19/02/2026

A soberba de Lutero

I

 

A honra intelectual de um autor ou de um pensador, seja em qual campo do saber for, se manifesta pelo modo como este autor ou pensador se porta diante daqueles que lhe são superiores em relação ao conhecimento; se alguém escarnece ou tenta desmerecer alguém que lhe é superior então este alguém é soberbo; é próprio dos soberbos o querer desmerecer e/ou escarnecer de quem lhes é superior em relação ao saber ou em relação a qualquer outra coisa.

Ora, entre os autores e pensadores modernos a figura de Lutero sem sombra de dúvida não pode deixar de ser mencionada; as dezenas de volumes bem extensos das obras completas de Lutero mostram um autor que escreveu muito durante sua vida: de preleções bíblicas a tratados, de disputas a respostas, de escritos condenatórios a tradução da Bíblia, de prefácios a cartas, etc., os escritos de Lutero perfazem-se durante as maiores confusões da primeira metade do séc. XVI.

E os escritos de Lutero, muitos dos quais, de boa qualidade no sentido intelectual, contém muitas informações necessárias para se entender o séc. XVI e toda a modernidade; todavia, surge uma indagação: será Lutero um homem de honra intelectual? Ou será apenas um demagogo ou sofista que se utilizou do dom da escrita e do saber para fins nefastos? Teria Lutero se enganado quanto a honra intelectual do ele desenvolvia diante da crise da Igreja Católica? Estas e outras indagações advêm amalgamadas a pergunta pela honra intelectual de Lutero.

A extensa obra de Lutero demostra um autor prolífico e que acoplou em sua obra os mais variados problemas de sua época; mas, não é difícil se perceber que falta em Lutero a honra intelectual própria a um autor digno de respeito; a importância de Lutero não se mede por sua honra intelectual - a qual lhe falta totalmente -, mas pura e simplesmente pelo fato de Lutero ser uma das personagens mais emblemáticas das crises do séc. XVI. A importância de Lutero não se dá porque ele se tornou um autor digno, uma auctoritas, mas porque é figura central nos problemas religiosos e sociais do séc. XVI.

Pois, se se comparar a honra intelectual de Lutero enquanto um autor e pensador com as autoridades do passado, se perceberá quão soberbo Lutero é; a soberba de Lutero é algo assombroso, e tão aterradora pelo fato de que todo o protestantismo o valora como um autor digno de respeito; Lutero não possui honra intelectual, não só pelo fato de ter plagiado o Alcorão e ter somatizado a vontade de poder dos otomanos, etc., mas principalmente pelo fato de não ter reconhecido sua pequenez diante daqueles que lhe eram superiores tanto intelectualmente quanto em santidade.

E à guisa de excurso - e para mencionar apenas um exemplo -, a “autoridade” de Lutero é palha seca perto da autoridade de Alberto Magno.

 

II

 

A soberba de Lutero se mostra cabalmente quando Lutero se defronta com a Summa Theologiae de Tomás de Aquino; conta-se que ao defrontar com as obras de Tomás de Aquino, Lutero queimou a Summa e as obras do aquinate em ato público; observe-se bem: Lutero queimou a maior obra escrita por um ser humano em ato público, e queimou as obras de um dos maiores gênios da humanidade; ao queimar as obras de Tomás de Aquino, Lutero procurou destruir as obras daquele a quem Cristo dissera: “escreveste bem de mim Tomás”.

E este ato infame de Lutero demonstra de maneira cabal e apodítica toda a desonra intelectual de Lutero; na verdade, o ato de Lutero demonstra sua total soberba; pois, em sentido intelectual Lutero é um pigmeu em relação a Tomás de Aquino, e isso para ser ainda um pouco bondoso com Lutero; Lutero não passa de um inútil pensador diante do Anjo da Escolástica; na verdade, a atitude de Lutero diante de alguém que como autor, como auctoritas, lhe é imensamente superior, demonstra por si que Lutero não possui nenhuma honra intelectual.

Aliás, esta infamante atitude de Lutero cristalizou o espírito do homem moderno para a desonra intelectual; pois, gosta-se ou não, as atitudes de Lutero se assomaram na cultura moderna, no sentido de permear o constructo do mundo moderno; por isso, como sabiamente Chesterton constatara, Lutero “destruiu a razão e a substituiu por sugestão”; a rejeição a razão dos homens modernos é cristalizada pela soberba de Lutero contra as autoridades da sagrada teologia, evidenciada na atitude de Lutero em queimar publicamente as obras do aquinate.

