15/01/2026

Da importância das definições corretas

I

 

A busca e/ou a manutenção de definições corretas não é um capricho de literatos ou lexicógrafos; as definições corretas dizem respeito ao próprio modo do intelecto funcionar; sem definições corretas, o intelecto não funciona adequadamente, antes se sujeita ao ímpeto do que move a rejeição as definições corretas ou ao ímpeto que move as definições deliberadamente errôneas.

Por esta razão, Tomás de Aquino diz que as definições são o que compete a simples intelecção (cf. In De An., I, lect. 8), ou seja, a primeira operação do intelecto; ora, obviamente definição diz respeito a definição correta; portanto, na simples intelecção, o intelecto abstrai os indivisíveis e os ordena à segunda operação, para o compor e o dividir. Assim, a simples intelecção é a base para o funcionamento do intelecto.

Por isso, se não houver definições corretas, o intelecto não funciona; e primeira operação do intelecto é o que move a inteligência para desenvolver-se a partir do conhecimento. Além do que, a primeira operação do intelecto é o que move o intelecto para a interpretação da linguagem em sua devida forma (na segunda operação do intelecto). Portanto, se não houver definições corretas nem a inteligência se desenvolve, e sequer há o entendimento da linguagem em sua devida forma.

Assim, o que concerne as definições corretas não somente é um capricho de quem leu muitos livros ou de quem se dá sempre o trabalho de buscar no dicionário, mas sim é algo que concerne ao próprio funcionamento do intelecto. Pois, uma definição correta não só atina a compreensão correta sobre determinado objeto, mas é uma engrenagem insubstituível para o funcionamento do intelecto.

Além do que, se uma das operações do intelecto não funciona, então a operação posterior não funcionará e/ou se embotará a operação anterior.

Outrossim, é que sem as definições corretas o intelecto não encontra a verdade sobre o objeto elucubrado; ora, se a verdade que concerne a cada ente não é conhecida como tem de ser através de definições corretas, então ao invés de verdade proveniente da realidade o intelecto se atinará para a falsa verdade da vontade pessoal (geralmente, quando isso ocorre, a vontade está permeada pelos fantasmas da luxúria).

Ademais, as definições corretas são importantes devido a três razões: primeiro, para a compreensão correta; segundo, para o entendimento correto; terceiro, para a vida correta. Pois, se se compreende algo corretamente, e se se entende este algo corretamente, então se tem o princípio da verdade que conduz à virtude; somente com compreensão e entendimento da verdade proveniente da realidade é que se encaminha na senda da virtude; e esta compreensão e este entendimento se inicia, no intelecto, a partir das definições corretas. A iniciação a virtude, do ponto de vista intelectual, se dá a partir das definições corretas.

 

II

 

Ora, a necessidade de definições corretas se mostra ainda mais evidente em questões referentes a teologia; embora, como dissera Santo Agostinho, “nada se pode falar de Deus de maneira digna”, é necessário que na teologia se tenha definições mais precisas possíveis para se falar de Deus, conquanto não se possa falar d’Ele de maneira adequada; por esta razão, São Basílio Magno exortara a se apurar até as mínimas parcelas da linguagem teológica; pois, uma linguagem ambígua em excesso - isto é, ambiguidade onde é possível não haver ambiguidade -, conduz a erros e a desvios intelectuais, germinando heresias e ventos de doutrinas.

Por isso, as definições corretas na teologia devem ser apuradas com o mais profundo esmero e dedicação, bem como com a mais profunda capacidade intelectual, a fim de que a linguagem teológica não seja deturpada, ainda que por pequenos erros, os quais, ao cristalizarem-se tornam-se em grandes erros que conduzem ao caminho de perdição; portanto, na teologia se deve ter a apuração da linguagem teológica em tanto quanto for possível; e onde houver ambiguidade que seja insolúvel, se deve por tal linguagem com os alertas da respectiva ambiguidade.

Pois, é importante este apurar até nas mínimas letras da linguagem teológica; por exemplo, Santo Atanásio enfrentou o mundo todo de sua época por causa de uma letra, o “iota” no grego; Santo Atanásio foi um opositor do termo “homoiousios”, que significa de substância semelhante, pois o termo correto era “homoousios”, que significa da mesma substância; a disputa por estas duas palavras gregas, que diferem entre si apenas por uma letra, o “iota”, fora algo imprescindível para a defesa da fé ortodoxa contra o arianismo, e para a definição da doutrina da Santíssima Trindade.

E se observa com isso que até as mínimas parcelas da linguagem teológica devem ser apuradas, pois até uma letra fora de lugar ou uma distinção mal feita ou mal colocada, pode gerar erros terríveis; e isto fora um problema após o período dos Padres da Igreja; após a patrística a importância do apuro das definições teológicas foi deixada de lado, e se engendrou muitos erros; pois, ao invés de se buscar este apuro com oração e estudo, preferiu-se cada um evocar o que queria e acabaram por instituir na cristandade o princípio do primado da vontade sobre o intelecto.

Em suma, as definições passaram a ser formadas de acordo com a vontade pessoal e não mais de acordo com o discernimento intelectual teológico adequado; por exemplo, o filioque, o dogma da supremacia papal, a corrupção da intenção no ensino da doutrina, os dogmas marianos do catolicismo no segundo milênio, a doutrina protestante como um todo, etc., são expressão inconcussa disso.

Ademais, que se entenda que na teologia a necessidade deste apuro é ainda maior; pois, se no lume da luz interior não se chega a uma compreensão adequada sem as definições corretas, pois sem as definições corretas o intelecto não funciona, no lume da luz superior se tiver alguma definição errada nem a compreensão racional funcionará e nem a compreensão espiritual se dará de forma adequada.

Portanto, a compreensão espiritual dos mistérios da fé se dá não apenas no sentido espiritual, na iluminação do Espírito Santo, mas também se dá no sentido intelectual, nas definições corretas estabelecidas em seus conformes; estes dois aspectos são indissociáveis na compreensão teológica, isto é, precisam se relacionar de modo subsequente e complementar na compreensão de qualquer aspecto da sagrada teologia. 

θεῷ χάρις


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