga capital do Império Bizantino, Constantinopla.

De fato, para se entender a crise da Europa se faz necessário voltar na história e compreender as crises que rondaram o Império Bizantino em seus últimos duzentos anos de existência. E isso é algo impreterível para se fazer uma anamnese da Europa.

Iniciemos, pois, esta meditação a fim de se entender o modo da crise da Europa.

 

I

 

A Europa como hoje se a conhece deve seu ponto de partida com a atitude do Imperador Constantino o Grande, já um cristão de fato, de reedificar a antiga cidade de Bizâncio para ser a capital do Império Romano; esta cidade foi chamada de Nova Roma por Constantino, mas se tornou Constantinopla em sua homenagem; nas gerações seguintes a esta mudança, a antiga Europa pagã foi aos poucos desmoronando até a Queda de Roma, a chamada Queda do Império Romano Ocidental; conquanto a Queda do Império Romano Ocidental tenha trago inúmeros problemas, a preservação e a conservação do que havia de bom na cultura romana, purificado e abalizado pela cultura cristã, fora preservada nas obras de nomes como Santo Agostinho, São Bento, Boécio, Cassiodoro, entre outros.

Mas, de início esta crise não assolou o Império Romano Oriental, que havia se tornado no final do séc. IV em Império Bizantino; assim, as glórias da Europa foram preservadas e conservadas no Império Bizantino; as glórias da Europa Ocidental foram preservadas e enobrecidas pela Europa Oriental; assim, a dialógica da crise europeia sempre orbitara entre Europa Ocidental, ou Ocidente Latino, e Europa Oriental, ou Ocidente Grego; se uma parte estava em crise, a outra conservava e preservava a camada nuclear da cultura.

No entanto, desde a Queda de Constantinopla, a Europa Oriental, o Ocidente Grego, não tem mais um ponto de representação; assim, a preservação da cultura europeia não mais tem por artífice uma sociedade cristã, mas uma sociedade secularizada.

As glórias da Europa ou se tornaram parte da expansão árabe, que preservaram muitos aspectos da história cristã, ou se tornaram parte da decadência secularista; e, como nos últimos duzentos anos até mesmo os árabes foram engendrados pelo secularismo, a fronteira da preservação da cultura cristã ficou na mão de tolos, fraudes, imbecis, demagogos e feiticeiros; com isso, as glórias da Europa foram aos poucos se desintegrando; a fragmentação da sociedade hodierna, a chamada sociedade pós-moderna, com os paradigmas pós-modernos, são o fruto final desta secularização que nada preserva por inteiro, antes despedaçara tal qual urso selvagem as verdadeiras glórias da Europa.

Mas, quais são estas glórias? Ora, três são as glórias da Europa: primeiro, a cultura grega; segundo, a cultura romana; terceiro, a cultura cristã.

1. Primeiro, a cultura grega; a cultura grega ou cultura helênica foi o primeiro marco da formação da Europa; o helenismo, com seus altos e baixos, foi o que preparou a formação da Europa no sentido intelectual; as descobertas e os ensinamentos dos sábios gregos, entre os quais, poetas, oráculos, filósofos, cientistas, etc., deram o ímpeto cultural para o desenvolvimento da Europa; assim, a cultura helênica é a primeira base, o primeiro fundamento, que deu forma a Europa; na verdade, o helenismo desenvolveu o saber antigo e o compendiou este saber culturalmente, de modo que este saber serviu para a formação de uma nova cultura – a cultura europeia.

2. Segundo, a cultura romana; a cultura romana ou cultura latina foi o segundo marco da formação da Europa; a latinidade, com seus paradoxos inexplicáveis, foi o que preparou a formação da Europa no sentido social; a praticidade dos sábios romanos, entre os quais, literatos, juristas, intelectuais, filósofos, etc., deram o ímpeto social para o desenvolvimento da Europa e para seu desenvolvimento civilizacional; assim, a cultura romana é a segunda base, o segundo fundamento, que deu forma a Europa; enquanto que o helenismo deu forma a cultura europeia, a latinidade deu amplidão e universalidade a esta cultura e a institui sob a práxis romana; na verdade, a latinidade desenvolveu o modo de vida das sociedades antigas, os acoplando e os melhorando de modo tal que se criou uma sociedade extremamente voltada à práxis.

3. Terceiro, a cultura cristã; a cultura cristã foi o terceiro marco da formação da Europa; o cristianismo foi o que abalizou a formação da Europa entre os erros e acertos do helenismo e da latinidade; o cristianismo foi o elemento purificador dos excessos do helenismo e dos excessos da latinidade; a vitalidade da religião cristã, entre seus intelectuais, filósofos, teólogos, etc., deram o ímpeto religioso necessário para que a Europa não se perdesse ou em idealismo ou em praticismo; assim, a cultura cristã é a terceira base, o terceiro fundamento, que deu forma a Europa; na verdade, o cristianismo deu forma final a Europa; o cristianismo desenvolveu o que o helenismo tinha de bom e desenvolveu o que a latinidade tinha de benéfico, e os acoplou num sentido doutrinal-ético que permitiu tanto a formação de uma doutrina sóbria quanto de uma praticidade sóbria. Com efeito, a Europa se tornou intelectualmente uma sociedade helenista, socialmente uma sociedade romana, e religiosamente uma sociedade cristã.

Ora, estas são as glórias da Europa, as quais infelizmente foram se desintegrando a medida que a secularização adentrou os núcleos da cultura europeia, permeando cristãos, judeus e árabes, e desembocando nos paradigmas pós-modernos. O secularismo que tomou conta do núcleo da cultura europeia, ao se consumar plenamente na fragmentação social, torna a cultura europeia sujeita a doutrinas e práticas que atentam contra os elementos fundantes da Europa.

A secularização da Europa criou um monstro, o qual destrói a si mesmo e tudo aquilo que busca lutar contra esta secularização. As glórias da Europa foram tornadas em elementos infaustos devido ao secularismo.

 

II

 

No entanto, ao se mencionar a secularização da Europa, se pensa que a vida europeia foi algo perfeito, tal como um paraíso na terra; no entanto, como se sabe a vida na Europa sempre foi permeada por uma duplicidade sombria e opaca, conquanto não houvesse secularidade; o problema foi a secularidade justamente porque saiu do que é humano para algo anti-humano e/ou como gostam de afirmar os arautos da pós-modernidade: algo transhumano; a secularidade gerou um anti-humanismo e um transhumanismo que desfigurou a face da Europa e que continua a desfigurar cada vez mais.

