I
A Fenomenologia do Espírito (doravante, Fenomenologia)
tem uma estrutura real e uma estrutura oficial; a estrutura oficial é que foi
preparada pelo próprio Hegel para a publicação, e é a que vem disposta como
índice nas edições desde então, estabelecida em oito capítulos; no entanto,
esta não é a estrutura adequada para este livro; o índice de matérias é
ineficaz, ruim e totalmente incompleto; assim, se deve procurar entender a
estrutura real da Fenomenologia, e dispor da melhor maneira possível um
índice a partir desta estrutura; obviamente se sabe que Hegel ocultou o índice
real para velar seu verdadeiro propósito - o que, diga-se de passagem, é uma
canalhice hedionda.
Por isso, a fim de se aclarar esta estrutura real da Fenomenologia,
e dispor uma estrutura geral, um index geral, se deve elucubrar sobre alguns
aspectos de antemão, para assim se chegar ao cerne do sistema da ciência;
quanto a isso, a estrutura evocada por Kojève é fantástica; pois, ele
conseguira ir ao cerne da Fenomenologia, e desvelou muito daquilo que
Hegel velou deliberadamente; e conquanto após anos de estudo e análises tenha
conseguido abalizar de outro modo esta estrutura, sem sombra de dúvida, a melhor
estruturação para uma compreensão geral do sistema da ciência é a que é
proposta por Kojève.
Deste modo, se evoca uma sentença axiomática para se
compreender o sistema da ciência, a saber: nada na Fenomenologia é por
acaso; tudo tem um propósito, embora sempre um propósito diverso daquele que
está nas aparências, bem como sempre um propósito que demonstra a insinceridade
e a canalhice de Hegel; por isso, para a compreensão da Fenomenologia,
sempre é necessário um esforço fenomenológico (no sentido husserliano); assim,
se compreende que o jogo de palavras no sistema da ciência é como um círculo
cabalístico (ou de modo mais prosaico, um círculo de macumba); portanto, há de
se entender o real propósito do jogo de palavras, para se compreender o que
Hegel pretende com as pressuposições sistêmicas.
E neste imenso jogo de palavras que é o sistema da
ciência, o mais fundamental e central jogo de palavras, é a distinção, quase
que imperceptível, entre o que está sendo descrito e o que é descrito pelo
saber absoluto; e é um jogo dialógico quase que perfeito, porque sempre vela o
domínio do saber absoluto; outrossim, Hegel distingue o que ele descreve, e o
que tanto o leitor quanto ele se apercebem, e o que é descrito pelo saber
absoluto, que é o próprio Hegel.
Ou seja, Hegel descreve algo para o leitor, e o leitor
ao entender isso se defronta com Hegel, mas ao mesmo tempo Hegel descreve algo
como o saber absoluto, o qual está acima da dialógica do “nós” (isto é, do que
Hegel que descreve e o leitor que o entende no que ele descreve não como saber
absoluto); assim, o Hegel como saber absoluto (o Hegel feiticeiro) domina sobre
o Hegel que descreve (o Hegel filósofo) e o leitor que o entende.
Ora, isto já evidencia uma loucura total, bem como
demonstra um jogo dialético infernal; e as articulações intelectuais e morais em
uma imensa riqueza de observações filosóficas estão sujeitas a este jogo
dialético; e isto, por sua vez, prende o leitor num círculo cabalístico
inescapável; na verdade, uma vez que se é preso por este jogo, como diz
Voegelin, “estás perdido”; a perdição que emana do sistema da ciência é
justamente consumada pela prisão a este jogo dialético infernoso.
E esta distinção permeia soberanamente toda a Fenomenologia,
do prefácio ao cap. VII; e, como bem identifica Kojève, só no cap. VIII que
esta distinção é abolida; pois, ao se chegar no cap. VIII, não se precisa mais
deste jogo dialético, porque já sujeitou tudo à consciência do saber absoluto;
o cap. VIII é o clímax da Consciência que dominou as consciências através deste
jogo dialético que sujeita os homens ao sistema da ciência.
