I
A busca e/ou a manutenção de definições corretas não é um
capricho de literatos ou lexicógrafos; as definições corretas dizem respeito ao
próprio modo do intelecto funcionar; sem definições corretas, o intelecto não
funciona adequadamente, antes se sujeita ao ímpeto do que move a rejeição as
definições corretas ou ao ímpeto que move as definições deliberadamente
errôneas.
Por esta razão, Tomás de Aquino diz que as definições são
o que compete a simples intelecção (cf. In De An., I, lect. 8), ou
seja, a primeira operação do intelecto; ora, obviamente definição diz respeito
a definição correta; portanto, na simples intelecção, o intelecto abstrai os
indivisíveis e os ordena à segunda operação, para o compor e o dividir. Assim,
a simples intelecção é a base para o funcionamento do intelecto.
Por isso, se não houver definições corretas, o intelecto
não funciona; e primeira operação do intelecto é o que move a inteligência para
desenvolver-se a partir do conhecimento. Além do que, a primeira operação do
intelecto é o que move o intelecto para a interpretação da linguagem em sua
devida forma (na segunda operação do intelecto). Portanto, se não houver
definições corretas nem a inteligência se desenvolve, e sequer há o
entendimento da linguagem em sua devida forma.
Assim, o que concerne as definições corretas não somente
é um capricho de quem leu muitos livros ou de quem se dá sempre o trabalho de
buscar no dicionário, mas sim é algo que concerne ao próprio funcionamento do
intelecto. Pois, uma definição correta não só atina a compreensão correta sobre
determinado objeto, mas é uma engrenagem insubstituível para o funcionamento do
intelecto.
Além do que, se uma das operações do intelecto não
funciona, então a operação posterior não funcionará e/ou se embotará a operação
anterior.
Outrossim, é que sem as definições corretas o intelecto
não encontra a verdade sobre o objeto elucubrado; ora, se a verdade que
concerne a cada ente não é conhecida como tem de ser através de definições
corretas, então ao invés de verdade proveniente da realidade o intelecto se
atinará para a falsa verdade da vontade pessoal (geralmente, quando isso
ocorre, a vontade está permeada pelos fantasmas da luxúria).
Ademais, as definições corretas são importantes devido a
três razões: primeiro, para a compreensão correta; segundo, para o entendimento
correto; terceiro, para a vida correta. Pois, se se compreende algo
corretamente, e se se entende este algo corretamente, então se tem o princípio
da verdade que conduz à virtude; somente com compreensão e entendimento da
verdade proveniente da realidade é que se encaminha na senda da virtude; e esta
compreensão e este entendimento se inicia, no intelecto, a partir das definições
corretas. A iniciação a virtude, do ponto de vista intelectual, se dá a partir
das definições corretas.
II
Ora, a necessidade de definições corretas se mostra ainda
mais evidente em questões referentes a teologia; embora, como dissera Santo
Agostinho, “nada se pode falar de Deus de maneira digna”, é necessário
que na teologia se tenha definições mais precisas possíveis para se falar de
Deus, conquanto não se possa falar d’Ele de maneira adequada; por esta razão,
São Basílio Magno exortara a se apurar até as mínimas parcelas da linguagem
teológica; pois, uma linguagem ambígua em excesso - isto é, ambiguidade onde é
possível não haver ambiguidade -, conduz a erros e a desvios intelectuais,
germinando heresias e ventos de doutrinas.
Por isso, as definições corretas na teologia devem ser
apuradas com o mais profundo esmero e dedicação, bem como com a mais profunda
capacidade intelectual, a fim de que a linguagem teológica não seja deturpada,
ainda que por pequenos erros, os quais, ao cristalizarem-se tornam-se em
grandes erros que conduzem ao caminho de perdição; portanto, na teologia se
deve ter a apuração da linguagem teológica em tanto quanto for possível; e onde
houver ambiguidade que seja insolúvel, se deve por tal linguagem com os alertas
da respectiva ambiguidade.
Pois, é importante este apurar até nas mínimas letras da
linguagem teológica; por exemplo, Santo Atanásio enfrentou o mundo todo de sua
época por causa de uma letra, o “iota” no grego; Santo Atanásio foi um
opositor do termo “homoiousios”, que significa de substância semelhante,
pois o termo correto era “homoousios”, que significa da mesma
substância; a disputa por estas duas palavras gregas, que diferem entre si
apenas por uma letra, o “iota”, fora algo imprescindível para a defesa
da fé ortodoxa contra o arianismo, e para a definição da doutrina da Santíssima
Trindade.
E se observa com isso que até as mínimas parcelas da
linguagem teológica devem ser apuradas, pois até uma letra fora de lugar ou uma
distinção mal feita ou mal colocada, pode gerar erros terríveis; e isto fora um
problema após o período dos Padres da Igreja; após a patrística a importância
do apuro das definições teológicas foi deixada de lado, e se engendrou muitos
erros; pois, ao invés de se buscar este apuro com oração e estudo, preferiu-se
cada um evocar o que queria e acabaram por instituir na cristandade o princípio
do primado da vontade sobre o intelecto.
Em suma, as definições passaram a ser formadas de acordo
com a vontade pessoal e não mais de acordo com o discernimento intelectual
teológico adequado; por exemplo, o filioque, o dogma da supremacia
papal, a corrupção da intenção no ensino da doutrina, os dogmas marianos do
catolicismo no segundo milênio, a doutrina protestante como um todo, etc., são
expressão inconcussa disso.
Ademais, que se entenda que na teologia a necessidade
deste apuro é ainda maior; pois, se no lume da luz interior não se chega a uma
compreensão adequada sem as definições corretas, pois sem as definições
corretas o intelecto não funciona, no lume da luz superior se tiver alguma
definição errada nem a compreensão racional funcionará e nem a compreensão
espiritual se dará de forma adequada.
Portanto, a compreensão espiritual dos mistérios da fé se dá não apenas no sentido espiritual, na iluminação do Espírito Santo, mas também se dá no sentido intelectual, nas definições corretas estabelecidas em seus conformes; estes dois aspectos são indissociáveis na compreensão teológica, isto é, precisam se relacionar de modo subsequente e complementar na compreensão de qualquer aspecto da sagrada teologia.
θεῷ χάρις!
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