12/02/2025

Sobre o Devido Cuidado com os Estrangeiros

Prólogo.

1. “Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão; nem tomarás em penhor a roupa da viúva” (Dt 24.17); ora, esta sentença do cronista da criação, demonstra que é dever imperioso a todo cristão, de toda nação cristã, cuidar dos estrangeiros; pois, é ordenança divina o não perverter o direito do estrangeiro; todavia, esta sentença é imbuída de uma série de outros preceitos que delineiam corretamente o que concerne ao devido cuidado com os estrangeiros; pois, a fé também diz respeito a ações em relação a sociedade, entre as quais, se tem o tópico do cuidado com os estrangeiros.

2. Deste modo, é um imperativo da doutrina social cristã o devido cuidado com os estrangeiros; e, para compreender isso de maneira sóbria e adequada a existência das nações, é necessário entender tanto o que concerne a proteção e preservação do direito do estrangeiro, quanto o que concerne aos deveres dos estrangeiros para poderem ser açambarcados na ordenança bíblica do devido cuidado com os estrangeiros; assim sendo, para se falar do direito dos estrangeiros também há de se falar dos deveres indiscutíveis dos estrangeiros; e isto para que não ocorra nem manipulação cultural nem perversão do direito.

Capítulo I: As ordenanças bíblicas sobre o cuidado com os estrangeiros.

3. Ora, as Escrituras prescrevem tanto ordenanças para o cuidado com os estrangeiros ou imigrantes, quanto prescreve ordenanças para os próprios estrangeiros ou imigrante quanto estes estão peregrinando; logo, não se deve querer afirmar sobre o direito dos estrangeiros quando estes não cumprem com as ordenanças bíblicas, nem se deve menosprezar a injustiça que se comete contra os estrangeiros quanto estes cumprem os preceitos bíblicos.

Pois, os preceitos bíblicos não são pesados; mas, na verdade, acoplam uma série de noções e princípios, os quais, por sua vez, demonstram o que concerne a reta razão no que diz respeito aos imigrantes; por isso, entender que os preceitos bíblicos descrevem tanto os direitos quanto os deveres dos imigrantes, é compreender o correto caminho para se entender o fenômeno sócio-cultural da imigração, e isto a partir da revelação de Deus.

4. Por isso, se deve primeiro aclarar a ordenança bíblica do cuidado com os estrangeiros, e depois, se falar da ordenança bíblica quanto aos deveres dos imigrantes. E, em relação ao primeiro aspecto, se pode sumariar em três preceitos as prescrições bíblicas sobre o cuidado com os estrangeiros: primeiro, não se deve portar com imoralidade contra os estrangeiros (cf. Êx 22.21); segundo, não se deve cometer injustiça contra os estrangeiros (cf. Êx 23.9); terceiro, não se deve negar a caridade para com os estrangeiros (cf. Dt 24.14).

5. E, em suma, estes são os preceitos bíblicos do cuidado para com os estrangeiros; mas, do cuidado para com os estrangeiros que cumprem seus deveres, tal como a Escritura também determina; pois, do contrário, as nações livres e os povos de bem não tem sobre si a ordenança bíblica do cuidado para com os estrangeiros; pois, para com os estrangeiros que cumprem os preceitos bíblicos e seus deveres diante da lei, a Escritura prescreve a obrigação de se cuidar dos mesmos, mas com os estrangeiros que não cumprem os preceitos bíblicos e seus deveres diante da lei, a Escritura retira a obrigação dos povos de cuidar dos mesmos.

6. Deste modo, se pode prosseguir ao segundo aspecto, a respeito dos deveres dos imigrantes; mas, diante da situação evocada, se deve, em primeiro lugar, aclarar o que concerne a ética quanto aos estrangeiros; e a respeito disso, se estabelecem dois princípios: primeiro, se deve amar aos estrangeiros, e se deve amá-los com o amor que se ama a si mesmo (cf. Lv 19.34); segundo, se deve amar aos estrangeiros pelo fato de que o povo de Deus também já fora estrangeiro em terra estranha (cf. Dt 10.19). Ora, este é o amor que o povo de Deus, os cristãos, devem para com os estrangeiros; o amor que se manifesta em caridade, quando assim é necessário aos imigrantes cumprirem seus deveres, mas também o amor que se manifesta em justiça, quando assim é necessário se os estrangeiros não cumprirem seus deveres.

7. E, tendo compreendido isto, se pode prosseguir para falar sobre os deveres dos imigrantes, o que se coaduna com a ética judaico-cristã no que concerne ao devido cuidado com os estrangeiros; e, sobre isso, se estabelecem três preceitos: primeiro, é dever dos imigrantes o serem aculturados nos preceitos religiosos da terra para a qual peregrinam (cf. Êx 12.48); segundo, é dever dos imigrantes não cometer as abominações que a religião da sociedade na qual peregrinam prescreve para não se cometer (cf. Lv 18.26); terceiro, é dever dos imigrantes crescer e se desenvolver para o bem da terra em que habitam como estrangeiros (cf. Jr 29.4-7).

Portanto, se estes deveres não forem cumpridos, os imigrantes não podem reivindicar direitos, nem outros podem querer falar de direitos dos imigrantes; assim sendo, a Escritura prescreve ordenanças sobre o devido cuidado com os imigrantes, mas também prescreve deveres que os mesmos devem cumprir ao peregrinarem em terras estrangeiras; e isto, com o propósito de servir ao bem das nações, e, por conseguinte, ao bem de todos os homens.

