Prólogo
A dialógica entre guerra e paz é algo que permeia
totalmente a vida humana, aceitem os homens isso ou não; aliás, o Pregador, na
antiguidade, já houvera alertado sobre esta dialógica inegável e imutável da
vida humana: “tempo de guerra e tempo de paz” (Ec 3.8b); ora, sendo esta
dialógica algo inegável a vida humana, se faz necessário compreender o que se
deve entender sobre a guerra e o que se deve entender sobre a paz, a fim de não
se decair em lentes ideológicas que buscam velar o que concerne a guerra e o
que concerne a paz.
Portanto, tendo em vista a necessidade de se entender
corretamente a dialógica entre guerra e paz, se faz uma meditação filosófica a
fim de aclarar estes e outros aspectos, para pelo menos se desenvolver uma
compreensão abalizada a respeito desta dialógica que nunca deixará de existir
na vida humana neste mundo; a tensão entre guerra e paz é algo inescapável a
vida humana.
I
Ao se
falar sobre a guerra, se deve evocar a questão sobre o belicismo; pois, aqueles
que não compreendem de fato no que consiste guerra, no que consiste sua
necessidade e no que consiste suas consequências hediondas, serão permeados
pelo belicismo; mais propriamente, o assenhoramento ideológico da guerra; o
belicismo é assenhoramento ideológico da guerra; ora, mesmo que seja algo terrível
existem algumas ocasiões onde a guerra se faz necessária; além destas ocasiões,
se houver utilização da guerra, então se tem assenhoramento ideológico da
guerra; ou dito em outros termos, a não ser para defender a liberdade, a existência
nacional, etc., ou para combater algum crime terrível e hediondo praticado em
massa, não se é permissível a guerra por razões racionais.
Assim,
cumpre entender no que consiste o belicismo; e para isso são evocadas seis
proposições, as quais são:
1. O
belicismo é a utilização da guerra para propósitos de expansão desnecessária;
muitas nações utilizam-se da guerra para alcançar uma expansão desnecessária e
ilegal, a fim de vários propósitos nefastos; ora, quem se utiliza da guerra
para este fim é belicista.
2.
Ademais, o belicismo é a utilização da guerra para destruir outra nação ou
grupo sem que este tenha cometido crimes hediondos; os belicistas advogam a
destruição de nações ou grupos específicos a fim de ganharem status ou poder; e
neste caso, quando se chega a situações extremas, propagam até mesmo a ideia de
purificação racial; esses e outros aspectos amalgamados demonstram belicismo.
3.
Ademais, o belicismo é a utilizar a guerra para propósitos de enriquecimento ilícito;
muitos se utilizam da guerra para enriquecer e roubar minerais e riquezas de
territórios que pertencem a outrem; quem se utiliza da guerra para este fim é
belicista.
4.
Ademais, o belicismo é aproveitar-se da guerra para criar uma máquina de
propaganda, na qual se propaga uma série de mentiras programas para gerar um
estado de sonho nas pessoas, as quais acabam por apoiar sem se aperceber
guerras fratricidas e sanguinárias como se fosse algo bom e necessário; a
propaganda belicista busca gerar nas pessoas a indolência quanto a percepção da
maldição da guerra.
5.
Ademais, o belicismo é utilizar a guerra para fins nacionalistas; o
nacionalismo é notadamente belicista; por isso, como o nacionalismo é algo
irracional (e incompatível com a fé), então o belicismo também é algo
irracional; aliás, as burrices programadas instituídas pelo nacionalismo chegam
ao ponto de se inventarem os mais imbecilóides sofismas em favor da guerra
nacionalista; por isso, onde há nacionalismo logo haverá belicismo.
6.
Ademais, o belicismo é instrumentalizar a guerra para qualquer propósito outro
além do que é racionalmente descrito como “necessário”; como fora
analisado e descrito anteriormente, existem situações onde a guerra
infelizmente se faz necessária; todavia, a utilização da guerra além destas
situações, obviamente demonstra os tentáculos do belicismo.
Ora,
estas proposições evocadas num sentido geral demonstram alguns aspectos de no
que consiste o belicismo; em suma, o belicismo é a utilização da guerra para
qualquer propósito que não seja as razões aceitáveis para se utilizar do
instrumento da guerra; portanto, o belicismo é a instrumentalização da guerra
para qualquer propósito de quando a guerra não se faz necessária.
