29/12/2015

Quando eu contemplo a cruz

Quando eu contemplo a cruz com o Salvador

logo compreendo o imenso sacrifício redentor,

de um tão puro e amável Senhor

para redimir um tão terrível pecador.

Quando eu contemplo a cruz

compreendo todo o pecado que me seduz.

 

Ó ditoso dia em que aceitei esse amor,

minh’alma então se alegrou

e com alegria inefável descansou

nas benfazejas mãos do Bom Pastor.

Quando eu contemplo a cruz

estou certo de que o Senhor me conduz.

 

E agora, diante da promessa gloriosa,

contente e alegre vivo uma vida vitoriosa,

 esperando a bendita vinda do Senhor

contando e cantando sobre Seu amor.

Quando eu contemplo a cruz

vejo Aquele que do mundo é a Luz.

 

O céu é o destino dos eleitos,

os quais foram por Deus refeitos

para uma nova vida e uma viva esperança,

entrando na presença de Deus com confiança.

Quando eu contemplo a cruz

meu coração se enche de luz.

 

Ó Salvador, tu sofreste tal dor

para mostrar aos homens Vosso favor;

me conceda que ao sofrer pelo Senhor

possa testemunhar de Seu insigne amor.

Quando eu contemplo a cruz

toda minha inteligência a Cristo se aduz.


30/11/2015

Algumas Migalhas Meditativas

Nota Preliminar

 

Estas breves meditações foram feitas durante as semanas de outubro e novembro de 2015, a fim de apresentar algumas verdades da fé de forma acessível a pessoas símplices; não são de fato meditações ao estilo correto, mas são como o próprio título indica, migalhas meditativas sobre tópicos concernentes a fé, com apenas algumas pequenas correções quanto a oralidade do registro.

 

I

 

“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119.11).

 

O texto o qual nós lemos nos fala que o salmista escondeu a Palavra do Senhor em seu coração. E isto demonstra a importância da Palavra de Deus para a vida na fé.

E será que damos o devido valor a Palavra de Deus a ponto de escondê-la em nosso coração? Ou será que se tem uma vil omissão em relação ao valor que os fiéis devem dar a Palavra de Deus na vida cristã?

O salmista escondeu a Palavra de Deus em seu coração, pois esconder significa proteger. E só se protege algo que se tem importância e valor. Por exemplo, tem muitas pessoas que possuem em suas casas cofres para guardar seus objetos importantes, dinheiro e similares. No entanto, o salmista não guarda objetos, riquezas ou dinheiro, ele guarda a Palavra de Deus no recôndito de seu coração. Os homens dão valor a muitas coisas inúteis, e esquecem-se da pérola de grande valor: esquecem-se de dar o devido valor e tempo à Palavra de Deus. O salmista ensina qual deve ser a prioridade espiritual: “Também os teus estatutos são o meu prazer e os meus conselheiros” (Sl 119.24).

E o salmista escondeu a Palavra de Deus em seu coração com um propósito, a saber, não pecar contra o Senhor. O pecado nos afasta de Deus, mas a santificação nos aproxima d’Ele. O salmista ensina que ao guardar a Palavra de Deus em seu coração ele estaria próximo do Senhor. A Palavra nos santifica: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A Palavra traz as bênçãos da santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (cf. Hb 12.14).

A santificação vai libertando os fiéis aos poucos do pecado e os tornando semelhantes a Cristo, para que quando Cristo voltar encontre os eleitos em mácula, nem ruga, mas irrepreensíveis e santos.

Que o Senhor nos ajude na batalha pela santificação. Que Ele nos conceda graça necessária para que possamos dar o devido valor a Sua Palavra, fundamento da nossa vida e da nossa fé, pois por meio da Palavra somos santificados pelo Espírito Santo. Pois, como o Santo Evangelho ensina estas palavras são palavras de vida eterna (cf. Jo 6.68). Que Ele nos ajude a vencer a batalha que nos deixa omissos para com a leitura bíblica, e que Seu Santo Espírito nos mova a fim de darmos o devido valor a Sua Santa Palavra, a fim de crescermos espiritualmente. Amém!

 

II

 

“Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos” (Sl 119.71).

 

O salmista ensina que foi bom ter sido afligido, por causa do que ele aprendera com esta aflição. O salmista entende o bem que provém da aflição, ao entender que a aflição o conduziu a entender os estatutos do Senhor.

E este texto sagrado nos ensina três lições:

1º- O sofrimento tem um propósito. Todos os sofrimentos da vida tem um propósito maior. No caso do salmista, ele sofreu para que aprendesse a andar como Deus queria. E precisamos aprender a olhar o sofrimento de nossa vida sob essa ótica, de que Deus tem um propósito para o nosso bem em meio ao sofrimento, para nosso fortalecimento e nossa edificação.

2º- O sofrimento traz mudança. Todo sofrimento vem carregado de mudanças para a nossa vida espiritual. O sofrimento vem com mudanças, para sermos moldados a medida da estatura de Cristo. O sofrimento vêm de forma carrancuda, mas com um sorriso sorridente que se manifesta após a provação.