Capítulo II: Os cuidados devidos com a imigração.

8. A prescrição bíblica sobre o devido cuidado com os estrangeiros está imbuída destes preceitos ora evocados; mas, a dialógica bíblica do cuidado com os imigrantes, também inere que se deve ter alguns cuidados mais particulares a respeito da imigração; pois, como a história dos povos constata, muitas vezes a imigração é utilizada como arma de invasão e dominação; assim, neste mesmo sentido se recupera a verdade esquecida sobre a imigração, a qual deve ser permeada nessa dialógica, somada com os cuidados devidos com a imigração.

9. Deste modo, se constata que, de modo geral, se tem três tipos de imigração: primeiro, a dos que realmente precisam e necessitam de ajuda; segundo, a dos que buscam através da imigração trazer confusão e desordem, isto é, daqueles que buscam direitos como estrangeiros, mas que não cumprem deveres; terceiro, a daqueles que se utilizam da imigração como arma para domínio.

E, entre estes três tipos de imigração, apenas o primeiro é que realmente necessita de ajuda, e sempre são o menor número; o segundo tipo, geralmente é dos tipos de imigração que ocorre ou por aborrecimento ou outro problema qualquer sem muita gravidade; o terceiro tipo, é o que mais ocorre, principalmente naqueles que não cumprem os requisitos bíblicos para requerem direitos como estrangeiros.

Pois, a arma mais eficaz e menos hedionda para dominar uma cultura, e, por consequência, uma sociedade, é a imigração em massa para que haja a subversão de determinada cultura sob a influência dos imigrantes; ora, em tempos atuais isto ocorre muito em relação ao êxodo de países árabes, como por exemplo, ocorrera na Inglaterra sem que ninguém tenha se apercebido.

10. Portanto, além do devido cuidado com os imigrantes, quanto estes cumprem os deveres estabelecidos, se deve ter um cuidado ainda maior com a imigração em geral, para verificar e analisar se realmente o que está ocorrendo é uma imigração por necessidade ou se é uma imigração provocada com o intuito a fim de efetuar a desordem e o domínio cultural.

Assim, se compreende que a dialógica do cuidado para com os imigrantes também se demonstra no cuidado com a própria imigração, a saber, o amor para com os imigrantes que realmente precisam e que cumprem com seus deveres; mas em contrapartida, a devida justiça com os imigrantes que são utilizados como arma de guerra cultural e que não cumprem com seus deveres.

Amor e justiça andam juntos em se tratando do devido cuidado com os estrangeiros e o devido cuidado com a imigração; por isso, em se tratando da imigração, a quem amor, amor, e a quem justiça, justiça.

11. E isto também é cumprir o evangelho; pois, o Senhor Jesus fala do cuidado com os estrangeiros, da caridade para com os estrangeiros como se fosse feita para Ele, pois aqueles que cuidam dos estrangeiros cuidam como se fosse o próprio Cristo (cf. Mt 25.38-40); todavia, o Senhor Jesus não aboliu a dialógica do cuidado com os estrangeiros que está no Antigo Testamento.

Portanto, continua esta dialógica, e com aqueles com que se deve agir com amor no devido cuidado com os estrangeiros, é como se os atos de caridade e amor fossem prestados ao próprio Senhor; e esta é uma das belezas do devido cuidado com os estrangeiros.

Mas, que não se esqueça desta dialógica em nome da sentença do Evangelho, já que o Senhor Jesus não aboliu a mesma, apenas clarificou o que ocorre quando são prestados atos de amor para com os estrangeiros, quando assim é necessário.

Capítulo III: A vida feliz e a esperança dos imigrantes.

12. Ora, os cuidados devidos com a imigração, apontam para o devido cuidado com os estrangeiros; pois, jamais se deve olhar para os imigrantes como objeto, mesmo em relação aqueles que cometem crimes e coisas hediondas; e, embora haja a dialógica amor-justiça no devido cuidado com os imigrantes, se deve saber que a vida feliz também é uma esperança que os imigrantes devem possuir; os imigrantes devem, cumpridos os deveres requeridos, buscar a vida feliz em consonância com o respeito para com os princípios pátrios do local para onde peregrinam.

Os princípios que abalizam os transcendentais dos direitos humanos, tal como, a busca pela felicidade, também deve ser anunciados aos imigrantes; pois, a dificultosa vida que levam os imigrantes, deve ser motivo ainda maior para que busquem a vida feliz, com a esperança e o dever que lhes é incumbido; por isso, a Escritura exorta a que não se oprima os estrangeiros que vivem entre o povo pátrio (cf. Lv 19.33-34); pois, estes também buscam o caminho da vida feliz, a qual, dentro dos parâmetros adequados, também lhes é oferecida como parte da dignidade que lhes é inerente.

13. Portanto, diante desta situação, surge o problema da deportação e o preceito do acolhimento. Analisemos, primeiro, o preceito do acolhimento; é preceituado que os fiéis devem acolher e ajudar aqueles que precisam, e isto quanto a indivíduos, desde que aqueles que estão acolhendo necessite de amor e caridade e não de justiça; pois, engana-se aqueles que pensam que se pode vituperar a justiça em nome de uma suposta caridade; na verdade, transmutar impiamente a justiça em caridade é falta de caridade com quem necessita da justiça; e isso também se aplica aos imigrantes; portanto, se deve acolher quem se deve acolher, e não ir além disso.

