30/01/2026

Os ociosos e o desprezo pela sabedoria

I

 

A ociosidade é um mal terrível, e os ociosos são apressados propagadores de vícios e males; por isso, a exortação cristã é que se reprima o ócio com algum ofício; no entanto, no planeta Brasil ocorre justamente o contrário: se introduz o ócio através de algum ofício; pois, no planeta Brasil os mais ociosos são justamente os que exercem algum ofício de forma desordenada.

E o que é exercer um ofício de forma desordenada? É tornar o exercício do ofício em desculpa para a falta de desenvolvimento da personalidade, ou seja, exercem o ofício tal como se fosse um divertimento; os ociosos no planeta Brasil não são somente aqueles que não exercem um ofício, seja ele qual for; os ociosos no planeta Brasil são principalmente aqueles que exercem algum ofício, mas tornam tal ofício um divertimento para velar a miséria da própria personalidade.

 

II

 

A destruição da personalidade no planeta Brasil é velada pelo incentivo ao ofício; não porque isto é preceito da natureza, mas para velar a despersonalização instituída na camada nuclear da cultura; os ociosos no planeta Brasil muito falam sobre emprego e ofício, mas ao mesmo tempo possuem a personalidade totalmente prostituída.

Num geral, os que possuem a personalidade prostituída, e querem manter a sociedade despersonalizada, proclamam os seguintes jargões: “vai trabalhar vagabundo!”, “estudar é para rico, pobre tem que trabalhar”, e similares; etc.

Os que proclamam tais jargões são os mais ociosos numa cultura de ociosidade, pois, tais jargões são evidencia do impregnar passivo da ociosidade; na verdade, os que proclamam tais jargões são os artífices dos que promoveram a impregnação passiva do desprezo pela sabedoria no planeta Brasil.

 

III

 

O desprezo pela sabedoria em nome de algum ofício é o que é incentivado no planeta Brasil por aqueles que dominam a partir da implementação da burrice e da destruição da inteligência; os ociosos no planeta Brasil são os que desprezam o saber e o conhecimento; por isso, em nome de algum ofício manifestam as mais diversas infernoses da inveja contra aqueles que buscam adentrar na senda do saber.

Aliás, este é um critério para conhecer algum ocioso: quanto mais inveja e desdém contra quem está na senda da sabedoria, mais jargões que velam a personalidade prostituída serão manifestos - principalmente nos mandos para algum ofício. Os ociosos buscam o ofício para esconder de si a própria miséria na qual vivem.

Outrossim, é que quem tem a personalidade prostituída ainda que possua algum ofício não tem honra moral para falar de trabalho; e no planeta Brasil quanto mais despersonalizado alguém é, mais se ab-roga o juízo em defesa de algum ofício.

 

IV

 

A ociosidade, segundo Sirach, ensina muita malícia (cf. Eclo. 33.29); ora, os ociosos no planeta Brasil, como são desprezadores da sabedoria em função de algum ofício, promovem e propagam muita malícia; pois, o desprezo pela sabedoria conduz os ociosos para o dolo; o planeta Brasil é o local onde os ociosos, principalmente os que exercem algum ofício, promovem malícia e dolo; e isso se comprova pela rejeição da sabedoria que fazem de maneira descarada e obstinada.

A malícia do desprezo a sabedoria se assoma em meio ao ofício; e ao invés do ofício ser um meio de conhecer a verdade pelo lume da luz exterior, o ofício se torna em expressão de dolo e engano; o ofício se for verdadeiro e sóbrio deve conduzir ao conhecimento da verdade, agora quando o ofício é exercido para velar a prostituição da própria personalidade, quanto mais ofício mais malícia e engano.

Além do que, em sentido espiritual, a ociosidade é fruto da soberba (cf. Ez 16.49); portanto, os ociosos que não exercem algum ofício, e os ociosos que exercem algum ofício, são soberbos; além do que, aqueles que rejeitam a sabedoria em nome do ofício, seja por burrice ou algum propósito nefasto, também são soberbos; a soberba da rejeição a sabedoria em função de algum ofício é a soberba que atenta contra outrem na tentativa de se tornar “deus” sobre outrem.

 

V

 

Ademais, todos aqueles que rejeitam a sabedoria buscam se tornar a própria sabedoria; e os ociosos que exercem algum ofício são aqueles que mais rejeitam a sabedoria, posto terem imbecilmente arrolado para si o ofício em detrimento da formação da própria personalidade; e o pior dos males não é a falta de emprego ou a dificuldade em conseguir trabalho, mas o pior dos males é a despersonalização, que no planeta Brasil infelizmente é mais manifesta naqueles que exercem algum ofício.

Deste modo, os ociosos que exercem algum ofício são os piores e os mais malignos inimigos do estudo da sabedoria; aliás, quanto mais despersonalizado alguém está, mais abrupta será a rejeição a sabedoria; além do que, os graus de despersonalização são mais abruptos naqueles que dão risadas contra o estudo da sabedoria; portanto, os ociosos, principalmente os que exercem algum ofício, propagam luxúria através do “ofício” que exercem.

E triste desdita sobrevêm aos ociosos quando estes se manifestam contra a sabedoria. Na verdade, quanto mais alguém se vocifera e atenta contra a sabedoria mais isso atesta a ociosidade maliciosa na qual vive; os ociosos são assaz maliciosos contra as variadas formas de manifestação da sabedoria; por isso, a todo custo buscam propagar, enganar e promover ações contra a sabedoria e buscam do mesmo modo instituir algum tipo de ridicularização contra os que trilham o bendito caminho da sabedoria. 

θεῷ χάρις


28/01/2026

Os “influencers” católicos

I

 

Ao ver se assomar uma corja de “cristãos ideologizados” que se passam por católicos, que ao ganharem fama e “sucesso” em mídias sociais, são intitulados com aquilo que se define em tempos atuais como “influencers”, se observa que em sua maior parte estes são inimigos da fé reta e sólida; os “influencers” católicos, em sua grande maioria, são insolentes e luxuriosos; e os tais ainda dizem que promovem a fé.

Aliás, a sentença de Boécio se assoma contra os tais de maneira cabal, pois segundo o mártir da fé, as questões referentes a sabedoria não devem ser partilhadas com aqueles que são insolentes e luxuriosos; e a propriedade inerente a grande maioria dos “influencers” católicos é justamente a insolência e a luxúria.

Mas, por que se faz este juízo de valor? Não seria isso julgar erroneamente? Não, isso não é julgar erroneamente; seria julgar erroneamente se o proceder destes “influencers” quanto a questões intelectuais e quanto a questões da fé não fosse manifesto inconcusso de insolência e luxúria.

 

II

 

Os “influencers” católicos falam do que não sabem e não sabem do que falam; pois, como é que que alguém que diz confessar a fé cristã decai em soberba e continuam a se considerar como “cristãos”; no entanto, os maiores inimigos da fé são justamente aqueles que, movidos por insolência e luxúria, querem “testemunhar” da fé que não vivem.

