30/08/2025

Sobre a Forma da Cultura Ocidental

Prólogo.

 

1. Tendo visto vossa pertinente indagação, e resolvendo dar uma resposta adequada, tanto em função de vossa indagação, quanto em função da importância deste assunto, decidi escrever um breve escrito (ou tratado) sobre a cultura ocidental; pois, tendo tantas críticas e loucuras sendo afirmadas sobre a cultura do Ocidente como um todo, decidi escrever-te e explicar-te, e quem sabe, a todos quantos possam ter algum interesse, a respeito da forma da cultura ocidental.

2. A cultura ocidental, em suma, diz respeito a tudo quanto foi importante para a formação do Ocidente; não do Ocidente que se fala nas propagandas midiáticas, mas do Ocidente como um todo; pois, o que se fala da cultura ocidental em tempos hodiernos é apenas um dos aspectos constituintes da mesma, a saber, do ocidente latino, isto é, o que concerne a latinidade e a cristandade latina.

No entanto, o Ocidente não é apenas isso; este é apenas um traço da cultura ocidental; a cultura ocidental em si mesma, acopla outros aspectos, tanto em suas formas gerais fundantes, o helenismo e a latinidade, quanto em sua forma mais apurada a partir da influência da religião cristã.

Outrossim, é que nem mesmo estes três aspectos resumem toda a cultura ocidental, já que se tem em parte do ocidente a influência islâmica (apesar de ser uma religião oriental) a partir do séc. VII, e a influência da ciência a partir do séc. XIII (e mais visivelmente a partir do séc. XVI), mesmo que a ciência dita ocidental tenha se desenvolvido bem menos do que a ciência islâmica; etc.

Assim, portanto, compete explicar esta tríade que dá sentido a cultura ocidental, para entender a própria natureza da cultura ocidental, bem como para se compreender os caminhos do Ocidente.

 

Parte I: O Helenismo.

 

3. A primeira base da cultura ocidental é o helenismo; a formação da cultura helênica, a partir dos grandes cantores e poetas do final do período da religião primeira, outorgou a antiga civilização cretense o ímpeto para a elucubração racional; os grandes poetas, como Homero e Hesíodo, eram, no dizer de seus contemporâneos e das gerações seguintes, mensageiros das divindades, posto expressarem os oráculos dos deuses de forma racional e entendível; e o desenvolvimento da consciência mítica é o que abaliza o posterior desenvolvimento racional, outorgando ao desenvolvimento da cultura o próprio modo da mente funcionar; por isso, a cultura helênica é tida como cultura por excelência.

Por esta razão, a cultura grega possui tanta força e importância à racionalidade; já antiga sabedoria judaica, embasada nos altos desenvolvimentos da cultura do crescente fértil, evocava a beleza e o fulgor da reta razão (cf. Jó 6.25a), mas somente a cultura helênica conseguiu dar forma e ímpeto à racionalidade de modo a esta por si se desenvolver além da consciência mítica (ou imaginário mítico) e além do “mundo” da revelação (Israel do Velho Testamento); portanto, o helenismo desenvolveu-se como fruto da perfeita consciência mítica, dando a entender que a formação do imaginário mítico antecede a formação da elucubração racional.

4. E o helenismo, após a formação da perfeita consciência mítica, desenvolveu-se em três partes: primeiro, com os filósofos da natureza; segundo, com os três grandes filósofos; terceiro, com as escolas filosóficas.

5. Ora, quanto ao primeiro, os filósofos da natureza ou físicos, foram os que primeiro receberam propriamente o designativo de filósofos; Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, entre outros, foram filósofos que elucubraram sobre a realidade a partir dos fenômenos naturais; elucubraram sobre as causas da natureza e descobriram algo sobre a própria ordem da realidade; a amplidão de saberes é o que mais interessa nestes filósofos; o dito de Heráclito bem explica isso: “é preciso que de muitas coisas sejam inquiridores os homens amantes da sabedoria” (DK 22 B 35); ora, o que primeiro precisa ser inquirido é sobre os fenômenos naturais, posto a consciência mítica ter formado sobre eles várias sentenças e ditos, tal como se mostra nas grandes epopeias; e assim, se consegue extrair dos mesmos suas causas naturais e investigá-las racionalmente através do método dialético.