E, se tem o problema da deportação; muitos intitulam a deportação como algo que viola a dignidade humana; todavia, há um porém; a deportação viola a dignidade humana se for feita contra aqueles que cumprem a lei e cumprem seus deveres como imigrantes; do contrário, isto é, com aqueles que não cumprem a lei e não cumprem seus deveres, a deportação não é violar a dignidade humana, é preservar a ordem de uma sociedade, tal como está prescrito na Escritura (cf. Rm 13.1-7).

Assim, se a deportação estiver dentro dos conformes da lei e de acordo com os preceitos bíblicos, mesmo que pareça “desumano” ou “violação da dignidade”, na verdade é apenas o cumprimento da justiça, o que é preceituado aos magistrados e a potestade política que cumpram de maneira cabal e firme, em favor dos bons, isto é, para benefício dos que fazem o bem de acordo com a lei, e contra os maus, isto é, para condenação dos que não agem de acordo com a lei (cf. Rm 13.4); e isto também se aplica a imigração.

14. E termina aqui esta reflexão sobre o devido cuidado com os estrangeiros. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém.


11/02/2025

Sobre o Fundamento do Mundo

1. Visto que o vasto mundo, o cosmos, possui uma harmonia precisa e perficiente, surge a dúvida sobre o que concerne e o que preserva a harmonia do cosmos.

2. Ora, o fundamento de todas as coisas, visíveis e invisíveis, está em Deus, tal como diz o Apóstolo: “porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração” (At 17.28); portanto, ao se buscar compreender o que concerne e o que preserva a harmonia do cosmos, há de se compreender que o fundamento do mundo está no Criador, tal como o salmista afirmara: “então, foram vistas as profundezas das águas, e foram descobertos os fundamentos do mundo” (Sl 18.15a). Por esta razão, que Sirach afirmara que a natureza não falha no que lhe compete: “Quando Deus criou suas obras, desde o princípio, quando as formou, distinguiu suas partes, determinou para sempre suas tarefas e o domínio de cada uma em suas gerações. Não passam fome nem adoecem e não falham no que lhes compete” (Eclo. 16.26-27).

3. Assim sendo, o fundamento do cosmos está em Deus, como Sua causa; ora, o Criador criara todas as coisas do nada, completas, perfeitas e acabadas; no entanto, no que concerne as coisas naturais, Ele mesmo estabeleceu uma ordem geracional na natureza, tal como o Apóstolo evoca a partir do dito dos antigos poetas: pois somos sua geração; e esta ordem geracional, o próprio Criador obra através dela por causas primeiras e por segundas causas; por causas primeiras, já que estabelece a ordem do movimento cósmico e preserva a vida natural através das propriedades deste movimento, tanto em relação a todo o Orbe, quanto em relação aos corpos em si; e por segundas causas, já que estabelece formas e modos para que tudo quanto concerne a geração seja efetivado tanto em toda a estrutura do Orbe, na geração dos corpos celestes, quanto em relação a própria vida natural inerente aos corpos celestes.

4. Deste modo, se pode compreender o fundamento do cosmos a partir de três princípios que se inter-relacionam: (i) primeiro, o fundamento criacional-metafísico; (ii) segundo, o fundamento natural-geracional; (iii) terceiro, o fundamento natural-corruptivo.

5. [i] Primeiro, o fundamento criacional-metafísico; ora, o fundamento de todas as coisas está em Deus, o Criador; assim, este é o fundamento criacional-metafísico do Orbe; e, deste fundamento, se consegue aclarar as causas primeiras do cosmos, bem como as diversas causas que vão se estabelecendo em ordem de eminência e em ordem de operação, a saber, as causas primeiras, as causas segundas, as causas terceiras.

Portanto, da Causa Primeira, a causa incausada, surgem as causas primeiras, as quais, em ordem de eminência se estabelecem em função da formação do cosmos pelo Criador e para a auto-preservação natural do mesmo, sob a Providência de Deus; e, as causas segundas que surgem e são formadas, atuam para preservar a ordem bem como para preservar as operações naturais em suas várias espécies e efeitos, a fim de manter a vida natural de acordo com o movimento natural da vida.

Pois, como o Primeiro Princípio criara e ordenara todas as coisas, Ele fizera isso de tal modo que na própria vida de Sua criação, houvessem as causas necessárias que funcionassem para que a vida fosse mantida e preservada de acordo com a própria natureza (cf. Eclo. 16.27); mas, mesmo assim, Ele com Sua providência preserva e conserva a criação (cf. Sl 104.30); no entanto, Ele a conserva a partir dos elementos naturais que Ele mesmo estabeleceu para preservar e manter a vida natural tal como a mesma deve ser mantida.

Ora, este é o fundamento criacional-metafísico, já que a existência do Criador é uma necessidade lógica e metafísica inescapável, principalmente em se tratando da compreensão sobre o cosmos. E, sendo este o fundamento primeiro do cosmos, se compreende porque o cosmos se mantém e é preservado em sua vida natural.

