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12/11/2025

Nietzsche e o Cristianismo

I

 

Ao novamente ver algumas críticas imbecis sobre a filosofia de Nietzsche, agora quanto ao que Nietzsche falara sobre o cristianismo, decidi escrever um breve artigo para esclarecer de maneira justa a posição de Nietzsche sobre o cristianismo; pois, ao se tomar erroneamente, como todos fizeram e fazem, o livro “O Anticristo” (1888), sem entender o seu real propósito na antítese evocada, que apesar da crítica aguda ao cristianismo não é evidência de anticristianismo, antes é crítica ao falso cristianismo - e nisto Nietzsche está totalmente certo.

Pois, qualquer crítica, aguda ou não, pode vir em teses ou em antíteses; se for em teses se contrapõe totalmente e absolutamente ao objeto criticado, como por exemplo, as críticas de Kant; e se for em antíteses se contrapõe aos erros e desvios do objeto criticado a partir de teses já formuladas que podem ser ocultas ou não - e isto, especificamente, é o que Nietzsche fizera.

Assim, se tem a filosofia crítica; ou da crítica absoluta, como Kant e Hegel, ou da crítica que busca esfarelar os falsos ídolos, como Nietzsche fizera. Deste modo, o problema não está na crítica em si, mas no modo e no propósito com que se critica, bem como no método utilizado para a crítica. Portanto, ao se criticar um filósofo crítico, antes de tudo é bom entender tudo quanto concerne a tal critica, o que na prática ninguém busca fazer (principalmente em se tratando de Nietzsche).

E isto se exemplifica do seguinte modo: Kant criticou tudo com ceticismo absoluto, e é valorado como cristão e grande filósofo; Hegel criticou tudo com o propósito de se tornar um “deus” e subjugar tudo a si, e é tido como um luterano totalmente ortodoxo; aí vem Nietzsche, critica erros abruptos e terríveis com notória genialidade, e é chamado de ateu e anti-homem; logo, etc.

Enfim, se vai brevemente explicar o que Nietzsche entendia do cristianismo, para pelo menos livrar da filosofia de Nietzsche a sombra de anticristianismo ateísta que paira sobre a mesma, e para mostrar que se houve alguém na filosofia que compreendeu o cristianismo, esse alguém fora Nietzsche.

 

II

 

A vida de Nietzsche, principalmente sua formação moral e intelectual, foi permeada pelo cristianismo; a experiência cristã de Nietzsche foi cultivada naquilo que de melhor o protestantismo já teve; embora em meados do séc. XIX, o protestantismo já tivesse sido dominado primeiramente pelo iluminismo, e depois totalmente pelo hegelianismo, a família de Nietzsche, de uma longa linhagem de pastores luteranos, ainda mantinha a devoção pessoal pietista e o culto ao estudo da época dos escolásticos luteranos; Nietzsche aprendeu sobre o cristianismo neste ambiente; e, diga-se de passagem, que se existe algo respeitável no protestantismo no sentido intelectual é justamente a escolástica luterana (ou ortodoxia luterana).

Na verdade, Nietzsche, que pensava em seguir a carreira pastoral, foi ensinado na teologia luterana desde criança - naquilo que de melhor o luteranismo já teve; Nietzsche aprendeu muito mais e muito melhor sobre o cristianismo do que quase todos os teólogos protestantes de língua alemã do séc. XIX, apesar de ter seguido a carreira acadêmica na filologia, e apesar de ter se “distanciado” do cristianismo em sua vida adulta; pois, a maior parte destes teólogos se desenvolveu em meio ao liberalismo teológico, enquanto Nietzsche foi ensinado entre o pietismo tardio e o cultivo da erudição dos teólogos-filósofos da ortodoxia luterana.

Aliás, quanto a isso, se pode mencionar um aspecto curioso; era prática comum do pietismo, desde Spener (o pai do pietismo luterano), e que depois se assomou no moravianismo (através do conde Zinzendorf), que a família pastoral dos pietistas, entre filhos, netos, bisnetos, primos, etc., se cantasse todo dia um hino em honra a Cristo quando estivessem juntos sentados a mesa (geralmente na parte da noite); com quase absoluta certeza, embora não se tenha como provar por documentos, Nietzsche fazia isso quando criança; pois, era parte de uma família pastoral luterana, a qual mesmo no séc. XIX ainda mantinha este costume.

Então, Nietzsche aprendeu o que de melhor havia em relação a espiritualidade protestante, embora com excessos, e aprendeu o que havia de melhor em relação a intelectualidade protestante (e realmente aprendeu algo de valor intelectual); e tanto em relação a piedade quanto em relação a intelectualidade, entre o que Nietzsche aprendeu e entre o que a abstrata cristandade da segunda metade do séc. XIX praticava e vivia, se tem um abismo continental, mesmo em se tratando do protestantismo.

No protestantismo que Nietzsche apreendeu, pelo menos existia caráter, honra, racionalidade e bom senso; já protestantismo que ele viu em sua juventude e vida adulta era expressão de falta de caráter, desonra, irracionalidade e total falta de bom senso. No cristianismo que Nietzsche viu já adulto não havia mais nada de fé cristã; aliás, este cristianismo era puro hegelianismo; por isso, Nietzsche martelou com “veemência” o fétido cristianismo hegeliano.

Ora, se se estudar com atenção, se compreenderá que o cristianismo que Nietzsche aprendeu até poderia, com cautela, ser respeitado como “cristianismo”, mas o que cristianismo que ele viu na cristandade de língua alemã de sua época (a maior parte protestante, e uma pequena parcela de católicos), era totalmente contrário a verdadeira fé cristã; o cristianismo que Nietzsche viu e observou quando adulto era um cristianismo totalmente corrompido, tanto no sentido moral quanto no sentido intelectual.

Por isso, as críticas ferrenhas de Nietzsche contra este tipo de cristianismo estão totalmente corretas; aliás, a críticas de Nietzsche foram um pouco “proféticas”, pois os filhos da geração que ele duramente criticou acabaram por adorar Hitler como uma nova “revelação da história”, como alguém superior a Jesus Cristo; ora, os erros de uma geração são filhos dos erros da geração anterior; etc.