Além do que, ao elucubrar sobre os fenômenos naturais, os primeiros filósofos obtiveram princípios sobre o ser; e ao elucubrarem sobre o ser descortinaram todo o amplo escopo da ordem ontológica da realidade; o núcleo do helenismo é fundamentalmente ontologia, expresso em várias formas e raramente com caracteres puramente metafísicos; com isso, se tem que a cultura helênica compendiou o saber proveniente da realidade a partir de uma busca ontológica, expressa primeiramente em caracteres físicos ou naturais.

A busca por um único princípio aclarou aspectos sobre os próprios princípios constitutivos da ordem ontológica da realidade através de sua esfera natural. Pois, a busca pela natureza era tida como a busca pelo próprio ser, e vice-versa - isso é mais evidente, por exemplo, a partir de Melisso de Samos (cf. DK 30 B 2), mas é pressuposição inerente aos primeiros filósofos.

6. Ora, quanto ao segundo, os três grandes filósofos, Sócrates, Platão e Aristóteles, foram estes que elevaram a elucubração racional aos seus maiores cumes; os três grandes filósofos abalizaram tudo quanto concerne a reflexão filosófica; Sócrates desenvolveu o método filosófico; Platão aplicou o método filosófico e aprendeu a como extrair o saber da realidade; Aristóteles sistematizou este saber numa ordem extraída da própria realidade; com isso, o que os filósofos da natureza e outros formularam de sentenças racionais, fora burilado por estes a fim de se ter um escopo abalizado da elucubração racional.

Pois, a medida que Sócrates ensinou a diferenciar o saber da mera opinião, através da maiêutica, Platão desenvolveu uma apurada análise da realidade e conseguiu se aperceber da constituição ontológica da realidade, ao passo que Aristóteles sistematizou este saber a fim de compendiá-lo, não simplesmente por preocupação sistêmicas, mas para melhor organizar tal saber em função da educação e do ensino das gerações futuras.

Além disso, os três grandes filósofos também foram grandes educadores, diferentemente dos primeiros filósofos; Sócrates era eminentemente um educador; para Platão, a filosofia era propriamente educação; e para Aristóteles, a filosofia se desenvolvia a medida que acoplava corretamente os ideais da educação; assim, com os três grandes filósofos a filosofia passa a significar também educação; logo, se extrai uma glosa, a saber, de que onde se tem verdadeiramente um filósofo ai se tem um educador; a filosofia é educação, e a educação tem a ver com a filosofia.

7. Ora, quanto ao terceiro, com as escolas filosóficas, já que após os três grandes filósofos, as escolas filosóficas atinaram uma ebulição de possibilidades de reflexões filosóficas; o platonismo, o aristotelismo, o estoicismo, o epicurismo, os eleatas, os atomistas, os cínicos, os céticos, os pitagóricos, etc., enfim, todas as escolas filosóficas que antecedem e sucedem o período dos três grandes filosóficos, desenvolveram vários aspectos do que concerne ao saber racional; num geral, estas escolas filosóficas acoplaram um aspecto da filosofia, como por exemplo, ética, ou retórica, ou doutrina, e desenvolveram vários preceitos e observações; em alguns casos houvera algum equilíbrio, noutros não houvera equilíbrio, e estas escolas se tornaram um modo de compreender o mundo e a vida, e em muitos casos, passaram a deificar um único aspecto da realidade e/ou do próprio saber.

Por isso, no que estas escolas filosóficas desenvolveram em ordem ao saber, trouxera muitas coisas excelentes; mas no que deificaram de um único aspecto, tornaram estas escolas quase em doutrinas religiosas, exigindo daqueles que as seguisse quase que uma iniciação religiosa, o que fez com que estas escolas definhassem e fizesse com que a cultura grega aos poucos fosse se auto-implodindo e se secularizando da própria razão; a consequência disso é óbvia, a cultura helênica se tornou sincrética e acoplou elementos de outras religiões, e aos poucos foi se dissolvendo, e, com isso perdeu o ímpeto do desenvolvimento cultural, que só se recuperaria com os romanos; e embora em seu núcleo fundamental tenha permanecido intacto em suas expressões na vida social fora totalmente corrompida pelo desequilíbrio ontológico das escolas filosóficas.