E por que isso ocorre? Simples, pela ideologização; a ideologização é que busca promover “influencers” que não vivem em conformidade com a fé para “testemunhar” da própria fé, pois este tipo de “testemunho” na verdade é anti-testemunho; e pior, é preceito ideológico que se assomou pela impregnação passiva de hábitos a obstinação em relação a querer falar do que não se sabe e do que não se conhece, e pior, do que não se vive.

Ora, segundo São Vicente de Lérins se tem um tipo de provação que advém aos cristãos por parte daqueles que mais aparentam do que de fato vivem, isto é, por aqueles que se movem e são movidos por falsas aparências; e é justamente um cristianismo movido por falsas aparências que tem sido propagado pelos “influencers” católicos: tanto devido a falta de sinceridade na qual vivem, quanto pelo engano que promovem.

Pois, a insolência e a luxúria são inimigas mortais da fé; onde há insolência e onde há luxúria, a fé é asfixiada de maneira mortal; por isso, se há propagação de insolência e de luxúria, então se tem o coração dominado por soberba, mesmo que isso seja sob os “invólucros” da fé.

 

III

 

Ademais, o núcleo midiático da apologética católica - no qual se movem 95% dos “influencers” católicos -, na verdade são movidos por vontade ideológica; pois, falam do que não sabem e do que não estudaram para falar; falam do que virou moda ideológica de falar, ainda que seja algo concernente a religião; este tipo de apologética é uma planta mortífera para a saúde da Igreja, pois, corrói tanto quanto as heresias hediondas; a falta de sinceridade, e a falta de vida na verdade, são maiores inimigas da fé do que aqueles que desveladamente são inimigos da fé.

Deste modo, tendo a arte da apologia se tornado algo midiático, a mesma decaiu em ideologismo; se faz apologética não mais para defender a fé reta e sólida ou para defender a reta razão, mas para defender o princípio ideológico que se assomou a fé, o qual é permeado por usurpação e soberba; as manifestações apologéticas dos “influencers” católicos, são permeadas pelo princípio ideológico: defendem a fé que é manifesta e permitida pela ideologia dominante, mas não a fé reta e sólida.

A apologética “ideológica”, ainda que não tenha aparências ideológicas, é um grande perigo para a fé; porque a doutrina se corrompe, como Tomás de Aquino afirma, não só por erros ensinados, mas pela intenção de quem ensina; a intenção ideológica, mesmo que velada e inconsciente, sempre corrói e corrompe a fé, pois a intenção ideológica é sempre irracional e diabólica.

Por isso, este tipo de apologética e/ou ensino dos “influencers” católicos, está permeado com uma intenção ideológica; e isto se prova, entre vários aspectos, pelo fato de que quase sem exceção dos “influencers” católicos em seus ensinamentos vituperam cabalmente o argumento de autoridade na sagrada teologia – em relação aos “influencers” não há uma única exceção; e isso para mencionar apenas um aspecto; etc.

Portanto, a obra dos “influencers” católicos, não sei se movidos por ignorância intelectual, ou por vontade corrompida por consciência cauterizada, ou por má-fé, seja por qualquer outro motivo, sempre atina contra a verdadeira piedade e contra a fé reta e sólida; assim, não são apenas movidos por simplicidade ou falta de conhecimento, mas atentam contra a própria fé antes de sequer terem alcançado maturidade espiritual na própria fé. 

Com isso, pois, urge apologizar contra os “influencers” católicos, não em relação a doutrina ou teologia, mas em relação ao fato de que dizem-se “cristãos” não o sendo; pois, os males que provém dos mesmos são tal como as plantas parasitas de que falava Santo Inácio; dos tais, portanto, tal como ensina Santo Inácio, convém fugir: “Fugi pois destas plantas parasitas, que produzem fruto mortífero. Se alguém provar delas morre na hora. Não são pois eles plantação do Pai” (Ad Tral., 11.1). 

***

E a guisa de post-scriptum, o que fora afirmado dos “influencers” católicos também se diz cabalmente dos “influencers” protestantes, com a diferença de que nos “influencers” protestantes a desonra intelectual e canalhice, em sua grande maioria, é imensamente maior. 

θεῷ χάρις


26/01/2026

Nótulas sobre o espírito dialético

Prólogo.

 

A designação do espírito dialético é um neologismo para descrever o estado da mente daqueles que são dominados pela dialética hegeliana; o espírito dialético é o “eu” interior que ao compreender algo da verdade passa a agir contra a verdade compreendida para dizer que entendeu a verdade; e isto é loucura; mas não propriamente uma loucura psíquica, embora possa se tornar em loucura psíquica, ao desenvolver os estágios mais avançados da morbidade na alma; mais propriamente, o espírito dialético é manifestação de loucura espiritual.

A dialética hegeliana coloca os seres humanos em estado de loucura espiritual, a tal ponto da mente de um indivíduo ser dominada pelo espírito dialético, o que faz desenvolver o modo dialético de pensar; e a alma da sociedade onde há muitos indivíduos dominados pelo espírito dialético, também será expressão do espírito dialético, mas não apenas com consequências individuais, mas com consequências sociais.

Com isso, a sociedade se torna em sociedade dialética, isto é, em sociedade de indivíduos dominados pelo espírito dialético; na analogia cinematográfica, nisto consiste literalmente a Matrix. A Matrix é instaurada quando os indivíduos, e em consequência a sociedade, são dominados pelo espírito dialético.

Portanto, tecer-se-á algumas considerações sobre o espírito dialético a guisa de apresentação/introdução, para se aclarar de maneira mais adequada este neologismo conceitual, extremamente útil para se fazer uma anatomia da contemporaneidade.

 

§ 1

 

A definição de espírito dialético é um complemento filosófico para uma explicação racional daquilo que a Sagrada Escritura fala sobre o espírito de luxúria (cf. Os 4.12); mais propriamente, o espírito de luxúria atua na consciência; no entanto, os efeitos da ação do espírito de luxúria também permeiam o intelecto; ora, os efeitos do espírito de luxúria no intelecto é o que aqui se define como espírito dialético. Portanto, o espírito dialético é o mesmo que o espírito de luxúria, só que em específico se refere ao intelecto, aos efeitos da luxúria no intelecto; enquanto que o espírito de luxúria é descrito na Sagrada Escritura, a descrição do espírito dialético advém pelo lume da luz interior, mas em conformidade com o que a Sagrada Escritura ensina sobre o espírito de luxúria.

 

§ 2

 

A luxúria ao dominar a consciência, torna a consciência cauterizada bem como instaura na consciência o tender para laborar contra os mandamentos divinos; o prazer da luxúria é atentar contra os preceitos divinos; mas, a luxúria não somente age na consciência, mas também age no intelecto; e a luxúria ao cauterizar a consciência, obstrui com uma muralha o funcionamento do intelecto; além do que, o intelecto obnubilado pela luxúria será permeado pelas formas dialéticas da luxúria; ou dito em outros termos, as formas dialéticas da luxúria, as quais atentam contra a verdade e vituperam a verdade, atinarão a inteligência para ir contra a verdade quando a inteligência compreender algo da verdade. O prazer do espírito dialético é laborar contra a verdade ao compreender algo da própria verdade; e isto é evidência da obstinação no coração contra os preceitos da verdade - que em suma é soberba.