Assim, para se entender adequadamente a crise da Europa, se há de entender também os problemas que rondaram a Europa em sua existência até o domínio do secularismo; a isso chamar-se-á de “confusões europeias”; e as confusões europeias evidenciam essa duplicidade sombria e opaca que rondou a Europa em sua história: intrigas, conspirações, usurpações, assassinatos, guerras, etc., foram assomadas com excesso de riqueza, poder, notáveis líderes e intelectuais, um áureo desenvolvimento da religião cristã, etc.; na história da Europa, glória e duplicidade caminham juntas: enquanto haviam esta duplicidade em meio a conspirações e coisas similares, também havia em contrapartida um desenvolvimento humano notável.

Todavia, mesmo diante de confusões e problemas humanos, a glória da Europa está em ter sido a parte da civilização após o advento de Cristo que mais conseguiu se desenvolver humanamente; e desenvolveu-se enquanto teve Cristo por Rei; ao deixarem de lado o senhorio de Cristo, tornaram-se novamente bestializados, e abriu-se o caminho para a hidra da secularização.

As confusões europeias deixaram de ter um viés puramente humano, e se tornaram em confusões permeadas por feitiçaria e bruxaria; soma-se a isso, o fato de que a secularização que foi agravada em Hegel trouxe de volta o ímpeto das antigas religiões xamânicas do crescente fértil, e assim o culto a Moloque, a Baal, etc., foi ressuscitado na Europa.

Os “senhores” da Europa ao deixaram Cristo de lado por causa da secularização acabaram por se bestializar em práticas de bruxaria e feitiçaria. As confusões europeias deixaram de ser confusões humanas e se tornaram em luta contra Deus. Esta é a consequência-mor do secularismo na esfera religiosa em toda a cultura europeia.

Com isso, ao se evocar as glórias da Europa e a desfiguração destas glórias por causa do secularismo, se deve também descrever que as glórias e as inglórias da Europa não é monopólio europeu; o monopólio das guerras, intrigas e usurpações não é somente parte da Europa, mas é algo que permeia a vida humana desde sempre; da antiga Mesopotâmia, ao auge do Império Babilônico, o Império Medo-Persa, o Império Grego, o Império Romano, etc., todas as civilizações foram permeadas por glórias e inglórias; a diferença é que após uma glória tamanha alcançada pela civilização cristã, a mesma se secularizou de tal modo que a fez regredir aos piores estágios dos povos xamânicos; a Europa cristã se secularizou de tal modo que se tornou em Europa xamânica; e isso é um fato inegável.

E, ao invés de se aperceber deste fato, cria-se uma imagem irreal do que foi de fato a Europa; criou-se uma imagem envernizada da cultura europeia como se a mesma tivesse sido no passado de uma perfeição celeste; a Europa nunca foi perfeita; todavia, a degradação chegou a um nível tão abrupto que a falta de compreensão sobre a realidade tenta rememorar um tipo de perfeição inexistente para tentar “conter” esta degradação.

Todavia, como é evidente, esta degradação não tem solução rápida; pois, o problema da Europa não foi a falta de perfeição, mas sim a decadência abaixo do limite humano aceitável; a inglória que emana da Europa secularizada é tão medonha que fora suficiente para desfigurar as glórias passadas - e assim um “Alzheimer” total tomou conta da memória da Europa. A Europa já não sabe quem foi, e por isso não pode entender quem é e nem quem será; pois, a falta de memória é a falta de presente e falta de futuro.

Ora, este Alzheimer existencial e histórico da Europa, não somente tem por consequência a perda da memória da Europa propriamente dita, mas é expressão da degeneração da Europa em vias de submissão a poderes de mando, ou na expressão mais moderna, na subserviência ao Estado Total (seja no âmbito nacional, seja no âmbito internacional); no passado muitos imperadores ditos cristãos se mascararam através da fé para implementar um Estado Total sob invólucros cristãos; o Império Bizantino foi submetido a isso em muitos momentos, e em alguns casos isso chegou até influir na religião cristã, onde as decisões eclesiais foram moldadas pela vontade de poder de líderes que se diziam cristãos mas na verdade queriam usurpar a autoridade divina sobre a Santa Igreja, como por exemplo, na vil condenação das obras de Orígenes, na hedionda perseguição contra São Máximo o Confessor, etc.

E nisto está a raiz primeira da secularização da Europa; pois, o início da secularização da Europa é semeado com a aceitação da usurpação contra a maior das autoridades da Santa Teologia, a saber, Orígenes; a vituperação da autoridade de Orígenes, a maior e a mais abalizada autoridade em teologia e filosofia, algo reconhecido por todos os Padres da Igreja, e por grandes filósofos, germinara as sementes da secularização da Europa cristã; e como foi algo muito aceito na época, o que evoca um certo assombro, os frutos da usurpação no momento inicial foram velados através de conquistas e grandes construções; mas a consequência adveio, demorou mais adveio, e fora cabal, total e inalterável - o fim do Império Bizantino e o fim da cultura greco-cristã. Aliás, se menciona que a maior parte das confusões europeias sempre foram motivadas por usurpação contra autoridades - e o caso de Orígenes é a mais abrupta e hedionda usurpação já feita contra uma autoridade no âmbito religioso.

E, após esta usurpação inominável, o que selou o destino da Europa cristã para seu fim, ainda que isso tenha demorado séculos para ocorrer, fez ressurgir no âmbito da cultura europeia, em toda a extensão do que foi o Império Romano, as confusões inerentes a época da religião primeira; por esta razão houve nesta época um ressurgir das antigas culturas mesopotâmicas; aliás, houve um aperfeiçoamento pleno da cultura do crescente fértil através do surgimento do Islam; o Islam é o grau máximo do aperfeiçoamento da cultura mesopotâmica; com efeito, após o selamento do destino da Europa cristã por causa da usurpação contra Orígenes, isso fez necessário o surgimento do elemento corregedor, ou elemento de correção - o Islam. O Islam surge como necessidade histórica dado as infâmias que se instauraram na civilização europeia, tal como os impérios da antiguidade surgiam para combater as infâmias do povo de Israel.

E aqui está a sabedoria necessária para se compreender o futuro da Europa; a Europa cristã como se conhece certamente definhará e acabará; no entanto, cumpre àqueles que disto se apercebem, salvaguardar o que é necessário da cultura europeia para o futuro, para que após as consequências da secularização dissolverem, se possa novamente reedificar a cultura europeia; e, que ninguém se assuste, esta é a mais otimista das esperanças em relação a Europa.

 

III

 

A consequência final desta secularização pode ser evocada a partir da Queda de Constantinopla; pois, como fora dito, se para se entender o séc. XX seria necessário ter como ponto de apoio Berlim, para se entender toda a crise da Europa, há de se retornar a Constantinopla, a antiga capital do Império Bizantino; e se evoca aqui a Queda de Constantinopla, não porque fora da cultura bizantina apenas que surgira a secularidade da Europa, mas porque a secularidade da Europa foi “processualizada” do mesmo modo como ocorrera a secularização de Constantinopla; embora a secularização da Europa seja uma secularização muito mais abrupta do que a secularização que dominou a capital do Império Bizantino.