Portanto, Nietzsche estava certo no que criticou da cristandade de sua época e de seu contexto; trinta anos após sua morte, suas palavras se mostraram totalmente corretas, pois a formação dos “cristãos alemães” (deutsche christen) comprova cabalmente a veracidade e a verdade da crítica abrupta de Nietzsche.

 

III

 

Ora, em relação a crítica de Nietzsche ao cristianismo, a mais contundente e aguda está em seu livro “O Anticristo” (1888), embora se tenham observações factuais em toda a sua obra; no próprio título já dá para perceber isso; todavia, este livro, apesar de curto, na verdade um ensaio, não é tão simples - aliás, é um livro dificílimo; as críticas são abruptas, veementes e diretas, quase no estilo do profetismo veterotestamentário.

No entanto, entender o real propósito destas críticas e o fundamento das mesmas, não é algo tão simples; pois, este livro não somente é expressão de uma mente genial, com profunda capacidade de análise, mas é como que um desabafo de um homem virtuoso e sincero ao ver um cristianismo dominado pelo hegelianismo.

E este é um princípio fundamental para entender a crítica abrupta de Nietzsche ao cristianismo; ele não critica o cristianismo simplesmente por criticar; na verdade, o propósito de Nietzsche é esfarelar os ídolos do sistema da ciência de Hegel, mesmo os que se impregnaram na religião; e como o protestantismo do séc. XIX (e como também o protestantismo dos sécs. XX e XXI), é totalmente permeado pelo hegelianismo, Nietzsche, com total razão, se vociferou contra este tipo de cristianismo.

Por isso, a crítica de Nietzsche ao cristianismo não somente se deve aos desvios morais e intelectuais da cristandade de língua alemã do séc. XIX, mas principalmente por que a cristandade de língua alemã de sua época era totalmente hegeliana (aliás, o liberalismo teológico protestante, na verdade, é cristianismo hegeliano). A crítica de Nietzsche ao cristianismo é a crítica ao cristianismo hegeliano, ao cristianismo que, mesmo que de maneira inconsciente, tem Hegel como “deus” e não Cristo.

Assim sendo, as teses evocadas em “O Anticristo”, na verdade são antíteses; antíteses postas a partir de teses; embora, neste escrito, sejam teses ocultas (tal como o sujeito oculto na gramática); Nietzsche apresenta teses (antíteses) muito bem concatenadas que esfarelam o cristianismo hegeliano; as antíteses de Nietzsche são marteladas cirúrgicas contra as teses do cristianismo hegeliano.

Ora, estas teses (antíteses), são postas tendo em vista dois aspectos: primeiro, a contraposição a uma tese correta através de uma antítese errada, para através do erro mostrar a veracidade da tese (oculta) criticada. Segundo, a crítica abrupta contra alguma tese posta pelo cristianismo hegeliano, que tem aparência de cristianismo, mas cristianismo não é; a maior parte destas teses (antíteses), é posta contra preceitos hegelianos que se impregnaram no cristianismo como se fossem parte da fé cristã (através da impregnação passiva de hábitos).

Aliás, neste interim, surge uma indagação: por que Nietzsche se utilizou do método tese-antítese e não o método de tese-antítese-síntese? Ao que parece, dado ao estilo da crítica nietzschiana, a mesma se enquadraria melhor no método tese-antítese-síntese; pois, antíteses evocadas com teses ocultas quase que “reclamam” uma síntese.

Ora, a resposta a esta questão é bem simples: Nietzsche se utilizou do método tese-antítese, porque se fosse colocar uma síntese entre a tese oculta e a antítese evocada, seguiria o princípio da lógica hegeliana; Nietzsche procurou evitar justamente isso, já que lutou contra a parafernalia dialética de Hegel, o que lhe custou a própria saúde.

Assim, Nietzsche fez antítese em relação a teses ocultas; e conquanto isso gere muito mais dificuldades para a compreensão, e tenha feito que ele tenha sido totalmente incompreendido, pelo menos não o sucumbiu - nem ele nem os seus leitores -, nos círculos mágicos da lógica hegeliana.

As antíteses de Nietzsche não permitem sínteses (graças a Deus!): ou estão certas ou estão erradas; aliás, isso demonstra que Nietzsche está em total conformidade com a lógica aristotélica, com as leis do pensamento correto.

Portanto, se constata que esses dois aspectos estão entrelaçados e interligados em todo esse ensaio de Nietzsche; compreender o que concerne a estes aspectos é compreender o núcleo da crítica nietzschiana ao cristianismo. Nietzsche, que é chamado um dos “cavaleiros do Apocalipse”, lutou em sua obra contra o espírito apocalíptico do fim dos tempos (o espírito dialético).

E estas são apenas algumas observações sobre no que concerne a crítica de Nietzsche ao cristianismo.

Ademais, o ensaio “O Anticristo”, é um ensaio de uma crítica do cristianismo; observe-se bem: uma crítica do cristianismo, e não uma crítica ao cristianismo (a tradução na língua de Camões capta bem o sentido pretendido por Nietzsche); e não somente uma crítica, mas como consta nos manuscritos de Nietzsche, uma maldição sobre o cristianismo; especificamente, uma maldição contra o cristianismo que foi impregnado pelos princípios hegelianos, tanto em suas formas interiores quanto em suas formas exteriores.

Na verdade, o que Nietzsche pretendia com este ensaio, e outros escritos da filosofia crítica, era uma reavaliação; uma reavaliação dos valores reais, dos valores que se instituem a partir das verdades eternas, os quais haviam sido transmogrifados pelo sistema da ciência; a reavaliação dos valores proposta por Nietzsche, também tem inserida uma reavaliação do cristianismo, uma reavaliação do cristianismo para tentar livrá-lo de Hegel. Neste sentido, e para assombro e estupefação de todos, Nietzsche fez mais para o bem do cristianismo do que quase todos os teólogos posteriores.

Pois, o cristianismo que Nietzsche viu e o cristianismo que ele analisou, era um cristianismo dominado por Hegel e inserido nos círculos cabalísticos do sistema da ciência (ou dito em outros termos, era um cristianismo dominado pela feitiçaria, pois cristianismo hegeliano é cristianismo mágico).

E estas palavras são apenas uma sumula sobre em que consiste a crítica de Nietzsche ao cristianismo. E, certamente, isso será uma surpresa para muitos, posto que ninguém que fala de Nietzsche procurou compreender a natureza de sua crítica ao cristianismo.