 

§ 3

 

A amplidão de ações que o espírito dialético instaura na mente, além de gerar o vício da melindre na personalidade, também calcifica o ímpeto para o descaro na vontade; ou seja, em sua personalidade o indivíduo fica melindroso, e volitivamente se deleitará no descaro; estas são consequências do instaurar do espírito dialético num indivíduo, o qual ao ser dominado pelo espírito dialético não conseguirá entender os melindres no qual está inserido e nem entenderá as ações de descaro que pratica costumeiramente; por isso, o espírito dialético é a mais abrupta manifestação do espírito de luxúria; pois, o espírito dialético é evidência inegável da destruição total da inteligência; e se a inteligência está destruída não haverá moralidade - na verdade, através da destruição da inteligência se instaurará de modo absoluto a mais hedionda imoralidade através das mais variadas formas de prostituição.

 

§ 4

 

Assim, o demônio da luxúria tanto atua na consciência quanto no intelecto; ora, em relação ao agir do demônio da luxúria na consciência se o define como espírito de luxúria; e quanto ao agir do demônio da luxúria no intelecto se o define como espírito dialético. Outrossim, é que a definição de espírito dialético não somente abaliza a compreensão do modo como o demônio da luxúria age no intelecto a partir do que a Sagrada Escritura ensina sobre isso; mas também a definição de espírito dialético é útil para se compreender o modo como algumas filosofias utilizam-se das distorções dialéticas para aprisionar as inteligências a grimórios de feitiçaria. Na verdade, se evoca a questão do espírito dialético, especialmente para designar o modo como algumas filosofias instauram de maneira inconsciente o espírito dialético através da impregnação passiva de hábitos cristalizada pelo modo dialético de pensar.

 

§ 5

 

O espírito dialético engendra no coração a obstinação contra as definições corretas; ora, Tomás de Aquino afirma que a definição é o que concerne a segunda operação do intelecto (cf. In De An., I, lect. 2); logo, se se tem as definições, mais propriamente definições corretas, então a segunda operação do intelecto está em pleno funcionamento; todavia, se não se tem definições corretas, então a segunda operação do intelecto está obstruída ou destruída; por isso, o espírito dialético engendra a obstinação no coração e no próprio intelecto contra as definições corretas; além do que, como é próprio da luxúria, o espírito dialético induz o coração ao escárnio contra definições corretas, não somente na rejeição das mesmas, mas principalmente nas risadas contra as definições corretas. Ora, se alguém escarnece, por palavras ou por ações, das definições corretas, isto é evidência inegável de inteligência destruída. As risadas são apenas o modo mais simples de se averiguar e constatar isso.

 

§ 6

 

A imaginação é totalmente sujeitada pelo espírito dialético aos tentáculos da luxúria; por isso, o intelecto se sujeita ao desejo pelo que é do próximo, seja cônjuge, casa, bens (cf. Êx 20.17), etc.; o desejo pelo que é do próximo é evidência que o espírito dialético dominou o modo de operar da imaginação, atinando esta para o desejo pelo que é de outrem; além do que, o espírito dialético calcina o indivíduo nas perspectivas da anti-liberdade. Por isso, a imaginação sujeitada pelo espírito dialético aos tentáculos da luxúria se divertirá com as ações inerentes ao descaro.

Pois, imaginação dialetizada pelo espírito dialético gera somente ídolos vãos para o coração; por causa da imaginação pervertida pelo espírito dialético, o coração se sujeita a toda a podridão da soberba contra Deus formando para si falsos fantasmas abstrativos que se estabelecem contra as verdades eternas; assim, tudo o que provir do espírito dialético, atinará uma imaginação anti-verdade, anti-liberdade e anti-religião; ou dito em outros termos, tudo o que provir do espírito dialético formará uma imaginação que atenta contra qualquer das formas verdadeiras que emanam da verdade, da liberdade ou da religião.

 

§ 7

 

O espírito dialético instaura a maneira dialética de pensar; e isso é a pior forma já manifesta entre os homens para a destruição da inteligência; pois, uma coisa é a utilização da dialética para se encontrar o que concerne ao saber, outra coisa é se ter o modo dialético de pensar; pois, o modo dialético de pensar sujeita o ato de pensar ao domínio que é efetuado através do espírito dialético; ora, se o espírito dialético é proveniente do espírito de luxúria, então quem é dominado pelo espírito dialético estará sujeito a quem instaurou este ímpeto para a luxúria na camada nuclear da cultura; pois, a camada nuclear da cultura é a nascente donde flui tudo o que se entende como manifestação cultural; uma vez que esta camada nuclear é imbuída de luxúria, então todas as manifestações culturais serão em maior ou menor grau permeadas pela luxúria; ou mais propriamente, pelo espírito dialético. E as manifestações culturais são o que guiam uma sociedade a ter certo modo de pensar, induz a certas ações, gostos, modas, costumes, etc., os quais se instauram pela impregnação passiva de hábitos; pois, o domínio da luxúria na consciência enfraquece a vontade e a inteligência para que estas não se apercebam que são dominadas por hábitos contrários a própria natureza humana.

 

***

 

Epílogo. Ora, fora evocado algumas pressuposições e princípios sobre o espírito dialético a guisa de apresentação deste neologismo conceitual; pois, a Sagrada Escritura fala sobre o espírito de luxúria que age na consciência; mas, pelo lume da luz interior se chega a compreensão dos efeitos da luxuria no intelecto; e isto é o que se chama de espírito dialético; assim, a fim de abalizar algo compreendido pelo lume da luz interior, e sob a autoridade da Sagrada Escritura, se põe este conceito, não só para compreender as manifestações da luxúria no intelecto, mas principalmente para se compreender quais filosofias que propagam o espírito dialético. 

E termina aqui esta explicação. θεῷ χάρις


18/01/2026

Resposta sobre os jogos de azar

1. A indagação de vossa senhoria: “se é pecado se entregar a jogos de azar?”, além de ser muito pertinente, também evoca um problema que se assomou na cristandade em sociedades onde a cultura fora totalmente corrompida; assim, ao ter diante de mim vossa indagação, e ao observar o decair de muitos que se dizem “cristãos” na prática pecaminosa dos jogos de azar, respondo-lhe de modo a explicar o porquê se entregar aos jogos de azar é pecado, e para explicar qual deve ser o procedimento disciplinar contra os “cristãos” que se entregam aos jogos de azar.

2. Ora, em relação a isso fundamentalmente se deve compreender o que a Sagrada Escritura ensina, pois tal como afirmara São Gregório de Nissa, a Sagrada Escritura é a verdadeira regra e fundamento da fé reta e sólida (cf. Epist. V); por isso, a fé verdadeira e reta é a que está em conformidade com o que é ensinado na Sagrada Escritura; assim, se alguém se diz “cristão” que mostre sua fé em conformidade com o que é ensinado na Sagrada Escritura, pois se alguém se diz “cristão” e desobedece ao que é ensinado na Sagrada Escritura então a fé que diz ter é pior do que a fé dos demônios (cf. Tg 2.19); pois, fé sem obediência aos ensinamentos bíblicos é fé sem obras, já que a primeira das obras da fé verdadeira é a obediência aos mandamentos divinos (cf. Jo 14.21-23, 15.10).