3º- O sofrimento é um momento propício para nos aproximarmos mais de Deus. Todo sofrimento vem para nos conduzir para mais próximos de Deus. E isso é algo muito bom, pois em meio aos sofrimentos e aflições tão agudos sabemos que temos um braço onde podemos descansar. O sofrimento é bom para reconhecermos nossa pequenez, e nos apegarmos Àquele que é perfeito, infinito e todo-poderoso. No sofrimento descobrimos nossa realidade, de que somos pós, e nos colocamos humildemente diante da onipotência e sapiência do Deus Altíssimo.

Então, em meio a todo sofrimento que passarmos, que possamos ter a certeza de que Deus está conosco; de que Ele tem um propósito em meio a todos os sofrimentos que passamos, e que este propósito é nos moldar a imagem de Cristo, e nos conduzir aos seus braços acolhedores de Pai Santo.

Que o Senhor nos ajude a entender os propósitos do sofrimento em nossas vidas, e nos conceda a graça necessária para que possamos passar pelo vale das provas e transformá-lo em lugar de bênçãos tanto para nós mesmos quanto para outros, lembrando do que o Senhor dissera para o Apóstolo: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9). Amém!

 

III

 

“Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer” (Jo 15.14-15).

 

O texto o qual lemos é um discurso do Senhor Jesus. Ele fala sobre amizade. Não a amizade na esfera humana, mas sobre a amizade com Ele próprio. E que maravilha é compreendermos que podemos ser amigos de Cristo, que podemos chegar a ter com Ele um grau de comunhão tão profunda que possamos ser chamados por Ele de seus amigos.

Mas, como podemos saber se somos ou não amigos de Jesus? O texto sagrado nos fornece duas lições para compreendermos quem é amigo de Cristo, as quais são:

1º- A amizade com Cristo está vinculada a obediência. O próprio Cristo dissera que os seus discípulos seriam seus amigos se obedecessem aos Seus mandamentos.  E aqui existe uma condição, o “se”; por isso, todo fiel pode se tornar amigo de Cristo através da obediência. A obediência é a qualidade do caráter do cristão que demonstra sua submissão a vontade soberana de Deus, sabendo que a vontade de Deus é a melhor coisa da vida. A obediência nos leva a caminhos mais sublimes diante de Deus. A obediência nos leva para os braços d’Aquele que nos acolhe e recebe com Amor Incondicional.

2º- A amizade com Cristo nos traz a intimidade com Ele a ponto d’Ele nos revelar Sua vontade. Amizade representa comunhão. E à medida que vamos nos aproximando de Cristo por meio da obediência aos Seus mandamentos, se experiencia uma comunhão tão agradável que nosso ser se enche de plena alegria e satisfação. Pois, quando somos amigos de Cristo, Ele nos dá a conhecer os desígnios de Deus e a compreender o propósito d’Ele para nossas vidas.

Que o Senhor nos conduza nessa direção, da amizade com Ele, a ponto de sermos conhecidos por Deus e pelos homens como amigos de Cristo, a fim de experienciarmos uma comunhão tão profunda com Ele, que Ele mesmos nos revele os mistérios de Deus. Amém.

 

IV

 

“Aquele que diz que está nele também deve andar como ele andou” (1Jo 2.6).

 

O texto sagrado que lemos ensina que quem diz que está em Cristo deve andar como Ele andou. Portanto, se alguém se diz cristão devem andar como Cristo andou, deve palmilhar os mesmos passos de Cristo. Andar como Jesus andou é ser imitador de Cristo.

Entretanto, surge a indagação: como Jesus andou?

A Escritura toda contêm inúmeros exemplos sobre a vida de Cristo, de como Ele agia e se comportava, de como era o Seu proceder. No próprio texto sagrado lido se apresenta algumas característica de Cristo, de como Ele andou.

Ora, duas são as características de Cristo apresentadas no texto lido:

1º- Cristo é puro (cf. 1Jo 3.3c). A pureza reporta uma vida de santidade. A sentença divina é: sede santos (cf. 1Pe 1.16). O próprio Senhor Jesus exortara seus discípulos: “Porque eu vos dei exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15). O Senhor Jesus nos deu exemplo de uma vida pura e santa, para que possamos viver uma vida de santidade diante de Deus e dos homens, experimentando a excelência da comunhão com Ele através da santidade. Somente uma vida em santidade poderá se achegar a Deus para ter comunhão com Ele, pois Ele é santo.

2º- Cristo é justo (cf. 1Jo 3.7c). Assim como Cristo é santo, Ele também é justo (cf. Sl 145.17). A santidade leva a uma vida justa. E uma vida justa é uma vida íntegra diante de Deus e dos homens, diante dos quais os homens verão em nós a justiça de Deus mediante uma vida de santidade. A justiça de Deus se manifesta em nosso favor quando cremos em Cristo como Senhor e Salvador, e se aperfeiçoa em nós a medida em que vivemos uma vida santa.

Que o Senhor nos ajude a vivermos uma vida justa e santa diante d’Ele. Que o Senhor nos ajude que a vida santa e justa do Senhor Jesus seja manifestada em nós, para que através de nosso testemunho o mundo venha a conhecê-Lo e adorá-Lo. Amém.

 

V

 

“Aquele que diz: Eu o conheço-o e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está à verdade” (1Jo 2.4).

 

O tempo que estamos vivendo é um tempo em que muitas pessoas vivem hipocritamente, ou seja, apenas professam ser algo e não vivem de acordo com o que professam.

