20/05/2026

Estrutura Geral da Fenomenologia do Espírito

I

 

A Fenomenologia do Espírito (doravante, Fenomenologia) tem uma estrutura real e uma estrutura oficial; a estrutura oficial é que foi preparada pelo próprio Hegel para a publicação, e é a que vem disposta como índice nas edições desde então, estabelecida em oito capítulos; no entanto, esta não é a estrutura adequada para este livro; o índice de matérias é ineficaz, ruim e totalmente incompleto; assim, se deve procurar entender a estrutura real da Fenomenologia, e dispor da melhor maneira possível um índice a partir desta estrutura; obviamente se sabe que Hegel ocultou o índice real para velar seu verdadeiro propósito - o que, diga-se de passagem, é uma canalhice hedionda.

Por isso, a fim de se aclarar esta estrutura real da Fenomenologia, e dispor uma estrutura geral, um index geral, se deve elucubrar sobre alguns aspectos de antemão, para assim se chegar ao cerne do sistema da ciência; quanto a isso, a estrutura evocada por Kojève é fantástica; pois, ele conseguira ir ao cerne da Fenomenologia, e desvelou muito daquilo que Hegel velou deliberadamente; e conquanto após anos de estudo e análises tenha conseguido abalizar de outro modo esta estrutura, sem sombra de dúvida, a melhor estruturação para uma compreensão geral do sistema da ciência é a que é proposta por Kojève.

Deste modo, se evoca uma sentença axiomática para se compreender o sistema da ciência, a saber: nada na Fenomenologia é por acaso; tudo tem um propósito, embora sempre um propósito diverso daquele que está nas aparências, bem como sempre um propósito que demonstra a insinceridade e a canalhice de Hegel; por isso, para a compreensão da Fenomenologia, sempre é necessário um esforço fenomenológico (no sentido husserliano); assim, se compreende que o jogo de palavras no sistema da ciência é como um círculo cabalístico (ou de modo mais prosaico, um círculo de macumba); portanto, há de se entender o real propósito do jogo de palavras, para se compreender o que Hegel pretende com as pressuposições sistêmicas.

E neste imenso jogo de palavras que é o sistema da ciência, o mais fundamental e central jogo de palavras, é a distinção, quase que imperceptível, entre o que está sendo descrito e o que é descrito pelo saber absoluto; e é um jogo dialógico quase que perfeito, porque sempre vela o domínio do saber absoluto; outrossim, Hegel distingue o que ele descreve, e o que tanto o leitor quanto ele se apercebem, e o que é descrito pelo saber absoluto, que é o próprio Hegel.

Ou seja, Hegel descreve algo para o leitor, e o leitor ao entender isso se defronta com Hegel, mas ao mesmo tempo Hegel descreve algo como o saber absoluto, o qual está acima da dialógica do “nós” (isto é, do que Hegel que descreve e o leitor que o entende no que ele descreve não como saber absoluto); assim, o Hegel como saber absoluto (o Hegel feiticeiro) domina sobre o Hegel que descreve (o Hegel filósofo) e o leitor que o entende.

Ora, isto já evidencia uma loucura total, bem como demonstra um jogo dialético infernal; e as articulações intelectuais e morais em uma imensa riqueza de observações filosóficas estão sujeitas a este jogo dialético; e isto, por sua vez, prende o leitor num círculo cabalístico inescapável; na verdade, uma vez que se é preso por este jogo, como diz Voegelin, “estás perdido”; a perdição que emana do sistema da ciência é justamente consumada pela prisão a este jogo dialético infernoso.

E esta distinção permeia soberanamente toda a Fenomenologia, do prefácio ao cap. VII; e, como bem identifica Kojève, só no cap. VIII que esta distinção é abolida; pois, ao se chegar no cap. VIII, não se precisa mais deste jogo dialético, porque já sujeitou tudo à consciência do saber absoluto; o cap. VIII é o clímax da Consciência que dominou as consciências através deste jogo dialético que sujeita os homens ao sistema da ciência.

No entanto, este clímax é apenas o começo, que leva aos homens para o oceano da profundeza desta Consciência na Ciência da Lógica, onde se instaura o reino do pensamento puro, ou em termos literários, a Segunda Realidade [ou Matrix], na qual Hegel domina de maneira quase que “onisciente”.