3. E isso também é observado quanto a prática dos jogos de azar; a Sagrada Escritura condena veementemente a prática dos jogos de azar; embora na Escritura não se utilize o termo “jogos de azar”, o texto sagrado se refere ao que concerne aos jogos de azar, pois os jogos de azar se referem a tudo aquilo que atina o coração para o amor pelo dinheiro, e qualquer jogo que busque ganhar dinheiro pela sorte ou pela participação em sorteio onde houveram muitos que pagaram para acumular certo dinheiro para determinado “prêmio financeiro”; e atualmente os jogos de azar são mais manifestos em jogos em lotéricas e similares.

E a Sagrada Escritura ensina os seguintes princípios que condenam os jogos de azar como uma prática pecaminosa:

(i) No Sl 119.36 se ensina que se deve rogar a Deus para que o coração seja inclinado para os mandamentos divinos e não à cobiça; ora, a obediência aos mandamentos divinos livra o coração da cobiça; e a desobediência aos mandamentos divinos evidencia coração dominado pela cobiça. Portanto, como o se entregar aos jogos de azar é manifestação de cobiça, então quem se entrega a jogos de azar está contra os mandamentos divinos.

(ii) Em Ec 5.10 se ensina que o amor ao dinheiro é vaidade, bem como se ensina que o amor ao dinheiro é luxúria; pois, o que ama o dinheiro nunca se farta, e é próprio da luxúria a insaciabilidade com práticas cobiçosas; portanto, como o se entregar a jogos de azar é manifestação de cobiça, então o se entregar a jogos de azar também é manifestação de luxúria.

(iii) Em Mt 6.24 se ensina que não se pode servir a Deus e servir ao dinheiro (Mamom); pois, quem ama ao dinheiro está dominado pela cobiça e pela luxúria (cf. 1Tm 6.10); portanto, como o se entregar a jogos de azar é cobiça e luxúria, quem se entrega a jogos de azar tem o dinheiro como “deus”, o que engendra a avareza, que é idolatria (cf. Ef. 5.5); assim, quem se entrega a jogos de azar não serve e nem teme a Deus.

(iv) Em 1Tm 6.9 se ensina aqueles que buscam dinheiro sem medida, ou seja, aqueles que amam ao dinheiro e que cobiçam desmesuradamente o dinheiro submergem em perdição e ruína; portanto, como o se entregar a jogos de azar é cobiça e luxúria, então aqueles que se entregam a jogos de azar estão no caminho da perdição e da ruína, ou seja, estão ordenados ao inferno.

Portanto, se alguém peca ao praticar jogos de azar, então está contra os ensinamentos bíblicos; logo, se alguém se diz cristão e se entrega aos jogos de azar a fé que diz ter é pior do que a fé dos demônios.

4. Além dos ensinamentos bíblicos que declaram como pecaminoso o ato de participar de jogos de azar, os ensinamentos da Sagrada Tradição também são categóricos quanto a esta proibição; e nem sequer mencionarei os ensinamentos dos Padres da Igreja a este respeito; a disciplina apostólica é categórica quanto a isso: “Se um Bispo, sacerdote ou diácono se entregar a jogos de azar ou embriaguez, que cesse imediatamente ou seja destituído. Se um diácono, leitor ou cantor praticar os mesmos vícios, deve cessar ou será excomungado. O mesmo se aplica a um leigo[1].  

Com isso, de acordo com a disciplina dos apóstolos, se alguém que está no Santo Sacerdócio, seja Bispo, Padre ou Diácono, se se entrega a jogos de azar ou a embriaguez, que seja destituído; do mesmo modo, se um leigo se entregar aos jogos de azar, primeiro deve ser repreendido, e se não cessar, deve ser excomungado.

5. Além disso, num Concílio Ecumênico se institui uma regra cabal e irrevogável contra jogos de azar: “Nenhum leigo ou clérigo se entregará a jogos de azar. Clérigos serão destituídos; leigos, excomungados[2]; por isso, se algum clérigo - Bispo, Padre ou Diácono -, ou mesmo alguém que participa do serviço eclesial, seja leitor, cantor, entre outros, se entregar a jogos de azar, devem ser destituídos, e após ser destituído, se ainda se entregar a jogos de azar deve ser excomungado; e se um leigo se entregar a jogos de azar deve ser excomungado.

Na verdade, por esta regra do Concílio Ecumênico, se um leigo se entregar a jogos de azar está automaticamente excomungado e um sacerdote está automaticamente destituído; ora, a excomunhão quando por motivos corretos, instituída pela correta autoridade da Tradição Apostólica, é um ato que impede a participação nos meios de graça, mesmo se for excomunhão automática; se alguém pratica algo que traz excomunhão automática deixa de participar na graça e decai em apostasia.

6. Assim, aquele que se entrega a jogos de azar está automaticamente excomungado e está em estado de apostasia; por esta razão não recebe mais nada da graça ainda que participe nos meios de graça (sacramentos). Deste modo, se alguém é automaticamente excomungado, mas participa nos sacramentos não recebe nada da graça, pois a desobediência a disciplina bíblica e apostólica tornam o indivíduo indigno para receber a graça, já que esta desobediência é rejeição e escárnio contra a misericórdia de Deus; e não há mais perdão para quem vitupera a misericórdia de Deus, o que é chamado pelo autor aos Hebreus de “pisar o Filho de Deus” (cf. Hb 10.29).

7. Ora, o que fora dito deve ser suficiente para responder a indagação de vossa senhoria a respeito do por que se entregar aos jogos de azar é pecado; não só é pecado, mas é um tipo de apostasia, que desemboca em apostasia total posto a cobiça e a luxúria levarem à perdição; se a resposta lhe servir bem, e sanar a vossa indagação, não deixei de me informar, e se por acaso ainda restar alguma dúvida, não hesite em me indagar, que lhe responderei o mais rápido possível. Bendito seja Deus para sempre. Amém.



[1] In: Cânones Apostólicos, §§ 42-43.

[2] In: Sexto Concílio Ecumênico, cânone 47. 


17/01/2026

Em Defesa de Constantino o Grande

1. Ao ver uma infamante imbecilidade por parte de alguns ateus, e até mesmo de alguns “cristãos”, entre os quais muitos padres e pastores, que criticaram sofisticamente e injustamente a vida e a fé de Constantino o Grande (ou Constantino I), decidi me pronunciar a respeito, em defesa do primeiro imperador a se converter para a fé cristã; evidentemente, a influência de reis e imperadores na fé cristã sempre teve efeito negativo e trouxe consequências terríveis; mas a influência de Constantino não foi uma destas: ele de fato se converteu verdadeiramente, e quis laborar para o bem da fé cristã e para a promoção do bem comum – e isto evidencia o caráter de um homem honrado.

2. O cristianismo não foi inventado por Constantino; o cristianismo verdadeiro não é obra de homens, mas é obra de Deus; não o falso cristianismo que foi engendrado pelos imperialismos perversos do passado, mas o verdadeiro cristianismo; aliás, Constantino não promoveu um cristianismo imperial; é sofisma de princípio querer falar de cristianismo imperial em Constantino; houveram cristãos em muitos impérios, e o próprio império Bizantino era tido num geral como um império cristão, mas tinha problemas como qualquer outro império ou nação, a diferença era a sociedade que se tornara majoritariamente cristã.

