28/09/2020

Doze Respostas

I

 

O bispo de Hipona intelectualmente é fruto da simbiose entre filosofia platônica e filosofia aristotélica; no entanto, Santo Agostinho é platônico, mais especificamente do neoplatonismo origenista; Agostinho leu os platônicos, leu as Categorias de Aristóteles, porém sua iluminação maior vem das fontes eternas do Salvador, a beleza tão antiga e tão nova, atestada pela Sagrada Escritura como o próprio Agostinho assevera. Dentre as peregrinações intelectuais e espirituais de Agostinho, ele encontrou-se a medida que entendeu o que é realmente a fé. Ele mesmo confessa: “Só a fé podia curar-me: desse modo, os olhos de minha inteligência já purificada, se dirigiram à tua verdade imutável e perfeita” (Conf., VI, 6).

 

II

 

A questão da revelação, particularmente do conhecimento revelacional, se deu progressivamente, assim como o conhecimento natural; a revelação se deu por meios e modos diferentes, do mesmo modo como ocorre com o conhecimento natural; a diferença é que na revelação a progressividade sempre conduz ao próximo momento, até o fechamento do cânon; no conhecimento natural, há sempre novas descobertas, uma se fundamentando na outra e a superando, e assim por diante. Com isso, no conhecimento revelado há de se ter um ponto nevrálgico, que não advém propriamente do interprete humano da revelação, mas sim da interpretação da própria revelação, pois no conhecimento natural, o interprete da natureza não o faz de si mesmo, mas a partir de conhecimentos já existentes: do mesmo modo ocorre com a revelação, a interpretação humana é embasada em outras interpretações que já foram feitas. Por isso, a partir do conhecimento revelado surgem dogmas e doutrinas, mas a formulação de dogmas e doutrinas só se estabelecem quando estes são encarnados na existência pessoal de fé, senão estas formulações levam as pessoas a serem legalistas e/ou subjetivistas.

 

III

 

Santo Tomás dizia que a doutrina sagrada era superior as demais ciências, tanto as especulativas quanto as práticas; em relação as especulativas, pois trata de um conhecimento superior; em relação as práticas, pois trata de melhor forma de viver. Quanto a isso, consulte STh Ia, q. 1, a. 5.

 

IV

 

A tendência desconstrutivista da cultura pós-moderna, de dizer que tudo o que tem padrões absolutos é anacrônico e/ou obsoleto em relação ao progresso, é uma atitude crente; pois, todo ato cultural é um ato de fé; seja a fé em alguém, em algum ideal, ou até mesmo a negação da fé – tudo isto é ato crente. Sendo assim, um ato cultural que não possui valores absolutos legará à sociedade a desintegração da ordem social. Ora, em relação isso, há um referencial interessante num dos “cavaleiros do Apocalipse”, a saber, Nietzsche, o qual afirmara que o que homem da ciência (o homem do futuro, até mesmo o super-homem) é desconhecido dele mesmo, e não sem razão, pois põe o coração em si mesmo, e desta forma acaba por se perder; por isso, Nietzsche ao descrever cirurgicamente isso, ainda evoca as palavras de Cristo: “porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. Nietzsche evoca as palavras de Cristo para corroborar e demonstrar a perca do homem moderno em si mesmo. Em suma, isto é o desconstrutivismo pós-moderno.

 

V

 

Ora, diante da “paródia e da pastiche” da maior parte dos filósofos contemporâneos, se faz necessário voltar as metanarrativas. Pois, as metanarrativas são realistas e legam valores. Na verdade, assim como Sócrates fizera na Grécia Antiga com os sofistas, se faz necessário fazer em tempos hodiernos, a fim de resgatar as expressões da alta-cultura a partir das metanarrativas, as quais são imprescindíveis neste resgate.

 

VI

 

O ser do homem como um todo enfrenta uma tensão, ou dialética, ou nos termos da teologia joanina, o “já e o ainda não”, pois se relaciona com o tempo e com a eternidade, e no tempo enfrenta a contingência e a finitude da condição humana. Por isso, as escuridades que rondam a existência humana, das catástrofes a roda da fortuna, se sabe que as nuvens escuras da vida trazem após si um arco-íris, e depois da tempestade sempre vem a bonança. Esta simples analogia demonstra um modo de se enfrentar as tensões inerentes a vida humana.