 

II

 

Tendo feito estas breves considerações, se vai evocar a estrutura geral da Fenomenologia, onde se indica a parte da Fenomenologia de acordo com o índice geral, e quando necessário os parágrafos de acordo com a edição de Miller (Oxford Univ. Press, 1977).

 

Prefácio.

Seção I: O objetivo de Hegel.

a) A busca pela verdade.

b) A natureza da verdade.

Seção II: O ponto de partida.

a) Análise da conjuntura epocal.

b) O despontar de uma nova época.

 

Livro I: O Itinerário ao Sistema Científico.

Seção I: O caminho para a verdade.

a) A definição de substância.

b) O sistema da ciência.

c) A introdução ao sistema.

d) A primeira parte do sistema.

e) No que consiste a Fenomenologia.

Seção II: O método da verdade.

a) O método histórico.

b) O método matemático.

c) O método filosófico.

e) Os métodos pseudo-filosóficos.

Seção III: O critério da verdade.

 

Livro II: A Natureza da Fenomenologia.

Seção I: A necessidade da Fenomenologia.

a) A crítica a Kant.

b) A crítica a Fichte.

c) A crítica a Schelling.

Seção II: O tema da Fenomenologia.

a) O saber parcial.

b) O caminho para o saber total.

c) O saber total.

Seção III: O método da Fenomenologia.

a) O critério da verdade.

b) A experiência subjetiva.

 

Livro III: Os Elementos Cognitivos (caps. I a III).

Seção Única: A consciência.

a) A consciência como fonte da cognição.

b) A consciência e suas operações.

c) A dialética da consciência.

 

Livro IV: A Sensação (cap. I).

Seção I: O Objeto da Sensação.

       a) A dialética do nunc.

       b) A dialética do hic.

Seção II: O Sujeito da Sensação.

       a) O eu-abstrato.

       b) A dialética do hic et nunc.

Seção III: A Sensação Vista como um Todo.

            a) A dialética do nunc e do hic a partir do todo.

            b) Crítica do realismo ingênuo.

 

Livro V: A Percepção (cap. II).

Seção I: A Percepção Vista como um Todo.

Seção II: O Objeto da Percepção.

       a) O termo Aufheben.

       b) O objeto como universal positivo.

       c) O objeto como universal negativo.

       d) O objeto como um todo.

Seção III: O Sujeito da Percepção.

Seção IV: A Dialética da Percepção.

       a) A dialética sujeito-objeto na percepção.

       b) O Eu como médium e a coisa como unidade.

       c) O Eu como unidade e a coisa como médium.

       d) A coisa como unidade e médium.

       e) O todo da percepção.

       f) Crítica contra a filosofia do senso comum.

 

Livro VI: O Entendimento (cap. III).

Seção I: A Dialética do Entendimento.

       a) O universal incondicionado.

       b) A força.

       c) O interno e o fenômeno.

       d) O mundo supra-sensível.

       e) O reino das leis.

       f) O mundo invertido.

Seção II: A Transição dos Elementos Cognitivos.

            a) A noção de vida.

            b) A noção de consciência-de-si.

 

Livro VII: Os Elementos Emocionais (cap. IV).

Seção Única: A Noção de Consciência-de-Si.

 

Livro VIII: O Desejo (cap. IV, §§ 166-177).

Seção Única: A Atitude de Desejo.

       a) A vida e a consciência-de-si.

       b) A dialética do desejo.

       c) Nota sobre a vida.

       d) Nota sobre o Espírito.

 

Livro IX: O Reconhecimento (cap. IV, A, §§ 178-196).

Seção Única: A Dialética da Luta pelo Reconhecimento.

       a) A dialética da luta de morte.

       b) A dominação.

       c) A sujeição.

 

Livro X: A Liberdade (cap. IV, B, §§ 197-230).

Seção Única: A Dialética da Liberdade.

            a) O estoicismo.

            b) O cepticismo.

            c) A consciência infeliz.

 

Livro XI: As Ações Concretas (cap. V, §§ 231-239).