No entanto, este clímax é apenas o começo, que leva
aos homens para o oceano da profundeza desta Consciência na Ciência da
Lógica, onde se instaura o reino do pensamento puro, ou em termos
literários, a Segunda Realidade [ou Matrix], na qual Hegel domina de
maneira quase que “onisciente”.
II
Tendo feito estas breves considerações, se vai evocar
a estrutura geral da Fenomenologia, onde se indica a parte da Fenomenologia
de acordo com o índice geral, e quando necessário os parágrafos de acordo com a
edição de Miller (Oxford Univ. Press, 1977).
Prefácio.
Seção I: O objetivo de Hegel.
a) A busca pela verdade.
b) A natureza da verdade.
Seção II: O ponto de partida.
a) Análise da conjuntura epocal.
b) O despontar de uma nova época.
Livro I: O Itinerário ao Sistema Científico.
Seção I: O caminho para a verdade.
a) A definição de substância.
b) O sistema da ciência.
c) A introdução ao sistema.
d) A primeira parte do sistema.
e) No que consiste a Fenomenologia.
Seção II: O método da verdade.
a) O método histórico.
b) O método matemático.
c) O método filosófico.
e) Os métodos pseudo-filosóficos.
Seção III: O critério da verdade.
Livro II: A Natureza da Fenomenologia.
Seção I: A necessidade da Fenomenologia.
a) A crítica a Kant.
b) A crítica a Fichte.
c) A crítica a Schelling.
Seção II: O tema da Fenomenologia.
a) O saber parcial.
b) O caminho para o saber total.
c) O saber total.
Seção III: O método da Fenomenologia.
a) O critério da verdade.
b) A experiência subjetiva.
Livro III: Os Elementos Cognitivos (caps. I a III).
Seção Única: A consciência.
a) A consciência como fonte da cognição.
b) A consciência e suas operações.
c) A dialética da consciência.
Livro IV: A Sensação (cap. I).
Seção I: O Objeto da Sensação.
a) A
dialética do nunc.
b) A
dialética do hic.
Seção II: O Sujeito da Sensação.
a) O
eu-abstrato.
b) A
dialética do hic et nunc.
Seção III: A Sensação Vista como um Todo.
a) A dialética do nunc
e do hic a partir do todo.
b) Crítica do realismo
ingênuo.
Livro V: A Percepção (cap. II).
Seção I: A Percepção Vista como um Todo.
Seção II: O Objeto da Percepção.
a) O termo
Aufheben.
b) O
objeto como universal positivo.
c) O
objeto como universal negativo.
d) O
objeto como um todo.
Seção III: O Sujeito da Percepção.
Seção IV: A Dialética da Percepção.
a) A
dialética sujeito-objeto na percepção.
b) O Eu
como médium e a coisa como unidade.
c) O Eu
como unidade e a coisa como médium.
d) A coisa
como unidade e médium.
e) O todo
da percepção.
f) Crítica
contra a filosofia do senso comum.
Livro VI: O Entendimento (cap. III).
Seção I: A Dialética do Entendimento.
a) O
universal incondicionado.
b) A
força.
c) O
interno e o fenômeno.
d) O mundo
supra-sensível.
e) O reino
das leis.
f) O mundo
invertido.
Seção II: A Transição dos Elementos Cognitivos.
a) A noção de vida.
b) A noção de
consciência-de-si.
Livro VII: Os Elementos Emocionais (cap. IV).
Seção Única: A Noção de Consciência-de-Si.
Livro VIII: O Desejo (cap. IV, §§ 166-177).
Seção Única: A Atitude de Desejo.
a) A vida
e a consciência-de-si.
b) A
dialética do desejo.
c) Nota
sobre a vida.
d) Nota
sobre o Espírito.
Livro IX: O Reconhecimento (cap. IV, A, §§ 178-196).
Seção Única: A Dialética da Luta pelo Reconhecimento.
a) A
dialética da luta de morte.
b) A
dominação.
c) A
sujeição.
Livro X: A Liberdade (cap. IV, B, §§ 197-230).
Seção Única: A Dialética da Liberdade.
a) O estoicismo.
b) O cepticismo.
c) A consciência
infeliz.
Livro XI: As Ações Concretas (cap. V, §§ 231-239).