Mas para os cristãos não tem sido diferente; os “cristãos” estão tão mundanos que professam que conhecem a Cristo, mas não vivem de acordo com a fé professada.

Todavia, o texto ao qual nós lemos fala que aquele que diz que conhece o Senhor Jesus, mas não obedece aos seus mandamentos é mentiroso e nele não está à verdade.

O verdadeiro cristianismo é conhecido quando se obedece aos mandamentos contidos na Palavra de Deus. Apenas uma vida comprometida com obediência à Palavra de Deus poderá dizer com firmeza e com convicção que conhece ao Senhor.

Então fica uma pergunta para autoanálise da nossa vida: Será que a obediência a palavra de Deus é tanta a ponto de se poder dizer verdadeiramente que se conhece ao Senhor?

A obediência ao Senhor leva a comunhão com Ele. O próprio Senhor Jesus disse em João 15.14: “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o eu vos mando”. A obediência a palavra que o Senhor nos ordena, concede o privilégio de sermos chamados de amigos de Jesus.

Entretanto, surge outra pergunta para autoanálise das nossas vidas: Será que se está disposto a conhecer o que o Senhor Jesus ordena em sua palavra? E mais: será que se está disposto a ser obediente a tal ponto que possa ser chamado pelo Senhor de amigo?

Que o Senhor nos ajude nessa caminhada que devemos trilhar rumo à obediência. Que Ele nos conceda a graça necessária para que possamos obedecê-Lo, e sermos chamados seus amigos, a fim de usufruirmos dessa intimidade que está disponível para todo aqueles que esteja disposto a ser obediente aos mandamentos divinos. Amém!

 

VI

 

“Purificando a vossa alma na obediência a verdade...” (1Pe 1.22).

 

 Um sábio chinês disse certa feita: “O maior perigo que ronda os seres humanos é se esquecer dos princípios que governam a sua vida”. E isso é verdade. Muitas vezes os cristãos esquecem-se de princípios ordenados pelo Senhor Jesus em Sua Palavra. E um dos princípios mais esquecidos atualmente é o de viver uma vida pura, santa, sem macula, o de viver uma vida de santidade diante do Senhor. Pois, sem santidade ninguém vera a Deus (cf. Hb 12.14).

E o texto ao qual nós lemos fala de purificação, ou seja, o ato de tornar puro. Pode-se entender aqui um princípio: que os cristãos tem de se purificar constantemente, ou seja, manter uma vida pura. E mais, o texto sagrado fala de purificar a nossa alma, ou seja, nossos desejos, vontades e sentimentos devem todos estar purificados. O Apóstolo disse que a nossa alma deve se encontrar irrepreensível diante do Senhor (cf. 1Ts 5.23).

A Escrita ensina que os desejos carnais combatem contra a alma (cf. 1Pe 2.11), ou seja, eles armam ciladas procurando destruir a nossa alma. Por isso, a alma deve estar pura, santa, irrepreensível diante do Senhor para que nesse combate o fiel possa sair vitorioso (cf. 1Jo 5.4).

Assim, surge a indagação: como purificaremos a nossa alma? Ou ainda como continuaremos nesse processo de santificação da nossa alma? A resposta é simples: através da obediência a verdade. A obediência a verdade que está revelada na Escritura tem como efeito a purificação para a nossa vida. O próprio Senhor Jesus disse: “Vós estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15.3).

A Palavra de Deus traz limpeza contra os desejos carnais que combatem contra a nossa alma. No entanto, para que essa purificação seja realizada em todo o nosso ser, é necessário obedecer à Palavra de Deus. A palavra que norteia a nossa santificação é obediência.

Que o Senhor nos ajude a sermos obedientes a Sua Palavra, para que por ela sejamos purificados, para que por ela sejamos mantidos santos, pois é por meio dela que o Espírito Santo opera a santificação em nós. E que a oração do Senhor Jesus possa ser a nossa oração: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). Amém!

 

VII

 

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará das minhas mãos” (Jo 10.27-28).

 

Um texto muito interessante esse aos qual nós lemos. Pois, neste texto Jesus está falando que os seus discípulos são como ovelhas. As ovelhas são os animais mais dóceis, mais fracos, mais dependentes e que mais necessitam de cuidados entre todos os animais.

E porque Jesus utilizou da figura da ovelha para as comparar com os cristãos?

É simplesmente porque a vida de um cristão é igual à vida de uma ovelha. As ovelhas precisam de cuidados de seu pastor, os cristãos precisam dos cuidados do Sumo-Pastor; as ovelhas precisam de proteção contra os seus devoradores, os cristãos precisam de proteção contra as forças do mal.

Por isso, em meio a tudo isso existe a gloriosa promessa: “... ninguém as arrebatara das minhas mãos”. Os cristãos podem passar pelos mais escuros vales da vida, mas possuem a certeza da promessa que ninguém os poderá tirar das mãos do Senhor.

Mas como podemos ter a certeza eterna que estamos seguros nos braços eternos do Senhor? A resposta é simples. Observemos, pois o texto: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem...”. Eis aqui o mistério. As ovelhas que ouvem a voz do Bom Pastor, são ovelhas que lhe obedecem, pois elas ouvem a voz do Bom Pastor, voz essa que lhes é conhecida e então elas o seguem para os pastos verdejantes que só o Sumo-Pastor as pode levar.