 

VII

 

O homem, as mais das vezes, está sendo reduzido a apenas alguns aspectos de sua natureza; o ser humano não é apenas isso ou aquilo, o ser humano é uma totalidade; e as perspectivas antropológicas reducionistas se tornam um grande mal na educação, pois se não se valoriza a multiplicidade das dimensões da natureza humana, tão necessárias para a realização da pessoa em sua dignidade, então se cria uma cultura de rejeição ao que é humano e de aceitação do que é anti-humano.

 

VIII

 

O amor é o atavio desta vida. Por isso, no amor e no respeito mútuo, o homem cresce em esperança e experiência. Carlos Drummond de Andrade afirma que “o amor foge a dicionários e a regulamentos vários”, ou seja, o amor foge a definições ou pré-conceitos, pois o amor é abertura para compreender o outro, para realidades novas, para a multiplicidade das coisas não-compreendidas.

 

IX

 

O homem pode ser muitas coisas. Esta simplória sentença estabelece o homem no seu lugar adequado, livre dos reducionismos, os quais só servem para dividi-lo em sua natureza e essência. A posição do homem no cosmos é singular, pois sua natureza é multifacetada; a verdadeira valorização da dignidade humana tem por parâmetro inegável a valoração do todo da natureza humana.

 

X

 

A existência encarnada na história, produzindo sentido na existência, leva o homem a se perguntar sobre si, sobre porque ele é o que é, etc.; Gabriel Marcel chega a compreensão sobre o ser neste sentido, sendo a afirmação “eu existo” a confirmação de sentido, pois atesta a presença do eu no mundo; da mesma maneira, poder-se-á chegar a definição de Heidegger do “homem como pastor do ser”. Esta existência que tem um sentido que se abre para a eternidade é a “razão do coração” em Pascal, ou seja, uma razão com alcance metafísico. Assim, a compreensão do homem sobre si se volta para além de si, para o transcendente, para uma busca superior, para a felicidade, tal como dissera Santo Agostinho: “quando te procuro ó meu Deus, procuro a felicidade da vida. Procurar-te-ei, para que minha alma viva. O meu corpo, com efeito, vive da minha alma, e a alma vive de ti” (Conf., XX, 20).

 

XI

 

O pressuposto da beleza se relacionar com o bem, pode gerar sim uma espécie de estufa moralista; isto acontece quando a arte se torna engajada no sentido ideológico, e não se deixa mais levar pelo ideal do belo, o que faz com que a arte transtorne seu elemento primordial, a saber, expressão racional de um sentimento, de uma realidade percebida em algum momento, da exposição de uma verdade, em elementos estéticos. Por isso, na via estética, ao se relacionar com a via do bem, há o assentimento para a moral, e não para o falso padrão de correção ético-moral. Assim, quando há arte engajada tem-se um falso padrão de correção ético-moral, que nada tem de moralidade, antes é algo próprio dos imoralistas; no entanto, quando há arte pelo ideal do belo há participação ético-moral.

 

XII

 

A filosofia moderna tem algumas contribuições muito úteis para a filosofia; e é certo se afirma que a filosofia moderna rompeu com alguns problemas da baixa-escolástica, os quais não são fruto do pensamento medieval, mas da corrupção através da feitiçaria; no entanto, a filosofia moderna não é proveniente das trevas medievais: pois não é possível que um período de tanto significado para a filosofia, a ciência, a teologia, a literatura, a arquitetura, as artes, etc., tal como fora a Idade Média, seja algo tido como idade das trevas; de fato, a Idade Média não é idade das trevas. A chamada idade das trevas legou ao mundo um período de luz, e a chamada idade das luzes legou ao mundo um período de densas trevas. A filosofia moderna é uma confirmação cabal desta asseveração. De fato, os homens modernos estão sob as trevas de homens que se dizem “iluminados” (os iluministas). 

***

E termina aqui este escrito. Laudate Deo


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