18/04/2024

Axiomas sobre a sistematização da fé

§ 1

 

A Verdade é um sistema; um sistema porque as partes se interligam com o todo, e o todo com as partes. Deste modo, o sistema da verdade cristã é muito mais preciso do que qualquer sistema eletrônico ou tecnológico, porque é um sistema criado, formado e sustentado pelo próprio Deus; e este sistema criado por Deus, o sistema da verdade cristã, é um sistema sistêmico, orgânico, genético, racional e harmonioso.

 

§ 2

 

A fé que de uma vez por todas foi dada aos santos (cf. Jd 1.3), devido a limitação do intelecto humano necessita de sistematização, não para provar a fé ou a Escritura, mas para tornar a explicação dos mistérios da fé mais racional, refinada e orgânica, demonstrando e exemplificando a estrutura genética da revelação que Deus fez de Si mesmo, a qual é testemunhada nas Escrituras Sagradas.

 

§ 3

 

A teologia é literatura. A teologia é poesia e prosa; é poesia, porque lida com os mistérios da revelação, e assim, tal qual a poesia só consegue explicá-lo por analogias e metáforas; é prosa, porque tem de explicar os mistérios hauridos da revelação de forma racional e harmoniosa.

 

§ 4

 

A teologia como literatura também tem uma história específica; a história da literatura teológica é um ramo da história da teologia; e dentro da amplidão do desenvolvimento teológico, tem-se um aspecto singular, a parte da ciência teológica conhecida como dogmática. Sendo assim, na história da teologia há a história da dogmática teológica ou a história da literatura dogmática.

 

§ 5

 

A necessidade da sistematização da fé teve um desenvolvimento singular na patrística, pois, neste período os pais da Igreja lançaram os fundamentos, as bases, os conceitos, os princípios da reflexão teológica, e assim, as bases da ciência teológica; por isso, a base da sistematização teológica está nas formulações dos Santos Padres, principalmente a partir de Orígenes.  

 

§ 6

 

A sistematização da fé encontrou um ponto alto na escolástica; porque, seguindo o desenvolvimento da patrística, a escolástica elevou a busca por precisão na elucidação racional e sistemática da fé, a fim de demonstrar a excelência e a sublimidade da fé cristã. A teologia da escola é sistêmica porque busca explicar a concatenação racional dos assuntos da fé, e porque foi o período onde surgiram as Summaes, a explicação racional catedralesca da verdade revelada.

 

§ 7

 

A sistematização da fé encontrou vários conceitos e títulos ao longo da história: sentenças, exposições, sumulas, sumas, tratados, entre outros termos; todavia, a partir do século XVII apareceu o termo dogmática, que começou a ser empregado no usus loquendi a partir do século XVIII; assim, o vocábulo “dogmática” tornou-se expressão da sistematização da fé, dando norte e unidade conceitual ao centro da ciência teológica.

 

§ 8

 

Após o surgimento das teologias sistemáticas, sempre há uma confusão entre a função destas e a função da teologia dogmática; apesar de terem o mesmo “ideal” da sistematização da fé, a elucidação e o lugar tanto da teologia sistemática quanto da dogmática deve ser demonstrado a partir das diferenças fundamentais entre ambas; teologia sistemática não é teologia dogmática, e vice-versa. A teologia sistemática é o resgate do principium da explicação sistemática da fé no parâmetro catequético-pastoral, seguindo o princípio patrístico; enquanto que a teologia a dogmática ou simplesmente dogmática é formada a partir do principium da explicação sistemática da fé no parâmetro acroamático, da teologia mais apurada e refinada na argumentação racional, seguindo o princípio escolástico. 

Laudate Deo! 


09/04/2024

Sobre os Imbecis

“A burrice é uma força física”, Olavo de Carvalho (1947-2022).

“O fruto da imbecilidade é a aniquilamento”, Eça de Queiroz (1845-1900).

A imbecilidade é um problema cultural; e os imbecis, causadores de males sociais; portanto, compreender a imbecilidade, é parte da filosofia da cultura, da psicologia da cultural e da teologia da cultura; estas três áreas de análise da cultura, tem de lidar necessariamente com o problema da imbecilidade, e mais especificamente, sobre o problema dos imbecis; e se analisa não somente a imbecilidade como fenômeno de uma sociedade doente, mas como fruto de uma cultura que se instaurou para adoecer e destruir a ordem social.

E a imbecilidade, não somente é um problema que permeia a vida social, mas um problema que a assola o desenvolvimento do indivíduo; a natureza da imbecilidade é contra o conhecimento e contra o desenvolvimento; logo, onde a imbecilidade se calcificar, não haverá desenvolvimento; e, os imbecis, se tornarão a expressão desta sociedade que foi castificada no estado de não-conhecimento; e uma sociedade assim, se torna em um sistema contra o conhecimento e contra o saber.

Por isso, se evoca a análise sobre os imbecis para se compreender como a imbecilidade se cristaliza num ser humano e como se desenvolve até tornar-se um “vírus” sócio-cultural; na verdade, compreender sobre os imbecis é compreender sobre os modos pelos quais se efetiva a encarnação da imbecilidade e os modos pelos quais a imbecilidade é propagada até impregnar totalmente uma sociedade, formando uma casta de imbecis.

E uma das melhores maneiras de se compreender a imbecilidade, é compreender sobre as características dos imbecis; por isso, se estabelece a pergunta: “como reconhecer imbecis?”; e, para responder esta pergunta, se estabelece este opúsculo, que procura descrever e explicar os imbecis em si mesmos; com isso, ao se responder a pergunta, “como reconhecer imbecis?”, se consegue aclarar o entendimento sobre os imbecis, e com isso, compreender aspectos da concreção do terrível fenômeno sócio-cultural da imbecilidade; pois, como dissera o filósofo Olavo de Carvalho: “a burrice é uma força física”.

Portanto, eis uma breve descrição analítica sobre os imbecis, ou mais propriamente, a como reconhecer os imbecis.

Prólogo.

1. A atual conjuntura da sociedade, formada por uma série de fatores, desde a destruição da educação pela ideologização, até a corrupção moral da sociedade, ao novo xamanismo, etc., gerou uma série interminável de imbecilização programada; gerou-se uma geração e uma sociedade que forma em sua grande maioria imbecis, ou na descrição mais usual, idiotas; os imbecis formaram-se aos montes, e todos aqueles que enquadram-se nesta descrição, tornam-se em instrumento de destruição das virtudes e do desenvolvimento sóbrio para a vida humana. Na verdade, os imbecis, são descritos na Bíblia como aqueles que se entregam a cobiça, os quais aprisionam a própria alma na cobiça (cf. Pv 1.19); ou ainda, os imbecis podem ser descritos como aqueles que por terem deliberadamente rejeitado a natureza e o tender natural ao saber, são açambarcados na descrição bíblica: “Mas, porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a minha mão, e não houve quem desse atenção; antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão; também eu me rirei na vossa perdição e zombarei, vindo o vosso temor” (Pv 1.24-26).

