I
O documentário Human (2015), produzido pelo
fotógrafo Yann Arthus-Bertrand, tem algumas relações peculiares com a
antropologia. A mais importante, a relação primordial, é de uma estrutura
concêntrica, ou seja, todos os aspectos salientados são igualmente
peculiaridades da vida humana, pois o documentário procura demonstrar a
realidade do ser humano, da importância da dignidade humana em toda a sua
completude.
Desta forma, se apresenta alguns pontos que entram em
contato com a antropologia, os quais são: a importância do homem em si; a
importância das relações com o próximo, constitutivo essencial da formação; e a
importância da relação com o mundo.
O documentário demonstra a amplitude do que é o homem
com toda sua imensa complexidade; ao passo que ao fazê-lo, volve a memória o
dito de Santo Agostinho sobre a grandeza da vida humana: “uma vida variada e
multiforme, imensamente ampla”[1].
II
Uma das manifestações principais do documentário, que
desvela alguns conceitos antropológicos fundamentais, é sobre a importância do
amor: primeiro no próprio ser humano, depois em sua relação com seus
semelhantes. É interessante notar que nas definições de amor chega-se a um
benigno aspecto: o momento inicial da humanização começa com o amor dentro do
próprio ser. O amor engloba tudo; o amor é o que preenche a alma; o amor é dar
e receber; o amor une os diferentes; etc.
E uma das mais significativas manifestações de amor é
na relação com o outro. O ser humano é amado por, para então amar a si, para
depois amar ao outro. O amor rompe com o reducionismo da grandeza da vida
humana ensinados pela cultura tecnicista e consumista, na qual o homem é visto apenas
pelo ter e pelo fazer.
Com isso, veem-se problemas na manifestação do amor,
causando problema de sentido, pois se o homem é apenas o que faz, então se
institui a cultura do homem como objeto de consumo e de produção. Assim, com
uma cultura de ter, rompem-se guerras pelo poder, falta das necessidades
fundamentais por causa do mantenimento da hegemonia de poder, a desfiguração da
importância da família, chegando até mesmo em situações de falta de felicidade
devido a imposição do ter para ser feliz. No entanto, como diz Pepe Mujica, “ou
se é feliz com pouco, com pouca bagagem, porque a felicidade está em você, ou
então não consegue nada”.
Mas, existe uma questão que apresenta elementos
diferentes dos temas propriamente tidos como antropológicos, que é a questão da
pobreza. Quando se trata do tema da pobreza, muitos propagam a ideia de que é o
dinheiro que traz felicidade, principalmente àqueles que estão presos pelas
correntes da cosmovisão tecnicista. Assim, formula-se a ilusão de que o
dinheiro traz liberdade ao homem, quando na verdade o amor ao dinheiro o
aprisiona. O homem é livre por ser um ser que tem condição espiritual, e “por
nossa condição espiritual, somos seres dotados de liberdade”. “A
liberdade é uma questão central da existência: supõe que a pessoa, ainda que
ligada ao mundo pelo corpo, não está condicionada, como o animal, pelos
impulsos”[2].
Além disso, o homem é capaz de vencer esta luta contra
uma cultura autoimposta do amor ao dinheiro. Fica, portanto, o conselho de Pepe
Mujica, no qual ele diz que devemos viver com o que temos, “o que não é uma
apologia a pobreza, mas sim a sobriedade”.
III
A ênfase do documentário está nas dimensões do homem
enquanto em relação consigo mesmo e com o mundo. Primeiro, o homem em si, com
suas dimensões próprias, que fazem do homem ser quem ele é, com uma posição, um
local do cosmos; depois sua relação social, o que proporciona a sua comunicação
com outros humanos para seu desenvolvimento integral. Com esta realidade
proporciona-se o verdadeiro enriquecimento da condição humana, uma condição que
está sempre a caminho. O homem pode e deve se realizar no contato com o outro.
Assim, o homem se realiza na sua totalidade, ser
bio-psíquico-social-espiritual, sendo esta a chave para a verdadeira
compreensão do homem. Por isso, diversas vezes no documentário se vê pessoas
juntas, seja no campo de futebol, seja se ajudando em algum serviço, etc.;
nesta situação se vê a completude da posição do homem no cosmos a partir da
relação com seus semelhantes.
Desta forma, pode-se dizer que o documentário busca
demonstrar toda a grandeza da vida humana, desde aspectos individuais até
aspectos social, evidenciando assim que o homem “é uma unidade indissolúvel,
um ser que não pode caber em nenhum reducionismo”[3].
IV
O documentário apresenta os mais variados aspectos da
amplidão da vida humana. Assim sendo, ele propõe uma visão realista
anti-reducionista sobre o ser humano. Por isso, é um documentário
antropológico.
As questões metodológicas evocadas neste documentário
proporcionam delimitar a captação de dados sensíveis, para então se chegar ao
princípio imutável da antropologia: a dignidade inviolável do ser humano. Por
isso, a antropologia “aparece como uma necessidade na medida em que é
conhecimento que reconhece os problemas existenciais e propõe respostas para
descobrir o sentido da vida”.
A proposta do documentário, quando salientada e
analisada pelo motivo-base, serve de ponto de partida para se chegar a esta
compreensão imutável de que o homem tem uma conduta existencial, e apesar das
diferenças sócio-culturais, o ser humano é o mesmo em qualquer lugar do
planeta; um ser que busca amar e ser amado, ser feliz, e se realizar em si e
com o outro.
Laudate Deo!
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