03/07/2026

Romanceiro Kierkegaardiano

Nota Preliminar.

 

Esta obra é uma tentativa de explicar o amor a partir de uma situação concreta da vida do filósofo que mais escreveu sobre o amor; o sentimento de Kierkegaard após seu rompimento com sua noiva, a qual ele amava profundamente, foi o que vida inteira guiou o filósofo dinamarquês em sua produção filosófica.

Por isso, resolvi tomar esta história como mote para um breve romanceiro sobre o amor a partir de diálogos imaginários entre Kierkegaard e Regine, sua amada, a fim de tentar explicar o amor da perspectiva puramente racional; este romanceiro narra o amor entre Kierkegaard e Regine, a fim de aclarar as nuances deste amor que trouxera marcas profundas e insuperáveis na vida do filósofo dinamarquês.

Assim, ao pensar em elucubrar sobre o amor, considerei mais apropriado iniciar com a narração real-fictícia de um grande amor que não deu certo, o amor sem brilho, para tentar entender a partir das vicissitudes da vida e das más decisões como se dá o manifestar do amor neste tipo de circunstância. Seja como um fado seja como um dado o amor tem diante de si o mistério da circunstância.

Com efeito, embora talhe um diálogo fictício como narrador entre aquele que ama e sua amada, os dois personagens que falam durante este romanceiro, os preceitos evocados surgem e emanam das linhas e das entrelinhas das obras do pai do existencialismo.

 

CENÁRIO

 

Ao ver um homem e uma mulher dialogando,

tratei de logo ver o que isto seria

dado a conversa ter teor apaixonando,

sendo que tal teor nunca é pérola vazia.

 

E ao compreender, percebi que se tratava

de um grande amor, e o que se passava

era algo triste, pois o amor foi reprimido

em nome de algo que o tornou deprimido.

 

Eis o que verdadeiramente ouvi

e que agora posso transmitir, pois senti

ao ouvi-lo que a tristeza que o abatia

era pelo grande amor que ele perdia.

 

E a grande dor que a acometeu

foi por causa do que aconteceu;

pois, ela perdeu seu grande amor

porque ele não soube lidar com o próprio valor.

 

PRÓLOGO OU

ANTES DE TI

 

Antes de ti só havia o eu,

depois de ti meu coração é todo teu.

Ah, se me matassem as dores das saudades

morreria só em todas as idades.

 

Na egrégia lembrança do incisor

da constituição de amor

que por ti meu coração pensador

escrevera com todo fulgor.

 

E também gravou na alma,

burilando com toda a calma,

que nunca por outra houvera,

e que nunca haverá por outra.

 

E somente agora meu coração exprime,

em meio a profunda a tristeza que o assolou,

pois mentiu e do que sentia não falou

preferindo a solidão, que em tudo me dirime.

 

ROMANCE I OU

DA MEMÓRIA FIEL

 

Grata é a memória do amor

que evidencia o que tem valor;

lembrar-me de ti

volve a minha alma o bem que vivi.

 

Ó lembrança da esperança,

a qual é a minha triste herança;

a vossa recordação

mexe com o meu coração.

 

És uma lembrança sem dentenço,

o que me acutila com intenso

e ardente desejo por vós,

tornando-me no meu próprio algoz.

 

O poder da memória é um mistério

que deve sempre ser levado a sério;

pois quando de ti me relembro

todo o meu ser de ti se torna membro.

 

A memória, dizia um pastorinho,

guarda tudo no lugar certinho;

e mesmo se de tudo se esquecer,

o amor experienciado nunca vai perecer.

 

De fulano ou de ciclano se pode perder

a memória antiga ou atual;

mas, do amor verdadeiro, que toca todo o ser,

a memória não perde seu poder sem-igual.

 

Pode-se esquecer disso ou daquilo,

ou mesmo da pessoa amada;

mas que se amou isto ou aquilo

a memória não esquece por nada.

 

Por isso, a memória é a companheira fiel

do amor em toda vida;

ainda que esquecer possa ser um fel,

a memória do amor não se torna repartida.

