I
A elucubração
sobre os vícios da alma, as mais das vezes, constitui-se de um dos assuntos
primordiais em se tratando das virtudes; porque quem fala das virtudes há
logicamente de falar dos vícios, e vice-versa. E um dos vícios mais medonhos e
fatais é a inveja, a qual segundo as Escrituras “é a podridão dos ossos”
(Pv 14.30), que traz perturbação e toda obra perversa (cf. Tg 3.16).
A
inveja, vício sem igual, torna o coração sujeito a todo tipo de sentimento
pecaminoso e sujeito a toda influência diabólica que procurar levar os homens a
praticarem o mal; a inveja é a mãe de todos os sentimentos ruins e a porta de
entrada para todos os males que assolam a alma, que por consequência se tornam
em males sociais, males na vida em sociedade. A raiz de onde brota e germina
todos os vícios e males na alma provém da inveja.
Por
estas e outras razões, se faz necessário elucubrar sobre a inveja. E a
elucubração sobre a inveja deve ser feita a fim de analisar este mal sem par
que assola a vida de muitas pessoas; pois, a inveja torna-se parte do dia a dia
de muitas pessoas sem que estas se apercebam e sem que se deem conta do mal que
é a inveja.
Deste
modo, elucubrar sobre a inveja é necessário para que se evite cair nas
armadilhas da inveja, que as mais das vezes tornam a alma obnubilada e
obscurecida para a compreensão da verdade; a inveja cega a inteligência e suja
a alma, a fim de que estas não recebam mais a luz do Senhor.
Assim,
em vista a uma compreensão geral sobre a inveja, se faz necessário uma
definição de inveja e a compreensão do que a Escritura ensina sobre este vício
ignominioso.
II
Antes
propriamente de se adentrar no que as Escrituras ensinam sobre a inveja se faz necessário
uma compreensão geral sobre a inveja, uma compreensão filosófica sobre o tema
da inveja.
O Filósofo
diz que a inveja é certa pena (tristeza) sentida contra os nossos semelhantes
devido ao êxito visível alcançado nos bens (cf. Ret., II, 10). Por isso, os
bens de outrem são alvos da inveja; pois, sendo a inveja certo tipo de
tristeza, as paixões da alma acabam por ser impregnadas com esta tristeza, a
tristeza desmedida e impulsionada pela virtude do bem de outrem.
A
tristeza causada pela inveja é uma espécie de tristeza diferente da tristeza
dita comum ou do cansaço que mina o ânimo; a tristeza causada pela inveja dos
bens de outrem é evidência de que se visa a glória e/ou os atos meritórios de
outrem; a inveja se transforma em sinal contra a glória e/ou o mérito humano de
outra pessoa, pois “é preciso dizer que, como a inveja diz respeito à glória
alheia na medida em que diminui a glória que se deseja, segue-se que a inveja
só é sentida em relação àqueles a quem o homem deseja igualar-se ou superar em
glória” (STh IIaIIae, q. 36, a. 1, ad. 2).
E a
compreensão da inveja como um signo e como um sinal da tristeza causada pelos
bens de outrem, demonstra que se a inveja tomar conta do coração de uma pessoa,
então todo o referente da pessoa será permeado pela inveja, isto é, tudo o que
a pessoa fizer, em pensamentos e ações será dominado pela inveja e será
sementeira de inveja, vindo a contaminar outras pessoas, já que segundo as
Escrituras “onde há inveja e espírito faccioso, aí há perturbação e toda
obra perversa” (Tg 3.16).
Com
efeito, da inveja brotam todos os sentimentos ruins e todas as malignidades que
permeiam o coração do invejoso, pois a inveja quando domina a alma de alguém, a
cosmovisão de uma pessoa, isto é, as entradas e as saídas da vida, serão
encharcadas com o lodo tóxico da inveja; por isso, onde há inveja, como diz a
Escritura, passa a haver todo tipo de sentimento perverso. Analogamente, a
inveja é como um lixo tóxico que contamina e polui a nascente de um rio, o qual
ao ser poluído em sua foz, se tem em toda a extensão do rio esta poluição como
parte integrante e indissolvível do próprio rio.