3. Deste modo, Constantino, que era um pagão, ao se tornar imperador, começou a perseguir a fé cristã; mas, a visão de uma cruz antes da Batalha de Milvia em 312, o fez ter opiniões diferentes a respeito da fé cristã; Constantino converteu-se plenamente alguns anos depois desta visão, mas mesmo antes de sua conversão decidiu não mais perseguir institucionalmente o cristianismo, o que fez por meio do Édito de Milão em 313; a conversão de Constantino se formalizou plenamente em 316-317, quando ele de fato, após estudo, aconselhamento e de ter sido ensinado na fé corretamente, decidiu se tornar um cristão.

A conversão de Constantino não representara nenhum atentado ou perigo contra a fé, e não fora algo mentiroso como os críticos modernos gostam de propagar, para dizer que Constantino se “converteu” apenas por conveniência; a conversão de Constantino foi conversão verdadeira; outros imperadores se aproveitaram da fé para propósitos ideológicos e instrumentalizaram a Igreja para isso, mas Constantino não decaiu neste erro.

4. Constantino era um homem muito bem preparado; era um imperador com erudição clássica, com a formação greco-romana clássica; e ao se converter, tratou de procurar compreender melhor a fé, lendo e estudando os principais tratados sobre a fé cristã; provavelmente, leu livros de Clemente de Alexandria, de Orígenes, e de outros dos Santos Padres dos séculos I e II; aliás, Constantino soube como poucos como valorizar sua fé sem decair em desrespeito com outras crenças, algo que é pouco mencionado; antes da conversão a fé cristã, ele perseguia outras religiões e crenças, após sua conversão ele deixou de perseguir outras religiões e crenças; na verdade, Constantino como qualquer cristão leigo quis laborar para o bem da fé, e como imperador, quis que este laborar também servisse de algum modo para o bem do império. E isto é o que concerne a um líder cristão civil com honra e decência.

5. Outrossim, é que poucos anos após se converter, Constantino, ao ouvir o conselho dos bispos ao redor do mundo, convocou com sua autoridade imperial uma assembleia de bispos; Constantino apenas convocou, a pedido dos bispos, dado a necessidade das crises na Santa Igreja nesta mesma época; este Concílio foi realizado na cidade de Nicéia em 325, no qual se formulou alguns cânones disciplinares, e no qual se abalizou a doutrina cristológica; Constantino assistiu ao Concílio e participou do mesmo, mas apenas como ouvinte, não como autoridade teológica; Constantino discursou sobre o que aprendeu da fé, mas não institui-se em questões de fé porque era imperador; e as críticas imbecilóides dos ateus e dos inimigos da fé afirmam totalmente o contrário do que de fato ocorrera; se os ateus e os inimigos da fé querem falar de Constantino deveriam primeiro ler a vida de Constantino escrita por Eusébio de Cesareia.

6. Aliás, quanto a isso, se demonstra a verdadeira fé de Constantino; apesar de ser um homem erudito nos conhecimentos seculares, ao conhecer a fé cristã, ele tratou de estudar e se esclarecer sobre a doutrina cristã; por isso, no Concílio de Niceia, ao discursar sobre a fé, assim como houvera feito antes, e como houvera feito depois, ele teve a humildade de submeter suas pressuposições a análise dos bispos, dos homens santos que compuseram o Concílio de Niceia. Constantino em nada atrapalhou o Concílio Ecumênico, e em nada quis interferir nos assuntos da fé; antes, ao ser parte da fé verdadeira participou como um leigo comum, assim como outros que assistiram ou acompanharam o Concílio na cidade de Niceia.

7. Ora, em seu mais famoso discurso sobre a fé, a “Oratio Ad Sanctorum Coetum”, feito no Concílio de Niceia, preservado por Eusébio de Cesareia na integra, Constantino demonstrou uma humildade que poucos homens na história demonstraram, principalmente em se tratando de reis e imperadores que se disseram cristãos; Constantino, que já entendia um pouco do linguajar teológico, fez um discurso a pedido dos bispos no início do Concílio de Niceia, e em seu discurso ou oração, declarou: “A vós, então, eu clamo, que sois os mais bem instruídos nos mistérios de Deus, para que me auxiliem com vossos conselhos, para que me acompanhem com vossos pensamentos e corrijam tudo o que possa parecer errôneo em minhas palavras, não esperando demonstração de conhecimento perfeito, mas aceitando graciosamente a sinceridade do meu esforço” (cap. 2). Por mais incrível que possa parecer, Constantino se submetia a disciplina em relação a fé quanto a suas falas ou discursos e quanto as suas ações.

8. E estas breves palavras evocadas são suficientes para uma defesa da vida e do testemunho de Constantino o Grande, que conquanto tenha cometidos muitas falhas em sua vida após a conversão, se manteve até o fim da vida como um cristão fiel; e embora se tenham tidos problemas como em qualquer outro império, seja em relação a religião seja em problemas sociais, o testemunho de conversão de Constantino é verdadeiro, e sua humildade nos assuntos da fé é sua mais preciosa qualidade e a confirmação de que ele de fato experienciou o novo nascimento; portanto, em honra ao testemunho de Constantino o Grande, se escreve esta defesa; e que o Deus Altíssimo conceda ao mundo homens de fibra e de sinceridade para que possam testemunhar da verdade eterna na vida pública com ações em função do bem comum tal como fizera Constantino.

Laudate Deo


16/01/2026

O que é “credibilidade”?

I

 

Acostumou-se, infelizmente, a se falar de credibilidade no “cristianismo brasileiro” sem sequer se saber o que de fato é credibilidade; aliás, até mesmo muitos que se dizem “cristãos” estão com uma perspectiva pecaminosa sobre no que consiste credibilidade (cf. Is 58.1-14); e pior, falam de credibilidade quando nem sequer vivenciam a vida em retidão; a falsa credibilidade arrolada por quem não vive em retidão é embasada totalmente em estereótipos e/ou aparências; e a Sagrada Escritura ensina que não é bom ter respeito por aparências (cf. Pv 28.21), isto é, quem tem respeito, ou faz juízo de valor, apenas a partir de aparências, está fora do caminho do bem, está longe do caminho da santidade.

Aliás, quem faz juízo de valor por estereótipos criados em si mesmo ou por estereótipos previamente instituídos, demonstra que está sob a influência de algo que sequer consegue se aperceber, pois o juízo de valor a partir de aparências é próprio de quem é dominado pelo espírito de luxúria.

Portanto, a falsidade dos estereótipos não se manifesta apenas em que os evoca, mas principalmente em quem efetua juízo de valor a partir de aparências; por isso, a falta de retidão, assomada com qualquer vício na alma, atina falsas concepções sobre no que consiste a credibilidade ou caráter de outrem; assim, o que de fato tiver credibilidade se tornará em algo que não passa credibilidade, enquanto que o que não tiver credibilidade se tornará em algo que passa credibilidade.