6. [ii] Segundo, o fundamento natural-geracional; ora, o Criador, estabeleceu dois processos básicos em todo o Orbe, a saber, a geração e a corrupção; quanto a geração, se tem o fundamento natural-geracional, a partir do qual, nas próprias coisas naturais, o Criador estabeleceu causas geracionais para formar corpos celestes para o que é necessário para a preservação e mantenimento da vida natural; assim, este fundamento estabelece a geração em tudo quanto é necessário no cosmos, desde os elementos naturais até os corpos celestes maiores que surgem devido a alguma necessidade em ordem a preservação do movimento do Orbe.

Por isso, tudo quanto concerne ao fundamento natural-geracional, se tem tanto elementos geracionais quanto elementos que proporcionam, a modo posterior, alguma forma de geração; na verdade, é um processo cíclico perficiente, que em alguns processos gera e forma, e quando estes que foram formados e gerados chegam ao fim da vida natural, então, proporcionam a matéria necessária para a formação e a geração de outros corpos, e assim por diante; no cíclo da vida cósmica nada é desperdiçado, e tudo está em ordem ao movimento do Orbe e aos dois preceitos básicos da vida em toda a extensão do Orbe. Na verdade, a própria extensão do Orbe é que proporciona estes dois processos básicos, pois é a própria máquina nonde ocorrem estes processos.

7. [iii] Terceiro, o fundamento natural-corruptivo; ora, o segundo processo geral básico, é a corrupção; e, quanto a corrupção, se tem o fundamento natural-corruptivo, pois, em alguns processos naturais, o Criador estabeleceu a corrupção da matéria, para que desta surgissem algumas concausas para a geração; portanto, o fundamento natural-corruptivo se coaduna com o fundamento natural-geracional; deste modo, naquilo que em a geração não encontra mais desenvolvimento, ocorre a corrupção, e assim, através da corrupção se gera elementos que as causas naturais se utilizam para um novo processo de formação, como, por exemplo, na explosão de supernovas que geram estrelas de nêutrons, ou na formação de buracos negros super-massivos; etc.

Além disso, se pode constar que as “explosões” no Orbe, se dão em função tanto da geração quanto da corrupção; por isso, as “explosões” cósmicas estão em ordem ao funcionamento do Orbe; assim, quando ocorre a “explosão” de algum corpo celeste, seja os maiores seja os menores, os efeitos e as consequências desta “explosão” ajudam em algo ao processo corrupção-geração, donde da corrupção de algum corpo celeste, surge os elementos para a geração de outro corpo celestes, e assim por diante.

Portanto, em toda a extensão do Orbe, ocorre os processos corruptivos, os quais, por sua vez, sob a matéria escura, que abaliza e fundamenta naturalmente todos estes processos, proporcionam maravilhas para que o fundamento natural-geracional possa ser efetivado de acordo com suas leis básicas e de acordo com as leis gerais do cosmos.

8. E este é, em suma, o fundamento do cosmos, tanto no sentido metafísico, quanto no sentido físico, pelo menos na compreensão generalíssima sobre as operações naturais; logo, o cosmos permanece estável porque o Criador o preserva e conserva tanto em Seu glorioso poder, quanto através das segundas causas pelas quais obra no mundo, as quais, por sua vez, dão o prisma do modo como Deus mantém em ordem o Orbe através de processos naturais que Ele mesmo criara e formara.

Pois, não somente as inteligências espirituais trabalham na preservação do Orbe, mas o próprio Deus também criara inteligências naturais incorpóreas para atuarem como fundamento do Orbe, e isto, por si, é algo maravilhoso.

9. Com isso, se constata que o cosmos também tem fundamentos naturais, os quais foram estabelecidos pelo próprio Criador; ora, estes fundamentos também são talhados pelas inteligências naturais incorpóreas que cumprem sua função a risca, principalmente na esfera das operações ocultas da natureza; assim, o cosmos é preservado, em seu movimento, por estas operações, que são operadas de maneira precisa por estas inteligências, entre as quais, se pode mencionar, a luz, o tempo, a energia, etc.

Além disso, alguns corpos celestes maiores, como os buracos negros super-massivos, operam sob uma inteligência similar, mas em ordem a preservação e a continuação da vida cósmica, tal como purificadores da massa cósmica para colocá-la novamente tal como a “massa original”, por assim dizer; isto demonstra uma inteligência operacional na função e propósito dos buracos negros, assim como em todos os corpos celestes, e principalmente nas inteligências naturais incorpóreas.

Portanto, o fundamento do mundo, em primeiro lugar, está no Criador, que sustenta todas as coisas por Sua palavra (cf. Hb 1.3); em segundo lugar, está nas operações naturais que o Criador estabeleceu, nas quais, as inteligências naturais incorpóreas atuam, para fazer com que os movimentos da esfera das operações visíveis da natureza tenham seus efeitos açambarcados em todo o Orbe de maneira correta e produtiva.

Assim, em suma, isto é o que concerne a designação sobre o fundamento do mundo; e, para o momento, e de acordo com a dúvida de vossa dileção, é suficiente o que fora dito sobre o fundamento do mundo. 


21/01/2025

Comentário ao Louvor a Trindade de Santa Hildegarda de Bingen

Prefácio.

 

A vida e a obra de Sta. Hildegarda de Bingen são inspiradoras; esta mulher extraordinária escreveu livros de medicina, filosofia, teologia, música; suas obras continuam e continuarão a inspirar; suas visões que foram transcritas, delineiam uma compreensão apurada sobre os mistérios da Revelação; esta mulher que chamava seus dizeres de “discurso inseguro e hesitante”, na verdade, manteve-se humilde diante de Deus e dos homens, mesmo diante dos maravilhosos dons que lhe foram dados pelo Espírito Santo.