2. Deste modo, surge a pergunta: como reconhecer imbecis? Como reconhecer quem é e quem não é imbecil? Pois, todos aqueles que são imbecis tem alguns caracteres inerentes e indiscutíveis; não se vai evocar uma anatomia dos imbecis, que seria uma análise mais aprofundada, mas simplesmente evocar alguns princípios e pressuposições para se compreender as características de quem é imbecil; são princípios básicos, mas são indiscutíveis para se conhecer os imbecis, principalmente através de princípios e proposições bíblicas sobre aqueles que rejeitam o conhecimento natural e que rejeitam o conhecimento de Deus; pois, a imbecilidade é um mal social, e abre as portas para as doenças espirituais; além disso, o crescimento da imbecilidade demonstra uma sociedade adoecida e corrompida em seus valores e princípios fundantes. Portanto, eis uma descrição dos aspectos principais para se conhecer e reconhecer os imbecis.

Capítulo I: A questão da opinião.

3. A opinião, é basicamente um “direito” que todos os indivíduos têm; todavia, opinião não é saber; os gregos antigos chamavam a opinião de doxa e o saber de episteme; e, isso permeou o desenvolvimento das civilizações durante a história; no entanto, devido a uma série de fatores, principalmente a corrupção programada e contínua da educação, se transmogrifou a doxa em episteme, se transmogrifou a opinião em saber; e isso, evidentemente, ocasiona uma série de confusões psíquicas e sociais; com estas confusões instauradas, passou-se a considerar a opinião como saber, e a evocar um direito absoluto sobre a opinião como se a mesma fosse um saber.

4. Na verdade, pelos princípios do direito constitucional, todos tem “direito” a opinião; especificamente, o direito de opinar; todavia, uma opinião é apenas uma opinião, não sendo necessariamente um saber; a opinião, por ser um direito do indivíduo não se torna norma do saber, se não houver base no próprio saber; a divergência de opiniões ocorrerem, mas em relação as coisas da vida, prevalece como correto, aceitável e comprovado o saber testemunhado pelas leis da lógica e por princípios basilares indiscutíveis; por isso, uma opinião que não tenha fundamentação nos princípios basilares do saber, princípios apodíticos e indiscutíveis, tem de ser rejeitada; é aceito o direito a opinião, mas se a opinião contradiz as leis da lógica e os princípios do saber, é tarefa confutar a opinião e demonstrá-la como falsa; inclusive, isso é assegurado pela Declaração dos Direitos Humanos e por todas as Constituições dos países livres ao afirmarem o direito e o acesso ao conhecimento como princípio do Estado Democrático de Direito; o direito a opinião é democrático, mas a refutação a opinião falsa também é um direito. E opinião falsa é aquela que não tem fundamento nas leis da lógica (a lei da não-contradição, a lei da identidade e a lei do terceiro excluído) e não tem base nos princípios imutáveis do saber.

Capítulo II: O saber e o conhecimento.

5. No âmbito de se afirmar e confirmar o direito a opinião, que todos têm indistintamente, é necessário se pontuar que a o fundamento racional para se falar de qualquer assunto, mesmo os mais simples e cotidianos, é o saber e o conhecimento; sem a compreensão sobre o saber e o conhecimento, mesmo os assuntos mais simples se torna impossível; evidentemente, a opinião se estabelece antes do saber e do conhecimento, mas a opinião não muda o saber e o conhecimento, apenas se configurar em relação ao mesmo ou não; por exemplo, ao se observar uma vaca, se pode afirmar que uma vaca provêm de outra vaca, como se pode afirmar que uma vaca provêm de um cabrito; logicamente, são duas opiniões, uma verdadeira, a de que a vaca provêm da vaca, e a falsa, a de que a cava provêm de um cabrito; são duas opiniões, e o respeito as duas enquanto direito de opinar é válido, todavia, a afirmação da opinião verdadeira, isto é, a opinião que se confirma a partir da verdade dos fatos da realidade, é que a deve ser aceita, enquanto que a outra opinião, a falsa, que contradiz os fatos da realidade, deve ser rejeitada. O direito a opinião é confirmado e sublimado pelo saber e pelo conhecimento, que demonstram a veracidade ou a falsidade da opinião; sem saber e conhecimento, não existe direito a opinião.

6. Portanto, o saber e o conhecimento são imprescindíveis em relação a confirmação de se uma opinião tem base na realidade ou não; e tanto o saber quanto o conhecimento se desenvolvem a medida que se os busca; não se consegue saber e conhecimento sem esmero na leitura e no estudo; por isso, são o saber e o conhecimento os aferidores de medida para a concreção da realidade das coisas, e a o instrumento de juízo para identificar se uma opinião é verdadeira ou falsa; todavia, existe uma questão problemática, a saber, que os homens, as mais das vezes, tem mais amor pela opinião do que amor pelo saber; os homens são, naturalmente, mais propensos a amar a opinião do que amar o saber; pois, a opinião não se requer muito para ser alcançada, enquanto que o saber requer tempo, cuidado, perseverança e esmero.

7. Na verdade, os homens, por amarem mais a opinião do que o saber, sempre procurarão ridicularizar quem possui o saber, pelo simples fato do saber contradizer e confutar as opiniões hipócritas e/ou que expressam o não-conhecimento - e na pior para os amantes da opinião do que o saber que evidência em ecos cósmicos a imbecilidade na mente e no coração daqueles que são possuídos pelos “demônios” do não-conhecimento. Portanto, o saber e o conhecimento são meios excelentes de se demonstrar o compromisso fundamental do coração com relação a axiomas e princípios; pois, aqueles que são dominados por opiniões coletivas, ou então aqueles que rejeitam o saber, os imbecis, sempre serão contrários ao saber e o conhecimento, os quais, confutam e contradizem os compromissos fundamentais dos corações dos imbecis, que sempre são dominados pela inveja, pela mediocridade e pelos sentimentos medonhos que fluem como esgoto do coração dos medíocres.

Capítulo III: As evidências da imbecilidade.

8. Deste modo, pode-se afirmar que os homens que rejeitam o saber e o conhecimento, são dominados pelos ditames do não-conhecimento, e assim, são açambarcados na descrição da idiotice ou imbecilidade; aqueles que são dominados pelo não-conhecimento são, por definição racional, chamados de imbecis, e por definição revelacional, chamados de escarnecedores (cf. Sl 1.1). Os imbecis são aqueles que por amarem mais a opinião do que o saber, preterem o saber e o conhecimento, e tomam uma opinião que contraria as leis da lógica e os princípios imutáveis do saber e do conhecimento como se fosse um saber; na verdade, a maior evidência de imbecilidade é tomar uma opinião, sem fundamentação racional, como se fosse um saber; mas na verdade, não somente isso se demonstra como imbecilidade, mas também se tem outras evidências de imbecilidade que são clarividentes e cristalinas, os quais, elenca-se cinco evidências:

(i). A primeira evidência de imbecilidade é a rejeição a razão; isto é, a rejeição aos princípios e axiomas fundantes da razão humana. Ou seja, aqueles que rejeitam os ditames básicos do saber e que contradizem as leis da lógica são imbecis.

