15/06/2019

Recensão sobre o Documentário Human

I

 

O documentário Human (2015), produzido pelo fotógrafo Yann Arthus-Bertrand, tem algumas relações peculiares com a antropologia. A mais importante, a relação primordial, é de uma estrutura concêntrica, ou seja, todos os aspectos salientados são igualmente peculiaridades da vida humana, pois o documentário procura demonstrar a realidade do ser humano, da importância da dignidade humana em toda a sua completude.

Desta forma, se apresenta alguns pontos que entram em contato com a antropologia, os quais são: a importância do homem em si; a importância das relações com o próximo, constitutivo essencial da formação; e a importância da relação com o mundo.

O documentário demonstra a amplitude do que é o homem com toda sua imensa complexidade; ao passo que ao fazê-lo, volve a memória o dito de Santo Agostinho sobre a grandeza da vida humana: “uma vida variada e multiforme, imensamente ampla[1].

 

II

 

Uma das manifestações principais do documentário, que desvela alguns conceitos antropológicos fundamentais, é sobre a importância do amor: primeiro no próprio ser humano, depois em sua relação com seus semelhantes. É interessante notar que nas definições de amor chega-se a um benigno aspecto: o momento inicial da humanização começa com o amor dentro do próprio ser. O amor engloba tudo; o amor é o que preenche a alma; o amor é dar e receber; o amor une os diferentes; etc.

E uma das mais significativas manifestações de amor é na relação com o outro. O ser humano é amado por, para então amar a si, para depois amar ao outro. O amor rompe com o reducionismo da grandeza da vida humana ensinados pela cultura tecnicista e consumista, na qual o homem é visto apenas pelo ter e pelo fazer.

Com isso, veem-se problemas na manifestação do amor, causando problema de sentido, pois se o homem é apenas o que faz, então se institui a cultura do homem como objeto de consumo e de produção. Assim, com uma cultura de ter, rompem-se guerras pelo poder, falta das necessidades fundamentais por causa do mantenimento da hegemonia de poder, a desfiguração da importância da família, chegando até mesmo em situações de falta de felicidade devido a imposição do ter para ser feliz. No entanto, como diz Pepe Mujica, “ou se é feliz com pouco, com pouca bagagem, porque a felicidade está em você, ou então não consegue nada”.

Mas, existe uma questão que apresenta elementos diferentes dos temas propriamente tidos como antropológicos, que é a questão da pobreza. Quando se trata do tema da pobreza, muitos propagam a ideia de que é o dinheiro que traz felicidade, principalmente àqueles que estão presos pelas correntes da cosmovisão tecnicista. Assim, formula-se a ilusão de que o dinheiro traz liberdade ao homem, quando na verdade o amor ao dinheiro o aprisiona. O homem é livre por ser um ser que tem condição espiritual, e “por nossa condição espiritual, somos seres dotados de liberdade”. “A liberdade é uma questão central da existência: supõe que a pessoa, ainda que ligada ao mundo pelo corpo, não está condicionada, como o animal, pelos impulsos[2].

Além disso, o homem é capaz de vencer esta luta contra uma cultura autoimposta do amor ao dinheiro. Fica, portanto, o conselho de Pepe Mujica, no qual ele diz que devemos viver com o que temos, “o que não é uma apologia a pobreza, mas sim a sobriedade”.

 

III

 

A ênfase do documentário está nas dimensões do homem enquanto em relação consigo mesmo e com o mundo. Primeiro, o homem em si, com suas dimensões próprias, que fazem do homem ser quem ele é, com uma posição, um local do cosmos; depois sua relação social, o que proporciona a sua comunicação com outros humanos para seu desenvolvimento integral. Com esta realidade proporciona-se o verdadeiro enriquecimento da condição humana, uma condição que está sempre a caminho. O homem pode e deve se realizar no contato com o outro.

Assim, o homem se realiza na sua totalidade, ser bio-psíquico-social-espiritual, sendo esta a chave para a verdadeira compreensão do homem. Por isso, diversas vezes no documentário se vê pessoas juntas, seja no campo de futebol, seja se ajudando em algum serviço, etc.; nesta situação se vê a completude da posição do homem no cosmos a partir da relação com seus semelhantes.

Desta forma, pode-se dizer que o documentário busca demonstrar toda a grandeza da vida humana, desde aspectos individuais até aspectos social, evidenciando assim que o homem “é uma unidade indissolúvel, um ser que não pode caber em nenhum reducionismo[3].

 

IV

 

O documentário apresenta os mais variados aspectos da amplidão da vida humana. Assim sendo, ele propõe uma visão realista anti-reducionista sobre o ser humano. Por isso, é um documentário antropológico.

As questões metodológicas evocadas neste documentário proporcionam delimitar a captação de dados sensíveis, para então se chegar ao princípio imutável da antropologia: a dignidade inviolável do ser humano. Por isso, a antropologia “aparece como uma necessidade na medida em que é conhecimento que reconhece os problemas existenciais e propõe respostas para descobrir o sentido da vida”.

A proposta do documentário, quando salientada e analisada pelo motivo-base, serve de ponto de partida para se chegar a esta compreensão imutável de que o homem tem uma conduta existencial, e apesar das diferenças sócio-culturais, o ser humano é o mesmo em qualquer lugar do planeta; um ser que busca amar e ser amado, ser feliz, e se realizar em si e com o outro.

Laudate Deo



[1] Santo Agostinho, Confissões [Coleção Clássicos de Bolso. São Paulo: Paulus, 2002], livro X, 17, 26, pág. 289.

[2] Juan Antonio Acha e Sérgio Ibanor Piva, Antropologia Filosófica [Batatais, SP: Claretiano, 2013], pág. 124.

[3] Ibidem. Pág. 117. 


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