Por isso, entender a Queda de Constantinopla corretamente abaliza o entendimento sobre a crise da Europa. Pois, as práticas hediondas que se instauraram em Constantinopla no passado, são em menor expressão, os erros da cultura europeia dos últimos séculos. Anteriormente, fora mencionado duas ações terríveis praticadas em Constantinopla, a usurpação contra Orígenes e a perseguição contra São Máximo o Confessor; e estas são apenas duas das muitas ações terríveis praticadas; entretanto, em suma, nestes dois exemplos evocados se tem o que é necessário para se entender a causa da Queda de Constantinopla.

1. Em relação a usurpação contra Orígenes, se evidenciam três coisas: (i) primeiro, a inveja contra aqueles que são superiores moralmente e intelectualmente; ora, não podendo os imbecis e invejosos falar nada contra Orígenes, trataram de atacar sua imensa obra; e as mentiras e falácias inventadas contra as obras de Orígenes, sem terem conseguido sequer “refutar” algum destes erros demonstram que Orígenes foi vituperado por causa da inveja e da maledicência devido a sua superioridade moral e intelectual em relação a todos os outros teólogos da cristandade; e não só entre os teólogos, mas também entre os filósofos.

(ii) Segundo, as sandices e maledicências dos medíocres contra as autoridades teológicas; ora, os medíocres se levantaram contra a mais alta e a maior autoridade teológica não por conta de erro ou heresia, mas devido a sandice que a burrice e a luxúria promovem entre aqueles que pensam ter alguma capacidade diante de supostos erros e desvios daqueles que são mais excelentes. As sandices inventadas contra Orígenes demonstram a sobre-excelência de Orígenes tanto em teologia quanto em filosofia, e evidenciam a burrice que começou a tomar conta da dita intelectualidade europeia desde então.

(iii) Terceiro, a tentativa de se sobrelevar a uma autoridade através da usurpação; ora, as sandices inventadas contra a obra de Orígenes foi a tentativa de homens medíocres e imbecis, e de líderes públicos que queriam dominar a fé, de tentarem se sobrelevar a uma autoridade teológica; usurparam Orígenes para tentar destruir sua autoridade; e embora tenham destruído quase toda a obra de Orígenes, e tenham-no anematizado de maneira vil e afrontosa, a autoridade de Orígenes em nada foi minada, pois os usurpadores que acharam que se sobrelevaram a autoridade de Orígenes destruindo sua obra acabaram por escrever em tábuas de bronze o destino da cultura cristã, a saber, ser usurpada, dominada e destruída.

2. Em relação a perseguição contra São Máximo o Confessor, se evidenciam três coisas: (i) primeiro, o ódio contra quem vive uma vida santa; ora, a vida santa de São Máximo o Confessor se tornara no juízo da sociedade constantinopolitana da época; a santidade de São Máximo desvelou a hipocrisia e o descaro do cristianismo em Constantinopla em seu tempo; por isso, São Máximo o Confessor fora odiado, pois sua vida santa testemunhara da doutrina correta; e quando os homens ímpios querem perverter a doutrina a primeira coisa que fazem é odiar e promover ódio contra os que vivem em santidade.

(ii) Segundo, as ações promovidas em conjunto para ridicularizar a retidão da fé verdadeira; ora, o ódio contra São Máximo o Confessor na sociedade constantinopolitana de sua época se tornara em ações conjuntas entre a sociedade e os líderes públicos a fim de tentarem ridicularizar a retidão da fé verdadeira; vituperaram São Máximo publicamente para escarnecerem e ridicularizarem a fé verdadeira na tentativa de destruir a fé, mas o testemunho e a perseverança de São Máximo o Confessor fizeram com que a chama da fé verdadeira e da doutrina correta permanecessem acesas.

(iii) Terceiro, a tentativa da sociedade de destruir a firmeza de uma fé impoluta; ora, as ações promovidas pela sociedade corrupta para tentar ridicularizar São Máximo o Confessor foi na verdade a tentativa de minar e destruir a firmeza de uma fé impoluta; São Máximo foi torturado e ridicularizado pela sociedade de sua época como espetáculo para o mundo (cf. 1Co 4.9); no entanto, o caráter impoluto e a firmeza granítica da fé de São Máximo foi a pior condenação aos seus concidadãos: enquanto estavam rindo, ridicularizando, torturando e escarnecendo de São Máximo o Confessor estavam na verdade calcinando o próprio lugar no inferno; etc.

[...]

E estes dois exemplos evocados, o da usurpação contra Orígenes e o da vituperação de São Máximo o Confessor, demonstram os erros que infelizmente passaram a dominar a sociedade bizantina dos sécs. VI e VII; estes erros, vez ou outra, retornavam e sempre com agudeza ainda maior; e estes erros foram a causa da apostasia de Constantinopla, e o que levou ao fim do Império Bizantino; Constantinopla foi saqueada e conquistada por causa da apostasia que se avolumou de maneira horrenda na sociedade bizantina.

E, embora a maior parte prefira não mencionar isso, principalmente em se tratando dos ortodoxos, é um fato que a Queda de Constantinopla foi juízo de Deus pela maldade e apostasia que se assomou nesta cidade que em tempos antigos foi uma das joias da cristandade e da cultura europeia. E, por ter sido juízo de Deus, é um fato inegável que Constantinopla nunca mais tornará a ser erguida. O juízo de Deus foi lançado contra Constantinopla, e nada e nem ninguém tornará a reedificar esta cidade.

 

IV

 

Assim, para se compreender a crise da Europa e suas consequências, há de se fazer uma anamnese da Europa, tendo em vista os “processos” inerentes as crises de Constantinopla antes do fim do Império Bizantino; ora, para se fazer isso, é necessário analisar três aspectos que concorrem em conjunto para se fazer uma anamnese da Europa, os quais são: primeiro, a memória intelectual da Europa; segundo, os estágios do Alzheimer da cultura europeia; terceiro, o destino proveniente da secularização.

1. Primeiro, a memória intelectual da Europa; ora, diante de um presente secularizado, e de um futuro desesperançado, convém indagar sobre o passado; mais propriamente pela memória intelectual da Europa; pois, ainda que no passado houvessem coisas ruins, é no passado que a Europa vai recuperar sua memória para entender seu presente e compreender para onde caminha (futuro); na verdade, a memória intelectual da Europa é onde se desvela se há possibilidade de conter ou não o hediondo secularismo que se alastra de maneira incontrolável; os erros e as glórias do passado são um fanal para indicar o caminho: tanto para se evitar os mesmos erros quanto para encaminhar nas sendas gloriosas da virtude e da honra.