(ii). A segunda evidência de imbecilidade é a destruição da percepção lógica; os imbecis procuram transmutar a lógica nos ditames dos “gostos” pessoais; na verdade, os imbecis arrolam para os “gostos” pessoais, as mais das vezes, expressão continental de rejeição a razão, como se fossem pressupostos lógicos. Os imbecis são avessos as leis da lógica.

(iii). A terceira evidência de imbecilidade é a rejeição ao conhecimento; os imbecis rejeitam o conhecimento porque não o buscam; os imbecis preferem as comodidades da irracionalidade as dificuldades da busca pelo conhecimento; logo, os imbecis sempre serão calcinados em tudo aquilo que a burrice traz imbuída em si.

(iv). A quarta evidência de imbecilidade é a ridicularização do saber; os imbecis tentarão, por inveja e outros motivos, ridicularizar o saber e aqueles que buscam o saber; e, sempre é qualificativo dos imbecis, escarnecer e tentar ridicularizar aqueles que buscam o saber e o próprio saber; os imbecis vituperam os que buscam o saber e blasfemam contra o próprio saber.

(v). A quinta evidência de imbecilidade é conformidade consciente com o estado de não-conhecimento; e a mais terrível consequência da imbecilidade é que os imbecis se tornam calcinados no estado de não-conhecimento; é como o estado vegetativo, só que em relação as potências racionais; nos imbecis as potências racionais vegetam e não se desenvolvem. Os imbecis são vegetais intelectivos ambulantes, pois, estão calcinados e calcificados no estado de não-conhecimento, a aversão total e absoluta para com tudo que diz respeito ao saber e ao conhecimento.

9. Com isso, se estabelecem estas evidências; e existem muitas outras; mas, estas cinco evidências elencadas, por si só já são suficientes para se identificar os imbecis. E, ainda, uma outra questão, é que os imbecis sempre quererão tornar opiniões sem fundamentação em forma de saber; todavia, mesmo no direito a opinião existe um princípio que confuta e refuta qualquer possibilidade de aceitação de opinião sem fundamentação; pois, conquanto o direito a opinião seja para todos, a aceitação de uma opinião só existe e se confirma pelo saber e pelo conhecimento; e alguém para se arrolar uma opinião digna de aceitação, tem de pelo menos conhecer um pouco do assunto opinado; e é de consenso geral estabelecido e confirmado que para alguém conhecer alguma coisa de maneira geral tem de ter lido no mínimo cinco livros básicos e fundamentais sobre este determinado assunto; se alguém quer opinar, e evocar algum conhecimento sobre qualquer que seja o assunto, no mínimo tem de ter lido e entendido cinco obras fundamentais sobre determinado assunto; por exemplo, se alguém quer opinar sobre ética, tem de no mínimo ter lido, entre a ampla gama de obras sobre éticas, cinco das principais obras para se ter pelo menos algum parâmetro opinativo sobre o assunto; e isto vale para qualquer assunto; portanto, quem quiser arrolar uma opinião digna de ser ouvida, tem de pelo menos ter lido o que é necessário sobre o assunto opinado; logo, se alguém não cumpre estes princípios, e quer arrolar a aceitação de uma opinião sem fundamentação, é descrito de maneira apodítica como imbecil. Os imbecis são aqueles que querem que uma opinião sem fundamentação seja aceita como saber e conhecimento.

Capítulo IV: As provas incontestáveis de imbecilidade.

10. E, em continuidade ao se ter elencado algumas evidências de imbecilidade, se faz necessário demonstrar um caractere inerente a imbecilidade; um qualificativo da imbecilidade; este qualificativo advêm dos vícios opostos as virtudes intelectivas; se as virtudes intelectivas ajudam na busca e no desenvolvimento do saber, os vícios "intelectivos" são um impedimento à busca e ao desenvolvimento do saber; o estado de não-conhecimento, gera os vícios opostos as virtudes intelectuais; além disso, estes vícios são as provas incontestáveis de imbecilidade.

11. Aristóteles, afirma que as virtudes intelectuais e morais são a sabedoria filosófica, a compreensão, a sabedoria prática, bem como a liberalidade e a temperança (cf. Et. Nic. 1103a5-7); então, os vícios opostos, respectivamente, são: a necedade, a incompreensão, a inaptidão, a avareza e a intemperança; logo, estes vícios são expressão de imbecilidade, aliás, são a prova incontestável de imbecilidade.

A necedade, dito e/ou ação que está contra as leis da lógica, o contrassenso, a contrariedade a realidade; a incompreensão, é a incapacidade por negligência ou por emburrecimento de compreender as coisas tal como são; a inaptidão é a falta de sabedoria prática, a falta de aptidão para evidenciar por meio de ações virtuosas a própria virtude; a avareza é o amor ao dinheiro, o dinheirismo, que também é idolatria (cf. Cl 3.5); e a intemperança, a falta de temperança quando se é necessário a temperança.

Logo, estes vícios, contrários as virtudes morais e intelectuais, são expressão e a evidência incontestável de imbecilidade; pois, os imbecis amam a necedade, são calcificados na incompreensão, são inaptos para viverem a sabedoria prática, são avarentos e são intemperantes (no que exige temperança). Portanto, além das evidências de imbecilidade, estes vícios complementam a compreensão sobre os imbecis, demonstrando as provas incontestáveis de imbecilidade.

Capítulo V: A natureza espiritual da imbecilidade.

12. A imbecilidade não somente é fruto do desprezo pelo conhecimento e da aceitação do não-conhecimento; mas a imbecilidade possui uma natureza espiritual; os imbecis estão presos pelas correntes diabólicas que prendem os homens através do não-conhecimento; pois, o Criador estabeleceu o conhecimento para dignificar e sublimar a vida humana, para que a mesma possa se desenvolver; portanto, quando a imbecilidade se torna expressão da alma de uma sociedade, então, se tem o que é chamado nas Escrituras do engano do Diabo para cegar o entendimento dos incrédulos (cf. 2Co 4.4). Pois, o Diabo trabalha para cegar o entendimento dos homens a respeito das coisas naturais, e, consequentemente, para cegar o entendimento dos homens a respeito das coisas espirituais.