Por isso, chega-se a um veredito inicial: no que Nietzsche crítica do cristianismo hegeliano (e há de se entender isso corretamente), ele está totalmente correto; quanto a isso, mesmo em relação a mais abrupta crítica, não há contra o que argumentar.

Assim sendo, a crítica de Nietzsche ao cristianismo nunca perderá sua atualidade e vitalidade enquanto a cristandade (principalmente o protestantismo) for dominada pelo sistema da ciência de Hegel. Nietzsche, portanto, é incontornável.

***

Ora, em suma, isto é o que concerne a compreensão sobre a relação entre Nietzsche e o cristianismo; mais propriamente para se entender as razões e as raízes da crítica veemente e abrupta de Nietzsche contra o cristianismo; embora não se dê para elucubrar sobre este assunto com simplismos, entender estes aspectos que foram evocados dá um norte sobre como este assunto deve ser elucubrado e investigado; se isso for feito de maneira correta, e sendo justo e honesto para com Nietzsche, se compreenderá que o anticristianismo de Nietzsche não é fruto de um ateísmo doentio, como muitos propugnaram, mas sim fruto de uma boa consciência do verdadeiro cristianismo.

θεῷ χάρις


12/10/2025

Sobre o Comentário a Nietzsche

Parte 1: O comentário a Nietzsche.

 

A filosofia de Nietzsche possui singularidade no templo da filosofia; e embora não seja propriamente um discípulo de Nietzsche, tenho alta estima por Nietzsche; confesso minha predileção por Nietzsche em relação a quase todos os filósofos da modernidade; não evoco aqui minha grandíssima estima e admiração por Platão e Aristóteles, o que por si já está clarividente em outros escritos, pois esses são superiores a Nietzsche, agora quase todos os outros não; aliás, se se perguntar se no séc. XX tem algum filósofo maior ou tão grande como Nietzsche, apenas dois nomes seriam colocados em voga: Husserl e Lavelle.

Além disso, ao ler a filosofia moderna, desde o renascimento até as obras mais atuais de filosofia, constatei que Nietzsche é muito melhor e muito mais adequado do que Descartes, Voltaire, Kant, Hegel, Heidegger, Sartre, Foucault, e cia.

E, embora a obra de Nietzsche tenha a suma dificuldade do método utilizado, a ínvia metodologia dialética utilizada de maneira originalíssima por Nietzsche, se sobrelevar a esta dificuldade é garantia de compreensão de uma das mais belas filosofias; o fulgor da filosofia de Nietzsche esconde-se por detrás da carranca dialética da crítica aguda.

E, digo mais, no templo de filosofia, Husserl admitiria Nietzsche a entrar e a sentar-se logo atrás de Platão e Aristóteles; e digo isso em honra a Nietzsche, sem nenhum exagero; Nietzsche é digo de estar no templo da filosofia, enquanto muitos filósofos mais badalados e mais estudados pela classe universitária não o são; pois, Nietzsche é muito citado, mas muito pouco compreendido; é muito ideologizado, mas muito pouco eficazmente utilizado.

Por isso, considero de suma importância a correta explicação de Nietzsche; aliás, é uma das maiores necessidades da filosofia contemporânea; e poucos são o que fizeram isso de maneira adequada; tendo isso em vista, resolvi escrever sobre a filosofia de Nietzsche; e isto de três maneiras: primeiro, em artigos e ensaios sobre aspectos da filosofia de Nietzsche; segundo, num livro sobre a filosofia de Nietzsche, seguindo o exemplo de Eugen Fink; terceiro, explicar as obras de Nietzsche, através de comentários que possam ser lidos em concórdia com a leitura das obras do próprio Nietzsche.

E em relação a estes três aspectos, iniciarei pelo primeiro e pelo último, com escritos sobre a filosofia de Nietzsche e com comentários as obras de Nietzsche; e ao fazê-lo, aproveito também para fornecer um quadro geral da filosofia de Nietzsche, a fim de compreender realmente o que Nietzsche fizera como filósofo; e a medida da explicação de cada obra de Nietzsche, se tornará mais fácil de se entender no que realmente consiste a filosofia de Nietzsche, e assim se ter uma introdução adequada para poder escrever de modo adequado um livro sobre a filosofia de Nietzsche.

Pois, no sentido correto, uma análise da filosofia de Nietzsche não seria fácil de se entender; por isso, ao ter estes escritos antes de uma análise mais aprofundada é de fundamental importância, não só para abalizar o que será apresentado nesta análise, mas também para se ter outros instrumentos, disponíveis a todos quantos tiverem algum interesse, sobre o todo da filosofia de Nietzsche.

 

Parte 2: A estrutura da obra de Nietzsche.

 

Ora, em primeiro lugar se apresenta um quadro incompleto da obra de Nietzsche, no qual se tem se tem a filosofia de Nietzsche de acordo com o seu desenvolvimento linear; não são evocadas todas as obras, mas as principais; pois, os outros escritos de Nietzsche estão de uma forma ou de outra ligados a estes; e para compreender isso, é só acoplar os escritos de mesmo assunto ou de data próxima, aos escritos que estão dispostos neste quadro.

Assim, eis a estrutura formal da filosofia de Nietzsche:

 

α. A PERSPECTIVA FILOSÓFICA.

I. A Filosofia na Época Trágica dos Gregos (1873).

II. Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral (1873).

III. Considerações Extemporâneas (1873/74).

β. A FILOSOFIA, EXERCÍCIO DOS ESPÍRITOS LIVRES.

IV. Humano, Demasiadamente Humano (1878-80).

V. Aurora (1880/81).

VI. A Gaia Ciência (1881/82).

γ. AS CAUSAS E AS CONSEQUÊNCIAS DA CRISE DA HUMANIDADE.

VII. Assim Falou Zaratustra (1883/85).

VIII. Para Além do Bem e do Mal (1885/86).

IX. A Genealogia da Moral (1887).

δ. A SOLUÇÃO PARA CRISE, A FILOSOFIA CRÍTICA.