8. Em suma, esta é a história do helenismo; pois, conquanto o helenismo tenha se desenvolvido, e em seu núcleo fundamental seja sempre metafísico, em suas expressões na cultura nem sempre o helenismo permaneceu helênico; embora as sociedades helênicas tenham sido corrompidas, o helenismo continuou vivo nas obras dos grandes filósofos, e continuou a influenciar o pensamento posterior; no entanto, no âmbito da vida sócio-política, o helenismo fora desfigurado, sendo depois acoplado por outros aspectos; mas, o helenismo enquanto doutrina filosófica permanece inalterado até os tempos atuais, apenas se amalgamou aos mais diversos ímpetos culturais, em alguns aspectos benéfico em outros não; etc. O helenismo, em si mesmo, é a primeira base da cultura ocidental, e é o fundamento à elucubração racional.

 

Parte II: A Latinidade.

 

9. A segunda base da cultura ocidental é a latinidade; ora, após a corrupção do helenismo no tocante a vida sócio-política, a Grécia antiga perdeu sua ênfase na “democracia”, e os antigos imperialismos orientais se acoplaram novamente na cultura ocidental, mas com outra forma; e como a vida sócio-política estava totalmente degradada, a mesma foi dominada por antigos impérios orientais, e teve sua derradeira corrupção com o império romano; no despontar mundial do império romano, surge a segunda base da cultura ocidental, a latinidade; e a latinidade, diferentemente do helenismo, surge num mundo dominado pela barbárie; por isso, a latinidade não surge na dialógica entre os saberes, ou entre utopismo e realismo, mas na busca dialética por uma ordem social que está sempre em constante tensão; embora tenha o ímpeto do desenvolvimento cultural, não têm o núcleo ontológico do helenismo.

10. Ademais, se pode compreender a latinidade através de dois aspectos: primeiro, o núcleo prático da latinidade; segundo, os mestres da latinidade.

11. Primeiro, o núcleo prático da latinidade; enquanto o helenismo tem um núcleo teorético abalizado, a latinidade é eminentemente prática; a rapidez e a praticidade da cultura romana moldaram a praticidade da latinidade; portanto, o núcleo prático da latinidade desenvolve-se tendo em vista tanto a organização da vida pública, quanto em relação a vida ética; por esta razão, na latinidade o direito se desenvolve a níveis mais perfeitos e as escolas filosóficas práticas, como por exemplo o estoicismo, se  desenvolvem de maneira mais abalizada; o direito e a ética estóica-latina se tornam faces da latinidade; e, certamente estes dois aspectos delineiam o que é a latinidade.

O direito no que concerne a vida pública, a organização da coisa pública e a natureza das leis; a ética estóica no que concerne a vida na virtude diante de uma sociedade não dada a elucubrações metafísicas, mas a necessidades cotidianas; para os romanos as elucubrações metafísicas eram apenas utópicas; por isso, dificilmente se tem reflexões metafísicas nos intelectuais romanos, mas sempre se tem ponderações éticas e descrições sobre questões ética (seja em relação a virtudes, seja em relação a vícios, etc.).

Por isso, num sentido a intelectualidade da latinidade acopla o instrumento da descrição sob a ótica platônica, mas sem o utopismo; e acopla o realismo aristotélico, mas sem o logicismo; assim, filosoficamente, a latinidade é uma amalgama de descrição real platônica com a precisão aristotélica, mas sem os aspectos ontológicos do platonismo e do aristotelismo.