Seção Única: A Noção de Razão.

            a) Característica geral da atitude racional.

            b) Crítica do idealismo de Fichte e de Kant.

 

Livro XII: O Sábio ou Intelectual (cap. V, A, §§ 240-346).

Seção I: A Atitude Científica.

Seção II: A Dialética do Sábio.

       a) As ciências da natureza.

       b) A psicologia das faculdades inata.

       c) A antropologia naturalista.

 

Livro XIII: O Moralista (cap. V, B, §§ 347-393).

Seção Única: A Dialética do Moralista.

       a) A questão do individual.

       b) O indivíduo que flui o mundo.

       c) O indivíduo que critica o mundo.

       d) O indivíduo que busca melhorar o mundo.

 

Livro XIV: O Literato (cap. V, C, §§ 394-437).

Seção Única: A Dialética do Literato.

       a) A impostura do literato.

       b) As contradições do rigorismo moral.

       c) O pseudo-filósofo.

       d) O intelectual e o cidadão.

 

Livro XV: A Dialética da Realidade Histórica (cap. VI, §§ 438-443).

Seção Única: A Ação Histórica.

            a) Características gerais da ação histórica.

            b) A convergência da realidade histórica.

 

Livro XVI: O Mundo Pagão (cap. VI, A, §§ 444-483).

Seção I: A Existência Pagã.

Seção II: O Destino Trágico.

Seção III: O Império Romano.

 

Livro XVII: O Mundo Cristão (cap. VI, B, §§ 484-595).

Seção I: A Oposição entre o Mundo Pagão e o Mundo Cristão.

Seção II: A Dialética do Mundo Cristão.

Seção III: A Dialética do Mundo Pré-Revolucionário.

Seção IV: A Dialética do Mundo Revolucionário.

Seção V: A Transição para o Mundo Contemporâneo.

 

Livro XVIII: O Mundo Contemporâneo (cap. VI, C, §§ 596-671).

Seção I: A Dialética do Mundo Contemporâneo.

Seção II: A Antropologia de Kant e de Fichte.

Seção III: A Autodestruição da Antropologia de Kant e de Fichte.

Seção IV: Jacobi, o Romantismo e Hegel.

 

Livro XIX: A Dialética das Ideologias Históricas (cap. VII, §§ 672-683).

Seção Única: A Manifestação das Ideologias Históricas.

            a) A religião como conteúdo da consciência individual.

            b) A religião como ideologia social.

 

Livro XX: As Sociedades Desejantes (cap. VII, A, §§ 684-698).

Seção I: O Henoteísmo das Sociedades Agrícolas.

Seção II: O Totemismo dos Caçadores e do Guerreiros.

Seção III: O Egito Antigo.

 

Livro XXI: As Sociedades do Reconhecimento (cap. VII, B, §§ 699-747).

Seção I: A Dialética das Ideologias Sociais do Desejo na Luta pelo Reconhecimento.

Seção II: A Dialética das Ideologias Sociais da Luta pelo Reconhecimento.

Seção III: A Dialética das Ideologias Sociais do Trabalho no Contexto da Luta pelo Reconhecimento.

 

Livro XXII: As Sociedades Livres (cap. VII, C, §§ 748-787).

Seção I: Cristo e o Cristianismo Primitivo.

Seção II: O Cristianismo Evoluído.

 

Livro XXIII: A Dialética Pós-Histórica (cap. VIII).

Seção Única: A Pós-História.

       a) A religião pós-cristianismo.

       b) A encarnação da sabedoria.

 

Livro XXIV: O Sábio (cap. VIII).

Seção I: A Dialética da Sabedoria.

       a) O ponto de partida: o filósofo.

       b) Retomada da dialética da Fenomenologia.

       c) A transição da filosofia para a sabedoria.

       d) O movimento desta transição: o sábio.

       e) A obra do sábio.

Seção II: O Saber Absoluto.

Seção III: A Continuidade do Saber Absoluto.

 

***

 

E conclui-se aqui a apresentação desta disposição da estrutura geral da Fenomenologia do Espírito de Hegel, a partir de uma paráfrase da estrutura proposta por Kojève. 

Laudate Deo


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