13. Deste modo, quando se tem imbecilidade calcificada e há uma aceitação geral do estado de não-conhecimento, então, se tem obra maligna em entenebrecer e emburrecer os homens na intelecção das coisas naturais; e, uma vez que os homens estão no estado de não-conhecimento, se torna ainda mais difícil preservar a verdade das coisas naturais, para que estes, a partir destas, possam conhecer a verdade revelada; quanto mais imbecilidade para o conhecimento das coisas naturais, mais difícil se torna o entendimento das coisas espirituais; logo, o Diabo trabalha para destruir o conhecimento e a busca pelo conhecimento, para aprisionar os homens no estado de não-conhecimento, e assim, entenebrecer o entendimento dos homens para que não lhes resplandeça a luz do evangelho de Cristo (cf. 2Co 4.4). Logo, sempre que há imbecilidade calcificada e um estado generalizado de não-conhecimento, é como se um câncer estivesse infiltrado na alma da sociedade, e isso, sempre é evidência de obra maligna.

Capítulo VI: As consequências sociais da imbecilidade.

14. Assim sendo, uma sociedade calcificada no estudo de não-conhecimento, com a generalização da imbecilidade, onde a própria imbecilidade passa a ser o qualificativo primordial dos homens e das mulheres nesta sociedade, então, se terá o que se pode chamar de consequências sociais da imbecilidade; portanto, onde se tem o estado de não-conhecimento, se tem estas terríveis consequências na sociedade; a ordem social, e o próprio múnus do desenvolvimento social, são desfigurados em consequência da imbecilidade generalizada.

15. Deste modo, pode-se falar, de maneira geral, sobre três consequências sociais da imbecilidade, as quais são:

Primeiro, um estado de alma da sociedade que aborrece o conhecimento, e que se estabelece pelos ditames do não-conhecimento; uma sociedade que aborrece o conhecimento será uma sociedade presa as correntes malignas da imbecilidade e da falta de desenvolvimento moral-intelectual; será uma sociedade onde a coletividade impõem-se sobre a individualidade, ou dito em outros termos, onde uma personalização coletiva substitui a própria posse da personalidade pelo indivíduo e o desenvolvimento pessoal da própria personalidade; uma sociedade que aborrece o conhecimento e que se torna subserviente aos ditames do não-conhecimento, torna os homens e as mulheres expressão não da vontade pessoal, mas do emburrecimento programado.

16. Segundo, uma sociedade que fica calcinada nos vícios e doenças da alma; uma sociedade que rejeita o conhecimento se torna uma sociedade que é expressão visível e clarividente das morbidades da alma; estas morbidades da alma, viciam as consciências e o desenvolvimento dos indivíduos num ciclo vicioso, que os torna não em expressão do desenvolvimento pessoal, mas de um estado de alma que por estar viciado, é manifesto de diversos modos e de diversas maneiras em todos aqueles que são açambarcados pelas consequências do estado de não-conhecimento e do sempre crescente e orgulhoso aborrecimento ao conhecimento; logo, esta sociedade se torna em expressão de vícios e se torna presa a estes próprios vícios, gerando um ciclo vicioso e viciante. Esta é uma terrível consequência social da imbecilidade.

17. Terceiro, uma sociedade que é expressão da imbecilidade generalizada, se torna uma sociedade que não se desenvolve de maneira sóbria; o ímpeto para o desenvolvimento faz parte da natureza; e quando este ímpeto é interrompido ou então desfigurado, logo, outro algo tomará este ímpeto, e prenderá a sociedade num jugo subversivo ou então sob a forma de alguma ideologia totalitária; por isso, as sociedades que ficam calcinadas no estado de não-conhecimento são as sociedades mais sujeitas ao domínio das ideologias totalitárias e as sociedades que, as mais das vezes, não conseguem se reerguer facilmente deste domínio.

18. A imbecilidade generalizada, torna uma sociedade sujeita a algum modo de aprisionamento geral – não da prisão física, a cadeia, mas da prisão ideológica, moral e intelectual. Logo, sempre que se tem esta imbecilidade generalizada, a sociedade não se desenvolve de maneira sóbria e adequada e todo o ímpeto natural ao desenvolvimento se torna engaiolado por alguma ideologia nefasta, como por exemplo, pelo comunismo, que gera a imbecilização generalizada para poder dominar sem que haja resistência adequada ou percepção sobre o que realmente está acontecendo.

Capítulo VII: Os imbecis e a aversão ao conhecimento.

19. Por isso, uma vez que a sociedade se torna expressão da imbecilidade generalizada, então, aqueles que são açambarcados por este estado de não-conhecimento, isto é, todos aqueles que ficam sujeitos as normativas das doenças sociais que são provenientes do não-conhecimento, então, os imbecis, se tornarão numa enorme casta que terá aversão ao conhecimento e a tudo quanto diz respeito ao conhecimento; os imbecis, acabam por tornar, os inquisidores do conhecimento, que perseguem e procuram acabar com toda e qualquer tentativa de se evocar a importância do conhecimento.

20. Assim sendo, os imbecis possuem uma aversão total ao conhecimento; e esta aversão se demonstra de dois modos: primeiro, através da rejeição parcial ao que deliberadamente se desconhece; segundo, através da rejeição total ao conhecimento e aos seus símbolos.

Primeiro, através da rejeição parcial ao que deliberadamente se desconhece; os imbecis rejeitam deliberadamente aquilo que desconhecem e aquilo que não conhecem; isto é, os imbecis rejeitam todo conhecimento que não conhecem, a saber, qualquer tipo de conhecimento, mesmo os mais simples aspectos do saber; logo, os imbecis terão aversão contra aquilo que desconhecem, e qualquer informação simples que os imbecis não conseguem imaginar serão contra e dirão que tal informação ou é mentira ou não tem procedência; os imbecis ao rejeitarem o conhecimento, se tornam avessos a qualquer informação que eles não podem conhecer ou que condena ou se coloca contra os atos inerentes a imbecilidade.

21. Segundo, através da rejeição total ao conhecimento e aos seus símbolos; os imbecis acabam por calcinar uma rejeição total ao conhecimento e aos símbolos básicos do conhecimento; esta rejeição, é mais propriamente descrita, como a destruição do múnus básico do conhecimento e a desfiguração dos símbolos do conhecimento; portanto, a rejeição total ao conhecimento, é a rejeição a todo e qualquer forma de conhecimento verdadeiro e que se estabelece segundo as operações do intelecto e sob as leis da lógica; e a rejeição total aos símbolos do conhecimento, é a rejeição as formas e aos modos verdadeiros pelos quais o conhecimento é adquirido, como os livros dos grandes pensadores e as obras máximas e mais importantes de cada esfera do saber; os imbecis rejeitam totalmente o conhecimento e rejeitam totalmente os símbolos básicos do conhecimento (os livros e autores mais importantes em cada esfera do conhecimento).