Seção Única: A Noção de Razão.
a) Característica geral
da atitude racional.
b) Crítica do idealismo
de Fichte e de Kant.
Livro XII: O Sábio ou Intelectual (cap. V, A, §§ 240-346).
Seção I: A Atitude Científica.
Seção II: A Dialética do Sábio.
a) As
ciências da natureza.
b) A
psicologia das faculdades inata.
c) A
antropologia naturalista.
Livro XIII: O Moralista (cap. V, B, §§ 347-393).
Seção Única: A Dialética do Moralista.
a) A
questão do individual.
b) O
indivíduo que flui o mundo.
c) O
indivíduo que critica o mundo.
d) O
indivíduo que busca melhorar o mundo.
Livro XIV: O Literato (cap. V, C, §§ 394-437).
Seção Única: A Dialética do Literato.
a) A
impostura do literato.
b) As
contradições do rigorismo moral.
c) O
pseudo-filósofo.
d) O
intelectual e o cidadão.
Livro XV: A Dialética da Realidade Histórica (cap. VI, §§ 438-443).
Seção Única: A Ação Histórica.
a) Características
gerais da ação histórica.
b) A convergência da
realidade histórica.
Livro XVI: O Mundo Pagão (cap. VI, A, §§ 444-483).
Seção I: A Existência Pagã.
Seção II: O Destino Trágico.
Seção III: O Império Romano.
Livro XVII: O Mundo Cristão (cap. VI, B, §§ 484-595).
Seção I: A Oposição entre o Mundo Pagão e o Mundo
Cristão.
Seção II: A Dialética do Mundo Cristão.
Seção III: A Dialética do Mundo Pré-Revolucionário.
Seção IV: A Dialética do Mundo Revolucionário.
Seção V: A Transição para o Mundo Contemporâneo.
Livro XVIII: O Mundo Contemporâneo (cap. VI, C, §§ 596-671).
Seção I: A Dialética do Mundo Contemporâneo.
Seção II: A Antropologia de Kant e de Fichte.
Seção III: A Autodestruição da Antropologia de Kant e
de Fichte.
Seção IV: Jacobi, o Romantismo e Hegel.
Livro XIX: A Dialética das Ideologias Históricas (cap. VII, §§ 672-683).
Seção Única: A Manifestação das Ideologias Históricas.
a) A religião como
conteúdo da consciência individual.
b) A religião como
ideologia social.
Livro XX: As Sociedades Desejantes (cap. VII, A, §§ 684-698).
Seção I: O Henoteísmo das Sociedades Agrícolas.
Seção II: O Totemismo dos Caçadores e do Guerreiros.
Seção III: O Egito Antigo.
Livro XXI: As Sociedades do Reconhecimento (cap. VII, B, §§ 699-747).
Seção I: A Dialética das Ideologias Sociais do Desejo
na Luta pelo Reconhecimento.
Seção II: A Dialética das Ideologias Sociais da Luta
pelo Reconhecimento.
Seção III: A Dialética das Ideologias Sociais do
Trabalho no Contexto da Luta pelo Reconhecimento.
Livro XXII: As Sociedades Livres (cap. VII, C, §§ 748-787).
Seção I: Cristo e o Cristianismo Primitivo.
Seção II: O Cristianismo Evoluído.
Livro XXIII: A Dialética Pós-Histórica (cap. VIII).
Seção Única: A Pós-História.
a) A
religião pós-cristianismo.
b) A
encarnação da sabedoria.
Livro XXIV: O Sábio (cap. VIII).
Seção I: A Dialética da Sabedoria.
a) O ponto
de partida: o filósofo.
b) Retomada
da dialética da Fenomenologia.
c) A
transição da filosofia para a sabedoria.
d) O
movimento desta transição: o sábio.
e) A obra
do sábio.
Seção II: O Saber Absoluto.
Seção III: A Continuidade do Saber Absoluto.
***
E conclui-se aqui a apresentação desta disposição da
estrutura geral da Fenomenologia do Espírito de Hegel, a partir de uma
paráfrase da estrutura proposta por Kojève.
Laudate Deo!
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