 

Pois, a memória fidélica

sempre me relembra sua beleza angélica.

 

ROMANCE II OU

DO SONHO DO BEIJO

 

Ó meu amado, a ti amo

e sei que tu também me ama;

penso em ti ano após ano

desde que te conheci com minha ama.

 

Em vós sempre penso

e nisso tenho grande tento;

o vosso amor me dá tal prazer

que mexe com as entranhas do meu ser.

 

Se de pensar em vós assim fico,

imagino como será nosso beijo;

se o pensar já causa risco,

o beijo acenderá o fogo do desejo.

 

Ah, meu querido, assim como o Senhor,

meu desejo por vós é ardente;

e o sonho do beijo é puro fulgor,

o que será meu eterno presente.

 

O encontro dos lábios que se amam

é do amor uma bênção singular,

pois pelo beijo exclamam

a todos que é por muito amar.

 

Este sonho, não sei se é real ou irreal,

pois estou certa de que é algo imortal,

já que o desejo que por vós sinto,

pelo vosso beijo, é da virtude o meu cinto.

 

Ah, que meu sonho se torne em realidade

e isto me será um favor da divindade;

vós sois o que sempre sonhei

e só a nisso pensar muitíssimo me alegrei.

 

O sonho ardoroso do beijo

é expressão do meu grandíssimo desejo;

e o desejo de vos possuir

é algo que me faz sorrir.

 

ROMANCE III OU

DA FLOR ALJOFRADA

 

Ó Regine, minha senhora,

és do jardim da altitude

a mais bela e valorosa,

e a que mais exala virtude.

 

Na beleza és uma rosa;

no caráter és uma orquídea;

no desejo és frondosa;

e na alegria és frutuosa.

 

No meu jardim de amor

és uma aljofrada flor;

o vosso amor é como o orvalho

e me torna tal como o carvalho.

 

A beleza de uma flor

está em compor

um misto de aroma e ternura,

como vós, serena em brandura.

 

Vossa serenidade

é expressão de bondade;

e pela verdade que conheci

em vós está o único amor que vivi.

 

As vossas virtudes são como pétalas,

as minhas argumentações sempre calas;

a beleza de vosso amor, sempre floreador,

enche meu coração de vida - és meu orvalhador.

 

Ah, minha pomba e minha flor,

vós sois o meu auréolador,

em vós estais todo o meu contento,

e isto me traz força, viçosidade e tento.

 

ROMANCE IV OU

DAS FRASES DE CARINHO

 

Ó meu amado, sois doce

como um aroma agridoce;

mesmo que de mim te esquive

nunca meu amor será um esquife.

 

Jamais me esquecerei

de teu amor no trato

que te fazem ser como um rei,

com o qual meu coração tem eterno pacto.

 

As frases de carinho

fizeram-me sentir num ninho

de amor, e mais ainda as vossas ações,

por isso em vós estão todos os meus amores.

 

Vosso amor carinhoso

é um proceder esperançoso;

e de vossas palavras a verdade

são um enlace de amorosidade.

 

Nas cordas deste imenso amor

surge no peito o viver em fulgor;

diante de ti e por ti a todos clamo

que vós sois o único que amo.

 

ROMANCE V OU

DO SENTIMENTO EUCLIDIANO

 

Vosso amor me deixa em confusão,

pois me tira o controle da razão;

pensei que o amor era racional

e apenas posso explicá-lo bem-mal.

 

O amor não é sentimento euclidiano,

antes é sentimento platoniano,

apenas vivenciado e experienciado

e por muitos poucos explicado.

 

Ah, desdita da razão,

algo sem explicação;

não posso entender porque vos amo,

mas só vivo porque te amo.

 

E ao nisso meditar

uma coisa entendi:

amar é não-explicar,

pois é plenitude do real sentir.

 

O sentir se dá por duas maneiras:

o sentimento das graças alvissareiras,

e o sentimento da consciência de ti,

que torna o viver expressão de que senti.

 

Tentei de todas as formas racionalizar

o que sinto por ti sem parar e sem esperar;

mas, defrontei-me com de Euclides o enigma

e isto foi de minha filosofia um sigma.