A
poluição da inveja é muito mais lodacenta do que a poluição de um rio. A
poluição causada pela inveja é talhada sob os ditames daquilo que fora chamado
de “ignorância dos homens loucos” (1Pe 2.15). Os homens loucos são
aqueles que foram poluídos pela inveja e então desses brotará todo tipo de
sentimento perverso; a inveja semeia no solo do coração uma enormidade de
vícios e as obras da carne (cf. Gl 5.19-21). Pois, a poluição causada pela
inveja gera todo tipo de sujeira espiritual naqueles que são inoculados com o
veneno da inveja. Por isso, quando o Filósofo fala que a inveja é certo tipo de
tristeza, é sobretudo devido a contaminação causada por esta espécie de
tristeza que conduz à morte espiritual; pois, existe uma espécie de tristeza
que é boa (cf. 2Co 7.10), etc.
No
entanto, a tristeza que é proveniente da inveja, é uma tristeza que ocasiona
além de doenças físicas, como ocorrera com Asafe (cf. Sl 73.21-22), também
ocasiona doenças espirituais, como ocorrera com Caim que matou a Abel seu irmão
(cf. Gn 4.5), ou como ocorrera com Saul que procurou matar a Davi (cf. 1Sm
18.7ss), ou ainda como ocorrera com o profeta Daniel que por ter sido honrado
foi imensamente invejado (cf. Dn 6.3-4), etc.
III
Deste
modo, a inveja é porta de entrada para doenças físicas e para doenças
espirituais, como bem descreve a Escritura, e como também o atesta a medicina
no caso de doenças físicas. Portanto, quando o versículo áureo da Bíblia sobre
a inveja assevera que da inveja provém todo tipo de perversidade é por causa da
contaminação causada pela inveja; logo, a descrição do Filósofo sobre a inveja
é deveras certeira e conduz a um entendimento adequado sobre este mal fatal e
medonho, o qual ao ser pontuado a partir de alguns textos das Escrituras
engendra um entendimento mais apurado a respeito da inveja.
Com
isso, como fora dito, se faz necessário uma análise mais específica da
definição de inveja a partir da Escritura; e a Escritura tem preciosos e
precisos ensinamentos sobre a inveja, além evidentemente do já mencionado
versículo áureo da Bíblia a respeito do tema da inveja em Tg 3.16; eis,
portanto, algumas ponderações bíblicas sobre a inveja:
1. Em
Pv 14.30 se diz que a “inveja é podridão dos ossos”. A inveja debilita a
saúde do ser humano, a ponto de causar a podridão dos ossos; pois, deste modo,
a inveja debilita aonde o ser humano tem mais força, ou na própria pessoa
invejosa ou o mais corriqueiro naquele que é objeto da inveja; assim, se observa
que, quando alguém é objeto de inveja, ou esta pessoa adoeça ou fica assaz
atribulada, ou então perde a força vital, ou física ou na vontade (ânimo), e
isto como consequência da inveja de outrem. A inveja apodrece a estrutura óssea
do ser humano, seja do corpo seja da alma.
2. Em
Pv 27.4 se diz: “quem parará perante a inveja?”. A inveja produz efeitos
catastróficos em que é envenenado pela mesma, e efeitos ainda piores em quem é
objeto de inveja desmedida. Por isso, a descrição da inveja é feita em
comparativo com a crueldade; se a crueldade é ruim, e de fato o é, a inveja é
muito pior. Se diante da crueldade é difícil de se resistir, diante da inveja é
ainda pior, pois a crueldade as mais das
vezes é manifesta em atitudes virulentas, as quais podem ser resistidas,
mas a inveja que as mais das vezes não se manifesta de forma virulenta – embora
também o possa ser, como no caso de Caim, etc. – é ainda pior do que a
crueldade porque inocula o mal se que se aperceba, ou sem que se tenha uma
percepção inicial que se é objeto de inveja; se diante da crueldade não se pode
resistir tamanha a maldade, então diante da inveja não se há defesas, a não ser
que se aperceba da inveja antes. De fato, a inveja é pior do que a crueldade, é
pior e mais vil do que a crueldade, porque a crueldade pode chegar ao ponto de
ferir fisicamente, o que pode ser curado, enquanto que a inveja apodrece os
ossos, o que não tem cura. A inveja pode ocasionar doenças incuráveis.
3. Em
Mc 7.21-23 se diz: “Porque do interior do coração do homem saem os maus
pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza,
as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a
loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem”. A
inveja provém do coração, bem como provêm do coração todos os maus pensamentos
e os maus desígnios. Por isso, a descrição bíblica da inveja é a partir do
centro supra-temporal do ser humano, pois se se contamina a raiz a árvore
cresce doente.