Outrossim, é que o juízo de valor a partir estereótipos diz mais a respeito de quem assim procede do que de quem é estereotipado; pois, o juízo de valor a partir de estereótipos evidencia os falsos estereótipos criados por quem faz este tipo de juízo de valor; ora, os estereótipos criados na mente são expressão do que está no coração; então, se existe o tender para falsas aparências e falsos estereótipos, então o coração é permeado por insinceridade; a falta de sinceridade consigo, a falta de contemplar as próprias misérias, induz a mente a formar para si falsos estereótipos sobre si, os quais se manifestam nos estereótipos sobre outrem.

Pois, em suma, isto é a criação de uma autoimagem de si, para si, e sobre outrem; e toda autoimagem, seja em que sentido for, é uma perversão da sinceridade e a evocação de máscaras para se velar quem se é; ora, só se compreende adequadamente o outro, sem estereótipos e sem aparências, quando não se tem autoimagem de si mesmo, ou seja, quando não se tem nem estereótipos e nem falsas aparências sobre si mesmo; pois, quem esconde-se de si mesmo com estereótipos ou falsas aparências, olhará para o outro com estereótipos e falsas aparências.

Além do que, pelo modo como se manifesta os estereótipos criados sobre o outrem, isto geralmente demonstra desejo por outrem (desejo sexual por outrem ou desejo pelo que é de outrem). Pois, como é preceito da caridade que só se ama a Deus no outro, então a partir do outro é que se mostra quem se é, não por causa do outro ou pelo outro, mas pelo modo como se ama outrem; ora, se se cria estereótipos sobre outrem, então pelos estereótipos se mostra como se ama outrem; e se se cria estereótipos sobre outrem, já não se ama outrem como se é devido, mas se institui sobre outrem o que a vontade pecaminosa quer; por isso, a formação de estereótipos ou aparências sobre outrem é algo que vitupera o preceito da caridade.

Portanto, quem vive a caridade requerida por Deus não cria estereótipos sobre outrem e não se fundamenta em aparências para fazer juízos de valor. A cultura dos estereótipos e das aparências é a transformação da caridade em erotização, é a saída do ágape para o eros; o amor que é devido pela caridade se transforma em formas diversas de erotização quando se tem estereótipos ou falsas aparências sobre outrem; ou em casos mais específicos, o desejo sexual por outrem se manifesta em falsas aparências, tanto para velar de si mesmo o desejo quanto para velar diante de outrem que se tem de fato o desejo por alguém.

 

II

 

A credibilidade verdadeira, ou a verdadeira credibilidade, não consiste em aparências e estereótipos; antes, consiste no caráter e na vida virtuosa; pois, em sentido teológico a verdadeira credibilidade consiste na vida piedosa; e a piedade não se afere por aparências ou estereótipos; por isso, querer aferir piedade ou caráter por estereótipos ou aparências é evidência de falta de maturidade espiritual, bem como é evidência de desvios graves na própria vida espiritual, a maior parte dos quais engendrado pela luxúria.

Com efeito, se deve compreender no que consiste a verdadeira credibilidade, no que consiste a vida piedosa, a partir dos preceitos da Sagrada Escritura, tanto para se evitar erro quanto para evitar subjetivismos doentios que velam da mente o que se formou no próprio coração; ora, se evoca cinco preceitos bíblicos sobre no que consiste a vida piedosa, na qual consiste a verdadeira credibilidade:

1. A vida piedosa constitui-se no recebimento dos dons da graça outorgados para os que vivem em retidão (cf. Sl 84.11). Portanto, a verdadeira credibilidade está na vida em retidão, a qual não é manifesta por holofotes ou sucesso midiático, mas sim no recebimento de graça e glória da parte de Deus.

2. A vida piedosa constitui-se da vida em sabedoria, a qual Deus reserva para os que são retos (cf. Pv 2.7a). Portanto, a verdadeira credibilidade está na vida reta, a qual é demonstra pela sabedoria que Deus infunde, e não pelas falsas aparências das vãs sabedorias; além do que, a sabedoria que Deus reserva para os que são retos lhes é como um escudo quando estes caminham em sinceridade (cf. Pv 2.7b); por isso, a verdadeira credibilidade é ter a sabedoria como escudo, e não ter os estereótipos criados pelas viseiras dos imbecis e dos insinceros.

3. A vida piedosa constitui-se em entender juízo, justiça, equidade e todas as boas veredas (cf. Pv 2.9). Portanto, a verdadeira credibilidade está em entender e discernir todas as boas veredas; além do que, entender e discernir todas as boas veredas também é evitar aparências e estereótipos, já que a verdadeira equidade se manifesta em evitar respeito pelas aparências.

4. A vida piedosa constitui-se em achar graça e bom entendimento aos olhos de Deus e dos homens (cf. Pv 3.4). Portanto, a verdadeira credibilidade está em achar graça diante de Deus pela vida em obediência aos mandamentos divinos; a verdadeira credibilidade está em quem ama e obedece aos mandamentos divinos; e esta credibilidade não é manifesta por aparências ou estereótipos, já que as coisas de Deus são escondidas daqueles que não vivem em retidão; as pérolas espirituais não são outorgadas aos porcos que vivem no chiqueiro dos estereótipos.

5. A vida piedosa constitui-se em aborrecer o mal (cf. Pv 8.13a). Portanto, a verdadeira credibilidade está em aborrecer o mal; pois, quem não aborrece o mal acaba por agir com arrogância; e o respeito por aparências ou estereótipos é agir com arrogância já que o preceito bíblico ordena a não se ter respeito por aparências. Por isso, todos aqueles que tem por credibilidade a aparência ou algum estereótipo estão no caminho do mal.

[...]

Ora, estes sete preceitos são por si suficientes para se aclarar no que consiste a verdadeira credibilidade; se alguém não vive estes preceitos, então diante de Deus não tem nenhuma “credibilidade”; agora, se alguém vive de acordo com estes preceitos, em vida irrepreensível diante de Deus e dos homens, então possui a verdadeira credibilidade, a qual jamais deve ser aferida por estereótipos ou aparências.

Pois, a verdadeira piedade, a vida piedosa, nunca é aferida por aparências ou estereótipos; pois, quem assim procede tanto demonstra quem não vive em piedade quanto demonstra que não entende nada de piedade. Aliás, quem não vive em piedade não entende nada do que concerne a piedade; pois, quem não vive em piedade forma falsos estereótipos de no que consiste a santidade.

E que o Deus Altíssimo nos livre da cultura da credibilidade, uma cultura permeada pelo endeusamento pessoal da autoimagem, uma cultura permeada pelos juízos de valor efetuados por aparências e/ou estereótipos, os quais sempre estão contra o que concerne a verdadeira humildade.

A verdadeira humildade não tolera o juízo feito por estereótipos ou aparências; quem assim o faz, vive longe da humildade ensinada no Santo Evangelho; entretanto, quem vencera a falta de sinceridade e desprezara a busca por uma autoimagem fabricada sobre si, conseguira se livrar de grande pecado (cf. Sl 19.13), e certamente está bem encaminhado na senda da virtude e da piedade. 