Com isso, a latinidade se cristaliza na busca por precisão, sem as buscas metafísicas; em relação as descrições, a latinidade alcança muitos frutos salutares, e estabelece uma ampla gama de observações sobre a vida cotidiana, que vão da psicologia ao direito, bem como pressupõe uma ampla gama de princípios que dominam a ordem social a partir dos atos e das ações dos habitantes de uma sociedade.

12. Segundo, os mestres da latinidade; ora, a latinidade encontra expressão maior em seus mestres maiores; e, embora existam muitos, se pode evocar três entre os mestres da latinidade, a saber: primeiro, o literato da latinidade, Virgílio; segundo, o intelectual da latinidade, Cícero; terceiro, o filósofo da latinidade, Sêneca.

13. Primeiro, o literato da latinidade, Virgílio; ora, o literato maior da latinidade, e quanto a isso não há dúvidas, é Virgílio; o mestre da poesia latina soube concatenar não apenas a precisão poética que legaram a língua latina seu maior monumento, mas também soube como analisar e descrever toda a cultura latina em suas poesias de modo que nenhum intelectual ou filósofo latino fizera; por isso, ler Virgílio não apenas é se encantar com a beleza da poesia latina em seu maior representante, mas também é conhecer e compreender as nuances e perspectivas da cultura latina.

Deste modo, ao se ler, por exemplo, a “Eneida”, se compreende duas coisas: primeiro, a maestria na arte poética, numa precisão matemática, onde as nuances e formas da língua latina ganham expressões imorredouras; e, segundo, a cirúrgica capacidade de análise cultural, na qual se descreve os erros e acertos da latinidade, ao mesmo tempo em que aponta os erros e acertos que virão e suas respectivas consequências.

Portanto, se pode compreender em Virgílio não somente o literato da latinidade, mas o profeta da cultura latina e de toda a influência da latinidade nos tempos posteriores; tudo quanto concerne a latinidade, em seus altos e baixos, bem como o que emana da latinidade, em todos os seus aspectos, está disposto nas magníficas poesias virgilianas.

Em Virgílio se tem a compreensão de tudo o que foi, o que é e o que será da cultura latina em todos os tempos e em todas as épocas.

14. Segundo, o intelectual da latinidade, Cícero; ora, o intelectual maior da latinidade, sem dúvida, foi Cícero; o mestre romano, por assim dizer, conseguiu concatenar o espírito prático da cultura romana com o instrumento da descrição platônica, e, com isso, escreveu obras grandiosas, imprescindíveis até os tempos atuais; Cícero amalgamou as grandes questões comuns a cultura latina, e procurou dar uma solução a estas questões de forma racional, seja em relação ao direito, já que a sociedade romana era obstinada pelo direito, seja em relação a tópicos filosóficos, nos quais, Cícero, imbuído de um espírito ético-moral, procurou explicar as virtudes e/ou os vícios da sociedade em que vivia.

Por isso, o legado de Cícero continua imorredouro, pois os problemas da latinidade em sua época continuam a ser os problemas de todas as épocas; na verdade, o que Cícero pontuou dos problemas da sociedade em que vivia prediz os problemas de nossa sociedade; não somente no que diz respeito a ética individual em meio a uma sociedade plural, o que é comum na latinidade, mas principalmente no que diz respeito aos valores eternos em meio a comutação de princípios na degeneração cultural; neste sentido, Cícero foi um dos maiores, senão o maior, que contribuíram para a análise do estado da cultura. Portanto, o intelectual maior da latinidade.

Em Cícero se tem a compreensão de que o que emana da cultura latina, tanto no sentido das virtudes e/ou vícios no indivíduo, quanto no sentido das virtudes e/ou vícios na sociedade, bem como destes aspectos aferidos na ciência do direito; por isso também, Cícero é o jurista por excelência; etc.

15. Terceiro, o filósofo da latinidade, Sêneca; ora, um dos maiores filósofos da latinidade fora Sêneca; na verdade, em certo sentido se pode evocar Sêneca como o maior filósofo da latinidade antiga; pois, Sêneca, ao desvelar, racionalmente e moralmente, o estado de degeneração da latinidade, com sua própria vida se tornou em confronto com tais erros deploráveis; por isso, Sêneca sofreu dos líderes latinos o mesmo que Sócrates sofrera dos líderes atenienses; a vida e a obra de Sêneca testemunharam da sabedoria racional, da luz interior, de modo grandiloquente diante das loucuras insanas das consequências da degeneração da latinidade.