Além do que, a memória intelectual da Europa não simplesmente diz respeito a feitos ou conquistas propriamente ditas intelectuais, mas ao desenvolvimento de um horizonte de consciência que acoplou a cultura helênica, a cultura romana e a cultura cristã de modo a criar um modo de vida que sublimou a vida greco-romana, bem como acoplou à ordem social fundamentos religiosos racionais; assim, a memória intelectual da Europa não é para criar um saudosismo doentio, mas para designar o caminho correto para a reconfiguração da própria Europa diante do secularismo; pois, o secularismo ou cria Alzheimer histórico ou gesta saudosismo utópico.

Mas, no que consiste a memória intelectual da Europa? A memória intelectual da Europa consiste em: (i) manter o núcleo da cultura helênica; (ii) conservar o ímpeto da cultura romana; (iii) cultivar a consciência cristã; (iv) abrir-se para as múltiplas manifestações da verdade; (v) preservar-se da barbárie (seja ela proveniente donde for e do que for); (vi) cultivar e ensinar a vida de acordo com a lei moral natural.

Portanto, na memória do que a Europa teve de bom, de belo e de verdadeiro, se abstrai o que é necessário de como a Europa deve entender seu estado atual, e se semeia os gérmens do que a Europa deve esperar do futuro. A honra para com o passado, engendra a virtude e a honra para o presente, a fim de que a colheita dos frutos no futuro seja benéfica e frutuosa.

2. Segundo, os estágios do Alzheimer da cultura europeia; ora, se não se entender adequadamente a memória intelectual da Europa, pode-se até não se gestar um saudosismo utópico, mas com absoluta certeza se gerará um Alzheimer na cultura europeia; este Alzheimer destrói a identidade cultural da Europa, bem como retira a possibilidade de qualquer memória intelectual adequada sobre as glórias do passado; e este Alzheimer não se institui totalmente de uma vez, mas vai sendo instaurado por estágios; ora, os estágios do Alzheimer da cultura europeia são assim sumariados: (i) ceticismo em relação a verdade; (ii) rejeição da religião; (iii) rejeição da humanidade; (iv) dogmatismo imoralista; (v) sedução para o extremo; (vi) transmutação de todos os valores; etc.

Estes estágios são subsequentes, e muitas vezes um ou outro advêm em conjunto; com isso, estes estágios instituem um Alzheimer tão profundo na cultura europeia ao ponto de a Europa não saber mais quem foi; e a falta da Europa em compreender a própria história é o que a torna sujeita as prostituições intelectuais do secularismo, tornando a cultura europeia sujeita as fragmentações da pós-modernidade, tornando a túnica da Europa um tecido retalhado e totalmente fragilizado.

Com efeito, estes estágios vão se assomando aos poucos, e um estágio prepara o seguinte; por isso, em cada estágio que se instaura se forma uma camada cástica indestrutível, e a medida que se instauram outros estágios, mais camadas cásticas vão se formando; e assim este Alzheimer da cultura europeia se torna cada vez mais difícil de ser apercebido; quanto mais profundas se tornam as raízes destes estágios mais difícil é a percepção das consequências dos mesmos, e, por conseguinte, mais trabalhosa se torna a busca por alguma solução.

O Alzheimer da cultura europeia é o atestado de óbito da sociedade ocidental; goste-se ou não, aceite-se ou não, a cultura europeia ao ser permeada por este Alzheimer, esquecera-se de quem é, e se tornou o que jamais deveria ser – a própria antípoda de tudo o que fora no passado. 

3. Terceiro, o destino proveniente da secularização; ora, se os estágios do Alzheimer da cultura europeia foram instaurados, então a secularização nasce, cresce e se desenvolve; e do mesmo modo como cada um destes estágios possui suas consequências específicas, e ao serem todos instaurados se tem outras consequências ainda piores, a secularização não só tem suas terríveis consequências, mas instaura um fado inalterável sobre a Europa; ou mais propriamente, um destino irrevogável para a Europa, o destino da secularização.

Ora, o destino proveniente da secularização semeia três sementes: (i) a semente da assolação; (ii) a semente da negação; (iii) a semente da tormenta existencial. Assim, a primeira semente ao frutificar gera destruição; a segunda semente ao frutificar gera negação de tudo o que existe (que toma forma filosófica na dialética negativa); e a terceira semente ao frutificar gera desespero, desencanto e tempestades psíquicas.

Portanto, o destino proveniente da secularização é cabal e total: nada escapa e tudo é açambarcado pelas maldições inerentes a secularização; pois, a semente de assolação gera destruição; e a Europa ao perder sua identidade se submeteu a várias doutrinas e práticas que semeiam assolação. Deste modo, a Europa perdeu sua primogenitura intelectual e espiritual ao vender-se em troca dos pratos de lentilhas dos porcos secularistas.

E, infelizmente, este destino cumprir-se-á a risca; só haverá algum futuro para a cultura europeia se no presente for preservado algo de bom, tal como Santo Agostinho, São Bento, e outros, preservaram o que havia de bom em meio as assolações que antecederam a Queda do Império Romano Ocidental; somente assim, algo de bom da cultura europeia será preservado para o futuro; pois, o destino do secularismo, levará a Europa para sua própria destruição; e este é o fado da cultura europeia, iniciado de maneira inalterável devido a usurpação inominável contra a autoridade de Orígenes.

[...]

Ora, estes três aspectos demonstram alguns pressupostos do que é necessário para se fazer uma anamnese da Europa, e para se fazer uma anatomia do estado existencial da Europa; a chaga mortal que assola a Europa não tem solução rápida: e a gravidade desta chaga demonstra que é dificílimo até mesmo curar esta doença; na verdade, se sabe que o destino da Europa cristã fora selado; no entanto, é possível conservar e preservar alguns elementos para que a cultura europeia não se perca em meio a esta terrível secularização; esta é a tarefa primordial diante da hidra da secularização; aliás, esta é a única atitude frutífera em vista da preservação de algo bom para o futuro; pois, uma coisa é certa e cabal: a Europa cristã não existe mais e não voltará a existir durante séculos; mas, como fora dito, é necessário entender e compreender o que se deve salvaguardar da cultura europeia para o futuro.

Certamente, isso pode parecer pessimismo; todavia, não é pessimismo; seria pessimismo se houvesse possibilidade de se vencer a hidra do secularismo; mas, infelizmente, onde a hidra do secularismo já se estabeleceu a mesma se torna algo invencível; isso é realismo, não pessimismo; aliás, não compreender isso seria idealismo utópico; a realidade europeia se mostra como algo em plena decadência, decadência essa que não será parada por nada.

