26/08/2023

Para a compreensão da inveja

I

 

A elucubração sobre os vícios da alma, as mais das vezes, constitui-se de um dos assuntos primordiais em se tratando das virtudes; porque quem fala das virtudes há logicamente de falar dos vícios, e vice-versa. E um dos vícios mais medonhos e fatais é a inveja, a qual segundo as Escrituras “é a podridão dos ossos” (Pv 14.30), que traz perturbação e toda obra perversa (cf. Tg 3.16).

A inveja, vício sem igual, torna o coração sujeito a todo tipo de sentimento pecaminoso e sujeito a toda influência diabólica que procurar levar os homens a praticarem o mal; a inveja é a mãe de todos os sentimentos ruins e a porta de entrada para todos os males que assolam a alma, que por consequência se tornam em males sociais, males na vida em sociedade. A raiz de onde brota e germina todos os vícios e males na alma provém da inveja.

Por estas e outras razões, se faz necessário elucubrar sobre a inveja. E a elucubração sobre a inveja deve ser feita a fim de analisar este mal sem par que assola a vida de muitas pessoas; pois, a inveja torna-se parte do dia a dia de muitas pessoas sem que estas se apercebam e sem que se deem conta do mal que é a inveja.

Deste modo, elucubrar sobre a inveja é necessário para que se evite cair nas armadilhas da inveja, que as mais das vezes tornam a alma obnubilada e obscurecida para a compreensão da verdade; a inveja cega a inteligência e suja a alma, a fim de que estas não recebam mais a luz do Senhor.

Assim, em vista a uma compreensão geral sobre a inveja, se faz necessário uma definição de inveja e a compreensão do que a Escritura ensina sobre este vício ignominioso.

 

II

 

Antes propriamente de se adentrar no que as Escrituras ensinam sobre a inveja se faz necessário uma compreensão geral sobre a inveja, uma compreensão filosófica sobre o tema da inveja.

O Filósofo diz que a inveja é certa pena (tristeza) sentida contra os nossos semelhantes devido ao êxito visível alcançado nos bens (cf. Ret., II, 10). Por isso, os bens de outrem são alvos da inveja; pois, sendo a inveja certo tipo de tristeza, as paixões da alma acabam por ser impregnadas com esta tristeza, a tristeza desmedida e impulsionada pela virtude do bem de outrem.

A tristeza causada pela inveja é uma espécie de tristeza diferente da tristeza dita comum ou do cansaço que mina o ânimo; a tristeza causada pela inveja dos bens de outrem é evidência de que se visa a glória e/ou os atos meritórios de outrem; a inveja se transforma em sinal contra a glória e/ou o mérito humano de outra pessoa, pois “é preciso dizer que, como a inveja diz respeito à glória alheia na medida em que diminui a glória que se deseja, segue-se que a inveja só é sentida em relação àqueles a quem o homem deseja igualar-se ou superar em glória” (STh IIaIIae, q. 36, a. 1, ad. 2).

E a compreensão da inveja como um signo e como um sinal da tristeza causada pelos bens de outrem, demonstra que se a inveja tomar conta do coração de uma pessoa, então todo o referente da pessoa será permeado pela inveja, isto é, tudo o que a pessoa fizer, em pensamentos e ações será dominado pela inveja e será sementeira de inveja, vindo a contaminar outras pessoas, já que segundo as Escrituras “onde há inveja e espírito faccioso, aí há perturbação e toda obra perversa” (Tg 3.16).

Com efeito, da inveja brotam todos os sentimentos ruins e todas as malignidades que permeiam o coração do invejoso, pois a inveja quando domina a alma de alguém, a cosmovisão de uma pessoa, isto é, as entradas e as saídas da vida, serão encharcadas com o lodo tóxico da inveja; por isso, onde há inveja, como diz a Escritura, passa a haver todo tipo de sentimento perverso. Analogamente, a inveja é como um lixo tóxico que contamina e polui a nascente de um rio, o qual ao ser poluído em sua foz, se tem em toda a extensão do rio esta poluição como parte integrante e indissolvível do próprio rio.