Embora tenha escrito muitas obras, muitas das quais os relatos da visões que lhe foram dadas, sobre aspectos que transcendem a compreensão humana, Hildegarda conseguira explicar estes mistérios em seus hinos ou sinfonias, muito mais do que em qualquer outra obra; o encanto poético destas obras, por sua vez, nos fornecem o cerne da teologia de Hildegarda, tal como Bento XVI afirmara: “os textos por ela compostos estão animados por uma autêntica ‘caridade intelectual’ e evidenciam densidade e vigor na contemplação do mistério da Santíssima Trindade”.

E o cerne da teologia de Hildegarda se mostra evidente principalmente a partir dos hinos que ela escrevera; pois, a partir destes se compreende sua teologia trinitária, que celebra a majestade do Deus Criador, jubila com os mistérios da Encarnação do Verbo, e que se gloria no fogo do Espírito Santo; em seus hinos, transparece, de maneira límpida e sintética, todo o esplendor das visões, só que sob os atavios da forma poética.

Pois, aquilo que o discurso e a escrita não conseguem expressar, o discurso hesitante em suas próprias palavras, na poesia ela consegue magistralmente expressar, já que pela poesia se consegue expressar o inexpressável, como dizia o Pe. Staniloae; por isso, na poesia ela vai além e consegue melhor expressar todos os mistérios da vida trinitária que não foram possíveis de se expressar no discurso.

Portanto, ao se adentrar na compreensão sobre a teologia de Hildegarda, se deve começar pelos hinos que ela escrevera; iniciar pelos hinos, para se ter um panorama dos principais tópicos teológicos e o modo como ela, iluminada pelo Espírito Santo, pode ensinar de maneira singular sobre estes assuntos; por isso, nos hinos a teologia de Hildegarda é sintetizada e demonstrada em toda sua beleza, que emana diretamente da Sagrada Escritura.

E, ao se compreender estes hinos, então, se compreenderá de modo mais apurado o conteúdo das preciosas visões que lhe foram outorgadas.

Assim, se explicará alguns dos hinos de Hildegarda, os que versam sobre os mistérios da Santíssima Trindade; pois, estes hinos evidenciam o núcleo da “caridade intelectual” de sua teologia, bem como descrevem o esplendor do cerne da fé; logo, compreender estes hinos é adentrar a teologia trinitária em uma de suas mais belas e profundas expressões, vindas da pena desta extraordinária mulher.  

E o primeiro hino a ser comentado é o “Laus Trinitati” (Louvor a Trindade); é a adoração a Trindade, início, meio e fim da liturgia; pois, a liturgia, ao celebrar o mistério central da fé, o faz porque este mistério é o princípio altissonante da fé; portanto, que a explicação deste hino sirva para o entendimento do que concerne a teologia trinitária, mas também para a compreensão de que isto versa sobre o cerne da fé, faz parte do princípio da existência teológica e é preceito impreterível da existência eclesial.

Soli Deo Gloria!

In Nomine Iesus!

20 de janeiro de 2025.

 

Texto de Hildegarda de Bingen.

Louvada seja a Trindade, que é linguagem[1], vida

e principalmente é a criadora de todas as coisas!

Louvada seja pela turba angélica,

maravilhoso esplendor dos arcanos,

que são desconhecidos dos homens,

e que é a vida de todas as coisas!

 

A. Proêmio.

i. “E ouvi a toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono e ao Cordeiro sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre” (Ap 5.13); ora, a adoração de todos os seres vivos, é adoração a Deus Pai, o que está assentado sobre o trono, e é adoração a Deus Filho, o Cordeiro, ao mesmo tempo em que é adoração ao Espírito e pelo Espírito.

Por isso, a adoração sempre é um ato trinitário; é adoração ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo: ao Pai pelo Filho através do Espírito; pois, é o Espírito que move os corações a adorar e a louvar a Deus, já que o coração tende a comunhão com a Santíssima Trindade; além do que, o coração ao se mover, pela graça, de modo pneumático, sempre se regozijará na adoração ao Deus Uno e Trino, cumprindo a máxima da teologia trinitária, a de adorar a unidade na trindade e a trindade na unidade (cf. Symb. Quimc., § 3).

ii. Deste modo, a adoração a Trindade é preceito fundamental da existência teológica e da vida eclesial; pois, como a fé cristã é uma fé trinitária, então, a adoração e o louvor da Igreja deve ser trinitário; e a razão disso é que, como diz Pseudo-Dionísio, a Trindade é super-substancial, super-deusa e super-boa (cf. De Myst. Theol., I, § 1); ou seja, é de uma substância perfeitíssima, diviníssima e boníssima (cf. Met. 1072b30-31); portanto, somente a Trindade é digna de todo louvor e de toda a adoração, já que por Sua ciência criara todas as coisas, com beleza, bondade e verdade (cf. Ap 4.11).

Com isso, se constata o motivo de se evocar a proposição inalterável do louvor e da adoração a Trindade; na verdade, não existe existência teológica e nem existência eclesial que não seja embasada totalmente sob a adoração a Trindade, que dá forma a vida eclesial sob a autoridade normativa da Sagrada Escritura; a vida da Igreja é evidenciada na verdadeira adoração ao Deus Trino, a qual é demonstrada na fidelidade para com a Palavra de Deus.