A ovelha, o cristão, é marcado pela sua obediência a voz do seu pastor, do Sumo-Pastor Jesus Cristo. Somente uma ovelha obediente pode estar segura que ainda que alguém possa matar o seu corpo físico, ela estará rompendo na eternidade ao lado do seu eterno Pastor contemplando-O face a face

Que o Senhor nos ajude a sermos ovelhas obedientes a Sua voz, a sermos ovelhas que o seguem sem questionar, caminhando sempre com a certeza de que o nosso Sumo-Pastor nos concede a vida eterna, conduzindo-nos as águas tranquilas nos desertos dessa vida até que enfim cheguemos a nossa morada eterna. Amém!

 

VIII

 

“E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (Tg 1.22).

 

O tempo em que vivemos é um tempo de crises: crises econômicas, morais, religiosas, etc.

E uma das grandes crises que enfrentamos é a crise de identidade. Uma crise que olhamos algo e não sabemos se aquilo que olhamos é realmente o que diz ser. Uma crise que alguns professam serem cristãos, mas o comportamento não condiz com a fé professada. Uma crise que os que se dizem cristãos tem o mesmo comportamento, os mesmos gostos e até mesmo a mesma maneira de agir dos que os ímpios.

E texto sagrado nos exorta a uma vida diferente do nominalismo, ele nos chama a mantermos a nossa conduta de acordo com a nossa fé. E uma das maneiras de se fazer isso é ser praticante da Palavra. É ser um obediente praticante da Palavra. É ser um autêntico cristão que é conhecido por ter a sua vida pautada de acordo com os padrões bíblicos.

E esse chamado é um chamado que todo cristão deve cumprir, pois todos os fiéis precisam cumprir a Palavra de Deus no viver diário.

E diante disso, surge uma indagação para autoanálise da nossa vida: como alguém pode obedecer àquilo que não conhece? Como se pode obedecer àquilo que não têm valor para o indivíduo em sua vida diária? Por isso, esse chamado é um dos mais preciosos contidos na Palavra de Deus, pois por meio dele podemos ter a nossa vida nos passos de Jesus, para andar como Jesus andou: “Porque para isto sois chamados, pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas” (1Pe 2.21).

E nesse tempo de crise o mundo precisa de exemplos dignos de ser seguidos. Não um falso exemplo que atrai milhares de pessoas pelo aparente sucesso, mas um exemplo que demonstre o caráter de Cristo.

Nesse mundo de crise, os cristãos devem ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5.13-16), pois aqueles que vivem em Cristo têm a palavra de salvação, para proclamar a todos que têm a água viva que é Jesus, o pão vivo que desceu do céu.

Que o Senhor nos ajude a sermos obedientes no que a Sua Palavra requer de nós. Que Ele nos ajude a sermos praticantes e não apenas ouvintes, para que o mundo veja Cristo em nosso viver. Amém!

 

IX

 

“... sendo obediente até a morte e morte de cruz” (Fp 2.8b).

 

O apóstolo Paulo nesse versículo e nos versículos anteriores está evocando o exemplo do Senhor Jesus. Um exemplo que se aniquilou a si mesmo, que sendo igual a Deus se colocou na condição de homem e habitou entre nós, e não teve usurpação o ser igual a Deus, mas se entregou totalmente até a morte na cruz.

Este sem dúvida é o maior exemplo que nós temos: o próprio Senhor renegou a si mesmo para ser obediente a vontade do Pai. Ele se entregou por ter um caráter obediente a vontade do Pai.

E essa também deve ser a nossa atitude, ser obediente até a morte, pois como diz em Apocalipse 2.10c: “Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida”. A obediência do cristão a vontade de Deus deve permanecer inabalável até mesmo em perigo de morte iminente.

E, no texto sagrado aprendemos duas lições importantes:

1°- para que haja uma obediência perfeita a vontade do Senhor precisamos aniquilar toda vontade pecaminosa que há em nós. Precisamos tirar tudo o que há de mal do nosso coração, e purificá-lo para que possamos experimentar qual é a boa, perfeita e agradável vontade de Deus (cf. Rm 12.1).

2°- quando aniquilarmos toda a nossa vontade pecaminosa, teremos o mesmo sentimento que o Senhor Jesus, e então estaremos preparados para alcançar níveis altaneiros na presença do Senhor, para então desfrutarmos de uma intimidade mais profunda com o Senhor da Glória (cf. Ez 47.1-6).

Que o Senhor nos ajude a aniquilarmos as nossas vontades pecaminosas, que Ele nos ajude a sermos obedientes e se necessário for até a morte, para que no fim da nossa carreira possamos falar como o Apóstolo: “Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2Tm 4.8). Amém! 


03/11/2014

Fundamentos que estão sendo destruídos

I

 

Uma das grandes lutas que a Igreja na contemporaneidade tem de travar é a respeito de um fundamento essencial da ordem social, bem como um fundamento essencial da vida humana, a saber: a família. Não se existe vida humana sem esta fundamental instituição. O próprio Deus foi quem estabeleceu a ordem familiar: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gn 2.24). Assim sendo, é de grande urgência uma defesa da família, desta tão importante instituição da vida humana, principalmente por parte da Igreja, que é a coluna e firmeza da verdade (cf. 1Tm 3.15).