θεῷ χάρις


15/01/2026

Da importância das definições corretas

I

 

A busca e/ou a manutenção de definições corretas não é um capricho de literatos ou lexicógrafos; as definições corretas dizem respeito ao próprio modo do intelecto funcionar; sem definições corretas, o intelecto não funciona adequadamente, antes se sujeita ao ímpeto do que move a rejeição as definições corretas ou ao ímpeto que move as definições deliberadamente errôneas.

Por esta razão, Tomás de Aquino diz que as definições são o que compete a simples intelecção (cf. In De An., I, lect. 8), ou seja, a primeira operação do intelecto; ora, obviamente definição diz respeito a definição correta; portanto, na simples intelecção, o intelecto abstrai os indivisíveis e os ordena à segunda operação, para o compor e o dividir. Assim, a simples intelecção é a base para o funcionamento do intelecto.

Por isso, se não houver definições corretas, o intelecto não funciona; e primeira operação do intelecto é o que move a inteligência para desenvolver-se a partir do conhecimento. Além do que, a primeira operação do intelecto é o que move o intelecto para a interpretação da linguagem em sua devida forma (na segunda operação do intelecto). Portanto, se não houver definições corretas nem a inteligência se desenvolve, e sequer há o entendimento da linguagem em sua devida forma.

Assim, o que concerne as definições corretas não somente é um capricho de quem leu muitos livros ou de quem se dá sempre o trabalho de buscar no dicionário, mas sim é algo que concerne ao próprio funcionamento do intelecto. Pois, uma definição correta não só atina a compreensão correta sobre determinado objeto, mas é uma engrenagem insubstituível para o funcionamento do intelecto.

Além do que, se uma das operações do intelecto não funciona, então a operação posterior não funcionará e/ou se embotará a operação anterior.

Outrossim, é que sem as definições corretas o intelecto não encontra a verdade sobre o objeto elucubrado; ora, se a verdade que concerne a cada ente não é conhecida como tem de ser através de definições corretas, então ao invés de verdade proveniente da realidade o intelecto se atinará para a falsa verdade da vontade pessoal (geralmente, quando isso ocorre, a vontade está permeada pelos fantasmas da luxúria).

Ademais, as definições corretas são importantes devido a três razões: primeiro, para a compreensão correta; segundo, para o entendimento correto; terceiro, para a vida correta. Pois, se se compreende algo corretamente, e se se entende este algo corretamente, então se tem o princípio da verdade que conduz à virtude; somente com compreensão e entendimento da verdade proveniente da realidade é que se encaminha na senda da virtude; e esta compreensão e este entendimento se inicia, no intelecto, a partir das definições corretas. A iniciação a virtude, do ponto de vista intelectual, se dá a partir das definições corretas.

 

II

 

Ora, a necessidade de definições corretas se mostra ainda mais evidente em questões referentes a teologia; embora, como dissera Santo Agostinho, “nada se pode falar de Deus de maneira digna”, é necessário que na teologia se tenha definições mais precisas possíveis para se falar de Deus, conquanto não se possa falar d’Ele de maneira adequada; por esta razão, São Basílio Magno exortara a se apurar até as mínimas parcelas da linguagem teológica; pois, uma linguagem ambígua em excesso - isto é, ambiguidade onde é possível não haver ambiguidade -, conduz a erros e a desvios intelectuais, germinando heresias e ventos de doutrinas.

Por isso, as definições corretas na teologia devem ser apuradas com o mais profundo esmero e dedicação, bem como com a mais profunda capacidade intelectual, a fim de que a linguagem teológica não seja deturpada, ainda que por pequenos erros, os quais, ao cristalizarem-se tornam-se em grandes erros que conduzem ao caminho de perdição; portanto, na teologia se deve ter a apuração da linguagem teológica em tanto quanto for possível; e onde houver ambiguidade que seja insolúvel, se deve por tal linguagem com os alertas da respectiva ambiguidade.

Pois, é importante este apurar até nas mínimas letras da linguagem teológica; por exemplo, Santo Atanásio enfrentou o mundo todo de sua época por causa de uma letra, o “iota” no grego; Santo Atanásio foi um opositor do termo “homoiousios”, que significa de substância semelhante, pois o termo correto era “homoousios”, que significa da mesma substância; a disputa por estas duas palavras gregas, que diferem entre si apenas por uma letra, o “iota”, fora algo imprescindível para a defesa da fé ortodoxa contra o arianismo, e para a definição da doutrina da Santíssima Trindade.

E se observa com isso que até as mínimas parcelas da linguagem teológica devem ser apuradas, pois até uma letra fora de lugar ou uma distinção mal feita ou mal colocada, pode gerar erros terríveis; e isto fora um problema após o período dos Padres da Igreja; após a patrística a importância do apuro das definições teológicas foi deixada de lado, e se engendrou muitos erros; pois, ao invés de se buscar este apuro com oração e estudo, preferiu-se cada um evocar o que queria e acabaram por instituir na cristandade o princípio do primado da vontade sobre o intelecto.

Em suma, as definições passaram a ser formadas de acordo com a vontade pessoal e não mais de acordo com o discernimento intelectual teológico adequado; por exemplo, o filioque, o dogma da supremacia papal, a corrupção da intenção no ensino da doutrina, os dogmas marianos do catolicismo no segundo milênio, a doutrina protestante como um todo, etc., são expressão inconcussa disso.

Ademais, que se entenda que na teologia a necessidade deste apuro é ainda maior; pois, se no lume da luz interior não se chega a uma compreensão adequada sem as definições corretas, pois sem as definições corretas o intelecto não funciona, no lume da luz superior se tiver alguma definição errada nem a compreensão racional funcionará e nem a compreensão espiritual se dará de forma adequada.

Portanto, a compreensão espiritual dos mistérios da fé se dá não apenas no sentido espiritual, na iluminação do Espírito Santo, mas também se dá no sentido intelectual, nas definições corretas estabelecidas em seus conformes; estes dois aspectos são indissociáveis na compreensão teológica, isto é, precisam se relacionar de modo subsequente e complementar na compreensão de qualquer aspecto da sagrada teologia. 

θεῷ χάρις


09/01/2026

Respostas sobre livros

Prólogo.

 

As vossas indagações a respeito de aspectos concernentes a livros, as respondo de acordo com uma opinião mais geral sobre este assunto; evidentemente, tais indagações, ao serem respondidas, tendem a ir para um caminho mais subjetivo; todavia, considerei por bem evocar algumas pressuposições gerais a respeito destas indagações, para se ter respostas mais objetivas possíveis. E fiquei imensamente feliz ao receber vossa indagação sobre livros; pois quem ama os livros, e os lê, relê, estuda e medita, certamente encontrou o caminho para a senda do saber.

 

Artigo 1: Qual o livro teológico mais importante?