Assim sendo, convém mais que adoremos os mistérios da divindade do que os racionalizemos. Por isso, a proposição de Hildegarda neste hineto é assaz correta, ao evocar o louvor de todo o Orbe na sentença: “Louvada seja a Trindade”, bem como ao apresentar as razões para a evocação deste louvor.

 

B. Comentário.

1. A confissão da Santíssima Trindade é o fundamento da fé cristã; por isso, se afirma em termos dogmáticos, que a fé cristã é uma fé trinitária; pois, a fé crê para entender (cf. Is 7.9b), e depois de entender irrompe em sincera adoração, naquilo que o doctor magnificus chama de gáudio da fé (cf. Prosl., XXVI), já que o conhecimento de Deus é a essência da felicidade eterna (cf. STh Ia, q. 1, a. 3, co.).

Logo, este irromper em sincera adoração é para glorificar a Santíssima Trindade; pois, se dá glória ao Pai, o Criador; se dá glória ao Filho, o Redentor; e se dá glória ao Espírito, o Santificador; tal como diz o antigo hino: “Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém”.

Pois, as três Pessoas da divindade atuam na vida dos fiéis, transformando-os de glória em glória (cf. 2Co 3.18), a partir dos bens gloriosos da comunhão com a Santíssima Trindade (cf. Jo 17.22), comunhão essa engendrada e cultivada pelo Espírito Santo (cf. Ef 4.3).

2. Deste modo, convém analisar o que concerne a adoração a Santíssima Trindade; e um modo de se fazer isso, é analisar e elucubrar sobre hinos que versam apresentam este aspecto fundamental da fé; e um hino de maestria singular é o “Laus Trinitati” (Louvor a Trindade) de Hildegarda de Bingen, que é a sinfonia nº. 26 de sua magistral obra “Symphonia armonie celestium revelationum” (Sinfonia da harmonia das revelações celestiais); ora, este hino está dividido em duas partes: a primeira, onde evoca a razão do louvor a Santíssima Trindade; a segunda, onde se apresenta a razão do louvor do coro angelical.

3. Em relação a primeira parte, faz quatro coisas: primeiro, descreve a razão da adoração; segundo, evoca a assinatura de Deus em toda a criação; terceiro, apresenta a obra de Deus como Senhor da Vida; quarto, delineia a obra criadora de Deus.

4. Primeiro, descreve a razão da adoração, onde diz: “Louvada seja a Trindade”; a razão da adoração ao Deus Uno e Trino é em função de Seu Ser; o Deus Vivo e Verdadeiro é adorado, porque é o único Deus Verdadeiro, e porque a perfeição de Seu Ser transcende infinitamente a qualquer perfeição; o Ser Perfeitíssimo é adorado justamente por isso, pois, é único e é absolutamente simples; deste modo, por consequência evidentíssima, Ele é o único digno de receber o louvor e a adoração (cf. 1Tm 1.17; Ap 4.11).

Assim, esta adoração é feita através do louvor a Trindade, isto é, a adoração as Pessoas da divindade, e o louvor a obra de cada uma das Pessoas da divindade; por isso, se glorifica a Deus por quem Ele é e se o louva pelo que Ele faz; esta é a razão da adoração, que deve estar em conformidade absoluta com a Sagrada Escritura em se tratando de cânticos e hinos (cf. Sl 119.54, 171).

Além disso, a excelsa dignidade do louvor a Trindade, é evidenciada pela retidão e sinceridade na vida de quem profere o louvor a Trindade; o fulgor deste louvor só é proferido, quando assim se faz necessário, por aqueles que vivem em santidade diante de Deus (cf. Sl 15.1-5).

5. Segundo, evoca a assinatura de Deus em toda a criação, onde diz: “que é linguagem”; ora, o Deus Trino é adorado e louvado pela Sua obra; pois, o Criador, que fizera todas as coisas, imbuiu sua assinatura em cada obra que fizera; a linguagem da criação é o núcleo de sentido de cada ente criado; a gramática da criação é trinitária, o que se comprova pelo fato de que tudo na criação possui uma estrutura tríplice; por exemplo, o ser humano é composto de corpo, alma e espírito; a estrutura acima do firmamento se desenrola na relação entre matéria escura, espaço e tempo; a base da matéria é tríplice: prótons, nêutrons e elétrons; etc.

Portanto, se constata que tudo na Criação, desde a substância do Orbe aos menores aspectos da natureza, está em tríplice perspectiva. Por isso, em toda a criação se tem a assinatura de Deus; por onde, Ele ter estabelecido a linguagem da criação, de modo tão perfeito tal como numa melodia musical; é como se a Criação fosse uma música, e o som desta música fosse a linguagem de Deus, expressa em tríplice perspectiva.

Ora, o Deus Triuno é adorado e louvado, porque Ele deixou Sua assinatura em cada vestígio da Criação; por isso, se fala em relação a toda a criação daquilo que Santo Agostinho chamou de trindades criadas, que são espelho da Trindade de Deus (cf. De Trin., XV, 6, 10), as quais, por sua vez, testemunham dos vestígios da trindade em toda a criação (cf. De Trin., XV, 2, 3).