22. E aqui se faz uma breve observação; pois, uma sociedade calcificada no estado de não-conhecimento, logo, se tornará avessa ao conhecimento; mas, mesmo nesta sociedade, existem aqueles que “estudam” e que conquistam títulos acadêmicos, os quais, as mais das vezes, são imbecis diplomados, ou na expressão de um filósofo, analfabetos funcionais; os títulos acadêmicos numa sociedade avessa ao conhecimento, é apenas uma expressão mais ataviada da imbecilidade; pois, os imbecis diplomados, nas disciplinas acadêmicas a que supostamente se dedicam, não dominam sequer as obras básicas, os clássicos constituintes de suas esferas de saber; logo, é mais do que evidente do que mesmo os diplomados, em grande medida, também são avessos ao conhecimento; portanto, também são imbecis. 

Capítulo VIII: Os imbecis e a rejeição a sabedoria.

23. Além disso, os imbecis, que são avessos ao conhecimento, acabam por rejeitar a sabedoria; a rejeição ao conhecimento, se torna em rejeição a sabedoria; e a sabedoria, é uma das coisas mais importantes que se pode ter na vida; a Escritura diz: “mas a excelência da sabedoria é que ela dá vida a seu possuidor” (Ec 7.12b); logo, os imbecis sendo avessos ao conhecimento, e rejeitando a sabedoria, passam a viver de maneira inadequada; a vida é feita para ser vivida de acordo com princípios naturais, imbuídos na própria natureza; os imbecis rejeitam estes princípios ao serem avessos ao conhecimento e ao rejeitarem a sabedoria; na verdade, os imbecis, por rejeitarem a sabedoria, vivem de maneira anti-natural e acabam por destruir e desfigurar as coisas naturalmente naturais. A imbecilidade acaba por destruir o ímpeto natural do cuidado com a natureza, pela rejeição a sabedoria; os imbecis são, em grande parte, destruidores da natureza, seja da natureza física, seja da própria natureza humana.

24. Na verdade, os imbecis são avessos a sabedoria; pois, o mais simples aspecto da sabedoria, sempre confronta todas as ações e maquinações dos imbecis; a sabedoria é um testemunho eloquente contra a imbecilidade; e, nada mais ultrajante para a imbecilidade do que as repreensões da sabedoria, pois, as repreensões da sabedoria em relação a imbecilidade, vão ao âmago, adentram as entranhas dos imbecis e tornam conhecidas o estado do coração (alma) dos imbecis; por isso, os imbecis, ao rejeitarem o conhecimento, e enveredarem nos caminhos do não-conhecimento, acabam por rejeitar a sabedoria, que repreende e confronta de maneira direta e veemente todas as ações os imbecis e todos os frutos provenientes da imbecilidade. A rejeição a sabedoria por parte dos imbecis é, na verdade, a rejeição aos elementos de repreensão e de correção que são apregoados contra as consequências morais e intelectuais da imbecilidade. 

Capítulo IX: Os imbecis como escarnecedores.

25. E, além destas características dos imbecis, os mesmos se tornam tão calcinados nos frutos do estado de não-conhecimento, que acabam por se tornar escarnecedores; os imbecis, por estarem contra a natureza, por não buscam o conhecimento, um tender natural do ser humano, terminam avessos ao conhecimento, e rejeitam a sabedoria, e com isso, acabam por escarnecer de Deus e das coisas de Deus; os imbecis, são no fundo, escarnecedores; pois, todos os imbecis, escarnecem de Deus e das coisas de Deus. Logo, os imbecis, estão, fundamentalmente, em luta contra Deus. A imbecilidade, acaba por se enveredar por caminhos que trazem o juízo de Deus (cf. Rm 1.18-32).

26. Portanto, os imbecis, não somente são avessos ao conhecimento, e rejeitam a sabedoria; os imbecis, são açambarcados na descrição bíblica do escárnio, dos escarnecedores, que por estarem no estado de não-conhecimento, se colocam contra o ímpeto natural do desenvolvimento, através da busca do saber; e, por isso, os imbecis, ao serem escarnecedores, germinarão uma série de vícios, entre os quais, o mais terrível, é a inveja; os imbecis, por serem escarnecedores, se tornam invejosos; pois, todo escarnecedor, desenvolve a inveja; e a inveja é um mal terrível, pois, além de estagnar o desenvolvimento, acaba por corroer aqueles que buscam se livrar da imbecilidade; a inveja dos imbecis desfigura e corrompe todos as iniciativas sóbrias e contumazes daqueles que tendo se apercebido do estado de não-conhecimento, buscam se livrar das consequências sociais da imbecilidade. Os imbecis são escarnecedores e invejosos, e isso, per se, já é sinal da degradação moral e espiritual dos imbecis.

Capítulo X: As compensações existenciais da imbecilidade.

27. A imbecilidade, enquanto um mal, e os imbecis, enquanto escarnecedores e invejosos, também produz uma série de gérmens de “compensação”; pois, como a imbecilidade é evidência de miséria, o ser humano, ao estar no estado de miséria, produz para si mesmo “compensações” que velem a compreensão desta miséria; e com a imbecilidade não é diferente, pois, os imbecis evocam em si e para si compensações existenciais da imbecilidade.

28. A imbecilidade ao se estabelece possui compensações sobre o próprio indivíduo; pois, para que o indivíduo não se aperceba do estado deplorável da imbecilidade, a própria imbecilidade lhe fornece sementes para germinar e velar a consciência para a compreensão da baixeza do estado de miséria; e as compensações da imbecilidade com relação a si mesmo são: calúnia, maledicência, desprezo pelo conhecimento, desprezo pelos que têm conhecimento, escárnio com relação ao conhecimento, escárnio pelos que têm conhecimento, manipulação, burrice, zombaria em relação aos atos e ações de conhecimento (escrita, estudo, produção de livros e conteúdo de valor intelectual), tentar ridicularizar os que produzem e valoram o conhecimento (geralmente com os chamando de “ridículos”), e coisas similares; os imbecis utilizam destas e de outras ações -  as mais das vezes, mesmo inconscientes -, para compensarem a própria imbecilidade; mas, certamente, a evidência mais visível de imbecilidade é o escárnio e a zombaria em relação aos atos e ações de conhecimento; e esta é uma regra infalível para conhecer e reconhecer os imbecis.

29. Além disso, os imbecis, ao serem escarnecedores, e escarnecerem do conhecimento e daqueles que possuem o conhecimento, possuem uma característica inconfundível – e que também é outra regra infalível para conhecer e reconhecer os imbecis -, a saber: os imbecis não conseguem provar racionalmente e com argumentos aquilo de que escarnecem; na verdade, os imbecis, as mais das vezes, nem sequer conseguem ler o conhecimento de que desprezam e nem sequer conseguem entender os argumentos daqueles que possuem algum conhecimento; os imbecis ao chamarem os que possuem conhecimento de “ridículos” demonstram que eles próprios são mais do que “ridículos”. A verdadeira face dos ridículos é tentarem escarnecer daquilo que lhes é superior em relação ao saber e em relação ao conhecimento, ou da vida virtuosa. 

Capítulo XI: Considerações finais.

