1. Ao caminhar para completar trinta anos de idade,
chega o momento de fazer um balanço da vida; estabeleci anteriormente como
propósito fazer isso ao chegar aos vinte e cinco anos, e assim sucessivamente a
cada quarto de século que o bondoso Deus me outorgar.
Todavia, devido a alguns problemas de memória, pois
não tinha lembrado fatos importantes de minha vida no passado, deixei de
escrever sobre isso até chegar no repontar de meus 30 anos.
Com efeito, eis um breve balanço da vida até aqui,
pois apesar de uma vida curta, pude pela graça de Deus viver muitas coisas
distintas, com experiências inexplicáveis e ações honrosas.
2. E para fazer esse balanço da vida gostaria de
evocar o princípio fundamental da autoanálise - primeiro, diante de si, depois,
diante de todos -, a saber: a relação entre ofício e vocação. Ora, em alguns
casos, o ofício se manifesta na vocação, e vice-versa; ou noutros casos o
ofício é distinto da vocação, e vice-versa; e ainda noutros casos, o ofício
abaliza e permeia a vocação, e vice-versa; etc.
Em relação a minha vida, o ofício veio antes da
vocação, a abalizou e permeou, bem como deu nexo, forma e escopo a minha
vocação. Por isso, ao fazer um balanço da vida inicio evocando o ofício, pois
no que concerne a vocação está bem evidenciado em tudo o que escrevi ao longo
dos anos, tanto em relação as coisas naturais quanto em relação as coisas
espirituais.
3. De fato, pouco falei ou mencionei sobre meu ofício,
minha primeira e fundamental vocação; falei muito sobre minha vocação intelectual,
mas quanto a meu ofício pouco mencionei; sendo assim, começo evocando meu
ofício, minha vocação fundamental, aquilo para o qual nasci com habilidades e
capacidades naturais atiçadas e clarividentes, a saber, o serviço militar, o
ser soldado.
O ser do soldado e o ser soldado eis o que constituiu
meu ofício mais digno; ser soldado é o ofício que por mim foi e sempre será o
mais querido e o mais estimado. Portanto, ao iniciar um balanço da vida, início
evocando minha atividade como soldado, como militar, a fim de aclarar tudo
quanto concerne a minha formação como pessoa e como intelectual; pois, minha
formação pessoal e intelectual foi temperada nas guerras, em combates e em
batalhas militares.
Portanto, declaro em alto e bom tom que fui um soldado
militar e sempre serei um soldado da verdade; lutei nas frentes militares em
guerra e em operações especiais, e agora luto na frente em prol da verdade. Não
deixei de ser soldado, apenas mudei meu campo de batalha; antes com armas e
batalhas militares, agora com palavras e batalhas intelectuais.
4. No final do séc. XIX havia uma canção militar
popular que dizia que “velhos soldados nunca morrem; eles simplesmente
desaparecem”; com grande razão o general MacArthur gostava de mencionar
esta sentença; no entanto, isto diz respeito não apenas velhos soldados: os
verdadeiros soldados nunca morrem, eles simplesmente desaparecem.
Pois, os valores primordiais de um soldado não mudam
quando um soldado desaparece, apenas são elevados a outro patamar; um soldado
verdadeiro nunca perde seus valores primordiais, apenas os aplica de outro modo
à vida além do serviço militar.
Com isso, os valores de um soldado da verdade não
mudam, são os mesmos; todavia, não somente em prol da pátria terrena, mas
também em prol da pátria celestial. Assim se define um soldado da verdade: um
soldado que batalha em prol do dever e da pátria celestial. A velha sentença da
sabedoria estoica continua sempre válida: o que fazemos nesta vida ecoa na
eternidade.
5. Deste modo, ao aferir a mim mesmo e o que fiz como
parte do cumprimento do dever como soldado, posso iniciar descrevendo o balanço
da vida até aqui, tanto para o gabo que concerne ao ofício bem cumprido com
excelência quanto para testemunhar que a verdadeira humildade está em
reconhecer a si mesmo tanto com os feitos realizados quanto com os erros
praticados e isto sem meios termos.
Tendo isto em vista e como resolução imutável, posso
evocar o início do balanço de minha vida ao caminhar para completar meus trinta
anos de idade, sem máscaras, sem falsas modéstias, sem nada a temer, sem nada a
esconder, sem a nefanda preocupação em agradar a homens, para assim em
sinceridade a Cristo adorar e honrar.
E declaro a todos: se fiz o que fiz foi porque Cristo
estava ao meu lado; a Ele glória e majestade por todos séculos. Amém.
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