A poluição da inveja é muito mais lodacenta do que a poluição de um rio. A poluição causada pela inveja é talhada sob os ditames daquilo que fora chamado de “ignorância dos homens loucos” (1Pe 2.15). Os homens loucos são aqueles que foram poluídos pela inveja e então desses brotará todo tipo de sentimento perverso; a inveja semeia no solo do coração uma enormidade de vícios e as obras da carne (cf. Gl 5.19-21). Pois, a poluição causada pela inveja gera todo tipo de sujeira espiritual naqueles que são inoculados com o veneno da inveja. Por isso, quando o Filósofo fala que a inveja é certo tipo de tristeza, é sobretudo devido a contaminação causada por esta espécie de tristeza que conduz à morte espiritual; pois, existe uma espécie de tristeza que é boa (cf. 2Co 7.10), etc.

No entanto, a tristeza que é proveniente da inveja, é uma tristeza que ocasiona além de doenças físicas, como ocorrera com Asafe (cf. Sl 73.21-22), também ocasiona doenças espirituais, como ocorrera com Caim que matou a Abel seu irmão (cf. Gn 4.5), ou como ocorrera com Saul que procurou matar a Davi (cf. 1Sm 18.7ss), ou ainda como ocorrera com o profeta Daniel que por ter sido honrado foi imensamente invejado (cf. Dn 6.3-4), etc.

 

III

 

Deste modo, a inveja é porta de entrada para doenças físicas e para doenças espirituais, como bem descreve a Escritura, e como também o atesta a medicina no caso de doenças físicas. Portanto, quando o versículo áureo da Bíblia sobre a inveja assevera que da inveja provém todo tipo de perversidade é por causa da contaminação causada pela inveja; logo, a descrição do Filósofo sobre a inveja é deveras certeira e conduz a um entendimento adequado sobre este mal fatal e medonho, o qual ao ser pontuado a partir de alguns textos das Escrituras engendra um entendimento mais apurado a respeito da inveja.

Com isso, como fora dito, se faz necessário uma análise mais específica da definição de inveja a partir da Escritura; e a Escritura tem preciosos e precisos ensinamentos sobre a inveja, além evidentemente do já mencionado versículo áureo da Bíblia a respeito do tema da inveja em Tg 3.16; eis, portanto, algumas ponderações bíblicas sobre a inveja:

1. Em Pv 14.30 se diz que a “inveja é podridão dos ossos”. A inveja debilita a saúde do ser humano, a ponto de causar a podridão dos ossos; pois, deste modo, a inveja debilita aonde o ser humano tem mais força, ou na própria pessoa invejosa ou o mais corriqueiro naquele que é objeto da inveja; assim, se observa que, quando alguém é objeto de inveja, ou esta pessoa adoeça ou fica assaz atribulada, ou então perde a força vital, ou física ou na vontade (ânimo), e isto como consequência da inveja de outrem. A inveja apodrece a estrutura óssea do ser humano, seja do corpo seja da alma.

2. Em Pv 27.4 se diz: “quem parará perante a inveja?”. A inveja produz efeitos catastróficos em que é envenenado pela mesma, e efeitos ainda piores em quem é objeto de inveja desmedida. Por isso, a descrição da inveja é feita em comparativo com a crueldade; se a crueldade é ruim, e de fato o é, a inveja é muito pior. Se diante da crueldade é difícil de se resistir, diante da inveja é ainda pior, pois a crueldade as mais das  vezes é manifesta em atitudes virulentas, as quais podem ser resistidas, mas a inveja que as mais das vezes não se manifesta de forma virulenta – embora também o possa ser, como no caso de Caim, etc. – é ainda pior do que a crueldade porque inocula o mal se que se aperceba, ou sem que se tenha uma percepção inicial que se é objeto de inveja; se diante da crueldade não se pode resistir tamanha a maldade, então diante da inveja não se há defesas, a não ser que se aperceba da inveja antes. De fato, a inveja é pior do que a crueldade, é pior e mais vil do que a crueldade, porque a crueldade pode chegar ao ponto de ferir fisicamente, o que pode ser curado, enquanto que a inveja apodrece os ossos, o que não tem cura. A inveja pode ocasionar doenças incuráveis.

3. Em Mc 7.21-23 se diz: “Porque do interior do coração do homem saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem”. A inveja provém do coração, bem como provêm do coração todos os maus pensamentos e os maus desígnios. Por isso, a descrição bíblica da inveja é a partir do centro supra-temporal do ser humano, pois se se contamina a raiz a árvore cresce doente.