E
assim se delineia a proposição básica daquilo que se apresenta como o princípio
básico que guia a pessoa invejosa; é da contaminação do pecado no coração que
faz brotar a inveja, a qual faz calcinar a inveja naquilo que se demonstra como
o mal sem par que inocula e insufla venenos e coisas malignas no coração; deste
modo, onde brota a inveja, logo passará a haver no coração todo tipo de obra do
mal, tal como se evidencia a partir de Tg 3.16; etc.
Portanto,
se o coração for contaminado pela inveja passará a ter imbuído o veneno que se
inocula em toda forma e em todo tipo de virtude natural, tornando estas ao
invés de virtudes em vícios, transmogrifando a virtude em vício, mas que ainda
pode ter a casca de virtude; pois a ação do veneno da inveja em transmogrifar a
virtude em vício se torna latente e patente a partir daquilo que se chama de o
vício capital que contamina toda a alma e todo o coração, a saber, a soberba.
Deste
modo, se tem aquilo que se chama a raiz de toda a viciosidade da alma, a
soberba e a inveja. Se do coração provém todo mal desígnio, e a inveja provém
do coração, então do coração invejoso surgirá todo tipo de maldade e perversão,
tal como se diz em Tg 3.16, etc.
4. Em
Gl 5.19-21 se apresenta a inveja como uma das obras da carne. A inveja é uma
das obras da carne, as quais são manifestas; a inveja pode até se maquiar, mas
toda obra da carne se manifesta como tal; e a inveja, como uma das obras da
carne tal como apresentadas pelo Apóstolo, significa basicamente que é uma obra
proveniente do domínio do Pecado.
A
inveja é uma obra da carne porque o coração humano está dominado pelo Pecado, e
assim tudo o que provém do coração humano é imbuído do Pecado, isto é, é
espiritualmente miserável (cf. Is 64.6); a inveja é fruto do Pecado no coração
porque a Queda (cf. Gn 3) tornara o homem distante de Deus e espiritualmente
miserável, e assim do coração passa a provir todo tipo de obra maligna, já que
o ser humano está morto espiritualmente em delitos e pecados (cf. Ef 2.1-3).
Portanto,
a inveja sempre manifesta sua carranca, pois é uma obra da carne; logo, etc.
IV
Nestas
quatro breves proposições sobre o que a Sagrada Escritura define como inveja,
se delineia aquilo que se apresenta como a descrição bíblica sobre a inveja;
todavia, a partir da designação do que é a inveja se compreende que se deve
ponderar sobre a inveja como uma obra da carne, a qual sempre é manifesta; e é
necessário analisar os modos pelos quais a inveja se manifesta; e além da
própria Escritura designar estes modos, a razão natural serve-nos de muita
valia para que seja feito uma anatomia da inveja através dos modos apodíticos
pelos quais a inveja se manifesta. Eis, portanto, alguns dos modos pelos quais
a inveja se manifesta:
1. A
inveja se manifesta através do riso. Existe uma diferença entre o riso e o
sorriso; este é expressão de um coração alegre (cf. Pv 15.13), enquanto aquele
é expressão de malignidade no coração; por isso, o Senhor Jesus assevera: “Ai
dos que agora rides” (Lc 6.25b). Além disso, o Pe. Antônio Vieira diz que o
riso é impropriedade da razão; deste modo, onde há riso há irracionalidade; e o
riso é expressão de inveja que domina o coração; onde há o riso é sinal de que
ali há inveja, pois a inveja se manifesta através do escárnio, que é
evidenciado pelo riso. A inveja quando não se manifesta abertamente em atitudes
medonhas, se manifesta através do riso amalgamado com escárnio; as pessoas que
tem o coração dominado pela inveja se tornam engenhosas no escárnio e mestres
do riso.
O
salmista fala que bem-aventurado é aquele que não se assenta na roda dos
escarnecedores (cf. Sl 1.1-3). Pois, do escárnio é que brotam evidencias
exteriores da inveja que tomara conta do coração; portanto, aqueles que
escarnecem também zombarão e rirão daqueles de quem tem inveja. Os invejosos
tratarão de zombar e escarnecer daqueles que contra quem tem inveja; pois,
sendo a inveja a tristeza pelos bens alheios, quando esta inveja é pequena ou
comedida gerará a tristeza; mas uma grande inveja gerará uma falsa alegria, o
riso; o que se patenteia pela máxima de que uma tristeza pequena gera
abatimento, mas uma tristeza muito grande gera o riso.