Os grandes perigos que rondam a vida da família, são o que Salomão, no principal livro bíblico que trata de assuntos sobre o amor conjugal, que é a expressão de organização da família, chamou de “pequenas raposas” (cf. Ct 2.15). São as pequenas raposas que estão querendo destruir o fundamento da família. As pequenas raposas são mais difíceis de apanhar dos que as raposas grandes, pois o agricultor com problema de visão enxergará facilmente as raposas grandes, mas as raposas pequenas serão de difícil acesso a sua visão.

Por isso, se não for tomado o devido cuidado as raposinhas facilmente destruirão a vinha. É esse princípio que Salomão quer ensinar: não adianta se capturar as raposas grandes que todos veem, mas não capturar as pequenas raposas, que estão debaixo do nariz e estão destruindo pouco a pouco a vinha plantada por Deus no meio dos homens chamada família.

Certamente são grandes as influências que tentam destruir a família. Num tempo onde o positivo, segundo Comte, em sua posição sintética, é o relativo em oposição ao absoluto, se torna evidente que os valores absolutos não são mais toleráveis pela nova sociedade, que se constitui de um novo paradigma, se assim pode-se chamar, de uma suposta “releitura da família”. É um paradigma que tem como princípio reavaliar a realidade do tempo presente à luz do que se entende por família. É um novo modelo para um novo tempo, afirmam os destruidores da família. Mas será que este novo modelo é real, no sentido correto?  É claro que não. Pois, um dos frutos do positivismo é o utilitarismo no campo prático e ético.

 

II

 

O utilitarismo é uma civilização da produção e do desfrutamento da produção, é uma civilização das coisas e não das pessoas. Segundo João Paulo II, “no contexto da civilização do desfrutamento, a mulher pode tornar-se para o homem um objeto, os filhos um obstáculo para os pais, a família uma instituição embaraçante para a liberdade dos membros que a compõe”[1].

É muito oportuna a exortação de João Paulo II em relação ao desenvolvimento de uma sociedade utilitarista. Esta sociedade supostamente quer liberdade. Mas como bem se sabe, não existe liberdade sem lei, ou então se terá anarquia. E Comte sabia muito bem disso; no entanto, um dos pontos da crítica de Comte é “o da hierarquia de modo conservador”[2]. Portanto, em uma sociedade utilitarista não se terá anarquia na organização dos poderes da sociedade, mas se terá anarquia em relação aos valores absolutos, que consequentemente influenciará a organização dos poderes da sociedade.

Em uma sociedade utilitarista tem-se regras regendo a sociedade como um todo, mas não se tem princípios éticos e morais, e nem religiosos, regendo o indivíduo em si. Segundo o próprio Comte: “em uma palavra, a Humanidade substitui definitivamente a Deus, sem esquecer jamais seus serviços”[3]. Portanto, os princípios de uma sociedade utilitarista são completamente contrários aos que Deus estabeleceu como fundamentos para a vida humana. O utilitarismo vitupera os mandamentos de Deus.

Certa feita, o Senhor Jesus ao ser arguido sobre quais eram os dois grandes mandamentos, respondeu: “E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.37-39). E quem é mais próximo do indivíduo em si do que sua família. Por isso, a primeira instância de responsabilidade, e maior delas, em relação ao segundo grande mandamento, é a própria família.

O utilitarismo traz consigo os vermes de uma goiaba podre. Ele traz consigo uma liberdade em detrimento da ética, da moral e da religião. É claro se mantém supostos “princípio éticos e morais”, segundo Comte, alcançados única e exclusivamente pela humanidade. Não existe princípios éticos e morais para o ser humano a parte de Deus. É como disse Dostoievski: “Se Deus não existe então tudo é permitido”. Deus é o verdadeiro e único fundamento absoluto da ordem moral.

Separada dele, a ordem moral desintegra-se, pois o homem não é só matéria; é um ser espiritual, dotado de inteligência e liberdade. João XXIII assevera: “O erro mais radical na época moderna é considerar a exigência espiritual do homem como expressão do sentimento ou da fantasia, ou então como produto de uma circunstância histórica, que se há de eliminar como elemento anacrônico e obstáculo ao progresso humano”[4].

Santo Agostinho dissera: “Criastes-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós”[5]. Portanto, o ser humano não pode viver independente de Deus, pois quanto mais o ser humano conhece a Deus mais identifica a necessidade d’Ele. Isso é exemplificado na experiência gloriosa do profeta Isaías, que contemplou a santidade de Deus e exclamou: “Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos” (Is 6.5).

Outra grande influência que se casa com o positivismo é a teoria da evolução, tornada popular por Charles Darwin. Em síntese diz que o universo está indo de níveis desorganizados para níveis mais organizados, e isto inclui a vida do homem. A evolução é biológica em sua concepção original, mas se amalgamou a noção positivista de progresso, pois Darwin trabalhou com a seleção natural que diz que somente as espécies mais fortes sobreviverão, e Comte, somente as ideias mais preponderantes vão idealizar o progresso. Portanto, se estabeleceu uma junção ideal para os inimigos da família: positivismo e darwinismo.

Mas novamente, se tudo é progresso e tudo está em evolução, então porque não o conceito de família? Esta é a pergunta motivadora dos destruidores da família. Amalgamaram evolucionismo e positivismo, e, então, se tem a criação da proposição da evolução em vista do progresso positivista; e basicamente tudo passa a ser engendrado nesta proposição.

