15/05/2026

Escólios em “O Laurel” de Hölderlin

A. Proêmio.

 

A poesia “O Laurel” (c. 1788) de Friedrich Hölderlin é um poema que versa sobre a filosofia do mérito; ou mais especificamente, sobre no que consiste a vida meritória – no caso de Hölderlin, o mérito na literatura.

Pois, aqueles que vivem em mérito, seja no que for, são laureados por Deus, ainda que possam nesta vida se defrontar com a soberba inexorável da Fortuna.

Por isso, o laurel da vida meritória é ver o sorriso da natureza, ou seja, é ver a aprovação de Deus e da Criação por tudo que se fez de bom para a humanidade.

Eis, portanto, uma explicação escoliadora a este importantíssimo poema, nonde Hölderlin desvela o propósito de sua obra como poeta; de fato, o eu-poético de Hölderlin está encarnado neste poema.

 

B. Escólios.

 

1. A vida não é feita de resignação, mas de sempre avançar, independentemente da quantidade de passos percorridos neste avançar; um avanço diário e sempre crescente, com ponderação e meditação.

Pois, a vida é vivida no avançar, não na resignação; e resignar-se não somente é deixar de viver as coisas boas da vida, mas quem se resigna de viver se engendra na busca por divertimentos como se os mesmos fossem expressão do ato de viver.

Com efeito, resignar-se é deixar de viver.

2. O destino do homem é avançar; o laurel da vida só é outorgado àqueles que avançam sempre em tudo o que se faz. Na corrida da vida vence quem não desiste e quem não se resigna.

Por isso, não se deve render as tentações do repouso, isto é, os tentáculos da abulia (preguiça); pois, o perigo, ou seja, uma situação adversa, é o que suscita as forças do homem, já que a força e a dignidade de alguém se manifesta diante da dificuldade.

Do mesmo modo, a dor incha o peito dos jovens, isto é, as dificuldades e as vicissitudes tornam os jovens mais fortes e mais corajosos; por esta razão, como diz a Sagrada Escritura, bom é aguentar o jugo, isto é, o sofrimento, na mocidade (cf. Lm 3.27).

3. A busca por consolo nas misérias pode conduzir à maus caminhos, a caminhos de morte; por isso, o consolo verdadeiro em meio ao sofrimento nunca está em bebidas ou em mulheres, isto é, nunca está coisas exteriores, mas sim no próprio coração.

Por esta razão, nunca se deve buscar consolo em bebidas, pois estas são alvoroçadoras (cf. Pv 20.1). E nunca se deve buscar consolo em flertes sorridentes, pois os amores de uma mulher sem caráter são mais amargos do que o absinto (cf. Pv 5.3-5).

O falso consolo que advêm de bebidas ou de mulheres ímpias conduzem a misérias ainda piores e ainda mais abruptas.

4. A resolução do coração deve se manifestar em não beber jamais do cálice da alegria, isto é, jamais se deixar desviar por seduções, mas sempre permanecer firme e resoluto no avançar na vida.

As seduções que paralisam a vida são seduções passageiras e vãs; por isso, mesmo que seja algo que possua um clarão sedutor, não se deve deixar resignar pelos cálices sedutores ou manjares sedutores, mas sempre seguir em frente para não ser aprisionado pelas tentações da resignação. Os prazeres maléficos sempre aprisionam na resignação.

O verdadeiro laurel de um homem, e o mais importante, é fazer uma obra de homem; esta é a verdadeira conquista da vida de um homem.

E a obra de um homem é seguir a verdade e honrá-la através das múltiplas luzes que advém ao ser humano para conduzi-lo à verdade.  

Somente quando um homem faz obra de homem é que o homem está pronto a participar do banquete da felicidade.

5. A resolução do coração é preparar-se para a felicidade; manter as boas resoluções incólumes é participar da felicidade; e ensinar boas resoluções é sabedoria.

O cumprimento das boas resoluções é uma séria promessa que o homem faz diante de si e de Deus; uma promessa tão séria que chega a conduzir a lágrimas, posto a dignidade que nesta está manifesta.

A dignidade de um homem está na promessa que faz a si mesmo de seguir o caminho da virtude, uma promessa que meche com as emoções até do homem mais forte.

A felicidade no caminho da vida está em justamente manter esta promessa, pois assim os entes alegres, as “criaturas de júbilo” (substâncias separadas ou anjos), ouvirão o homem resoluto em seu coração a jubilar de alegria; os anjos escutam os júbilos daqueles que seguem as boas resoluções e com estes também jubilam.

Jubilar diante de Deus por seguir a virtude é no que consiste verdadeiramente ser homem.

Pois, a natureza existe para um propósito, e do mesmo modo cada ente ou coisa na natureza também existe para um propósito.

Feliz é o homem que encontrou seu propósito, e que ao vivê-lo o faz em jubilosa e sóbria alegria.

O sorriso da natureza manifesta-se àquele que tem o coração resoluto em ordem a verdade, do homem que ao ser homem faz uma obra de homem. 

6. E terminam aqui estes escólios. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém. 


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