Além disso, as sugestões luteranas, provenientes de Lutero, e que se assomaram totalmente na vida moderna, tornaram os homens sujeitos a qualquer loucura intelectual que é sugerida como algo correto; mas, em contrapartida, fez os homens rejeitarem os mestres do saber; certamente, a sentença de Nietzsche bem explica isso, de que os homens do saber são aqueles que desconhecem a si mesmos; e por que? Porque rejeitaram o próprio saber, ao destruírem a razão e substitui-la por sugestão.

Deste modo, Lutero é um dos artífices, assim como os humanistas, da rejeição das autoridades do saber na vida moderna; a rejeição as autoridades que se tornou leitmotiv das ideologias modernas têm uma de suas fontes na soberba de Lutero; com efeito, a soberba de alguém que trouxe mudanças significativas para o mundo se assoma em todas as transformações que são feitas; assim, o mundo moderno, entre tantas características, também é expressão da soberba de Lutero.

 

III

 

A soberba de Lutero em relação a sagrada teologia também se demonstra pelos princípios metodológicos talhados por Lutero; como se sabe, Melanchthon sumariou o princípio metodológico do luteranismo em relação a teologia como rejeição a síntese; ora, a síntese é algo feito apenas por alguém que de fato domina o assunto sintetizado, principalmente em se tratando da sagrada teologia; assim, a rejeição de Lutero, de Melanchthon, e dos outros que são chamados de “reformadores” protestantes, para com o método de síntese, por si demonstra a total falta de honra intelectual que domina a heresia protestante.

Ora, isso comprova na prática; por exemplo, se compare as preleções de Lutero, de Zwinglio, de Calvino em relação as epístolas paulinas com as exposições de Tomás de Aquino; as preleções dos protestantes geralmente são mais extensas, e as preleções do aquinate são mais sintéticas; enquanto que as preleções dos protestantes aparentam mais “conteúdo”, as preleções do aquinate se sobrelevam com agudeza de análise e preciosas intuições espirituais. Além do que, comparece as sentenças de Lutero sobre a Ética de Aristóteles com as sentenças do aquinate; nisto se torna mais do que óbvio a superioridade intelectual de Tomás de Aquino também em assuntos filosóficos; etc.

Ainda, compare-se mais um aspecto; por exemplo, se tome o comentário de Calvino ao evangelho de São João e se o compare com o comentário de Tomás de Aquino ao evangelho de São João; ora, a superioridade teológica e expositiva do aquinate em relação a Calvino e aos autores protestantes é tão imensa que não dá para se descrever; e isso para apenas mencionar a questão do evangelho de São João; etc.

Portanto, é mais do que evidente que nas sínteses do aquinate se tem a demonstração de um homem que realmente dominou o saber teológico para fazer teologia, diferentemente dos “reformadores” protestantes, que não dominavam a sagrada teologia e mesmo assim quiseram se passar como auctoritas na ciência sagrada; como fora dito, isso se prova pela rejeição insolente e luxuriosa que Lutero, Calvino e cia., fizeram em relação a proposição da síntese teológica.

E apenas este simples aspecto é mais do que suficiente para demonstrar a desonra intelectual do protestantismo, ou mais propriamente sua raiz, a saber, a soberba de Lutero; etc.

E à guisa de conclusão, é bom se relembrar que se acostumou a desmerecer os autores escolásticos como se fossem anti-bíblicos; o mote “biblicista” de Lutero, que nada tinha de propósito em honrar a Sagrada Escritura, era apenas um subterfúgio para mascarar a soberba contra as autoridades da sagrada teologia; ora, se comparar todos os famosos ditos de Lutero sobre a autoridade da Sagrada Escritura com o discurso “Rigans Montes” ou com a preleção “Hic est Liber” de Tomás de Aquino, se constatará que Lutero é uma ameba quando fala da autoridade da Sagrada Escritura.

O principium biblicum de Tomás, e suas exposições bíblicas, são qualitativamente muito superiores as preleções de Lutero ou de qualquer outro dos “reformadores” protestantes; e isso é um fato inegável. 

θεῷ χάρις! 