E a inculturação que provêm desta simbiose, procura a todo custo mudar o conceito original de família, pois se a humanidade está rumo ao progresso tem-se que deixar os valores que supostamente são religiosos, que são tidos como empecilhos ao progresso. Eles querem esvaziar a sociedade de todos os valores bíblicos.

Os positivistas querem se esvaziar de tudo o que for absoluto, pois numa sociedade em progresso, e que está saindo de níveis desorganizados para níveis mais organizados diz o que é absoluto é estático, e para os positivistas tudo que é estático é prejudicial ao progresso.

Por isso, a suposta religião positiva que Comte propugna é uma religião da saída do cristianismo.

 

III

 

Num mundo onde o progresso se vale de tal forma, o religioso se torna anacrônico. Se filosoficamente tem-se o positivismo, logo ter-se-á tudo explicado pela evolução da matéria com exclusão de Deus; se filosoficamente tem-se este pensamento, logo a teologia se chegará ao ponto de assumir o relativismo dogmático. Observe que, neste sentido, parte-se do positivismo de Comte e o evolucionismo de Darwin, o que chega até a influenciar a teologia nos sécs. XIX e XX, gerando a corrupção da teologia.

E a corrupção da teologia nada mais é do que uma teologia impregnada com positivismo, evolucionismo e outros “ismos” disfarçados que minam os dogmas da fé e a vida na fé. As novidades teológicas escondem-se sob a capa da destruição da razão e da verdade. Sob esta capa, se esconde o erro. Com a corrupção da teologia dominando os valores religiosos, por fim ter-se-á:

1. Primeiro, uma busca desenfreada por novidades. Isto atinge principalmente os mais jovens. Numa sociedade onde tudo é progresso, o que aparentemente passou da validade, é anacrônico e precisa ser rejeitado. Nunca se produziu tanto para satisfazer as necessidades alheias de consumo, ao mesmo que em que estas necessidades se tornam em expressão de coisas sempre piores. 

2- Segundo, a ânsia por liberdade-libertinagem. O ser humano é livre por natureza, e isso não há como negar; todavia, o que os homens querem não é a liberdade, mas a libertinagem. Como Michel Quoist disse: “O sonho do homem é ser totalmente senhor de sua existência”[6]. Como muito bem disse Quoist, é o que se vê em voga. O ser humano busca intensivamente o que a destruição da cultura desfigurara, e nesta busca acaba por se escravizar numa ânsia doentia pela libertinagem. Conquanto a liberdade seja dogma da fé, e pressuposto inalienável da vida humana, a ânsia pela libertinagem na cultura coeva é na verdade não ânsia da verdadeira liberdade, mas a ânsia da libertinagem sócio-cultural da vida sem Deus.

Estes são apenas alguns dos fatores que a corrupção da teologia traz para a vida da igreja. Uma teologia corrompida não se preocupará em manter a dignidade humana, vista de maneira visível na família.

 

IV

 

A Escritura afirma claramente: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). A palavra grega para Verbo é logos. O Logos do universo é Jesus. Mas segundo o Dr. Gilvan Fogel existe um novo logos, o logos moderno: “O ‘logos’ moderno, isto é, o sentido, a direção, a determinação moderna, que define o novo modo de ser... este moderno ou novo 'logos' determinada toda ação, toda atividade do homem no chamado mundo moderno, isto é, no novo modo de ser”[7].

O logos moderno chama-se relativismo. O logos moderno rejeita aquele que é o verdadeiro Logos. O logos moderno deturpa a verdadeira imagem do Logos eterno. A teologia corrompida aceita vários “logos”, mas eles são apenas ídolos vãos e passageiros. Não se pode aceitar que esses falsos “logos”, que vem sob a capa do progresso. O Logos verdadeiro é o Senhor Jesus. Ele é a diretriz, Ele é o caminho, Ele é a verdade, Ele é a vida (cf. Jo 14.6). “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3).

O logos eterno é o que veio para salvar o que se havia perdido (cf. Lc 19.10). Ele veio para restaurar a dignidade do homem. O homem foi criado à imagem de Deus. “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). Mas o Pecado corrompeu esta imagem e semelhança, o Pecado corrompeu a imagem do homem. Mas Jesus veio para restaurar esta imagem e semelhança, para abrir, a quem n’Ele crê, um novo e vivo caminho pelo seu sangue (cf. Hb 10.20), e assim regenerar o homem pelo lavar do Espírito Santo (cf. Tt 3.5).

Portanto, se o Senhor Jesus, o filho unigênito de Deus, o Logos eterno veio para restaurar a condição do homem; então, como os cristãos que professam ser seguidores deste Cristo, podem se render aos falsos “logos” que querem destruir a família. Pois destruído o homem, destruída está a família. E destruída a família se enfraquece a Igreja, e se se destrói a família e se enfraquece a Igreja, então se destrói a sociedade.

 

V

 

O grande projeto de uma sociedade utilitarista é destruir o homem. Michel Quoist diz: “O homem produz cada vez mais e, perpétuo esfomeado, lança-se sobre esses bens sem nunca se sentir saciado. Infernal círculo vicioso, onde as necessidades crescem mais depressa do que nascem as coisas, e onde o homem escravo debruça-se para colher os frutos da matéria, e acaba por cair de joelhos diante desse novo ídolo”[8].