 

O verdadeiro sentimento euclidiano

não é do amor a racionalização,

mas sim do amor a aceitação,

tornando o sentir para a vida um plano.

 

Investigar, entender, explicar,

compreender, dizer, filosofar,

eis o que no amor muitos estão a buscar;

mas o certo é que não se tente ao amor racionalizar.

 

No coração platoniano, na mente euclidiano,

eis como muitíssimo amar no cotidiano.

Deste amor, Platão me elogiaria,

e Euclides me felicitaria.

 

ROMANCE VI OU

DO VOCABULÁRIO DO ABRAÇO

 

Ah, meu amado consternado,

teu amor não me é enfado;

pois vosso amor me traz

alegria, saúde e paz.

 

Vosso vocabulário é difícil

e vossa obra é estéril;

prefiro outro vocabulário,

o do abraço sempre necessário.

 

Podes escrever e me amar

que o que escreves sairá melhor;

mas se não me amar, o seu maior

prêmio será pensar sem experimentar.

 

Experimente o vocabulário do abraço,

pois tenho clamor por vosso amasso;

tenhas hombridade e me ame, e te torne

da verdade o seu vívido ditame.

 

A vida na verdade

é do amor o maior escritor;

se queres tanta bondade

deveria pensar sobre vosso valor.

 

A preciosidade de vosso falar

não está em teu erudito argumentar,

pois o que falas não tem valor

se não for experienciado com calor.

 

A vós, devo aconselhar e exortar

a nunca deixar de me abraçar,

pois o vosso entendimento e vocabulário

se torna apurado, ao viver do abraço o abecedário.

 

ROMANCE VII OU

DO ENCANTO DE SEUS OLHOS

 

Vi-te, e teus olhos serenos

me trouxeram sentimentos amenos;

pois o turbilhão que tomou meu coração

quase retirou de mim a virtude da criação.

 

Olhos meigos, brilhosos,

em meus desertos assaz umbrosos;

que alegria ver as janelas de tua alma

neste singelo olhar, de leda calma.

 

Não-mais me olhes, não-mais;

pois o vosso olhar minha defesa desfaz;

nunca vi olhar tão puro e tão penetrante

como o vosso neste eterno instante.

 

Sei que olhas não com agravos,

mas com sentimentos bravos;

ó olhar sedutor e apaziguador

que me traz infindo auto-amargor.

 

Vosso olhar de amor

suspende meu estupor;

o teu olhar é amor sem-par,

o qual repreende-me por não o aceitar.

 

Ó desdita da indecisão,

que faz perder do amor a premiação;

entendei-me, ó minha amada,

que isto é dor não-programada.

 

ROMANCE VIII OU

DA CHEGADA INESPERADA

 

Vossa visita sem avisar

me deixou esperançosa;

pois, quando no meu portão a te avistar

meu coração se alegrou com visão tão graciosa.

 

A chegada inesperada

me fez lembrar o que é o amor:

um sentir da debuxada

vida, trazendo alegria e frescor.

 

O verdadeiro amor é impossível

de se mapear ou antever;

mas, torna à alma entendível

que o real sentir é como dos planetas o mover.

 

Ó Deus bendito, abençoador,

tu me deste tão grande amor,

faça com que o meu amado

não me tenha como um fardo.

 

Em minha casa, ao te achar,

vi-me em seus olhos, e então entendi

o imenso amor a se manifestar,

muito maior do que tudo o que já pedi.

 

ROMANCE IX OU

DOS MOMENTOS QUE SE TORNAM ETERNOS

 

Vossa recepção foi um clarão,

rompeu minha surdez dos sentidos,

e temperou em meu coração

o amor pleno em todos os lados.

 

Estar contigo, ainda que um pouco,

tornou-se-me o orvalho dos céus,

refibrou minha alma, e tal qual louco,

me perdi completamente ante os olhos seus.

 

Não fique brava com minha atitude,

pois não fora minha intelectual solicitude;

na verdade, fora o temor por vossa preciosidade

diante de tanta virtude para vossa idade.