X. Crepúsculo dos Ídolos (1888).

XI. O Anticristo (1888).

XII. Ecce Homo (1888).

XIII. A Vontade de Poder (póstumo).

 

Esta é a estrutura formal da obra de Nietzsche, de acordo com a ordem que ele desenvolveu sua filosofia, num período de cerca de 15 anos (1873-1888); embora o pensamento de Nietzsche não se reduza apenas a este período, é neste período que sua maturidade filosófica se cristaliza e toma forma final; e conquanto tenha sofrido vários revezes com a saúde e problemas outros, a filosofia de Nietzsche atingiu uma completude nestas obras; não uma completude total, mas uma completude concernente a um verdadeiro filósofo.

Por isso, de suas análises sobre o espírito na música, dos primeiros filósofos, até sua autobiografia filosófica (Ecce Homo), Nietzsche conseguiu dispor tudo aquilo que entendeu como seu propósito como filósofo; e, ao fim da vida preparou sua magnus opum, que ficou incompleta, a “Vontade de Poder”, sua melhor obra, a mais enigmática, a mais genial e a mais profunda; esta é a summae de Nietzsche; do mesmo como na teologia se afirma que as summae ficam incompletas, na filosofia também: as maiores obras geralmente ficam incompletas e inconclusas.

E nesta obra Nietzsche desvendou e desvelou os mistérios que dominam a cultura moderna, e os explicou; embora seja uma obra dificílima, e tenha ficado incompleta e em grande parte fragmentária, com esta obra Nietzsche atingiu seu verdadeiro propósito como filósofo; e a estrutura formal da obra de Nietzsche termina justamente neste livro, que deve ser a última obra de Nietzsche a ser lida, posto ser a mais dificultosa de suas obras.

Assim, se constata que Nietzsche concluiu sua obra como filósofo; e devemos dar a graças a Deus por isso; pois, ele conseguiu tornar clarividente o que ninguém conseguiu ver e compreender, a “vontade” que move o inconsciente cultural, e que passou a dominar todos os homens inconscientemente; por isso, a compreensão sobre a estrutura formal da obra de Nietzsche fornece um panorama da crise que assola os homens na modernidade, que se tornou mais aguda e abrupta na contemporaneidade – mais propriamente depois das guerras mundiais.

 

Parte 3: A ordem do comentário a Nietzsche.

 

Embora, a estrutura da obra de Nietzsche, inclusive para a análise da mesma, esteja disposta na estrutura evocada acima, para uma melhor compreensão da obra de Nietzsche se deve seguir em outra ordem; pois, como para compreensão se deve ir do mais fácil ao mais difícil, então, se procurará fazer o mesmo com relação a obra de Nietzsche; e conquanto a dificuldade das obras de Nietzsche, num geral, tenha o mesmo grau de dificuldade, ao propor uma ordem para análise e compreensão, se compreenderá melhor o que Nietzsche fizera como filósofo.

Pois, Nietzsche não desenvolvera uma filosofia sistêmica; como se sabe ele tinha grande aversão por filosofia sistêmica; então ele foi escrevendo, e a medida que aparecia um problema ele escrevia e procurava apresentar uma solução a este problema; por isso, a ordem que ele publicou os escritos não está exatamente numa ordem sistemática; a ordem de análise proposta aqui tem justamente este propósito, a saber, identificar a linha orgânica de pensamento de Nietzsche e explicá-la.

Por isso, para quem quer compreender a Nietzsche, se aconselha a seguir esta ordem e não a estrutura evocada acima; embora, após concluir o comentário a estas obras eles devam ser dispostos na estrutura que evoquei acima, a da estrutura formal, todavia para o entendimento inicial se aconselha a seguir esta ordem abaixo.

Assim, eis a estrutura orgânica da filosofia de Nietzsche:

 

α. A CRÍTICA COMO FORMA DE ANATOMIA DAS CAUSAS DA CRISE.

I. Ecce Homo (1888).

II. Crepúsculo dos Ídolos (1888).

III. O Anticristo (1888).

β. A FILOSOFIA DA CRISE.

IV. Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral (1873).

V. Considerações Extemporâneas (1873/74).

VI. A Filosofia na Época Trágica dos Gregos (1873).

γ. O FILÓSOFO DIANTE DA CRISE.

VII. Humano, Demasiadamente Humano (1878-80).

VIII. Aurora (1880/81).

IX. A Gaia Ciência (1881/82).

δ. A FILOSOFIA DO PORVIR.

X. Assim Falou Zaratustra (1883/85).

XI. Para Além do Bem e do Mal (1885/86).

XII. A Genealogia da Moral (1887).

ε. O DESVELAR DO MOTIVO-BASE DA CULTURA.

XIII. A Vontade de Poder (póstumo).

 

Agora, se observe algo, a saber, que a ordem de análise está em concórdia com a disposição das obras, apenas com a perspectiva da estrutura orgânica diante do todo da filosofia de Nietzsche; embora as obras estejam dispostas em forma diversa, é nesta ordem que o núcleo da filosofia de Nietzsche se desenvolve. Acima se tem a estrutura formal da obra de Nietzsche, aqui se tem a estrutura orgânica da obra de Nietzsche; e ambos estão em inter-relação, e que se saiba corretamente integrá-las.

Na verdade, se deve entender a obra de Nietzsche de acordo com esta estrutura orgânica, e depois acoplar tal entendimento na estrutura formal; assim sendo, se seguirá esta ordem na publicação dos comentários a obra de Nietzsche, tendo em vista esta dialógica entre a estrutura formal e a estrutura orgânica; se se conseguir compreender adequadamente o que Nietzsche escrevera, então, se entenderá corretamente o que concerne a esta dialógica, imprescindível para se entender Nietzsche.

 

***

 

Epílogo. Deste modo, ao se colocar em pauta a explicação das obras de Nietzsche, suas principais obras, diga-se de passagem que não serão comentários muito profundos, senão seriam necessárias milhares de páginas para explicar cada um destes livros de maneira aprofundada; especificamente, meu objetivo não é esse, até porque seria algo inalcançável.

Todavia, meu objetivo é fornecer as chaves de leitura e as explicações basilares para se entender o que Nietzsche fizera e porque fizera, a fim de que num futuro, talvez não muito distante, se possa ter os instrumentos necessários para se extrair os ensinamentos de Nietzsche e entendê-los corretamente.