O que Quoist disse é de extrema importância, o homem sempre está buscando novas maneiras de se alimentar, mas sempre permanece um esfomeado existencial. O utilitarismo quer deixar o homem cada vez mais com fome, mesmo em meio a tantos manjares podres, ocasionando a desnutrição da alma.

E quanto mais o homem se alimenta dos manjares utilitaristas, mais sente fonte. E a fome em excesso leva a morte. Não a morte física somente, mas a morte emocional e principalmente a morte para as coisas espirituais.

Entretanto, como se fará para vencer estes projetos utilitaristas que querem destruir o homem, a família e a Igreja? Apercebe-se da resposta a esta pergunta através da resposta à outra pergunta, a saber: quem é o homem? E para responder a esta questão precisa-se responder ainda outra questão primeiro: quem é Deus? Santo Agostinho fez esta indagação: “Perguntei-o à terra e disse-me: ‘Eu não sou’. E tudo o que nela existe respondeu-me o mesmo. Interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me: ‘Não somos o teu Deus; busca-o acima de nós’. Perguntei aos ventos que sopram; e o ar, com seus habitantes respondeu-me: ‘Anaxímenes está enganado; eu não sou o teu Deus’. Interroguei o céu, o Sol, a Lua, as estrelas e disseram-me: ‘Nós também não somos o Deus que procura’. Disse a todos os seres que me rondeiam as portas da carne: ‘Já que não sois o meu Deus, falai-me do meu Deus, dizei-me, ao menos, alguma coisa d’Ele’. E exclamaram com alarido: ‘Foi Ele quem nos criou’”[9].

Quando se entende o que Agostinho entendeu, e vê-se o Criador, pois, vendo Deus como criador, o ser humano entende a sua grande necessidade. Como o próprio Agostinho declarou: “Criastes-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa Vós”. O ser humano como criatura de Deus só encontra resposta para sua verdadeira necessidade no Criador.

Pois, a grande sede do ser humano não é de coisas, mas sim d’Aquele que pode saciar a fome de eternidade.

Portanto, responde-se a pergunta quem é Deus: Ele é o criador de todas as coisas e de todos os seres humanos.

Entendido isso, se pode prosseguir para a primeira pergunta: quem é o homem? O salmista indagara: “Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?” (Sl 8.4). Esta pergunta é de extrema importância para a nossa vida, para que se compreenda quem se é. Primeiro entende-se quem é Deus, depois entende-se quem é o homem. Deus é o criador e soberano do universo, e quem é o homem? O próprio salmista responde: “Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés: Todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, as aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares” (Sl 8.5-8).

O ser humano é a coroa da criação divina. Portanto, não se pode banalizá-lo a ponto de torná-lo uma coisa, e nem o elevar a ponto de torná-lo um deus. Quando se entende quem é Deus, entende-se o que é o homem, e entendendo-se o que é o homem, pode-se exclamar como o salmista: “Ó SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome sobre toda a terra!” (Sl 8.9).

O salmista exclamou o seu louvor a Deus pela beleza de sua criação. Quando se compreende quem é Deus, e o que é o homem, certamente não cairá nas ciladas de se entregar-se ao próprio “eu” e suas vontades pecaminosas, e assim negar, ignorar ou esquecer a Deus. Pois a ausência de Deus no mundo é o que tanto o degrada.

 

VI

 

Jacques Leclerq cunhara uma enigmática sentença interrogativa: “Aonde vai a igreja de hoje”. Pois, qual será o rumo de uma Igreja que se vende à corrupção da teologia? Qual será o futuro de uma Igreja que se abre para a destruição da cultura em nome da razão e do progresso? A Igreja de hoje tem caminhado a largos passos para uma secularização sistêmica, já que se rende ao secularismo doutrinário a tempos. Vê-se o fruto do positivismo e dos outros “ismos” dentro da Igreja, que se juntam com a secularização.

O que o utilitarismo contribui para a desvalorização da família, a secularização contribui para uma Igreja corrompida. E uma teologia corrompida não poderá lutar contra as destruições dos valores absolutos, pois querendo ou não, a teologia faz parte dessa destruição.

Segundo Louis Markos para os teólogos, e os cristãos, que enveredam pela corrupção da teologia: “O teste final de verdade não é a revelação (a Bíblia e os credos da Igreja), mas a razão; em outras palavras, as doutrinas seriam as verdades eternas reveladas por Deus que a igreja tem preservado, e sim teorias artificiais apresentadas por teólogos cuja bagagem cultural e gostoso morais diferem dos nossos”[10].

E, uma Igreja que não anda na verdade está fadada ao fracasso. Pois a verdade eterna permanecerá eterna. O Senhor Jesus disse: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24.35). Por isso, precisa-se resistir à secularização da Igreja, precisa-se resistir à profanação do sagrado. Deve-se sim, batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (cf. Jd 1.3).

A pureza doutrinária é vital à sobrevivência da Igreja, principalmente diante da destruição da cultura e dos inimigos da família.