Assim, diante da realidade europeia se deve ter um realismo sincero, e não saudosismo dos imperialismos do passado ou utopias grimóricas para o futuro; a glória da Europa não está em impérios ou imperadores famosos, mas sim na concórdia entre os ensinamentos da revelação e as conclusões da reta razão; na verdade, só se preservará algo de bom da Europa se houver obediência aos mandamentos divinos e o cultivo da reta razão.

 

Epílogo

 

Assim, conclui-se esta meditação sobre a Europa, a qual poderia também ser chamada de uma meditação anamnésica sobre a Europa, já que se procurou descrever a crise da Europa e sua causa; embora já se tenha mencionado um ou outro aspecto a respeito disso em outros escritos, nesta meditação se pode evocar uma linha tênue de compreensão que explica e desvela plenamente no que consiste a crise da Europa, e, por consequência qual o destino da Europa e de toda a civilização ocidental.

Ora, se no passado Ortega y Gasset procurando entender a crise da Europa de sua época evocou Berlim como seu ponto de partida, para se entender a causa da crise da Europa foi necessário voltar a antiga capital do Império Bizantino, Constantinopla, para se entender donde provém o núcleo de sentido do secularismo que assola a Europa desde o séc. XIV; este secularismo foi semeado no séc. VI, mas só frutificou de maneira plena na baixa idade média, no final do séc. XIV e no início do séc. XV; e os frutos deste secularismo ainda permanecerão por séculos antes de serem dissolvidos.

Portanto, a atitude diante de secularismo já foi em parte evocada, e assim, deve-se caminhar cada vez mais para se entender no que consiste este secularismo e as crises europeias, para que pelo menos as consequências deste secularismo possam ser diminuídas ao máximo possível, a fim de se preservar o que a cultura europeia tem de bom, em função do bem comum e para a glória maior de Deus. 

E termina aqui esta meditação. θεῷ χάρις! 


06/06/2020

Meditação sobre o documentário Human

I

 

Vós me pedistes uma meditação sobre o documentário Human; alguns meses atrás escrevi uma breve recensão sobre este documentário, e ao fazer esta meditação, certamente muito do que aqui é dito já fora analisado ou esboçado nesta recensão ou em outros escritos que evocam algo sobre este documentário. Entendido isso, meditar-se-á brevemente sobre este documentário sobre a dialógica “ética e humanismo”.

O documentário Human (2015), produzido pelo fotógrafo Yann Arthus-Bertrand é um ponto de contato com os temas e os problemas éticos. O documentário bem os apresenta nas mais variadas dimensões da vida humana, tanto no sentido sócio-político quanto na pessoal-social. Desta forma, a relação entre ética e filosofia política com a realidade a qual o ser humano está inserido se demonstra de maneira multiforme, pois a manifestação da vida humana é em multiformidade ou multipluralidade.

Ao se observar os diferentes matizes culturais, bem como seus respectivos padrões éticos, constata-se a universalidade de um princípio, ou em outras palavras uma manifestação daquilo que é humano demasiadamente humano, a saber, o amor. No documentário, se apresentam várias situações difíceis, algumas delas até chocantes, mas sempre se fala sobre o amor, e o amor em suas variadas dimensões, mas certamente aquele que se sobressai-se é o amor da caridade, reflexo direto do amor divino.

Este amor é a manifestação da maior compaixão humana, que perdoa o que é perdoável, que aceita, que procura entender as diferenças e que assim procura mudar, transcender-se; é evidente que onde há a manifestação deste amor, o mesmo brotará e assim sucessivamente espalhará seus pólens aos campos férteis da natureza humana.

Este aspecto da dimensão ética, muito bem elaborada pela ética cristã, sendo o mesmo um princípio universal, é evidentemente apresentado nas questões em que envolve culturas ocidentais; mas há também o envolvimento nas culturas orientais, onde a manifestação do mesmo se mostra evidente. O amor permeia todas as culturas, seja no Ocidente seja no Oriente.

 

II

 

O documentário propõe este caminho, talvez para começar a apresentar outras facetas, que se não fora pelo antídoto do amor, seriam praticamente impossíveis; mas sendo o amor aquilo que tira o absurdo da existência, logo a manifestação do amor torna a moral em algo comum a todos.

Há também algumas outras manifestações daquilo que é humano, principalmente em relação a ética; em certos casos, não há o padrão moral absoluto, mas há a atitude de fé frente aos desafios, para ocasionar mudanças, ou seja, o ser que procura mudar situações difíceis, pois é responsável por sua existência.

Outro problema ético que versa é o da pobreza, aquela baixa condição que acutila muitíssimo a dignidade humana, e que ressoa nas mentes mais aguçadas perguntas sobre a economia, a política, a desigualdade, etc. De certa forma, muitos fazem com que esta realidade se torne mercado político para manifestações contrárias prometendo trazer liberdade, conquanto para isso também cometem erros grotescos.

Na verdade, aquilo que é humano deve ser moral, logo, ético, para o bem de si e do próximo; visando a virtude inerente ao ato, o ser humano vive uma vida para bem comum, daquilo que falava Platão, das virtudes cardeais, sendo que intercalando-as com as pepitas de ouro da comunhão fraternal, gera-se a possibilidade de uma sociedade mais equilibrada. O lema agostiniano da manifestação da cidade de Deus na cidade dos homens é algo adequado para se compreender isto.

Outrossim, é a validade destes conceitos que se manifesta naquilo que Mujica fala sobre a sobriedade. A mesma sobriedade que os místicos cristãos falavam em relação ao desenvolvimento da vida piedosa, aquilo que de certa forma fundamenta o desenvolvimento da cultura; por exemplo, São Bento falava em sua regra sobre ora et labora, certamente um caminho para a sobriedade pessoal, social, comunitária e cultural.

Desta maneira, a sobriedade ajuda a evitar caminhos extremos por elementos culturais dominantes ou não, quando os mesmos são nocivos, como por exemplo, a ditadura do ter apresentado pela sociedade ocidental como uma forma de viver, etc.

Ainda, outro traço muito importante que permeia o documentário, é o das belas paisagens, da diversidade do belo na vida humana; apesar de ser ética e não estética, o senso do belo deve estar presente na ética, vice-versa. A vida humana precisa de beleza, e apesar dos desafios que se impõe tentando fechar o ser humano a estas realidades anti-beleza, sempre há de se ter em vista àquela virtude de que falava Aristóteles que visa a felicidade, poia a maior felicidade que há, mesmo em condições contrárias, é poder contemplar as maravilhas e as belezas da vida humana; em meio ao desespero encontrar um caminho de esperança, em meio a solidão e a humilhação um caminho de amor; esta é uma escola que ensina a esperança.