E assim se delineia a proposição básica daquilo que se apresenta como o princípio básico que guia a pessoa invejosa; é da contaminação do pecado no coração que faz brotar a inveja, a qual faz calcinar a inveja naquilo que se demonstra como o mal sem par que inocula e insufla venenos e coisas malignas no coração; deste modo, onde brota a inveja, logo passará a haver no coração todo tipo de obra do mal, tal como se evidencia a partir de Tg 3.16; etc.

Portanto, se o coração for contaminado pela inveja passará a ter imbuído o veneno que se inocula em toda forma e em todo tipo de virtude natural, tornando estas ao invés de virtudes em vícios, transmogrifando a virtude em vício, mas que ainda pode ter a casca de virtude; pois a ação do veneno da inveja em transmogrifar a virtude em vício se torna latente e patente a partir daquilo que se chama de o vício capital que contamina toda a alma e todo o coração, a saber, a soberba.

Deste modo, se tem aquilo que se chama a raiz de toda a viciosidade da alma, a soberba e a inveja. Se do coração provém todo mal desígnio, e a inveja provém do coração, então do coração invejoso surgirá todo tipo de maldade e perversão, tal como se diz em Tg 3.16, etc.

4. Em Gl 5.19-21 se apresenta a inveja como uma das obras da carne. A inveja é uma das obras da carne, as quais são manifestas; a inveja pode até se maquiar, mas toda obra da carne se manifesta como tal; e a inveja, como uma das obras da carne tal como apresentadas pelo Apóstolo, significa basicamente que é uma obra proveniente do domínio do Pecado.

A inveja é uma obra da carne porque o coração humano está dominado pelo Pecado, e assim tudo o que provém do coração humano é imbuído do Pecado, isto é, é espiritualmente miserável (cf. Is 64.6); a inveja é fruto do Pecado no coração porque a Queda (cf. Gn 3) tornara o homem distante de Deus e espiritualmente miserável, e assim do coração passa a provir todo tipo de obra maligna, já que o ser humano está morto espiritualmente em delitos e pecados (cf. Ef 2.1-3).

Portanto, a inveja sempre manifesta sua carranca, pois é uma obra da carne; logo, etc.

 

IV

 

Nestas quatro breves proposições sobre o que a Sagrada Escritura define como inveja, se delineia aquilo que se apresenta como a descrição bíblica sobre a inveja; todavia, a partir da designação do que é a inveja se compreende que se deve ponderar sobre a inveja como uma obra da carne, a qual sempre é manifesta; e é necessário analisar os modos pelos quais a inveja se manifesta; e além da própria Escritura designar estes modos, a razão natural serve-nos de muita valia para que seja feito uma anatomia da inveja através dos modos apodíticos pelos quais a inveja se manifesta. Eis, portanto, alguns dos modos pelos quais a inveja se manifesta:

1. A inveja se manifesta através do riso. Existe uma diferença entre o riso e o sorriso; este é expressão de um coração alegre (cf. Pv 15.13), enquanto aquele é expressão de malignidade no coração; por isso, o Senhor Jesus assevera: “Ai dos que agora rides” (Lc 6.25b). Além disso, o Pe. Antônio Vieira diz que o riso é impropriedade da razão; deste modo, onde há riso há irracionalidade; e o riso é expressão de inveja que domina o coração; onde há o riso é sinal de que ali há inveja, pois a inveja se manifesta através do escárnio, que é evidenciado pelo riso. A inveja quando não se manifesta abertamente em atitudes medonhas, se manifesta através do riso amalgamado com escárnio; as pessoas que tem o coração dominado pela inveja se tornam engenhosas no escárnio e mestres do riso.

O salmista fala que bem-aventurado é aquele que não se assenta na roda dos escarnecedores (cf. Sl 1.1-3). Pois, do escárnio é que brotam evidencias exteriores da inveja que tomara conta do coração; portanto, aqueles que escarnecem também zombarão e rirão daqueles de quem tem inveja. Os invejosos tratarão de zombar e escarnecer daqueles que contra quem tem inveja; pois, sendo a inveja a tristeza pelos bens alheios, quando esta inveja é pequena ou comedida gerará a tristeza; mas uma grande inveja gerará uma falsa alegria, o riso; o que se patenteia pela máxima de que uma tristeza pequena gera abatimento, mas uma tristeza muito grande gera o riso.