E quando isso ocorrer de maneira correta, certamente se retirará os epítetos de ateu, anti-cristão, anti-cristianismo, etc., de Nietzsche; e, se poderá constatar, em consonância com outros escritos, que Kant e Hegel são muito mais ateus do que Nietzsche; Kant e Hegel são satanazes, enquanto Nietzsche é um homem, um simples ser humano que não temeu refletir criticamente sobre todos os assuntos, ao mesmo tempo em que se submeteu conscientemente Àquele que lhe era Superior, a saber, Cristo. Isto certamente causará espanto em todos, mas essa é a verdade sobre Nietzsche.

E que este projeto que aqui é evocado seja concluído, a fim de que o Senhor Jesus Cristo seja glorificado através de doutrinas, e aqui na explicação da filosofia de um homem que lhe estimou profundamente mesmo estando longe da religião; com fé em Seu auxílio, e confiante de Sua graça para levar a cabo tal projeto, concluo esta nótula informativa sobre o comentário a Nietzsche. 

θεῷ χάρις


05/10/2025

Será Nietzsche apenas um louco?

Desditosa imbecilidade! E por que? Porque ouvi alguém maldizer Nietzsche com os mais terríveis insultos, com as mais pujantes resoluções (na verdade, não são resoluções porque nada de verdade possuíam), ao mesmo tempo com as mais hediondas imbecilidades; e este maldizente terminou suas falas vociferando: “Nietzsche é apenas um louco!”.

E isso me escandalizou profundamente; e pensei sobre isso; e resolvi elucubrar sobre isso; por isso, se põe a pergunta: “Será Nietzsche apenas um louco?”.

E responderei a essa pergunta; e esta resposta certamente deixará muitos estupefatos; e acabará por segredar, em assombro para todos, uma confissão filosófica por Nietzsche.

E que entendam isso corretamente!

I

[Nietzsche, gênio multifacetado]

Friedrich Nietzsche; ou simplesmente Nietzsche! E que seja isso falado em grande exclamação. Pois, só se deve falar de Nietzsche em tom exclamativo.

Poucos nomes foram tão geniais; poucos tão pouco amados; poucos tão odiados; poucos tão vituperados; etc. Mas, apesar disso tudo, Nietzsche permanece; aliás, Nietzsche permanecerá até o fim dos tempos na galeria dos heróis da razão.

Por isso, será Nietzsche apenas um louco como muitos gostam de afirmar? Sim, Nietzsche é um louco; todavia, um louco no mais pleno sentido platônico da loucura; e a verdadeira loucura de Nietzsche não é propriamente loucura psíquica, mas luta pela sobriedade diante da mais cruel e hedionda destruição cultural já enfrentada pela humanidade, e que quase ninguém conseguira se aperceber das consequências desta destruição. Neste sentido, a loucura de Nietzsche se assemelha a loucura de Hölderlin.

Portanto, é Nietzsche um louco? Sim, é um louco, mas não apenas isso; na verdade, muito mais do que isso; Nietzsche é muito mais do que dele se fala; é muito mais do que dele se elucubra; é muito mais do que dele se esperou e muito mais do que dele continua a se esperar.

E o que Nietzsche é? A resposta é simples: Nietzsche é um gênio multifacetado!

Nietzsche é filósofo; e seus insights filosóficos são instigantes, magistrais e provocadores; a tapeçaria filosófica de Nietzsche é um baú de tesouros; e se Platão e Aristóteles tivessem vindo posteriormente a ele, certamente o garimpariam com plena estima e muito gosto.

Ademais, Nietzsche é psicólogo; e suas análises psicológicas são melhores do que as de Freud ou as de Jung; na verdade, Nietzsche fez com as descrições psicológicas o mesmo que Dostoiévski, apenas com a diferença de que o gênio das letras russas o fizera em romances e Nietzsche em textos filosóficos, com a mais precisa mestria poética em seus incomparáveis aforismos.

Ademais, Nietzsche é poeta; e um grandíssimo poeta; não somente nas poesias, mas no manejo inigualável da prosa narrativa; a linguagem encontra em Nietzsche um de seus maiores artífices; e mais propriamente nas poesias, Nietzsche expressa o inexpressável e alcança agudeza de análise de um Schiller ou de um Hölderlin; aliás, como escritor Nietzsche é tão digno de estima quanto, por exemplo, Thomas Mann ou Jakob Wassermann; e em sua mestria como filólogo Nietzsche é tão genial quanto Wilamowitz-Moellendorff.

Ademais, Nietzsche é musicólogo; e nesta sua face, demonstra uma aguda percepção estética, não somente na compreensão dos fenômenos musicais, mas principalmente no descortinar da “metafísica do artista”, e num geral de toda a “metafísica da arte”; ninguém entendeu melhor o fenômeno da aesthetic na alma humana e nas expressões do artista do que Nietzsche.

II

[Nietzsche como homem]

Mas, além dessas e de outras características, Nietzsche é humano; retomando suas palavras: “humano, demasiadamente humano”; e de uma sinceridade inquebrantável; e graças a Deus por isso; assim sendo, Nietzsche é um “problema” para filósofos, para psicólogos, para musicólogos, para filólogos, para literatos, etc., enfim para todos aqueles que adentram aos quarteirões do estudo da sabedoria. E um problema catedralesco.

Nietzsche é humano; e que novamente se reafirme, e com altaneira exclamação: Nietzsche é humano! E essa é a melhor de suas características; em filosofia, quase ninguém foi tão humano quanto Nietzsche; e por essa razão ninguém pode falar tanto e de maneira tão precisa sobre a mente e o coração humano quanto ele; na verdade, ao ser tão humano pode realmente entender o que é o divino, e entendê-lo melhor do que muitos que se dizem “cristãos”.

Aliás, por ser demasiadamente humano, a filosofia de Nietzsche contém elementos de uma “teologia filosófica”, no sentido da teologia atinente a filosofia, apenas com a carranca negativa da crítica aguda; mas, em nada desprezível como tão costumeiramente se fala, e em nada tão demoníaco como se fala.

Pois, ao criticar abruptamente o falso cristianismo de seus dias, martelando-o, Nietzsche fornecera uma apresentação racional do verdadeiro cristianismo, ainda que isso não tenha sido percebido; na verdade, Nietzsche martelando o falso cristianismo apresentou o que concerne racionalmente ao verdadeiro cristianismo, e fizera isso de maneira que nenhum filósofo jamais fizera; todavia, o fizera sob os penhascos da metodologia dialética.