6. Terceiro, apresenta a obra de Deus como Senhor da Vida, onde diz: “vida”; ora, além de ser a linguagem da Criação, o Deus Triuno também é a vida da Criação; pois, Ele criara todas as coisas com vida, e as preserva e mantém com vida; o Deus Triuno criou todas as coisas, as sustenta pela palavra de Seu poder (cf. Hb 1.3) e renova todas as coisas por Seu Espírito (cf. Sl 104.30); por isso, Deus é o Senhor da Vida, Ele tanto outorga a vida quanto a preserva e a conserva.

Assim, a Santíssima Trindade é adorada e louvada, porque preserva a vida e mantém a vida em toda a Criação. Pois, um Deus vivo (cf. Met. 1072b30-31), cria seres vivos, e os mantém na vida tal como os criou, de acordo com o ciclo natural da vida de cada ente criado. Por isso, Ele é adorado e louvado, porque é o Senhor da Vida.  

7. Quarto, delineia a obra criadora de Deus, onde diz: “e principalmente é a criadora de todas as coisas!”; ora, sendo Deus, a linguagem e a vida de tudo quanto existe, Ele é o Criador de todas as coisas; a Trindade que é louvada e adorada, porque é “a criadora de todas as coisas!”; ora, todas as coisas criadas rompem em louvor a Seu Criador, tal como diz a Escritura: “E ouvi a toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono e ao Cordeiro sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre” (Ap 5.13).

Além disso, a Escritura também diz que os anjos rejubilavam quando Deus criava todas as coisas (cf. Jó 38.7). Portanto, a Trindade é adorada por Sua obra na Criação e pela própria Criação, já que ao ser criadora de todas as coisas, demonstra Sua soberania e providência sobre tudo e todos. Pois, ao se falar da Criação, evidentemente, se fala em Providência; e ambas testemunham da glória do Deus Triuno na Criação (cf. Sl 19.1-6, 104.24-30); o Deus Triuno é o Criador, é o Provedor e é o Sustentador da Criação.

8. E, em relação a segunda parte, faz quatro coisas: primeiro, descreve a razão do louvor angelical; segundo, evoca o que concerne a contemplação angélica na glória; terceiro, apresenta que esta contemplação é desconhecida dos homens; quarto, designa que a presença de Deus é a fonte de vida de todas as coisas.

9. Primeiro, descreve a razão do louvor angelical, onde diz: “Louvada seja pela turba angélica”; ora, do mesmo modo como se conclama a todo o Orbe, e particularmente aos fiéis, a louvar e a adorar a Santíssima Trindade, os anjos, as inteligências separadas espirituais, também louvam a Deus; a turba angélica rompe em gloriosos e fulgurosos louvores ao Deus Triuno; o exército celestial louva a Deus do seguinte modo: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens!” (Lc 2.14).

Por isso, a Santíssima Trindade é louvada e adorada pela turba angélica, de modo que, os anjos, que cumprem as ordenanças divinas, como espíritos ministradores em favor dos eleitos (cf. Hb 1.14), o glorificam tanto no cumprimento de suas funções quanto ao estarem diante de Deus para o adorar, tal como na descrição sapencial, cantando e rejubilando (cf. Jó 38.7).

Deste modo, os anjos adoram a Deus, pois foram por Ele criados com perfeição de natureza, mas também o adoram pela perfeição a qual chegaram pela graça, dada a perfeição da operação a qual deviam alcançar e a qual alcançaram definitivamente em Cristo na glória (cf. Hb 1.5ss).

10. Segundo, evoca o que concerne a contemplação angélica na glória, onde diz: “maravilhoso esplendor dos arcanos”; ora, os anjos, ao estarem na glória, isto é, junto de Deus em Sua habitação, contemplam as coisas de Deus tal como elas são; por isso, se diz que o intelecto angélico alcança um conhecimento sobre Deus maior do que os homens nesta vida; todavia, ainda sim, os anjos não conhecem a essência mesma de Deus (cf. STh Ia, q. 56, a. 3, co.).

Portanto, os anjos conhecem coisas que os homens não conhecem e vem coisas que os homens não vem; por exemplo, os anjos contemplam o maravilhoso esplendor dos arcanos celestes, isto é, conhecem os mistérios da graça na medida em que vêm o Verbo, o que os outorga a felicidade (cf. STh Ia, q. 57, a. 5, co.).

Ora, o conhecimento de Deus, sendo a essência da felicidade eterna, tanto os homens quanto os anjos, o alcançam apenas como obra da graça; e Deus revela os mistérios da graça tal como lhe apraz (cf. 1Co 2.10), tanto a homens quanto a anjos; embora os anjos possam conhecer estes mistérios de modo mais apurado que os homens nesta vida, dado a estarem diante de Deus na glória.

Por isso, os anjos, ao conhecerem os mistérios da graça, contemplam o maravilhoso esplendor dos arcanos, tanto em relação a natureza, quanto em relação a própria graça, pois o ministério dos anjos em favor dos eleitos (cf. Hb 1.14), se realiza pelo mistério da Encarnação (cf. STh Ia, q. 57, a. 5, ad. 1), a manifestação plena e cabal da graça; etc.

E, em sua contemplação, os anjos conhecem coisas que os homens não podem conhecer nesta vida, dada a limitação do intelecto humano como consequência do Pecado (cf. Rm 3.11).