Por isso, as elucubrações de Sêneca, ao invés de buscarem solucionar problemas teoréticos, buscou ensinar a virtude ao combater os vícios, e vice-versa; Sêneca, neste sentido, seguiu o caminho platônico, a explicação da virtude como preceito propedêutico ao saber, já que só quem possui virtude consegue alcançar o saber; e, em meio as terríveis vicissitudes que vivenciou, testemunhou do consolo da sabedoria através de seus escritos, naquilo que séculos depois Boécio conseguiria demonstrar de maneira grandiloquente; a filosofia de Sêneca fora temperada em meio a aflição, mas mesmo assim ele não perdeu de vista o ideal do saber, a vida na virtude.

Em Sêneca se tem a compreensão de que mesmo em meio a uma sociedade utilitarista e empírica, se deve caminhar em busca do saber por meio da virtude, a qual é indispensável a todos quantos buscam enfrentar as vicissitudes da degeneração cultural; disto Sêneca testemunhou de maneira grandiosa.

16. Ora, a partir dos mestres da latinidade que foram evocados, se compreende que a latinidade, seja no sentido literário, seja no sentido jurídico, seja no sentido filosófico, tem os mesmos caracteres; seja na poesia, seja em reflexões jurídicas, seja em reflexões filosóficas, a latinidade sempre demonstra-se em função da razão prática; o que o helenismo desenvolveu na razão pura, a latinidade desenvolveu na razão prática; o helenismo tem um núcleo metafísico e a latinidade tem um núcleo ético.

E a eticidade da latinidade, seu caractere indissolúvel, demonstra duas coisas: primeiro, o mundo ético, isto é, a distinção entre lei humana e lei divina, e as respectivas ações dos seres humanos em função disso; segundo, a ação ética, isto é, a ação humana em relação ao imperativo ético. Em suma, isto se constitui o espírito da latinidade, mundo ético e ação ética - embora, isto seja efetivado na latinidade sem a perspectiva de uma revelação divina, o que compreendendo a vida no mundo romano se dá para entender sem muita dificuldade.

17. Ademais, a latinidade, em si mesma e no que produz, é a segunda base da cultura ocidental, e é o que dá forma ao ímpeto do desenvolvimento sócio-político da cultura ocidental; por isso, a vida sócio-política do Ocidente, em seus altos e baixos, é expressão precisa do que é a latinidade, que é uma amalgama de xamanismo no sentido social com razão prática no sentido intelectual. Na verdade, a latinidade transmogrifou o antigo xamanismo e o inoculou na ordem social, na tentativa de o domesticar; e realmente na latinidade o xamanismo foi domesticado até certo ponto, todavia a latinidade assomou parte da desordem inerente do xamanismo do período da religião primeira; no entanto, esta desordem não tem mais caracteres puramente xamânicos, mas transmutou-se em um tipo de desordem inerente a latinidade (a desordem sócio-política); etc.

 

Parte III: O Cristianismo.

 

18. A terceira base da cultura ocidental é a religião cristã; a formação da cultura cristã, com a vida e obra de Jesus Cristo, o testemunho dos apóstolos, etc., permeou o helenismo e a latinidade; tanto o é, que formou-se uma cristandade que seguiu a linha helênica, a cristandade grega, e formou-se uma cristandade que seguiu a linha latina, a cristandade latina ou romana; embora nos primeiros séculos seja uma única e indivisa cristandade, já dá para se perceber dois princípios distintos na formação da religião cristã.

Assim, o cristianismo se tornou a terceira base da cultura ocidental, permeando o helenismo e a latinidade, dando-lhes outras perspectivas, e levando adiante o que havia de melhor tanto na cultura helênica quanto na cultura latina. O cristianismo foi o fermento que levedou a boa massa do helenismo e da latinidade.