 

VII

 

Ludwig Feuerbach dissera: “A tarefa dos tempos modernos foi... a transformação e a resolução da teologia na antropologia”[11]. Esta frase de Feuerbach faz compreender de maneira clara e concisa no que se tem transformado a teologia hodierna. A teologia, que em síntese é o estudo de Deus, só permanece no nome, pois o que se tem visto sendo chamado de teologia é na verdade antropologia. Estão disfarçando teologia de antropocentrismo. Estão transmutando o estudo sobre Deus no estudo sobre o homem. E qual o problema? O problema está em se transformar o estudo sobre Deus no estudo sobre o homem. Há sim de se estudar sobre o homem, mas somente depois de se estudar sobre Deus; essa é a ordem sistemática da revelação.

Portanto, tem-se de compreender isto se quiser se chegar a algum lugar com a teologia e a antropologia. Urge compreender quem é Deus se se quer chegar a uma compreensão de quem é o homem. É claro que uma boa teologia, uma teologia saudável não irá cometer este erro, esta teologia saberá manter em seu devido lugar a antropologia. Mas numa teologia errônea, a antropologia tende a assumir um lugar que não é dela e isto gera o individualismo, o relativismo e o humanismo secularista, os quais adentram a vida da Igreja.

E a consequência disso é que o mundo de hoje dá muita ênfase no indivíduo em si, na verdade, na divinização do “eu” sem deus. Isto tem gerado um fator degradante na sociedade. O individualismo cria uma ilusão de independência social e espiritual.

Cria-se uma sociedade que faz acepção de pessoas, simplesmente por aquilo que elas têm; deixa-se de ser, para preocupar-se em ter. O ter eleva-se sobre o ser. Os bem materiais se elevam sobre o caráter; e a dignidade passa a ser medida pelo ter. O papa Pio XII dissera que esta época se distingue das outras épocas, pois: “... sua monstruosa obra-prima consiste em transformar o homem num gigante do mundo físico, à custa de seu espírito reduzido a pigmeu, no mundo sobrenatural e eterno”[12].

Hoje, o materialismo se transformou num consumismo individualista, pois para supostamente satisfazer a necessidade dos seres humanos consome-se cada vez mais. E o homem que pensa que está se transformando num gigante sozinho não passa de obra de manipulação da massa. Pois, tornando-se consumista se transforma igualmente na massa consumidora. E nisto o indivíduo se torna apenas parte da massificação.

O absurdo da busca por se saciar através do consumo tem sido algo devastador. Este desejo se transforma numa enorme busca por novidades. Uma busca que não tem fim. Uma busca que acaba num ciclo vicioso. Pois sempre que uma novidade é experimentada ela deixa de ser novidade, e assim precisa-se de outra novidade e assim por diante, sem ter fim.

Além disso, pode-se observar que, a busca por novidades é na verdade algo abstrato, pois quando a novidade é experimentada se torna concreta. Portanto, chega-se a conclusão de que a busca por novidades advém mais de um desejo interno do que de um desejo externo.

Um desejo interno que somente Deus pode satisfazer. Um contentamento que somente Deus pode realizar no coração do ser humano. A defesa da família deve ser feita por aqueles que encontraram em Deus a fonte de saciação para a alma. O contentamento da comunhão com Deus é o fundamento da força da família. E sobre o este contentamento, vale lembra o que dissera Madame Guyon[13]:

Meu Senhor, tão plena de doce contentamento;

Passo meus anos de banimento!

Onde quer que eu more, moro contigo.

No céu, na terra ou no mar.

Lugares buscamos ou lugares evitamos,

E a alma em nenhum encontra a felicidade;

Mas, com um Deus para nos dirigir o caminho,

É igual alegria ir ou ficar.

E, é neste contentamento, com este contentamento, e em função deste contentamento, que os cristãos hão de lutar contra a destruição dos fundamentos que tem assolado a sociedade, a família e a Igreja. 

Glória a Deus! 



[1] João Paulo II, Carta as Famílias [8° edição. São Paulo: 2010], pág. 51.

[2] Severo Hryniewicz, Para Filosofar Hoje [5° edição. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2001], pág. 444.

[3] Ibidem. Pág. 443.

[4] João XXIII, Mater et Magistra [13° edição. São Paulo: Paulinas, 2010], pág. 68-69.

[5] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São Paulo: Paulus, 2002], livro I, cap. 1, n. 1, pág. 19.

[6] Michel Quoist, Construir o Homem e o Mundo [35° edição. São Paulo: Duas Cidades, 1987], pág. 17.

[7] Gilvan Luiz Fogel, Que é Filosofia? [1° edição. São Paulo: Ideias e Letras, 2014], pág. 65.

[8] Quoist, Op. Cit., pág. 10.

[9] Santo Agostinho, Op. Cit., livro X, cap. 6, n. 9, pág. 275-276.

[10] Louis Markos, Apologética Cristã para o Século XXI [1° edição. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2013], pág. 287.

[11] Ludwig Feuerbach, Princípios da Filosofia do Futuro [Covilhã: Universidade da Beira Interior, 2008], pág. 6.

[12] In: João XXIII, Op. Cit., pág. 76. 

[13] In: A. W. Tozer, A Vida Crucificada: Como Viver uma Experiência mais Profunda [1° edição. São Paulo: Vida, 2013], pág. 1. 


Soneto 17

Ah, morena de cabelo ondulado, e de curvas bem torneadas, vossa beleza é de valor imaculado; és de grandes graças dadivadas. Se voss...