 

Meus pensamentos contigo fazem o tempo parar,

e alguns minutos são como muitos dias,

meses e anos, diante do embelezar

que sua presença trouxe para mim nestas horas.

 

Ah, a verdade da eternidade no tempo

se mostra cabalmente no verdadeiro amor,

que trouxe ao coração temeroso e sofredor

nos desertos da vida o necessário empo.

 

Momentos, experiências, sentimentos,

que se tornam presentes em todos os tempos,

a profundidade de vosso amor é pura serenidade

que faz a contingência do tempo se tornar eternidade.

 

Ó mistérios contingentes, dos tempos ardentes,

são de meu amor cordas e enlaces, e ainda que tentes

não consigo dominar este sentir profundo e eterno

que por vós faz meu ser se tornar em trato terno.

 

ROMANCE X OU

DA ENCARNAÇÃO DO AMOR

 

O amor encarnado é belo,

cheio de folgança e é um elixir

para que o viver não seja libelo,

mas propósito com sentido e não mero existir.

 

Se vós rejeitares o meu amor

vossa vida será apenas mero existir,

enquanto que viverás nos sentidos um estupor

e não conseguirás entender, pois deixastes o sentir.

 

Ouve meu apelo, ó intelectual insensato,

seja pelo menos ciente e tenha tato

para aceitar o meu amor e o vosso amor

sem medo, preocupação ou qualquer outro incisor.

 

O nosso amor é uma bela manifestação

da vida em nosso bem e favor;

te peço, me dê e tenha a satisfação

de se amar e me amar com todo amor.

 

Ó amor encarnado

não me seja um fado;

aceite-se e aceite-me:

viva para o amor, ama-me.

 

Deixar o amor encarnar em ti,

e sejas cada vez mais do amor que vivi

uma bênção, um autor e um cultor

para experimentares da vida o fulgor.

 

ROMANCE XI OU

DA LIMITAÇÃO DAS PALAVRAS

 

Ah, Regine, faltam-me palavras

para descrever o que por vós sinto;

nem mesmo as minhas lavras

são suficientes para vós, e nisto não minto.

 

O mistério do que é dito

passa pelo que foi sentido;

não consigo me expressar,

pois o que sinto é muito para narrar.

 

Seriam, então, as palavras insuficientes?

Ou seria minha incapacidade de dizê-las?

Ainda que diga algo, não teria para quem lê-las,

já que a desgraça que me toca deixa todos cientes.

 

A falta das palavras me deixa atônito,

pois se falta o que é dito, como saberei

se o que sinto é algo bom e bonito

a ponto de amar; isso sempre recearei.

 

As palavras me são um conforto

diante dos mistérios do sentimento,

pois me deixam sempre atento

a todo e qualquer sentir torto.

 

ROMANCE XII OU

DOS SINÔNIMOS DO AMOR

 

Ah, meu amado, vossa sabedoria

o deixou burro para o amor;

se não pode dizer pela palavria

apenas ame o que tem valor.

 

Não, meu amado, as palavras não lhe são um conforto;

antes, são um modo de esconder o vosso sentimento;

vós preferistes viver uma mentira no coração

a aceitar o amor que tens - que triste lição!

 

Vós dizeis que lhe faltam palavras,

mas testemunham o contrário suas lavras;

o que lhe falta é verdade da sinceridade

para reconhecer que o vosso amor não é vaidade.

 

Não vos enganeis, meu amado,

vós lutais contra o amor armado

de vossa filosofia e sapiência,

mas não podes contra do coração a ciência.

 

Por isso, ensiná-lo-ei os sinônimos do amor:

aceitar-se, amar-se, reconhecer-se,

deixar-se no outro sentir, experienciar-se,

e o amor desvelará a vós o seu verdadeiro valor.

 

Para vós, três são os sinônimos do amor:

primeiro, aquilo que ensina valor;

segundo, o que engendra na alma vigor;

terceiro, o que traz a experiência de ardor.