30. Deste modo, consegue-se pontilhar os principais aspectos para se ter um entendimento sobre os imbecis; a pergunta, “como reconhecer imbecis?”, fora respondida em seus principais aspectos; os imbecis são basicamente aqueles que rejeitam o conhecimento, que aborrecem o conhecimento, que são avessos ao conhecimento; os imbecis na aversão ao conhecimento, acabam por se tornar escarnecedores, e com isso, também se tornam invejosos; o escárnio semeia no coração os gérmens da inveja, que frutifica de maneira aterradora; portanto, deve se procurar vencer a imbecilidade, através do reconhecimento do estado de não-conhecimento e da busca pelo conhecimento no desenvolvimento da própria personalidade.

31. Com isso, a imbecilidade não é somente um mal que assola o indivíduo, mas um mal que assola a sociedade; pois, a multiplicação da imbecilidade, ocasiona um aumento dos imbecis, e com isso, a sociedade se torna castificada no estado de não-conhecimento, um estado que gera mais imbecis, desde simples imbecis a imbecis diplomados. Logo, a imbecilidade é um mal individual que se torna mal existencial, e que por fim, se torna um mal social, que ocasiona inúmeros outros males sociais. Por isso, para se vencer a imbecilidade e não se deixar contaminar pelos imbecis, é necessário se compreender como reconhecer os imbecis, bem como compreender a natureza da própria imbecilidade.

32. Termina aqui esta explicação sobre os imbecis. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém. 

25/03/2024

Prospectos da Teologia do Terceiro Artigo

I

 

A elucubração sobre a teologia do terceiro artigo se inicia, evidentemente, pela compreensão do que concerne a ideia da teologia do terceiro artigo; e, nisto, está delineado a teologia em sua natureza e propósito; pois, a teologia só se desenvolve pela obra do Espírito Santo; e a teologia só atinge seu propósito pela obra do Espírito Santo; portanto, a existência teológica é pneumática em sua essência e natureza; a teologia, como reflexão sobre Deus e das coisas enquanto em relação com Ele, só “vinga”, para utilizar um esquecido termo da ortodoxia luterana, sob a obra soberana do Espírito Santo; como Barth afirma, o ar fresco e movimentado do Espírito do Senhor é o único ambiente em que a teologia poderá vingar[1].

Com isso, a teologia, sendo reflexão sobre Deus, é guiada pelo Espírito Santo na reflexão sobre o próprio Deus; e a revelação, é o meio pelo qual o Espírito Santo guia os homens na reflexão teológica e na compreensão sobre Deus; logo, a lógica da revelação, é o que deve permear os preceitos fundamentais da reflexão teológica; pois, necessariamente, a existência teológica só se efetiva desta maneira; portanto, a ideia da teologia do terceiro artigo tem imbuída em si a existência teológica, fato esse que as mais das vezes passa desapercebido dos próprios teólogos; todavia, a teologia, em sua natureza e propósito, só “vinga”, só se estabelece e se desenvolve sob a orientação soberana do Espírito Santo.

Assim sendo, os principais aspectos na reflexão sobre Deus, a doutrina de Deus, são elucubrados sob a Orientação do Espírito Santo; e a reflexão sobre Deus, geralmente é feita sob dois aspectos: o Deus Uno e o Deus Trino; é assim, por exemplo, que Tomás de Aquino estabelece na Summa Theologiae, primeiro a análise sobre o Deus Uno, depois a análise sobre o Deus Trino. 

A reflexão sobre o Deus Uno mostra a perfeição de Deus, Sua natureza e caráter santíssimo, a partir da descrição bíblica: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4); portanto, a reflexão sobre o Deus Uno é o primeiro aspecto, a partir do entendimento revelacional, sobre o qual, se reflete e elucubra sobre Deus - aspecto este estabelecido pelo Espírito Santo; a unidade de Deus é um mistério glorioso com o qual a reflexão teológica tem de lidar, o qual, por sua vez, é orientado pelo Espírito Santo para designar todo o esplendor das verdades que são imbuídas no estudo sobre o Deus Único e Verdadeiro; pois, o Espírito Santo, em sua obra como cultor da revelação, tem por função tornar conhecidas as verdades gloriosas sobre Deus.

E, em relação a reflexão sobre o Deus Trino, o Espírito Santo, revela a Deus Pai, revela a Deus Filho, e anuncia tudo quanto tiver ouvido (cf. Jo 16.13), no altissonante mistério da comunhão da Trindade; a unidade e a trindade de Deus, a unidade na trindade e a trindade na unidade, são um mistério que o Espírito Santo explica, mas que os homens não podem compreender em sua inteireza; por isso, o Espírito Santo é o “vinculum amoris”, entre o Pai e o Filho, é um vínculo que permite aos homens, através da fé, compreenderem o bendito mistério da Santíssima Trindade; somente através deste “vinculum amoris” é que os que creem podem compreender o mistério da Santíssima Trindade; e é o Espírito Santo quem conduz o entendimento sobre a Trindade, através do qual, tanto o Pai quanto o Filho quanto o Espírito Santo são adorados, pois, são co-iguais em poder, glória e majestade. 

A trindade é o mistério pneumático por excelência; o qual, ao ser estudado com esmero e reverência, é guiado em seus mais íntimos recônditos pelo Espírito Santo, que revela as profundezas de Deus (cf. 1Co 2.10). Os Mistérios concernentes ao Deus Trino são conduzidos no temor e na reverência sob a orientação do Espírito Santo, que impede que os homens adentrem a estes mistérios de maneira dissoluta bem como impede aqueles que reverentemente estudam sobre este assunto de caírem em erros e heresias.

Deste modo, o Espírito Santo, ao guiar a reflexão teológica, a ilumina diante dos três principais aspectos da fé, naquilo que a partir dos símbolos de fé, são conhecidos como os três artigos da fé; o primeiro artigo, sobre Deus Pai; o segundo artigo, sobre Deus Filho; o terceiro artigo, sobre Deus Espírito Santo: o primeiro artigo sobre a criação, o segundo sobre a salvação e o terceiro sobre a santificação; logo, a reflexão teológica se estabelece nesta tríplice perspectiva, que permeia todos os outros aspectos doutrinários; pois, a compreensão sobre a Trindade, é o aspecto principal da fé; como Tomás de Aquino afirma: “a fé cristã consiste principalmente na confissão da Santíssima Trindade”[2].

E é o aspecto que encerra o intelecto em admiração, que se prosterna em adoração, e que a medida desta adoração cresce em compreensão e entendimento, no mais sublime aspecto da fé que busca compreensão.

Logo, a ideia da teologia do terceiro artigo tem permeada em si as estruturas dos dois outros artigos de fé, tanto para melhor explicá-los, quanto para melhor entender o próprio terceiro artigo; logo, a teologia do terceiro artigo procura iluminar a compreensão sobre o primeiro artigo e sobre o segundo artigo, de modo que, a partir desta compreensão, se possa obter um entendimento mais apurado e burilado sobre o terceiro artigo; na verdade, na ordem da Revelação, o Espírito Santo revelou ao Pai e ao Filho, para depois conduzir os fiéis a uma comunhão mais profunda consigo mesmo.