O interessante é que, uma das maiores belezas da vida humana apresentada no documentário é a família; mesmo em condições onde não existe o amor familiar, o mesmo nunca deixa de ser valioso, até mesmo para aqueles que sofrem com o desamor familiar; aquela instituição feita pelo benfazejo Criador está no âmago da vida humana, pois é o primeiro centro cultural e social que cada ser humano está inserido em sua vida, sendo a mesma um elemento indissolúvel para o desenvolvimento da vida humana.

Estas breves palavras dão um magro esquema do que se refere este documentário; e diante de vós as tendo pronunciado, as encerro aqui certo do que fora falado. 

Laudate Deo! 


30/11/2015

Algumas Migalhas Meditativas

Nota Preliminar

 

Estas breves meditações foram feitas durante as semanas de outubro e novembro de 2015, a fim de apresentar algumas verdades da fé de forma acessível a pessoas símplices; não são de fato meditações ao estilo correto, mas são como o próprio título indica, migalhas meditativas sobre tópicos concernentes a fé, com apenas algumas pequenas correções quanto a oralidade do registro.

 

I

 

“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119.11).

 

O texto o qual nós lemos nos fala que o salmista escondeu a Palavra do Senhor em seu coração. E isto demonstra a importância da Palavra de Deus para a vida na fé.

E será que damos o devido valor a Palavra de Deus a ponto de escondê-la em nosso coração? Ou será que se tem uma vil omissão em relação ao valor que os fiéis devem dar a Palavra de Deus na vida cristã?

O salmista escondeu a Palavra de Deus em seu coração, pois esconder significa proteger. E só se protege algo que se tem importância e valor. Por exemplo, tem muitas pessoas que possuem em suas casas cofres para guardar seus objetos importantes, dinheiro e similares. No entanto, o salmista não guarda objetos, riquezas ou dinheiro, ele guarda a Palavra de Deus no recôndito de seu coração. Os homens dão valor a muitas coisas inúteis, e esquecem-se da pérola de grande valor: esquecem-se de dar o devido valor e tempo à Palavra de Deus. O salmista ensina qual deve ser a prioridade espiritual: “Também os teus estatutos são o meu prazer e os meus conselheiros” (Sl 119.24).

E o salmista escondeu a Palavra de Deus em seu coração com um propósito, a saber, não pecar contra o Senhor. O pecado nos afasta de Deus, mas a santificação nos aproxima d’Ele. O salmista ensina que ao guardar a Palavra de Deus em seu coração ele estaria próximo do Senhor. A Palavra nos santifica: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A Palavra traz as bênçãos da santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (cf. Hb 12.14).

A santificação vai libertando os fiéis aos poucos do pecado e os tornando semelhantes a Cristo, para que quando Cristo voltar encontre os eleitos em mácula, nem ruga, mas irrepreensíveis e santos.

Que o Senhor nos ajude na batalha pela santificação. Que Ele nos conceda graça necessária para que possamos dar o devido valor a Sua Palavra, fundamento da nossa vida e da nossa fé, pois por meio da Palavra somos santificados pelo Espírito Santo. Pois, como o Santo Evangelho ensina estas palavras são palavras de vida eterna (cf. Jo 6.68). Que Ele nos ajude a vencer a batalha que nos deixa omissos para com a leitura bíblica, e que Seu Santo Espírito nos mova a fim de darmos o devido valor a Sua Santa Palavra, a fim de crescermos espiritualmente. Amém!

 

II

 

“Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos” (Sl 119.71).

 

O salmista ensina que foi bom ter sido afligido, por causa do que ele aprendera com esta aflição. O salmista entende o bem que provém da aflição, ao entender que a aflição o conduziu a entender os estatutos do Senhor.

E este texto sagrado nos ensina três lições:

1º- O sofrimento tem um propósito. Todos os sofrimentos da vida tem um propósito maior. No caso do salmista, ele sofreu para que aprendesse a andar como Deus queria. E precisamos aprender a olhar o sofrimento de nossa vida sob essa ótica, de que Deus tem um propósito para o nosso bem em meio ao sofrimento, para nosso fortalecimento e nossa edificação.

2º- O sofrimento traz mudança. Todo sofrimento vem carregado de mudanças para a nossa vida espiritual. O sofrimento vem com mudanças, para sermos moldados a medida da estatura de Cristo. O sofrimento vêm de forma carrancuda, mas com um sorriso sorridente que se manifesta após a provação.

3º- O sofrimento é um momento propício para nos aproximarmos mais de Deus. Todo sofrimento vem para nos conduzir para mais próximos de Deus. E isso é algo muito bom, pois em meio aos sofrimentos e aflições tão agudos sabemos que temos um braço onde podemos descansar. O sofrimento é bom para reconhecermos nossa pequenez, e nos apegarmos Àquele que é perfeito, infinito e todo-poderoso. No sofrimento descobrimos nossa realidade, de que somos pós, e nos colocamos humildemente diante da onipotência e sapiência do Deus Altíssimo.

Então, em meio a todo sofrimento que passarmos, que possamos ter a certeza de que Deus está conosco; de que Ele tem um propósito em meio a todos os sofrimentos que passamos, e que este propósito é nos moldar a imagem de Cristo, e nos conduzir aos seus braços acolhedores de Pai Santo.

Que o Senhor nos ajude a entender os propósitos do sofrimento em nossas vidas, e nos conceda a graça necessária para que possamos passar pelo vale das provas e transformá-lo em lugar de bênçãos tanto para nós mesmos quanto para outros, lembrando do que o Senhor dissera para o Apóstolo: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9). Amém!

 

III

 

“Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer” (Jo 15.14-15).

 

O texto o qual lemos é um discurso do Senhor Jesus. Ele fala sobre amizade. Não a amizade na esfera humana, mas sobre a amizade com Ele próprio. E que maravilha é compreendermos que podemos ser amigos de Cristo, que podemos chegar a ter com Ele um grau de comunhão tão profunda que possamos ser chamados por Ele de seus amigos.

Mas, como podemos saber se somos ou não amigos de Jesus? O texto sagrado nos fornece duas lições para compreendermos quem é amigo de Cristo, as quais são:

1º- A amizade com Cristo está vinculada a obediência. O próprio Cristo dissera que os seus discípulos seriam seus amigos se obedecessem aos Seus mandamentos.  E aqui existe uma condição, o “se”; por isso, todo fiel pode se tornar amigo de Cristo através da obediência. A obediência é a qualidade do caráter do cristão que demonstra sua submissão a vontade soberana de Deus, sabendo que a vontade de Deus é a melhor coisa da vida. A obediência nos leva a caminhos mais sublimes diante de Deus. A obediência nos leva para os braços d’Aquele que nos acolhe e recebe com Amor Incondicional.