 

Assim, pois, expressa-se o verdadeiro amor;

não por obras e ensinamentos filosóficos;

vós podeis escrever, mas deveis com clangor

experimentar o amor, e não se basear em ditos ocos.

 

Vosso amor por estes sinônimos é permeado;

e isto é uma dádiva que lhe fora dado

para experimentares em amor a verdade

através de amares em sinceridade.

 

Oh, meu amado, o que lhe deixa torto

é este sentimento não exposto;

de teu amor fales e não te cales,

e verás Deus abençoar teus vales.

 

ROMANCE XIII OU

DOS VOCÁBULOS PARA O AMOR

 

O amor é rico em vocabulário,

manifesta-se em primor

a todos por seu estatutário

em função do bem em pundonor.

 

O amor é vocabular,

que se desvela a quem sabe amar;

pois, pelo privilégio de amar

se fortalece o esperançar.

 

A boa vontade é expressão

da rica e bela honração

que o Amor outorga

a quem o tem em voga.

 

Os vocábulos do amor

são todos de fulgor:

cuidar, velar, abraçar,

beijar, acariciar, acalentar.

 

Estes apenas são os vocábulos

tidos como principais;

mas, o amor excede a todos os óbulos

de todos e quantos tais.

 

O amor também se expressa

a quem não tem pressa:

viver, perceber, aparecer,

conviver, espairecer, envolver.

 

O amor em seus vocábulos é tal

qual o mar em seu mal;

sobre aqueles que pesa seu ananké,

não se consegue livrar nem com ifé.

 

ROMANCE XIV OU

DOS TIPOS DE AMOR

 

Há Amor e há amores,

cada qual com seus sabores.

Há o amor divinal,

que é incondicional.

 

Há o amor paternal e filial,

que faz de alguém ficar próximo,

parte da família, como um umbilical,

tornando rico em virtude mesmo um paupérrimo.

 

Há o amor de amizade, amigal,

que torna o amigo em presente

vivencial, que sobrepõe a todo mal,

demonstrando laços, mesmo quando ausente.

 

Há o amor erótico

que tem uma face em múltiplas:

desejar, querer, encontrar,

possuir, suspirar, respirar.

 

Outros nomes do amor erótico

são: proteção, submissão, valoração,

atenção; vocábulos que expressam

a natureza do Eros, tal como as ninfas falam.

 

O amor em ritmo Eros é o que sinto

por vós, e a intensão e extensão

deste sentir é sumo-desejo

que coloca meu coração em estado de tensão.

 

É assim que vos amo, meu amado,

desejando-te e querendo-te sempre,

externando isso de modo acalorado,

pois meu Eros arderá eternamente.

 

ROMANCE XV OU

DO ELOGIO DA SAUDADE

 

A dor da saudade

expressa uma grande verdade:

só se tem saudade de quem

muito se amou como um bem.

 

De vós a saudade todos os dias

sinto sem titubear; e ao me lembrar

de ti, volve a memória que a maior das dádivas

concedidas a um homem é uma mulher para amar.

 

A saudade é um vocábulo

para expressar a dor tal qual um retábulo,

e assim à todos demonstrar

a dor da longitude que separa o ato de amar.

 

A minha saudade de ti

é uma dor que aprendi

a conviver, sem de ti me esquecer;

no que faço, em vós sempre está o meu querer.

 

Uma coisa entendi e compreendi:

que a dor da saudade as vezes

é um ímpeto para viver, e que de ti

sempre recordarei em meus reveses.

 

Ó íngreme e profunda saudade

não escondo dos homens vossa tenacidade;

e isso me assola como um terrível fado,

pois a dor da saudade é da tristeza um dado.

 

A insuportabilidade da saudade

é vencida com a memória viva de te amar;

e a memória do amor faz suportar

com paciência essa provação (oxalá fosse efemeridade).

 

Ó saudade a vós elogio,

e na vida seja o amor o meu fio.

A saudade não tem limite

e por isso sem vós vivo triste.

 

ROMANCE XVI OU

DA PACIFICAÇÃO DO AMOR

 

Vosso amor me traz paz

e isto não é sentimento falaz;

 o amor tem efeito pacificador:

acalma, acalenta e cura toda dor.