11. Terceiro, apresenta que esta contemplação é desconhecida dos homens, onde diz: “que são desconhecidos dos homens”; ora, os anjos contemplam o maravilhoso esplendor dos arcanos, os quais, são desconhecidos dos homens; ora, este esplendor é desconhecido dos homens, dado a sua excelsa luminosidade; no entanto, os anjos podem ver melhor esta super-luminosidade, devido a estarem na glória; mas, mesmo assim não contemplam todo o esplendor desta luz em si mesma, mas vem a Deus na glória, o que os homens só alcançarão como hábito da glória (cf. 1Co 13.12).

Portanto, a contemplação angélica na glória, contempla coisas que são desconhecidas dos homens; ora, contemplar o maravilhoso esplendor dos arcanos, é uma contemplação desconhecida dos homens; e é desconhecido dos homens por três motivos: primeiro, pela natureza destes mistérios, onde diz: “maravilhoso”; segundo, pela efusão de luz destes mistérios, onde diz: “esplendor”; terceiro, pela distância de onde estão para onde os homens estão, onde diz: “dos arcanos”.

Deste modo, a turba angélica adora e louva a Santíssima Trindade porque lhe são dado conhecer coisas que os homens não conhecem nesta vida; além disso, louvam e adoram o Deus Triuno, porque atuam como ministros da providência de Deus em favor dos eleitos (cf. Hb 1.14); pois, neste atuar, atuam de modo desconhecido dos próprios homens, já que operam em ordem aos mistérios divinos; e, sobre isso, ainda se evoca o que Hildegarda diz em outro hino, que os anjos contemplam sob os olhos divinos dentro da escuridão mística (cf. Sinf. 29). Ora, até os anjos para contemplar a super-luminosidade de Deus adentram a caligine divina.

12. Quarto, designa que a presença de Deus é a fonte de vida de todas as coisas, onde diz: “e que é a vida de todas as coisas!”; ora, sendo Deus o criador, Sua presença, isto é, Sua atuação em toda a Criação, é a fonte de vida de todas as coisas; por isso, se Deus retirar Sua presença, as coisas perecem e deixam de ter vida (cf. Sl 104.29); donde, se afirma de modo categórico, que todas as coisas mantém-se em vida devido a presença de Deus; e, quanto a isso, são afirmados dois aspectos: primeiro, Deus é a fonte de vida de todas as coisas, pois é o Criador; segundo, a vida de todas as coisas é por Deus mantida e preservada de acordo com o ciclo da natureza de cada ser vivo.

Portanto, Deus é a vida de todas as coisas, pois, é a fonte de inúmeros bens que são dispensados a todos os entes; por isso, Lutero afirmara, que é dEle que flui tudo o que é e se chama de bom (cf. WA 30/1, 136); o Sumo-Bem é a causa e a fonte donde emana todo bem; é o Bem do qual, todas as coisas que são, são e são boas naquilo que são, como dissera Boécio no livro De Hebdomadibus.

Assim, a turba angélica adora e louva a Deus, porque Ele é a fonte de vida de todas as coisas; e esta é uma das maravilhas do esplendor dos arcanos, pois, sabe-se que Deus é a fonte de vida de todas as coisas, mas os modos como Deus providencia vida e mantém em vida todas as coisas é algo desconhecido dos homens, embora esteja escrito na Palavra de Deus que Deus mesmo é o doador da vida.

Com isso, se compreende que a presença de Deus é fonte de vida que dá forma a todas as coisas criadas de acordo com a vontade de Deus (cf. Ap 4.11); é fonte de vida na qual os anjos rejubilam (cf. Jó 38.7); é fonte de vida, a qual é a alegria e a força dos eleitos (cf. Ne 8.10); é fonte de vida, da qual provêm bens tanto para a natureza quanto para os eleitos (cf. Sl 65.9-13, 103.3-5).

Por esta razão, os anjos, estando na presença de Deus, o louvam e o adoram dado as maravilhas que provêm desta sublimíssima presença (cf. Sl 16.11b).

13. Deste modo, a adoração e o louvor à Santíssima Trindade, açambarca homens, anjos e toda a criação; por isso, se adora a Deus por quem Ele é, e se louva a Deus pelo que Ele faz; se adora a Deus glorificando e se prosternando a Ele dada a Sua perfeição infinita; se louva a Deus elogiando Suas obras e Seus feitos para com os filhos dos homens.

Neste sentido, Hildegarda captou muito bem o que concerne o Louvor a Trindade, e concatenou a razão da adoração ao Deus Triuno, fundamento da existência teológica e princípio impreterível do culto a Deus.

Ora, por esta razão, se evoca como princípio teológico fundamental a adoração a Santíssima Trindade, início, meio e fim da liturgia; e, com isso, se pode fazer coro uníssono com a confissão de louvor de Agostinho: “eu adoro a um só Deus, único princípio de todas as coisas, e a Sabedoria, que ilumina a todas as almas sábias, e ao Dom, que enche de alegria aos bem-aventurados” (De Ver. Rel., n. 112).

14. E termina aqui o comentário a este hineto de Hildegarda de Bingen. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém.



[1] O termo original aqui é “sonus”, que geralmente se traduz por som; mas, como na significação do texto refere-se a harmonia do cosmos tal como fora criado por Deus, então, se preferiu dinamizar a tradução para o termo linguagem (assim como se faz em todo este hino), que melhor significa em língua portuguesa o sentido que Hildegarda pretende dar ao termo “sonus” neste hino, já que a abadessa alemã pretende com este termo evocar a linguagem de Deus na criação, entendida por ela através de termos musicais. 


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