Deste
modo, toda instrumentalização da guerra tende ao belicismo; pois, o belicismo
corrompe a compreensão sobre a guerra, bem como desfigura a pressuposição
racional sobre a guerra, tanto quanto o pacifismo. Belicismo e pacifismo aparentemente
são dois princípios contrários, mas os dois levam para o mesmo fim, a saber,
guerra total.
II
A
paz, em sentido teológico, é o que deseja todos os homens de bem; e em sentido
filosófico, a paz é parte da vida virtuosa; assim sendo, a paz é algo que faz
parte da vida, tanto quanto a guerra; entretanto, os homens de bem hão de ter
predileção pela paz e hão de amar a paz; pois, somente assim a maldição da
guerra não se torna algo corriqueiro, e quando esta se fizer necessária, se
saberá como proceder diante das terríveis consequências da guerra.
Portanto,
cumpre compreender no que consiste a paz; para isso, se põe a indagação: o que
é paz? Para responder a esta indagação se evoca cinco proposições:
1. A
verdadeira paz não é ausência de conflito ou de problemas; pois, muitos,
imbuídos pelos grimórios do pacifismo, estão de tal modo desfibrados que buscam
uma paz de cemitério, como se a própria vida fosse desprovida de conflitos,
vicissitudes e problemas; a verdadeira paz, no sentido existencial-social, é a
ausência de males que destroem a vida humana de maneira deliberada.
2.
Ademais, a verdadeira paz não é ausência de armas; pois, como George Washington
dissera: “estar preparado para a guerra é a melhor maneira de preservar a
paz”; o kantismo é que propaga que paz é ausência de armas; portanto, a
verdadeira paz não é a ausência de armas, mas a sobriedade consciente de
utilizá-las somente de quando realmente se faz necessário e não como a
propaganda belicista promove.
3.
Ademais, a verdadeira paz é demonstrada no respeito absoluto pela liberdade; os
pacifistas instituíram uma propaganda que o inimigo da paz são as guerras,
enquanto que na verdade o maior inimigo da paz é a vituperação da liberdade;
fala-se contra a guerra, mas não fala-se nada em relação a destruição da
liberdade; acomodar-se com a destruição da liberdade e incomodar-se com a
guerra é hipocrisia: ambas são terríveis, posto que as mais das vezes a última
é consequência da primeira.
4.
Ademais, a verdadeira paz é demonstrada na fraternidade social; ora, a
fraternidade social só existe sob a liberdade; por isso, onde não há liberdade
não haverá fraternidade social; e onde não há fraternidade social se formará
uma sociedade de conflitos; e isso atinará os pacifistas para cada vez mais
atormentarem a ordem social em busca de uma falsa paz, a paz de cemitério; a
sociedade de conflitos que emerge através da falta de fraternidade social é uma
ampla sementeira para os pacifistas, que buscam através de conflitos apregoar e
impregnar uma compreensão errônea sobre a paz.
5.
Ademais, a verdadeira paz é o desejo de todas as pessoas de bem; ora, as
pessoas de bem são as que vivem de acordo com a reta razão e de acordo com as
virtudes; assim, os pacificadores são aqueles que vivem de maneira ordenada e
de maneira virtuosa; aqueles que não são virtuosos de maneira nenhuma desejarão
a verdadeira paz, antes buscarão substitutos para a mesma; por isso, a
verdadeira paz requer virtude e ordem; tanto o é, que no sentido jurídico isto
diz respeito a observação e a preservação da lei e da ordem, imprescindíveis
para a paz social.
III
E, a
partir disso, convém também entender o pacifismo. Pois, aqueles que não
compreendem corretamente no que consiste a paz serão dominados pelos grimórios
do pacifismo; pois, o pacifismo é o assenhoramento ideológico da paz; assim, a
guisa de conclusão desta meditação, cumpre evocar a compreensão sobre o
pacifismo.
Ora,
quanto a isso, se deve evocar dois aspectos: primeiro, como se dá o
assenhoramento político da paz, ou seja, no que consiste o pacifismo; segundo,
como se institui o pacifismo pela impregnação passiva de hábitos, ou seja, como
o pacifismo passa a ser aceito como algo correto.
1.
Primeiro, como se dá o assenhoramento político da paz, ou seja, no que consiste
o pacifismo; pois, o pacifismo é uma doutrina estranha tanto a reta razão
quanto a revelação; o pacifismo é irracional e anti-revelacional.