Ora, se faltava no helenismo um padrão que desse forma adequada as descobertas filosóficas, esse padrão foi encontrado no cristianismo, a religião do Logos, da razão; e se faltava a latinidade uma moral sóbria, essa moral foi desvelada no cristianismo, a religião da vida correta, a religião da verdadeira razão prática.

Portanto, o cristianismo surgiu como cumprimento tanto para o helenismo quanto para a latinidade, utilizando-se do que a cultura grega e a cultura latina tinham de melhor e burilando isso para o bem comum.

19. Ademais, se pode compreender o cristianismo através de três aspectos: primeiro, o cumprimento da cultura hebraica; segundo, o cumprimento da cultura helênica; terceiro, o cumprimento da cultura latina.

20. Primeiro, o cumprimento da cultura hebraica; ora, o cristianismo é a religião do cumprimento da cultura hebraica; a cultura hebraica, que Deus estabeleceu para outorgar ao mundo Sua revelação, era fragmentária e parcial; por isso, necessitava e apontava para um cumprimento perfeito e completo; este cumprimento perfeito e completo se consumou em Jesus Cristo; portanto, sendo a religião cristã a religião da revelação, e sendo Cristo o zênite da revelação, em Cristo e na fé n’Ele se cumpre a cultura hebraica; de fato, Cristo é o testador de uma cultura superior a cultura hebraica (cf. Hb 7.22, 8.6).

Além disso, a cultura hebraica reclamava e apontava para um cumprimento por três razões: primeiro, porque as cerimônias judaicas eram sombras de coisas futuras, pois necessitavam de aperfeiçoamento (cf. Hb 7.18-19); segundo, porque a lei cerimonial e a lei judicial são em si mesmas caudatárias, isto é, necessitam de algo maior e superior (cf. Hb 7.28); terceiro, porque a revelação divina na cultura hebraica foi a preparação para algo mais perfeito, isto é, a lei mosaica é o pedagogo que conduz a Cristo (cf. Gl 3.24).

Deste modo, tendo como base a premissa voegeliana, a cultura hebraica foi o primeiro princípio rumo a uma ordem revelacional outorgada pelo próprio Deus como expressão de Sua vontade soberana; em busca da ordem, de uma ordem plena e humana, os homens tiveram na cultura hebraica uma primeira manifestação do que Deus quisera revelar aos homens de boa vontade.

O cristianismo é o cumprimento da cultura hebraica a fim de cabalmente instituir uma ordem revelacional de acordo com aquilo que Deus estabeleceu para o todo da vida humana. Em sentido teológico, isto é o que significa o cristianismo no plano da revelação divina, conquanto a revelação de Deus seja a abolição das falsas religiões para a demonstração racional da religião verdadeira (cf. Tg 1.27).

21. Segundo, o cumprimento da cultura helênica; ora, o cristianismo é o cumprimento da cultura helênica; pois, do mesmo do que o cumprimento religioso em relação a cultura hebraica, a fé cristã também é o cumprimento do pensamento racional; a cultura helênica, a do pensamento puramente racional, tem seu cumprimento na Razão Divina, Cristo; o helenismo é o cume da elucubração puramente racional; e o cristianismo eleva isso, tanto porque é o cumprimento da cultura hebraica, quanto porque é a religião da reta razão; no cristianismo, a racionalidade ganha expressão plena na elucubração religiosa.

Outrossim, é que no cumprimento da cultura helênica, o cristianismo torna-se também ímpeto para a edificação cultural; por isso, o fermento da cultura ocidental foi mistura sob a massa social a partir da religião cristã, onde a questão religiosa e a questão racional se amalgamaram de forma a religiosidade se mostrar racional e a racionalidade se mostrar com alcance metafísico; com efeito, o cristianismo cumpre a cultura helênica ao mostrar a excelência da racionalidade manifesta no Logos, Aquele do qual todos os filósofos falaram e elucubraram.