A teologia do terceiro artigo, reconfigura o entendimento sobre o primeiro artigo e sobre o segundo artigo, de maneira tal que, ao se estudar especificamente o terceiro artigo, se terá uma riqueza de percepção e de insights ainda mais aprofundada, pois, o próprio Espírito Santo é o “Sugeridor” (esta sentença é evocada pelo teólogo italiano Raniero Cantalamessa!); com isso, pode-se afirma que o Espírito Santo, ao guiar e orientar o estudo sobre o primeiro e o segundo artigo, é o Sugeridor dos insights teológicos, bem como nestes insights, outorga o entendimento sobre Sua Pessoa, como Sugeridor dos insights pneumáticos. E os insights pneumáticos açambarcam a ampla gama de insights teológicos, e os coloca de maneira mais precisa e mais adequada a cada área do saber teológico. Ora, o Espírito Santo é o Doctor Ecclesiae, o Professor da Igreja; então, é Ele quem ilumina os insights teológicos e os aplica de maneira mais adequada no desenvolvimento da própria reflexão teológica; donde, a necessidade dos insights pneumáticos e sua aplicabilidade significativa para o todo das reflexões teológicas.

Assim sendo, tendo em mente a compreensão e a centralidade da perspectiva trinitária, se observa que tudo na existência teológica é sob tríplice perspectiva; a vida cristã, a existência eclesial, a liturgia, a existência teológica, é sob tríplice perspectiva; e a tríplice perspectiva sempre é evocada a partir da Santíssima Trindade.

Pois, tudo em relação as coisas espirituais e em relação as coisas naturais, é em tríplice perspectiva; pois, toda a obra da Criação é permeada pela obra do Deus Trino; e, só existe a compreensão sobre a tríplice perspectiva, sob o triperspectivismo, a partir do Sugeridor; é o Espírito Santo quem orienta a compreensão sob a tríplice perspectiva, a qual Ele mesmo é o cultor.

O Espírito Santo é o Cultor da tríplice perspectiva na ordem da realidade e é o Orientador para a compreensão sobre as coisas de Deus. E o entendimento sobre estes aspectos, delineiam a compreensão sobre a ideia que permeia a noção da teologia do terceiro artigo.

 

II

 

Com isso, se pode evocar os principais aspectos da teologia do terceiro artigo; a teologia do terceiro artigo possui princípios bem estabelecidos, os quais, por sua vez, são dispostos de maneira distinta dos da teologia do primeiro artigo e dos da teologia do segundo artigo; logo, do mesmo modo como o estudo racional tem princípios, causas ou elementos (cf. Phys., 184a10), a reflexão teológica também o tem; e, a teologia do terceiro artigo também o tem; portanto, para um mais eficaz entendimento sobre a teologia do terceiro artigo é necessário compreender os princípios que permeiam a teologia do terceiro artigo.

Deste modo, estabelecem-se os princípios da teologia do terceiro artigo; estes princípios são a base primordial, através da qual se evoca a ideia da teologia do terceiro artigo; nestes princípios estão descritos o pressuposto básico da possibilidade e necessidade da teologia do terceiro artigo; e os princípios da teologia do terceiro artigo se subdividem em dois aspectos: primeiro, as definições; e, segundo, os axiomas.

Em primeiro lugar, as definições.

Ora, as definições são os conceitos básicos e fundamentais que permeiam a ideia da teologia do terceiro artigo, que se estabelecem em dez teses fundamentais, subdivididas em dois grupos: as cinco primeiras, os pressupostos dogmáticos (da dogmática como ética), e, as cinco restantes, os pressupostos éticos (da ética como dogmática); estas teses são:

A. Pressupostos Dogmáticos.

§ 1. [Da teologia]. A teologia é uma ciência, e uma ciência que versa sobre Deus e as coisas enquanto em relação com Ele (cf. STh Ia, q. 1, a. 7, co.); logo, a teologia, em sua natureza e propósito estuda e reflete sobre Deus; e, como todo estudo sobre Deus é feito a partir da revelação, então, todo estudo sobre Deus, isto é, a teologia, é guiada e orientada pelo Espírito Santo, pois, é o Espírito quem perscruta as profundezas de Deus (cf. 1Co 2.10), e que as torna conhecidas através da Revelação.

§ 2. [Da natureza da teologia]. A teologia, em sua natureza, sendo uma ciência fundamentada na revelação, lida com o conhecimento das coisas divinas; portanto, em sua natureza, é uma ciência espiritual; por isso, deve ser estudada com a piedade guiada pelo Espírito, a piedade da comunhão com Deus através da oração e da leitura de Sua Palavra, e da piedade que depende da iluminação pneumática para a compreensão dos assuntos da revelação.

§ 3. [Do propósito da teologia]. A teologia tem um propósito muito bem definido, a saber, ensinar sobre Deus; e, se ensina sobre Deus de dois modos: primeiro, de modo doutrinário; segundo, de modo prático. No primeiro modo, reflete-se sobre a doutrina, e o que a doutrina ensina sobre Deus, abalizando o entendimento sobre no que se deve crê. No segundo modo, reflete-se sobre a prática, a ética, que ensina sobre a vida correta diante de Deus, abalizando o entendimento sobre como se deve viver. Nestes dois modos, o propósito da teologia fica sumariado, respectivamente, da seguinte maneira: ensinamento racional e ensinamento prático, crença correta e vida correta, doutrina e ética, ortodoxia e ortopraxia. O propósito da teologia, é conduzir a um entendimento correto sobre Deus, de modo a levar a um culto correto a Deus. E este propósito só se alcança com o Espírito Santo; o propósito da teologia é um propósito pneumático.

§ 4. [Da existência teológica]. A existência teológica, é a existência de fidelidade e vigilância, sob o mandamento de Deus, axioma fundamental da teologia; logo, a existência teológica, se confirma e se desenvolve a partir do entendimento e do encargo da natureza da teologia e a medida do cumprimento do propósito da teologia na existência eclesial e através da vida daqueles que, de maneira mais específica, se dedicam a teologia (os teólogos).

§ 5. [Do desenvolvimento teológico]. A teologia só se desenvolve sob a orientação do Espírito; a teologia é uma ciência que cresce, se desenvolve e frutifica sob a atuação soberana do Espírito; donde, o desenvolvimento teológico, depender totalmente deste Atuar soberano. Por isso, é correto afirmar que o desenvolvimento teológico só “vinga” sob o poder do Espírito.

B. Pressupostos Éticos.

§ 6. [Da vida que agrada a Deus]. A teologia tem por propósito também ensinar sobre a vida que agrada a Deus; sobre a maneira correta de viver diante de Deus, de acordo com a Revelação de Deus; logo, a teologia, como ética, tem por princípio a vida que agrada a Deus, chamada pelo Apóstolo de vida digna do evangelho (cf. Fp 1.27).