Por isso, a grandeza de Nietzsche está em ser homem; pois, como ele diz em “Assim Falou Zaratustra” (pref., § 4): “o que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim”; ora, Nietzsche tem sua grandeza como homem porque ele é uma ponte e não um fim; uma ponte para compreender o “eu” que domina a cultura totalmente (a saber, Hegel); e não um fim da reflexão filosófica; a reflexão filosófica não termina em Nietzsche, nem ele jamais pretendeu isso.

Na verdade, Nietzsche é um meio para compreender - na verdade o melhor meio para se compreender -, o ímpeto que domina a cultura e que permeia todos inconscientemente.

Com isso, se pode afirmar em letras garrafais e com ecos históricos e historiáveis, Nietzsche é um sábio; e que ninguém jamais duvide disso; e que nenhum insolente ouse levantar a voz contra isso.

Talvez esta seja a melhor maneira de se honrar e definir Nietzsche adequadamente, apesar de todos os revezes de sua obra e das incontáveis maledicências e loucuras que foram ditas a seu respeito; na verdade, loucos são os que chamam Nietzsche de louco sem entender as razões e motivos de sua loucura - não uma loucura psíquica, mas uma loucura cultural-existencial; não uma morbus animi, mas uma morbus existentialis, por não se deixar dominar pelo “eu” que domina a cultura e subjuga as consciências dos indivíduos a seu sistema (e aqui este “eu” é Hegel).

Nietzsche não se deixou dominar por Hegel, e esta é a causa de sua “loucura”.

Na verdade, Nietzsche foi o primeiro a lutar contra o domínio de Hegel no inconsciente da vida cultural (e em relação a isso poder-se-ia também evocar Husserl) - e saiu vencedor, embora com trágicas consequências; Nietzsche não sucumbiu a Hegel, e essa é a razão mais pungente para honrá-lo e admirá-lo; apesar de ter ficado doente e ter sofrido fisicamente dores terríveis, não foi dominado por este “eu” que subjuga as consciências a seu sistema; o homem Nietzsche saiu vencedor do confronto contra o “deus” Hegel; e por esta razão devem ser desferidos os maiores elogios a Nietzsche.

Somente um homem verdadeiro pode destruir os ídolos com o martelo; e isso custa muito; o confronto contra os ídolos é tão abrupto e terrível quanto os males da guerra; mas aqueles que saem vencedores do confronto com os ídolos se tornam sábios dignos de estima e de respeito.

Nietzsche encarou o crepúsculo dos ídolos com firmeza e sinceridade, e pode, em meio ao crepúsculo da cultura ocidental, apresentar aos homens o caminho da verdade; ao criticar as muitas faces do erro faz transparecer de forma límpida o caminho da verdade. Nietzsche foi um luminar em honra a verdade, a qual conheceu pelo lume da luz interior.

Por isso, o martelo de Nietzsche é um dos mais belos tesouros do templo da filosofia; uma de suas relíquias mais admiráveis; pois, Nietzsche testemunhara da verdade ao criticar as muitas faces do erro, principalmente no abjeto e falso cristianismo que conheceu no contexto em que vivia.

Ademais, suas críticas ao falso cristianismo o tornam um profeta-filósofo que compreendeu os terríveis erros da religião melhor dos que os que faziam parte da religião; e por que? Porque não rejeitou sua humanidade e suas limitações; o homem que fez uma das mais agudas críticas ao cristianismo, foi aquele que melhor entendeu as limitações do intelecto humano, e por esta razão criticou o vil cristianismo de sua época.

Por esta razão, foi tão odiado e mal compreendido; pois, não quis sobrelevar-se a sua limitação como ser humano, nem tentou escondê-la sob máscaras da hipocrisia; antes, foi demasiadamente humano, e se satisfez plenamente em sua existência como filósofo; algo digno de estima, principalmente na filosofia moderna, onde a maior parte dos filósofos não se contenta com a simples existência e filósofo, e com isso passam a querer se “deus”.

Nietzsche foi humano, e sua filosofia é para seres humanos que são humanos, não para seres humanos que se consideram como “deus” ou algo similar; a filosofia de Nietzsche tem os “pés no chão” e não a “cabeça nas alturas”; Nietzsche tem os “pés na terra” e não a “cabeça nas nuvens”.

III

[As razões de uma confissão por Nietzsche]

Assim, se pode fornecer, de maneira imparcial e resoluta algumas razões para uma confissão por Nietzsche; não uma confissão de amor absoluto, que é devido somente a Deus; mas uma confissão de amor no sentido de estima e admiração (storge e philia).

Deste modo, partindo dos pressupostos que o próprio Nietzsche estabelece sobre o que é amar, sobretudo os que estão na primeira parte de “Assim Falou Zaratustra” (pref., § 4), evoco algumas breves razões do porque se deve gostar e admirar Nietzsche:

1. Se deve amar a Nietzsche porque ele não sabe viver a não ser como os que sucumbem, isto é, a não ser como um ser humano verdadeiramente humano; pois, os homens, sendo contingentes, acabam por sucumbir as doenças, etc., e por fim, a morte; não a há como se livrar desta contingência inevitável da vida, a morte; e este é o ponto de partida racional para a verdadeira sabedoria.

2. Se deve amar a Nietzsche porque ele é de grande desprezo, desprezível e desprezador, e por isso ele é deve ser respeitado e estimado; pois, só se ama verdadeiramente o que se também se pode desprezar.

3. Se deve amar a Nietzsche porque ele não espera que nada caia do céu, isto é, ele não procura atrás das estrelas uma razão para ser, mas procura na terra, na vida real uma razão para o além-do-homem (isto é, o atingir o fim da vida humana); Nietzsche constata que os homens só alcançam seu propósito ao viverem como homens.

4. Se deve amar a Nietzsche porque ele vive para conhecer, e ao alcançar o conhecimento, poder alcançar o além-do-homem, isto é, o fim teleológico da vida.

5. Se deve amar a Nietzsche porque ele trabalha e inventa, isto é, ele labora nesta vida tendo em vista o além-do-homem.

6. Se deve amar a Nietzsche porque ele ama a virtude e é virtuoso.

7. Se deve amar a Nietzsche porque ele não vive somente para si, mas doa-se inteiramente ao espírito de sua virtude, isto é, àquilo ao qual ele aspira profundamente; é um homem que busca atingir um ideal (ou dito em outros termos, é um sonhador).