Portanto,
uma grande inveja gerará o riso em relação aquilo que é invejado; os invejosos
contumazes sempre rirão daqueles que tem inveja, pois a inveja é a tristeza
pelos bens alheios, o que por si evidencia que se a inveja for muito grande,
esta tristeza pelos bens alheios se transmuta em riso, em escárnio e em tudo
que advém amalgamado com o escárnio.
A
raiz da inveja se demonstra a medida que a inveja se alastra e se torna parte
do coração de alguém. Um coração invejoso cultivará o riso, ao passo que o
sorriso não encontrará lugar num coração dominado pelo riso; o coração dominado
pelo riso é um coração triste; com isso, o invejoso tentará através do riso
atingir aquele de quem tem inveja; e o riso do invejoso funciona como uma seta
pontiaguda para atingir o ânimo e os bens da pessoa invejada; o riso de alguém
invejoso é pior do que a crueldade e mais letal que o veneno mais mortífero
(cf. Pv 14.30, 27.4).
2. A
inveja se manifesta através da podridão dos ossos (cf. Pv 14.30). O riso com o
qual o invejoso desfere uma seta contra aquele a quem inveja, ao penetrar como
uma seta pontiaguda na alma de quem é invejado, passa a apodrecer os ossos. E o
que o autor do livro de Provérbios estabelece sob o “signo” de podridão dos
ossos, estabelece uma doença, física ou psíquica (ou espiritual), que torna as
fortificações naturais e as virtudes naturais (físicas ou morais), desfiguradas
e enfraquecidas. Uma pessoa invejada se não se aperceber da inveja, logo
desenvolverá ou doenças físicas ou então doenças psíquicas, sendo a mais comum
em quem é invejado o desânimo e a abulia (ou preguiça crônica). Quem sofre
ataques de inveja se torna doente nas estruturas ossais da vida.
A
pessoa invejosa torna-se em instrumento de adoecimento dos bens alheios, seja
os bens naturais, seja os bens espirituais. A inveja apodrece a natureza e se
torna um inibidor da graça; onde se tem inveja, se tem a destruição da natureza
e a obnubilação dos efeitos da Graça Comum, bem como onde se tem inveja se
desenvolve as obras da carne (cf. Gl 5.19-21), já que a inveja é uma obra da
carne, assim como a inveja é a raiz de toda perturbação. A inveja é a mãe das
perversidades, bem como é a inveja a porta de entrada para os vícios e para a
destruição das virtudes.
A
inveja apodrece e contamina a seiva da virtude; o invejoso busca, seja através
do riso ou seja através de outra forma de escárnio, enfraquecer os bens de quem
tem inveja; e se observa isso na prática, já que quem possui inveja se torna um
empecilho para o desenvolvimento de quem inveja bem como se torna uma barreira
contra aquele a quem inveja, pois se constata que a pessoa invejosa tentará de
toda forma impedir e/ou burlar que o bem de outrem seja efetivado ou então seja
manifesto.
Com
efeito, é comum a todo invejoso querer impedir e/ou usurpar aquilo que é de
outrem; há casos de interferência de liberdade por parte de quem é invejoso
para com algo do objeto investigado, e assim o invejoso comete até crimes para
sustentar e manter a inveja, pois quem cultiva a inveja não tem limite para
cometer crimes, e passará a ter dentro de si as sementes e os feitos que provêm
da inveja, os quais sempre são contaminadores e vis.
3. A
inveja se manifesta através da perversidade. A perversidade contra a excelência
de alguém é evidência inegável de inveja, pois onde se tem inveja, se terá todo
tipo de obra maligna (cf. Tg 3.16); e as crueldades que emanam da inveja se
tornam manifestas já que as obras da carne se tornam manifestas. Portanto, não
somente pelo riso ou outra forma de escárnio, ou ainda pela podridão dos ossos,
mas também pela perversidade a inveja se torna manifesta. Ora, sendo a inveja
um inibidor da graça de Deus, logo onde há inveja passa a haver todo tipo de
baixeza; as pessoas invejosas acabam por se tornar engenhosas em baixezas a fim
de tentarem roubar e/ou inferir o bem de outrem; neste sentido, a inveja é
fruto da libido dominandi que se estabelece como fruto do juízo de Deus
em entregar os homens a si mesmos (cf. Rm 1.26-32); ou dito em outros termos, a
inveja se torna algo patológico; etc.
E
para o que fora proposto o que fora dito até aqui basta para uma compreensão
adequada sobre a inveja.
Laudate
Deo!
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