 

Ao te ver após algum tempo,

encontrei-me logo num contratempo;

senti um turbilhão de emoções

e fui dominada pelas melhores sensações.

 

Ah, meu amado, a pacificação

do amor que me traz é algo poderoso,

pois desfaz as defesas do coração

e o faz em ardor querê-lo sempre ditoso.

 

A pacificação do amor tem

três manifestações à quem

deixa ser amado e ama

dando de si ao ser amado o que clama.

 

A primeira manifestação é a serenidade,

o qual acalma a vida na tempestade;

quem através do amor é pacificado

pela bondade é acalentado.

 

A segunda manifestação é a amorosidade,

a qual planifica o ser em qualquer idade;

amar porque se ama e amar a quem se ama:

eis uma bênção divina que da vida promana.

 

A terceira manifestação é a engenhosidade

que a virtude de cada idade faz aflorar

sem temor, constrangimento ou opacidade,

tornando cada fase da vida uma glória do amar.

 

A pacificação de vosso amor

me tira todo temor.

 

ROMANCE XVII OU

DA CERTEZA DO AMOR

 

Após muitos anos,

com ela tendo com outro se casado

e ele vivendo sempre desamparado,

ambos se veem quase a milianos.

 

Ela, consigo pensa:

o que com ele aconteceu,

está fraco e moribundo, e sobre ele pesa

um ar de gravidade de quem já morreu.

 

Ah, meu amado, suspira ela, em silêncio consigo,

- com os olhos quase a chorar -

a vossa insatisfação trouxe-lhe o mar

da filosofia, mas tornaste-te no teu pior inimigo.

 

Ao te ver novamente depois de tanto tempo

tive a certeza de que o talho do tempo

não pode fazer passar o verdadeiro amor

que te vendo acendeu em mim o mesmo desejoso ardor.

 

Ele, com dificuldade para reconhecê-la,

após algum tempo entendeu que era ela;

e o seu coração num cósmico pulular

recobrou de novo a beleza da vida por a amar.

 

Ah, Regine, pensou ele ao se sentar,

a fim de meditar em algo que escreveu;

e reconheceu que tudo o que tinha para falar

não se comparava ao que ele com ela não viveu.

 

Vendo-te depois destes anos todos

percebi a grandeza do que perdi;

e isto trouxe-me muitos incômodos,

pois ao teu lado foi quando realmente vivi.

 

A certeza do amor com o tempo não se apaga,

nem diminui e nem deixa de ter vigor;

a distância e o tempo só escondem a paga

que a vida dá aos que decidem não lutar pelo amor.

 

A certeza do amor

é da verdade o maior clamor.

 

EPÍLOGO OU

DAS OBRAS DO AMOR

 

A filosofia deve ser expressão

cabal da consciência consciente

que em tudo experiencia a realização

da inteligência em entender a verdade ciente,

que conduz a alma à sua experimentação.

 

Ao escrever obras sobre o amor,

pude elucubrar e raciocinar,

de tal modo tendo deixado o valor

de vosso amor pude escrever sem parar,

o que me custou a alegria e o qualificador.

 

Mas de que me adianta sobre o amor escrever

se mesmo após tantos anos não consigo te esquecer;

e oxalá que a Fortuna não faça minhas obras perecer,

atentando contra mim de modo a me vencer,

evocando em tudo o vosso fermoso querer.

 

Poderia ter escrito com substância, argúcia e vigor,

         mas longe de ti só consegui escrever migalhas filosóficas,

pois isto é a filosofia sem a experiência do amor,

a qual pode até conduzir à reflexões prolíficas,

mas sempre são permeadas pela tristeza da vida em dor.

 

CENA FINAL

 

E Kierkegaard, com os olhos brilhando

como nunca antes, em silêncio permanecendo,

aos poucos se afasta e sozinha a vai deixando;

e vive em solidão muitíssimo a amando,

sempre dela e sobre ela recordando.

 

Fim de “Romanceiro Kierkegaardiano”.

Laudate Deo!


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