8. Se deve amar a Nietzsche porque ele faz da virtude um pendor e uma fatalidade, isto é, ele sabe que a virtude é um meio e não fim, por isso, é um caminho que se abre diante da fatalidade e para a fatalidade (aqui no sentido de morte); mesmo os homens mais virtuosos não conseguem se livrar da fatalidade do sucumbir.

9. Se deve amar a Nietzsche porque ele não busca virtuoses sem fim, mas se contenta na pura e simples virtude verdadeira; isto mostra que ele é humano.

10. Se deve amar a Nietzsche porque ele é um homem que prefere outorgar virtude do que recebê-la; ou seja, é um justo no sentido judaico; ou de acordo com suas próprias palavras tem uma alma que se esbanja, ou no dito salomônico, tem uma alma que engorda.

11. Se deve amar a Nietzsche porque ele prefere ser prejudicado do que prejudicar.

12. Se deve amar a Nietzsche porque ele é um homem de palavra, e jura pela verdade até mesmo com prejuízo de si mesmo.

13. Se deve amar a Nietzsche porque ele sabe discernir o passado, procurando redimi-lo; ele sabe justificar o futuro, porque redimiu corretamente o passado; e assim sabe viver o presente, porque tem em ordem o passado e em vista o futuro.

14. Se deve amar a Nietzsche porque ele não tem medo de indagar e açoitar pela indagação a crença no divino; porque só critica e indaga aquele que verdadeiramente ama; a busca pela verdade não é falta de amor pela verdade, mas é uma manifestação do próprio amor pela verdade; porque quem busca a verdade, mesmo na crítica e/ou na indagação, demonstra com isso que ama a verdade.

15. Se deve amar a Nietzsche porque ele mantém a profundidade de alma, isto é, a excelência da virtude, também em meio ao sofrimento; a profundidade de alma só é vista realmente nos ferimentos da vida.

16. Se deve amar a Nietzsche porque ele tem a alma repleta, isto é, ele esquece de si mesmo em favor de outrem, a fim de servi-los; não o esquecimento de si no sentido de se menosprezar, mas no sentido de não se sobrelevar moralmente contra outrem, e sempre procurar fazer o melhor para o outro; e com isso demonstra que ama a Deus, pois se ama a Deus no outro. 

17. Se deve amar a Nietzsche porque ele é de espírito livre e de coração livre, ou seja, ele não tem medo das prisões inventadas pelos homens para prender o espírito e o coração. Pois, sua cabeça, sua inteligência é apenas reflexo de seu coração; o que o coração sente é o que a mente pensa, e vice-versa.

18. Se deve amar a Nietzsche porque ele sabe que a vida é como uma gota caindo de uma nuvem escura, aos poucos se cai, sem muito alarde, mas é algo contínuo até ter um fim, até ter um sucumbir; a existência de cada ser humano é como uma gota, e a realidade é o oceano; assim, cada um vive neste oceano como uma gota, que acaba por fazer parte deste oceano sem se tornar o próprio oceano; esta é uma analogia de Nietzsche para significar o que é viver.

[...]

Em suma, estas são algumas breves razões do que porque se deve gostar e admirar Nietzsche; e que isso não choque ou escandalize aqueles que só encontram em Nietzsche o reflexo de suas próprias frustrações e/ou imbecilidades.

E, tenho por certo, que estas razões são mais do que suficientes para aclarar a admiração por Nietzsche, embora estas razões sejam apenas um estalo preambular sobre a filosofia de Nietzsche.

Aliás, que se mencione que Nietzsche, em suas reflexões sobre o amor, está em perfeita concórdia com os ensinamentos da fé cristã sobre a caridade, ainda que os tenha escrito em forma de “antítese”; para se ter um exemplo, muito do que Nietzsche fala sobre o amor está em conformidade com o que Tomás de Aquino fala sobre a caridade (cf. STh IIaIIae, q. 25-46); etc. 

IV

[Um adendo teológico]

E, por fim, chega a uma conclusão preliminar sobre Nietzsche, a qual já está disposta no que dele fora dito até aqui.

Todavia, como Nietzsche é intitulado como um ateu terrível, o maior crítico do cristianismo, um dos quatro cavaleiros do Apocalipse, e similares, é bom que se indague uma questão teológica de muita importância, embora a resposta a esta indagação não possa ser precisa em termos absolutos.

E esta indagação é: será que Nietzsche foi salvo?

Sim, esta é a indagação; para muitos, de maneira direta, deve ser dito que Nietzsche foi para o inferno; e, conquanto muitos prefiram não pontuar nada a esse respeito, certamente ninguém acreditaria que Nietzsche foi salvo ou algo similar.

No entanto, mesmo que seja princípio da fé que o destino final das almas somente Deus sabe, ainda que em alguns casos seja evidente a compreensão de quem foi para o céu (por exemplo, São João, etc.) e quem foi para o inferno (por exemplo, Hitler), se deve sempre ter temor ao falar desses assuntos; ainda mais da perspectiva filosófica.

Assim, ao se tomar Nietzsche neste quesito, em tudo que fez e falou parece ser um homem despreocupado com o destino eterno; no entanto, apenas parece, pois Nietzsche sabia do destino eterno; na verdade, ao levar a cabo quase toda a sua obra, com o seu real propósito em vista, Nietzsche defrontou-se com aquele diante do qual ele não podia fugir e aquele cuja vida lhe era a expressão da perfeição, a saber, Cristo.

Portanto, ao fazer este breve adendo teológico numa reflexão filosófica - que os filósofos e os estudiosos da filosofia me desculpem por isso -, considero por bem evocar um aspecto para aclarar esta consideração.

Assim, se põe novamente a questão: será que Nietzsche foi salvo?

E a consideração feita abaixo, embora não sirva para uma resposta cabal a esta questão, certamente serve para pensá-la com outra perspectiva.

Pois, na obra “A Genealogia da Moral” (prol., § 1), o próprio Nietzsche confessara: “Nós, que somos homens do conhecimento, não conhecemos a nós próprios; somos de nós mesmos desconhecidos - e não sem ter motivo (a morte de Deus). Nunca nós nos procuramos: como poderia, então que nos encontrássemos algum dia? Com razão alguém disse: ‘onde estiver o teu tesouro, ai estará também o teu coração’” (o ensinamento de Cristo) [em parênteses: acréscimo meu].