Ora,
o pacifismo é instituídos em tempos modernos a partir de dois princípios
gerais: primeiro, através do kantismo que evoca um pacifismo de
cemitério como parte de uma ética da razão prática; ora, o kantismo é
anti-cristianismo e anti-razão; logo, a dialética da paz propugna por Kant em “À
Paz Perpétua” é algo irracional e irreal, já que Kant propugna de maneira
filosófica um tipo de paz que não condiz com a realidade, nem pela elucubração
com o lume da luz interior nem pela elucubração com o lume da luz superior; a
paz que Kant propugna não tem base nem filosófica nem teológica; a paz kantiana
é a paz daqueles que buscam “mundos irreais”. Por isso, o pacifismo é fuga
da realidade.
Segundo, através da acoplação do pacifismo
kantiano pelo marxismo; ora, o marxismo toma o pacifismo kantiano como parte de
sua luta para implementar uma revolução mundial; na verdade, o pacifismo se
torna um dos estágios para o marxismo implementar sua revolução mundial tal
como afirmara Lênin[1];
assim, o pacifismo além de ser proveniente de Kant, é amalgamado e transmutado
pelo marxismo; assim, a partir desta sentença de Lênin, o pacifismo fora
impregnado na doutrina marxista.
Portanto,
como o pacifismo é parte da doutrina marxista, então onde há propagação do
pacifismo se tem a propagação do marxismo e do kantismo; e é de se estranhar
como se tem inúmeros “cristãos” que promovam e defendam o pacifismo;
pois, os “cristãos” que promovem o pacifismo estão promovendo kantismo e
marxismo; a propagação do pacifismo é a propagação de duas doutrinas
anti-cristãs; aliás, é estranho até que os próprios marxistas propaguem
pacifismo, pois o pacifismo também não condiz com a doutrina marxista.
A
base filosófica do pacifismo é o kantismo, e a base sócio-política do pacifismo
se impregna no marxismo. Os pacifistas são, sem exceção, kantianos, mesmo os
pacifistas que se dizem “cristãos”; pois, a aquiescência a uma doutrina,
mesmo que inconsciente, demonstra sujeição a esta doutrina; e quem está sujeito
a uma doutrina ideológica é serviçal da vontade de poder desta ideologia.
2.
Segundo, como se institui o pacifismo pela impregnação passiva de hábitos, ou
seja, como o pacifismo passa a ser aceito como algo correto; pois, a busca pela
paz, algo bom, é transmogrifada em pacifismo de maneira inconsciente, e assim
se torna em algo maléfico; o pacifismo se impregna de modo quase que
imperceptível, e se torna a palavra de ordem, mesmo sendo o pacifismo um dos
maiores inimigos da paz.
Ora,
o pacifismo é impregnado de dois modos: primeiro, pela propagação de uma
falsa ideia de paz; o pacifismo não é paz, e paz não é pacifismo; o pacifismo é
indolência de quem deixou de lutar diante das contradições da vida; por isso,
os pacifistas arrolam condutas indolentes como mote para quando vem alguma
situação difícil, tal como a guerra, pois querem deixar de lado a conduta
correta diante das dificuldades; o pacifismo desfibra a conduta reta.
Segundo, pela propagação de doutrinas que
incentivam o belicismo; muitas doutrinas ideológicas dizem propagar e defender
a paz, quando na verdade o fazem apenas para engano e manipulação propagandística,
como por exemplo faz o sionismo; as doutrinas pacifistas são de fato doutrinas
belicistas; assim, propaga-se a ideia de falsa paz pela máquina de propaganda
quando na verdade incentivam as mais injustas e cruéis guerras; o belicismo se
torna impregnado inconscientemente quando há aceitação passiva do belicismo;
pois, o belicismo impregna de tal modo que torna a compreensão sobre a guerra
desfigurada, impossibilitando qualquer ação efetiva contra as guerras injustas.
[...]
Assim,
filosoficamente se chega a conclusão de que o pacifismo não é o contrário da
guerra ou o antídoto para a guerra; mas, o pacifismo é a preparação
inconsciente para a guerra - e guerra total (tal como o belicismo).
A
descrição aprofundada e precisa da doutrina e da práxis pacifista, somada com a
descrição da ação dos pacifistas, é um excelente meio para que se compreender
como o pacifismo é utilizado cabalmente como um instrumento do belicismo. E a
análise fenomenológica do pacifismo atesta isso de maneira apodítica.
E termina aqui esta meditação filosófica. θεῷ χάρις!
[1] cf. Vladimir Lênin, Os Destinos
Históricos da Doutrina de Karl Marx, parte II.
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