22. Terceiro, o cumprimento da cultura latina; ora, o cristianismo é o cumprimento da cultura latina; pois, se em sentido teológico o cristianismo é o cumprimento da religião hebraica, e em sentido filosófico o cumprimento da cultura helênica, em sentido social e cultural o cristianismo é o cumprimento da cultura latina; o cristianismo é o cumprimento do núcleo social da cultura ocidental; a cultura latina fermentou o ímpeto da vida social e cultura com o viés prático para a vida; por isso, o cristianismo ao ser o cumprimento da cultura latina, tornara-se o fermentador do verdadeiro humanismo em vista do bem de todos os homens.

Portanto, ao ser o cumprimento da cultura latina, o cristianismo ganhou expressão social, não no sentido político, mas em função de aplainar o núcleo da vida social sem a perversão da deificação da algum “eu” em detrimento do todo da pluralidade da vida; o cristianismo cumpriu a cultura latina em vista de proporcionar à humanidade aquilo que é próprio da humanidade, a saber, a multipluralidade de manifestações da vida e do viver; a uniteralidade do paganismo total foi vencida pela multilateralidade da fé humanizadora (fé cristã); em suma, nisto constitui o cristianismo enquanto cumprimento da cultura latina; etc.

23. Ora, a partir da compreensão sobre estes três concernentes a religião cristã, se entende as razões do porque o cristianismo permeou tão bem as culturas antigas e as deu nova forma e seguimento, sem se deixar moldar por elas e sem sincretizar religiosamente com os preceitos religiosos das culturas pagãs; por isso, o cristianismo foi a religião que deu o ímpeto necessário para que todo o saber antigo se desenvolvesse, e se tornou o pilar, o guardião vertical da cultura, a fim de que a cultura não sofra a invasão vertical dos bárbaros; embora sempre se tenha crises na cristandade, a mesma deve continuar a servir como este guardião, a fim de que o múnus da cultura não seja trucidado pelo bárbaros - em tempos modernos, não só os invasores horizontais, mas também os invasores verticais.

24. E, por fim, se compreende que num todo a cultura ocidental é uma cultura formada em tríplice perspectiva; para me utilizar de um termo do barroco alemão, uma cultura triadosófica; a tríplice perspectiva que fermentou a cultura ocidental é uma cultura em tríplice sabedoria, e em tríplice estruturação: religião, cristianismo; pensamento racional, filosofia grega; estamento jurídico, direito romano. Em todas as outras grandes culturas se tem o mesmo estilo de estruturação, mas apenas a cultura ocidental o tem com estes três princípios em conjunto.

A religião cristã, a filosofia grega e o direito romano formaram o núcleo e o múnus da cultura ocidental; na verdade, como já fora muitas vezes afirmado, a filosofia, a teologia e o direito são os três pilares da cultura ocidental. Num geral, este é o escopo da cultura ocidental; mas também é bom que se saiba que haveria de se falar sobre o islamismo e a ciência, que também influenciaram e influenciam a cultura ocidental.

Outrossim, é que se deve ponderar sobre a cultura ocidental a partir dessa tríplice perspectiva para se entender que a cosmovisão ocidental foi moldada em três perspectivas que açambarcam o todo da vida.

25. Por isso, onde houvera a corrupção do cristianismo, principalmente por causa de usurpação praticada, surgira o islamismo; onde houvera a corrupção da filosofia racional, surgira o cientificismo; e onde houvera a corrupção do direito romano, surgira o juspositivismo. A face ocidental em tempos hodiernos é oriunda da corrupção dos três pilares fundantes da cultura ocidental; nesta corrupção surgiram os substitutos para estes três pilares; o cientificismo hodierno, a secularização da religião cristã, o justiçamento juspositivista, etc., se tornaram a face ocidental por causa da desfiguração desses três pilares, e assim criou-se uma cultura com um núcleo corrompido e corruptor, mas que mantém o invólucro dito clássico. Este é um grande problema da cultura ocidental: perdeu-se a essência, mas manteve-se uma forma vazia e opaca; etc. E o que fora dito basta para uma explicação sobre a cultura ocidental. 

26. E termina aqui esta explicação. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém. 


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