Ora, esta sentença de Nietzsche, a sentença de abertura dessa obra singular que ele escrevera, serve para aclarar que o auto-conhecimento depende do conhecimento de Deus; por isso, aqueles que não conhecem a Deus, desconhecem a si mesmos; quem não busca a Deus não encontra a si mesmo; o encontro de si, está no encontro com Deus e no encontro do outro; e aqui se tem as razões “teológicas” do amor, para a surpresa de muitos.

Por isso, aquele que afirmara que onde estiver o teu tesouro estará o teu coração, tem razão; isto, em suma, é uma confissão de Nietzsche da veracidade do que Cristo dissera; o tesouro do homem está em seu coração, e o mais importante tesouro do homem é o conhecimento de si, que alcança apenas com o conhecimento de Deus.

Aliás, esta crítica de Nietzsche orbita em torno da falta do conhecimento de Deus; observe-se bem, Nietzsche critica a falta do conhecimento de Deus; e estabelece que a falta deste conhecimento é o que conduz os homens ditos do conhecimento ao desconhecimento de si mesmos; e ao fazer uma genealogia da moral, se constata que o desconhecimento de si é o pior dos males; ou dito em outros termos, a falta conhecimento de Deus é o pior dos males.

E é do mais alto valor que esta “confissão” de Nietzsche tenha sido feita justamente nesta obra, onde ele descortina as perspectivas concernentes a moral natural e suas nuances na vida dos indivíduos e da sociedade; e a moral no sentido do conhecimento de si; portanto, para haver moral tem de haver conhecimento de Deus.

Ora, se a moral é correta, então há um ponto de partida para as ideias morais; e ao investigar a genealogia da moral, Nietzsche se defrontou com o ponto arquimédico da moral, aquele ponto donde todas as ideias morais tomam seu ponto de partida e donde emanam; por isso, ele demonstrara isso em sua expressão supramencionada, de que o Cristo é quem tem razão.

Isto é mais do que uma “confissão”, é uma declaração racional de submissão; embora não do ponto de vista religioso e teológico, mas plena de reverência do ponto de vista da reta razão, da luz interior; a luz interior de Nietzsche apontava para Cristo, assim como havia os gérmens do logos nos filósofos antigos.

A reverência filosófica, mesmo em filósofos críticos, como no caso Nietzsche, muitas vezes é maior e mais adequada do que a de muitos que se dizem “cristãos”; na verdade, a reverência filosófica de Nietzsche para com o Cristo, o tornam mais cristão do que muitos “cristãos” hodiernos; e Nietzsche está mais próximo da fé cristã do que, por exemplo, Kant, Hegel e Heidegger; etc.

Outrossim, é que em sua obra “O Anticristo” (§ 8), Nietzsche segredara: “É necessário referir quem olhamos como a nossa antítese”; e, obviamente, ao colocar o signo do anticristo, ele como antítese está a se referir ao Cristo.

E o que quer dizer Nietzsche com referir?

Nietzsche utiliza o termo referir nesta sentença em vários sentidos (apenas a compreensão do significado deste termo em português é suficiente para entender isso); menciona-se apenas dois deles: primeiro, no sentido de conferir honra a quem se refere; segundo, no sentido de aludir alguém, especialmente em aludir o autor preferido.

Ora, isso desvela muita coisa no propósito de Nietzsche; ao fazer a antítese com o Cristo ao buscar interpretar e descrever os sentimentos do anticristo, Nietzsche segredou o único a quem ele conferia honra ao mesmo tempo em que demonstrara seu autor preferido, a saber, Cristo. Nietzsche, ao se colocar como o anticristo, na verdade, dialeticamente, está confessando o próprio Cristo.

E aqui está a chave hermenêutica principal para se entender Nietzsche, a saber: compreender as teses que ele vela em suas declarações antitéticas (teses veladas em antíteses desveladas; esta é uma forma do método dialético, que Nietzsche se utiliza com maestria inigualável); ou dito em outros termos, compreender as sentenças veladas em suas antíteses; a compreensão sobre este princípio metodológico – algo de extrema complexidade! - é o que concerne ao entendimento correto sobre a filosofia de Nietzsche.

E que coisa maravilhosa este entendimento! E toda a obra de Nietzsche está permeada por aquilo que prefiro intitular de “surpresas dialéticas” (algo comum no método dialético utilizado por Nietzsche), isto é, soluções escondidas em enigmas hermenêuticos comuns as sentenças nietzschianas, que apontam o real propósito de Nietzsche e nas quais se desvela, por exemplo, sua honra grandíssima para com Cristo; etc.

Deste modo, embora a indagação posta não tenha sido respondida em sua totalidade, a partir dos pressupostos evocados se consegue pontuar outra perspectiva nesta questão; portanto, se se não se tem uma resposta cabal, pelo menos se consegue dissolver as aporias acusatórias contra Nietzsche.

E, para concluir, é bom lembrar que São João o Teólogo afirma que quem confessa a Cristo é de Deus, e Deus está nele (cf. 1Jo 4.2, 15); e não somente àqueles que o confessam teologicamente, mas também para àqueles que o confessam filosoficamente; todos aqueles que confessam a razão pura e simples, como Nietzsche fizera, mesmo que em forma de “antítese”, na verdade também confessam Cristo.

Que isso não seja esquecido e nem menosprezado ao se analisar o pensamento de Nietzsche, aquele que é chamado um dos “mestres do ateísmo contemporâneo”, mas tinha Cristo em alta honra e o estimava como seu autor preferido; não declarara isso diretamente, mas a explicação de muitas de suas sentenças aponta cabalmente para isso. 

E que não se tenha medo e/ou receios de quando ao se entender corretamente Nietzsche, declarar abertamente a estima por este inevitável filósofo alemão do séc. XIX, que quanto mais o tempo passa mais atual ficam suas reflexões; aliás, Nietzsche é hoje mais atual do que foi em sua época. 

E termina aqui esta reflexão, que também serve como uma breve apresentação sobre a filosofia de Nietzsche; uma breve apresentação que é melhor do que todas imbecilidades que foram ditas sobre Nietzsche nestes últimos 125 anos. 

θεῷ χάρις


Soneto 9

No tempo da infância, de criança, o aprendizado é tempera à personalidade; por isso, a verdadeira festança é progredir na decência, am...