2º- A amizade com Cristo nos traz a intimidade com Ele a ponto d’Ele nos revelar Sua vontade. Amizade representa comunhão. E à medida que vamos nos aproximando de Cristo por meio da obediência aos Seus mandamentos, se experiencia uma comunhão tão agradável que nosso ser se enche de plena alegria e satisfação. Pois, quando somos amigos de Cristo, Ele nos dá a conhecer os desígnios de Deus e a compreender o propósito d’Ele para nossas vidas.

Que o Senhor nos conduza nessa direção, da amizade com Ele, a ponto de sermos conhecidos por Deus e pelos homens como amigos de Cristo, a fim de experienciarmos uma comunhão tão profunda com Ele, que Ele mesmos nos revele os mistérios de Deus. Amém.

 

IV

 

“Aquele que diz que está nele também deve andar como ele andou” (1Jo 2.6).

 

O texto sagrado que lemos ensina que quem diz que está em Cristo deve andar como Ele andou. Portanto, se alguém se diz cristão devem andar como Cristo andou, deve palmilhar os mesmos passos de Cristo. Andar como Jesus andou é ser imitador de Cristo.

Entretanto, surge a indagação: como Jesus andou?

A Escritura toda contêm inúmeros exemplos sobre a vida de Cristo, de como Ele agia e se comportava, de como era o Seu proceder. No próprio texto sagrado lido se apresenta algumas característica de Cristo, de como Ele andou.

Ora, duas são as características de Cristo apresentadas no texto lido:

1º- Cristo é puro (cf. 1Jo 3.3c). A pureza reporta uma vida de santidade. A sentença divina é: sede santos (cf. 1Pe 1.16). O próprio Senhor Jesus exortara seus discípulos: “Porque eu vos dei exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15). O Senhor Jesus nos deu exemplo de uma vida pura e santa, para que possamos viver uma vida de santidade diante de Deus e dos homens, experimentando a excelência da comunhão com Ele através da santidade. Somente uma vida em santidade poderá se achegar a Deus para ter comunhão com Ele, pois Ele é santo.

2º- Cristo é justo (cf. 1Jo 3.7c). Assim como Cristo é santo, Ele também é justo (cf. Sl 145.17). A santidade leva a uma vida justa. E uma vida justa é uma vida íntegra diante de Deus e dos homens, diante dos quais os homens verão em nós a justiça de Deus mediante uma vida de santidade. A justiça de Deus se manifesta em nosso favor quando cremos em Cristo como Senhor e Salvador, e se aperfeiçoa em nós a medida em que vivemos uma vida santa.

Que o Senhor nos ajude a vivermos uma vida justa e santa diante d’Ele. Que o Senhor nos ajude que a vida santa e justa do Senhor Jesus seja manifestada em nós, para que através de nosso testemunho o mundo venha a conhecê-Lo e adorá-Lo. Amém.

 

V

 

“Aquele que diz: Eu o conheço-o e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está à verdade” (1Jo 2.4).

 

O tempo que estamos vivendo é um tempo em que muitas pessoas vivem hipocritamente, ou seja, apenas professam ser algo e não vivem de acordo com o que professam.

Mas para os cristãos não tem sido diferente; os “cristãos” estão tão mundanos que professam que conhecem a Cristo, mas não vivem de acordo com a fé professada.

Todavia, o texto ao qual nós lemos fala que aquele que diz que conhece o Senhor Jesus, mas não obedece aos seus mandamentos é mentiroso e nele não está à verdade.

O verdadeiro cristianismo é conhecido quando se obedece aos mandamentos contidos na Palavra de Deus. Apenas uma vida comprometida com obediência à Palavra de Deus poderá dizer com firmeza e com convicção que conhece ao Senhor.

Então fica uma pergunta para autoanálise da nossa vida: Será que a obediência a palavra de Deus é tanta a ponto de se poder dizer verdadeiramente que se conhece ao Senhor?

A obediência ao Senhor leva a comunhão com Ele. O próprio Senhor Jesus disse em João 15.14: “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o eu vos mando”. A obediência a palavra que o Senhor nos ordena, concede o privilégio de sermos chamados de amigos de Jesus.

Entretanto, surge outra pergunta para autoanálise das nossas vidas: Será que se está disposto a conhecer o que o Senhor Jesus ordena em sua palavra? E mais: será que se está disposto a ser obediente a tal ponto que possa ser chamado pelo Senhor de amigo?

Que o Senhor nos ajude nessa caminhada que devemos trilhar rumo à obediência. Que Ele nos conceda a graça necessária para que possamos obedecê-Lo, e sermos chamados seus amigos, a fim de usufruirmos dessa intimidade que está disponível para todo aqueles que esteja disposto a ser obediente aos mandamentos divinos. Amém!

 

VI

 

“Purificando a vossa alma na obediência a verdade...” (1Pe 1.22).

 

 Um sábio chinês disse certa feita: “O maior perigo que ronda os seres humanos é se esquecer dos princípios que governam a sua vida”. E isso é verdade. Muitas vezes os cristãos esquecem-se de princípios ordenados pelo Senhor Jesus em Sua Palavra. E um dos princípios mais esquecidos atualmente é o de viver uma vida pura, santa, sem macula, o de viver uma vida de santidade diante do Senhor. Pois, sem santidade ninguém vera a Deus (cf. Hb 12.14).

E o texto ao qual nós lemos fala de purificação, ou seja, o ato de tornar puro. Pode-se entender aqui um princípio: que os cristãos tem de se purificar constantemente, ou seja, manter uma vida pura. E mais, o texto sagrado fala de purificar a nossa alma, ou seja, nossos desejos, vontades e sentimentos devem todos estar purificados. O Apóstolo disse que a nossa alma deve se encontrar irrepreensível diante do Senhor (cf. 1Ts 5.23).

A Escrita ensina que os desejos carnais combatem contra a alma (cf. 1Pe 2.11), ou seja, eles armam ciladas procurando destruir a nossa alma. Por isso, a alma deve estar pura, santa, irrepreensível diante do Senhor para que nesse combate o fiel possa sair vitorioso (cf. 1Jo 5.4).

Assim, surge a indagação: como purificaremos a nossa alma? Ou ainda como continuaremos nesse processo de santificação da nossa alma? A resposta é simples: através da obediência a verdade. A obediência a verdade que está revelada na Escritura tem como efeito a purificação para a nossa vida. O próprio Senhor Jesus disse: “Vós estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3).