 

Ora, esta indagação a responderei de dois modos: primeiro, não se pode falar de livro teológico mais importante, mas sim dos livros teológicos mais importantes (do primeiro milênio da era cristã); e quanto a isso, posso evocar alguns, os mais conhecidos, mas se fosse fazer uma lista detalhada se acrescentaria muitos outros; assim, num geral os livros teológicos mais importantes são: (1) “Comentário ao Evangelho de João” de Orígenes; (2) “Comentário aos Salmos” de Santo Agostinho; (3) “Comentário Moral ao Livro de Jó” de São Gregório Magno; (4) “Sobre os Princípios” de Orígenes; (5) “Orationes” de São Gregório o Teólogo; (6) “Ambígua” de São Máximo o Confessor; (7) “Amphilochia” de São Fócio; (8) “Contra as Heresias” de Santo Irineu; (9) “Contra Celso” de Orígenes; (10) “Contra os Pagãos” de Santo Atanásio; (11) “Contra Eunomium” de São Gregório de Nissa.

E, quanto ao segundo modo, se pode falar dos livros teológicos mais importantes de acordo com a importância histórica; neste sentido, os livros teológicos mais importantes são os seguintes (se não tivessem sido perdido, acrescentar-se-ia nesta lista quase todos os grandes tratados de Orígenes): (1) “Sobre os Princípios” de Orígenes; (2) “Hexapla” de Orígenes; (3) “Contra Celso” de Orígenes; (4) “Orationes” de São Gregório o Teólogo; (5) Os escritos de Santo Atanásio contra os arianos; (6) “Confissões” de Santo Agostinho; (7) “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho; (8) “A Trindade” de Santo Agostinho; (9) “Vulgata” de São Jerônimo; (10) “A Fé Ortodoxa” de São João Damasceno; (11) “Amphilochia” de São Fócio; (12) “Myriobiblon” de São Fócio. E acrescentaria aqui dois textos dos escolásticos latinos que são de suma importância: o comentário ao Corpus Dionysiacum de Alberto Magno, e a “Suma Teológica” de Tomás de Aquino.

Embora seja difícil afirmar com precisão o que concerne a esta indagação, as pressuposições evocadas dão um norte; pois, nunca se é possível afirmar de modo absoluto qual o livro teológico mais importante; se pode evocar os livros teológicos mais importantes; e entre os livros teológicos mais importantes, em primeiro lugar estão os comentários a Sagrada Escritura, em seguida os tratados dogmáticos, e após os tratados polêmicos ou apologéticos; num geral, seguindo este critério se dá para ter uma adequada compreensão sobre os livros teológicos mais importantes.

 

Artigo 2: Qual o livro teológico mais difícil?

 

Ora, se tem muitos livros teológicos que são difíceis; mas, num geral os mais difíceis são os que são escritos em formato de síntese, principalmente os dos escolásticos latinos; além do que, alguns textos da teologia moderna também são bem intrincados, tal como o “Glaubenslehre” de Schleiermacher, ou “Der Romerbrief” de Karl Barth, ou a “Kirchliche Dogmatik” também de Karl Barth; etc.

No entanto, após ler muitas obras teológicas, a mais difícil que encontrei foi o comentário de Duns Scotus as Sentenças de Pedro Lombardo; o comentário de Scotus as Sentenças, em três versões diferentes é de ínvia dificuldade, não só pela precisão da linguagem e as sutilezas argumentativas, mas porque são três versões distintas, cada qual de ínvia dificuldade, as quais, ao serem lidas e compreendidas, depois devem ser acopladas no entendimento em conjunto, porque se referem a mesma obra.

Ler e entender adequadamente cada uma destas versões já é de extrema dificuldade, agora acoplar as três versões em conjunto para se ter uma análise unitária do pensamento de Scotus, é de uma dificuldade imensamente maior.

Portanto, o livro teológico mais difícil a meu ver é o comentário de Duns Scotus as Sentenças.

 

Artigo 3: Qual o livro filosófico mais importante?

 

Esta pergunta não pode ser respondida de forma simplória; pois, não se pode falar simplesmente de livro filosófico mais importante; mas se deve falar dos livros filosóficos mais importantes; no entanto, se tiver que evocar apenas um livro em específico, pela amplidão de conhecimento que concatenou e sintetizou e pelos amplos caminhos ontológicos que disponibilizou ao longo de séculos, se afirmaria que o livro filosófico mais importante é a Metafísica de Aristóteles; mas, para se ser justo e estar em conformidade com a sabedoria, se afirma que o livro filosófico mais importante é em conjunto todo o Corpus Platonicum e todo o Corpus Aristotelicum.

 

Artigo 4: Qual o livro filosófico mais difícil?

 

Esta pergunta também é difícil de se responder; por exemplo, Avicena dizia que o livro mais difícil é a Metafísica de Aristóteles; e em parte está certo; não tanto porque a Metafísica é de difícil leitura, mas pela amplidão de possibilidades filosóficas que emergem deste inigualável texto de Aristóteles; no entanto, quanto a grau de dificuldade de leitura e entendimento pela estrutura de argumentação e densidade, sem sombra de dúvida, poder-se-ia também evocar os livros de Husserl - todos de ínvia dificuldade; mas, em específico, considero dois livros de Hegel os livros filosóficos mais difíceis neste sentido: a Fenomenologia do Espírito e a Ciência da Lógica; a Fenomenologia do Espírito é de suma dificuldade para se ler e entender adequadamente, e a Ciência da Lógica é de uma dificuldade imensamente maior; na verdade, como alguém já disse, a Ciência da Lógica é o livro mais denso da história da filosofia. Portanto, quanto a dificuldade de leitura, estrutura de argumentação e densidade, a Ciência da Lógica é o livro filosófico mais difícil, sendo seguido logo após em dificuldade pela Fenomenologia do Espírito; e quanto a isso não tenho nenhuma dúvida; embora em relação as possibilidades filosóficas que podem ser extraídas e que estão concatenadas para todo o desenvolvimento do saber de acordo com a ordem das disciplinas, o livro filosófico mais difícil é a Metafísica de Aristóteles.

 

Artigo 5: Qual o melhor comentário bíblico?

 

Entre os melhores comentários bíblicos poder-se-ia evocar os comentários de Orígenes, mesmo que tenham restado poucos fragmentos; quanto a comentários bíblicos, Orígenes é o mais excelente autor, e por esta razão é o comentador da Sagrada Escritura.

Além disso, se tem os comentários bíblicos de São Jerônimo; pode-se mencionar também os comentários bíblicos de Santo Agostinho, os comentários bíblicos de São João Crisóstomo, os comentários bíblicos de São Teofilacto de Ócrida, entre outros.

Mas, entre todos os comentários bíblicos feitos pelos Padres da Igreja, e que chegaram até os tempos atuais, o melhor é o “Comentário Moral ao Livro de Jó” (ou Moralia) de São Gregório Magno, seja pela profundidade, piedade, sapiência, eloquência, pela exegese límpida e espiritual, etc.

Se puder leia outros comentários, mesmo os melhores comentários dos Santos Padres, e depois leia a Moralia de São Gregório Magno, e então certamente constatará por si mesmo que o melhor comentário bíblico sem sombra de dúvida é este inigualável comentário de São Gregório Magno.

***

E termina aqui estas respostas a indagações sobre livros. θεῷ χάρις


Sobre Ezequiel 33 Contra os Sionistas

1. Além, obviamente, de todos os argumentos da reta razão serem contra a doutrina sionista, convém também evocar a autoridade da Sagrada Esc...