Portanto, uma grande inveja gerará o riso em relação aquilo que é invejado; os invejosos contumazes sempre rirão daqueles que tem inveja, pois a inveja é a tristeza pelos bens alheios, o que por si evidencia que se a inveja for muito grande, esta tristeza pelos bens alheios se transmuta em riso, em escárnio e em tudo que advém amalgamado com o escárnio.

A raiz da inveja se demonstra a medida que a inveja se alastra e se torna parte do coração de alguém. Um coração invejoso cultivará o riso, ao passo que o sorriso não encontrará lugar num coração dominado pelo riso; o coração dominado pelo riso é um coração triste; com isso, o invejoso tentará através do riso atingir aquele de quem tem inveja; e o riso do invejoso funciona como uma seta pontiaguda para atingir o ânimo e os bens da pessoa invejada; o riso de alguém invejoso é pior do que a crueldade e mais letal que o veneno mais mortífero (cf. Pv 14.30, 27.4).

2. A inveja se manifesta através da podridão dos ossos (cf. Pv 14.30). O riso com o qual o invejoso desfere uma seta contra aquele a quem inveja, ao penetrar como uma seta pontiaguda na alma de quem é invejado, passa a apodrecer os ossos. E o que o autor do livro de Provérbios estabelece sob o “signo” de podridão dos ossos, estabelece uma doença, física ou psíquica (ou espiritual), que torna as fortificações naturais e as virtudes naturais (físicas ou morais), desfiguradas e enfraquecidas. Uma pessoa invejada se não se aperceber da inveja, logo desenvolverá ou doenças físicas ou então doenças psíquicas, sendo a mais comum em quem é invejado o desânimo e a abulia (ou preguiça crônica). Quem sofre ataques de inveja se torna doente nas estruturas ossais da vida.

A pessoa invejosa torna-se em instrumento de adoecimento dos bens alheios, seja os bens naturais, seja os bens espirituais. A inveja apodrece a natureza e se torna um inibidor da graça; onde se tem inveja, se tem a destruição da natureza e a obnubilação dos efeitos da Graça Comum, bem como onde se tem inveja se desenvolve as obras da carne (cf. Gl 5.19-21), já que a inveja é uma obra da carne, assim como a inveja é a raiz de toda perturbação. A inveja é a mãe das perversidades, bem como é a inveja a porta de entrada para os vícios e para a destruição das virtudes.

A inveja apodrece e contamina a seiva da virtude; o invejoso busca, seja através do riso ou seja através de outra forma de escárnio, enfraquecer os bens de quem tem inveja; e se observa isso na prática, já que quem possui inveja se torna um empecilho para o desenvolvimento de quem inveja bem como se torna uma barreira contra aquele a quem inveja, pois se constata que a pessoa invejosa tentará de toda forma impedir e/ou burlar que o bem de outrem seja efetivado ou então seja manifesto.

Com efeito, é comum a todo invejoso querer impedir e/ou usurpar aquilo que é de outrem; há casos de interferência de liberdade por parte de quem é invejoso para com algo do objeto investigado, e assim o invejoso comete até crimes para sustentar e manter a inveja, pois quem cultiva a inveja não tem limite para cometer crimes, e passará a ter dentro de si as sementes e os feitos que provêm da inveja, os quais sempre são contaminadores e vis.

3. A inveja se manifesta através da perversidade. A perversidade contra a excelência de alguém é evidência inegável de inveja, pois onde se tem inveja, se terá todo tipo de obra maligna (cf. Tg 3.16); e as crueldades que emanam da inveja se tornam manifestas já que as obras da carne se tornam manifestas. Portanto, não somente pelo riso ou outra forma de escárnio, ou ainda pela podridão dos ossos, mas também pela perversidade a inveja se torna manifesta. Ora, sendo a inveja um inibidor da graça de Deus, logo onde há inveja passa a haver todo tipo de baixeza; as pessoas invejosas acabam por se tornar engenhosas em baixezas a fim de tentarem roubar e/ou inferir o bem de outrem; neste sentido, a inveja é fruto da libido dominandi que se estabelece como fruto do juízo de Deus em entregar os homens a si mesmos (cf. Rm 1.26-32); ou dito em outros termos, a inveja se torna algo patológico; etc. 

E para o que fora proposto o que fora dito até aqui basta para uma compreensão adequada sobre a inveja. 

Laudate Deo


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