A Palavra de Deus traz limpeza contra os desejos carnais que combatem contra a nossa alma. No entanto, para que essa purificação seja realizada em todo o nosso ser, é necessário obedecer à Palavra de Deus. A palavra que norteia a nossa santificação é obediência.

Que o Senhor nos ajude a sermos obedientes a Sua Palavra, para que por ela sejamos purificados, para que por ela sejamos mantidos santos, pois é por meio dela que o Espírito Santo opera a santificação em nós. E que a oração do Senhor Jesus possa ser a nossa oração: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). Amém!

 

VII

 

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará das minhas mãos” (Jo 10.27-28).

 

Um texto muito interessante esse aos qual nós lemos. Pois, neste texto Jesus está falando que os seus discípulos são como ovelhas. As ovelhas são os animais mais dóceis, mais fracos, mais dependentes e que mais necessitam de cuidados entre todos os animais.

E porque Jesus utilizou da figura da ovelha para as comparar com os cristãos?

É simplesmente porque a vida de um cristão é igual à vida de uma ovelha. As ovelhas precisam de cuidados de seu pastor, os cristãos precisam dos cuidados do Sumo-Pastor; as ovelhas precisam de proteção contra os seus devoradores, os cristãos precisam de proteção contra as forças do mal.

Por isso, em meio a tudo isso existe a gloriosa promessa: “... ninguém as arrebatara das minhas mãos”. Os cristãos podem passar pelos mais escuros vales da vida, mas possuem a certeza da promessa que ninguém os poderá tirar das mãos do Senhor.

Mas como podemos ter a certeza eterna que estamos seguros nos braços eternos do Senhor? A resposta é simples. Observemos, pois o texto: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem...”. Eis aqui o mistério. As ovelhas que ouvem a voz do Bom Pastor, são ovelhas que lhe obedecem, pois elas ouvem a voz do Bom Pastor, voz essa que lhes é conhecida e então elas o seguem para os pastos verdejantes que só o Sumo-Pastor as pode levar.

A ovelha, o cristão, é marcado pela sua obediência a voz do seu pastor, do Sumo-Pastor Jesus Cristo. Somente uma ovelha obediente pode estar segura que ainda que alguém possa matar o seu corpo físico, ela estará rompendo na eternidade ao lado do seu eterno Pastor contemplando-O face a face

Que o Senhor nos ajude a sermos ovelhas obedientes a Sua voz, a sermos ovelhas que o seguem sem questionar, caminhando sempre com a certeza de que o nosso Sumo-Pastor nos concede a vida eterna, conduzindo-nos as águas tranquilas nos desertos dessa vida até que enfim cheguemos a nossa morada eterna. Amém!

 

VIII

 

“E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (Tg 1.22).

 

O tempo em que vivemos é um tempo de crises: crises econômicas, morais, religiosas, etc.

E uma das grandes crises que enfrentamos é a crise de identidade. Uma crise que olhamos algo e não sabemos se aquilo que olhamos é realmente o que diz ser. Uma crise que alguns professam serem cristãos, mas o comportamento não condiz com a fé professada. Uma crise que os que se dizem cristãos tem o mesmo comportamento, os mesmos gostos e até mesmo a mesma maneira de agir dos que os ímpios.

E texto sagrado nos exorta a uma vida diferente do nominalismo, ele nos chama a mantermos a nossa conduta de acordo com a nossa fé. E uma das maneiras de se fazer isso é ser praticante da Palavra. É ser um obediente praticante da Palavra. É ser um autêntico cristão que é conhecido por ter a sua vida pautada de acordo com os padrões bíblicos.

E esse chamado é um chamado que todo cristão deve cumprir, pois todos os fiéis precisam cumprir a Palavra de Deus no viver diário.

E diante disso, surge uma indagação para autoanálise da nossa vida: como alguém pode obedecer àquilo que não conhece? Como se pode obedecer àquilo que não têm valor para o indivíduo em sua vida diária? Por isso, esse chamado é um dos mais preciosos contidos na Palavra de Deus, pois por meio dele podemos ter a nossa vida nos passos de Jesus, para andar como Jesus andou: “Porque para isto sois chamados, pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas” (1Pe 2.21).

E nesse tempo de crise o mundo precisa de exemplos dignos de ser seguidos. Não um falso exemplo que atrai milhares de pessoas pelo aparente sucesso, mas um exemplo que demonstre o caráter de Cristo.

Nesse mundo de crise, os cristãos devem ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5.13-16), pois aqueles que vivem em Cristo têm a palavra de salvação, para proclamar a todos que têm a água viva que é Jesus, o pão vivo que desceu do céu.

Que o Senhor nos ajude a sermos obedientes no que a Sua Palavra requer de nós. Que Ele nos ajude a sermos praticantes e não apenas ouvintes, para que o mundo veja Cristo em nosso viver. Amém!

 

IX

 

“... sendo obediente até a morte e morte de cruz” (Fp 2.8b).

 

O apóstolo Paulo nesse versículo e nos versículos anteriores está evocando o exemplo do Senhor Jesus. Um exemplo que se aniquilou a si mesmo, que sendo igual a Deus se colocou na condição de homem e habitou entre nós, e não teve usurpação o ser igual a Deus, mas se entregou totalmente até a morte na cruz.

Este sem dúvida é o maior exemplo que nós temos: o próprio Senhor renegou a si mesmo para ser obediente a vontade do Pai. Ele se entregou por ter um caráter obediente a vontade do Pai.

E essa também deve ser a nossa atitude, ser obediente até a morte, pois como diz em Apocalipse 2.10c: “Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida”. A obediência do cristão a vontade de Deus deve permanecer inabalável até mesmo em perigo de morte iminente.

E, no texto sagrado aprendemos duas lições importantes:

1°- para que haja uma obediência perfeita a vontade do Senhor precisamos aniquilar toda vontade pecaminosa que há em nós. Precisamos tirar tudo o que há de mal do nosso coração, e purificá-lo para que possamos experimentar qual é a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (cf. Rm 12.1).

2°- quando aniquilarmos toda a nossa vontade pecaminosa, teremos o mesmo sentimento que o Senhor Jesus, e então estaremos preparados para alcançar níveis altaneiros na presença do Senhor, para então desfrutarmos de uma intimidade mais profunda com o Senhor da Glória (cf. Ez 47.1-6).

Que o Senhor nos ajude a aniquilarmos as nossas vontades pecaminosas, que Ele nos ajude a sermos obedientes e se necessário for até a morte, para que no fim da nossa carreira possamos falar como o Apóstolo: “Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2Tm 4.8). Amém! 


Políticos-Feiticeiros

A maior parte dos líderes mundiais são do Demônio veros serviçais; a política dominada pela feitiçaria é do mal uma infame tapeçaria. ...