§ 7. [Das virtudes]. A vida que agrada a Deus, é a vida nas virtudes; é o Espírito quem conduz aqueles que creem no caminho da virtude; tanto no aperfeiçoamento das virtudes naturais, quanto no infundir das virtudes teologais; a vida que agrada a Deus é uma vida vivida na fé, na esperança e no amor (cf. 1Co 13.13). E o Espírito é quem conduz aqueles creem no caminho das virtudes teologais. A vida virtuosa é fruto da obra soberana do Espírito, como Consolador e como Aplicador da obra da reconciliação.

§ 8. [Sobre glorificar ao Senhor em doutrinas]. A vida que agrada a Deus, a vida virtuosa, é princípio da existência teológica; logo, aqueles que participam na existência teológica, sempre terão por propósito, na própria existência teológica, de glorificar ao Senhor em doutrinas; e a teologia consiste exatamente nisso, em glorificar ao Senhor em doutrinas; e, é o Espírito que ilumina o caminho daqueles que, ao dedicarem a existência teológica, buscam glorificar ao Senhor através da elucubração sobre as doutrinas.

§ 9. [Do poder do Espírito]. A vida que agrada a Deus, sendo uma vida virtuosa, é uma vida que é vivida sob o poder do Espírito; a vida que agrada a Deus é uma vida no poder do Espírito, que santifica, ilumina, concede dons, e conduz a Igreja pelos pastos verdejantes do Bom Pastor.

§ 10. [Do Espírito como Sugeridor dos insights teológicos]. A teologia, como ciência, tem por função refletir sobre Deus de acordo com a Revelação de Deus; por isso, as Escrituras, a revelação dada de forma permanente, são a fonte donde brotam os insights teológicos, que em consonância com a reta razão, proporcionam um mais eficaz entendimento sobre as coisas concernentes a Deus; portanto, se os insights teológicos são provenientes das Escrituras, então, o cultor da Revelação, o Espírito, é quem ilumina e concede estes insights; como cultor da Revelação, e como o Hermeneuta da Revelação, o Espírito é quem ilumina os insights teológicos; por isso, o Espírito Santo é o Sugeridor dos insights teológicos.

 

III

 

E, em segundo lugar, os axiomas.

Ora, os axiomas são as proposições básicas que permeiam a teologia do terceiro artigo, tanto em sua natureza, quanto em sua aplicabilidade; e são evocados três grandes axiomas, subdivididos em três proposições cada; os axiomas são embasados a partir da sentença do Apóstolo: “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3.17b). Portanto, deste texto paulino são extraídos três axiomas:

Primeiro axioma: O Espírito é Senhor.

Proposição n. 1: O senhorio do Espírito demonstra sua deidade e sua atuação de maneira poderosa em todo o cosmos (cf. Sl 139.7), em conformidade com os mistérios da Trindade econômica (cf. Mt 3.16-17; 2Co 13.13; Rm 1.1-4). 

Proposição n. 2: O senhorio do Espírito, demonstra sua atuação soberana como Vivificador; se o Espírito é Senhor, então, Ele também é Vivificador. A obra do Espírito em vivificar se estende em todo o cosmos, e é efetuada de maneira gloriosa naqueles que creem, com o derramar copioso do Espírito (cf. Is 44.3). 

Proposição n. 3: O senhorio do Espírito, demonstrado através de seus títulos e nomes, são uma demonstração de Sua Obra no plano da redenção.

Segundo Axioma: Onde o Espírito está, é lugar onde Ele efetua Sua Obra e Seu Agir Soberano.

Proposição n. 1: E na acepção de lugar, dois são os lugares onde o Espírito age de maneira soberana: primeiro, no mundo, de maneira geral; segundo, na Igreja, de maneira especial.

Proposição n. 2: O Espírito age no mundo de maneira soberana preservando e conservando a criação da corrupção total do Pecado (cf. Sl 104.30), bem como atuando para conceder aos homens dons para o desenvolvimento da vida humana (cf. Ef 4.8); por exemplo, é o Espírito quem guia o caminho da ciência (cf. Is 40.14). Logo, da ação do Espírito Santo no mundo, nasce o pressuposto da teologia da cultura. 

Proposição n. 3: O Espírito age na Igreja de maneira soberana e santificadora, como Senhor, Vivificador, Inspirador, Orientador e Iluminador das práticas eclesiais; a Igreja existe sob o poder do Espírito, e é edificada e guiada por Sua Direção Soberana. A Igreja é a comunidade pneumática. Logo, da ação do Espírito na Igreja, nasce o pressuposto da eclesiologia pneumática, onde todos os aspectos da existência eclesial são guiados pelo Espírito através da Revelação. 

Terceiro Axioma: A liberdade é pressuposto apodítico do atuar e do agir soberano do Espírito.

Proposição n. 1: Onde o Espírito do Senhor está, aí há liberdade, como diz o Apóstolo; logo, onde o Espírito está, no mundo (atuando de forma geral) e na Igreja (atuando de forma especial), aí há liberdade. 

Proposição n. 2: A liberdade é pressuposto irrevogável para a vida no mundo, e por isso, fora estabelecida na lei humana como direito fundamental inviolável, bem como se estabelece como um dos transcendentais dos direitos humanos.

Proposição n. 3: A liberdade como pressuposto da existência eclesial, chamada na Igreja de lei da liberdade (cf. Tg 1.25, 2.12). Portanto, em relação a Igreja, a liberdade é uma doutrina, um dogma fundamental da fé.

Com isso, se evocou, a partir dos princípios da teologia do terceiro artigo, em suas definições e axiomas fundamentais, aquilo que a que se refere a teologia do terceiro artigo; isto é, a possibilidade (e necessidade) da teologia do terceiro artigo, fundamentada em pressupostos bíblicos, que constituem-se a base dos insights teológicos que devem guiar a reflexão teológica; logo, se tem, na ideia da teologia do terceiro artigo, o encargo da reflexão teológica, a proposição da existência teológica, fundamentados e orientados de acordo com a edificação da teologia pneumática, a partir da Obra e da Pessoa do Espírito Santo, o Sugeridor dos insights teológicos.

***

Assim, conclui-se a explicação sobre os prospectos concernentes a teologia do terceiro artigo; um escrito inicial e ainda parcial, mas que fornece os princípios fundamentais do que deve guiar e permear a análise da teologia do terceiro artigo. “Gloria ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e para sempre. Amém”. 



[1] cf. Karl Barth, Introdução à Teologia Evangélica [11ª ed. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2016], pág. 39.

[2] Tomás de Aquino, De Rationibus Fidei, cap. I. 


Os maiores atiradores da história

Diante de algumas indagações a respeito de um aspecto específico da história militar, a saber, sobre os maiores atiradores da história (snip...