18/02/2026

Meditação sobre a Europa

Prólogo

 

A Europa, como se sabe, em todos os sentidos, está em crise; e a fim de compreender esta crise há de se compreender a causa desta crise; mas para entender a causa da crise europeia, que em suma, é um signo para designar toda a crise da sociedade ocidental, se faz necessário fazer uma anamnese da Europa; ora, para se fazer isso o procedimento mais utilizado é para designar um ponto onde a crise se torna mais visível; por exemplo, Ortega y Gasset descreveu que pensava que é em Berlim que se deveria falar da Europa.

No caso de Ortega y Gasset, ao rememorar os acontecimentos terríveis do séc. XX, sem sombra de dúvida, se fala da Europa a partir de Berlim; todavia, os acontecimentos terríveis do séc. XX são apenas um dos efeitos do real problema europeu; por isso, a causa da crise da Europa não provém de Berlim; no entanto, é possível se entender a crise da Europa a partir de um ponto único? Sim é possível; mas, para se fazer isso, se deve voltar no tempo um pouco mais, a uma cidade que não existe a quase 600 anos, a antiga capital do Império Bizantino, Constantinopla.

De fato, para se entender a crise da Europa se faz necessário voltar na história e compreender as crises que rondaram o Império Bizantino em seus últimos duzentos anos de existência. E isso é algo impreterível para se fazer uma anamnese da Europa.

Iniciemos, pois, esta meditação a fim de se entender o modo da crise da Europa.

 

I

 

A Europa como hoje se a conhece deve seu ponto de partida com a atitude do Imperador Constantino o Grande, já um cristão de fato, de reedificar a antiga cidade de Bizâncio para ser a capital do Império Romano; esta cidade foi chamada de Nova Roma por Constantino, mas se tornou Constantinopla em sua homenagem; nas gerações seguintes a esta mudança, a antiga Europa pagã foi aos poucos desmoronando até a Queda de Roma, a chamada Queda do Império Romano Ocidental; conquanto a Queda do Império Romano Ocidental tenha trago inúmeros problemas, a preservação e a conservação do que havia de bom na cultura romana, purificado e abalizado pela cultura cristã, fora preservada nas obras de nomes como Santo Agostinho, São Bento, Boécio, Cassiodoro, entre outros.

Mas, de início esta crise não assolou o Império Romano Oriental, que havia se tornado no final do séc. IV em Império Bizantino; assim, as glórias da Europa foram preservadas e conservadas no Império Bizantino; as glórias da Europa Ocidental foram preservadas e enobrecidas pela Europa Oriental; assim, a dialógica da crise europeia sempre orbitara entre Europa Ocidental, ou Ocidente Latino, e Europa Oriental, ou Ocidente Grego; se uma parte estava em crise, a outra conservava e preservava a camada nuclear da cultura.

No entanto, desde a Queda de Constantinopla, a Europa Oriental, o Ocidente Grego, não tem mais um ponto de representação; assim, a preservação da cultura europeia não mais tem por artífice uma sociedade cristã, mas uma sociedade secularizada.

As glórias da Europa ou se tornaram parte da expansão árabe, que preservaram muitos aspectos da história cristã, ou se tornaram parte da decadência secularista; e, como nos últimos duzentos anos até mesmo os árabes foram engendrados pelo secularismo, a fronteira da preservação da cultura cristã ficou na mão de tolos, fraudes, imbecis, demagogos e feiticeiros; com isso, as glórias da Europa foram aos poucos se desintegrando; a fragmentação da sociedade hodierna, a chamada sociedade pós-moderna, com os paradigmas pós-modernos, são o fruto final desta secularização que nada preserva por inteiro, antes despedaçara tal qual urso selvagem as verdadeiras glórias da Europa.

Mas, quais são estas glórias? Ora, três são as glórias da Europa: primeiro, a cultura grega; segundo, a cultura romana; terceiro, a cultura cristã.

1. Primeiro, a cultura grega; a cultura grega ou cultura helênica foi o primeiro marco da formação da Europa; o helenismo, com seus altos e baixos, foi o que preparou a formação da Europa no sentido intelectual; as descobertas e os ensinamentos dos sábios gregos, entre os quais, poetas, oráculos, filósofos, cientistas, etc., deram o ímpeto cultural para o desenvolvimento da Europa; assim, a cultura helênica é a primeira base, o primeiro fundamento, que deu forma a Europa; na verdade, o helenismo desenvolveu o saber antigo e o compendiou este saber culturalmente, de modo que este saber serviu para a formação de uma nova cultura – a cultura europeia.

2. Segundo, a cultura romana; a cultura romana ou cultura latina foi o segundo marco da formação da Europa; a latinidade, com seus paradoxos inexplicáveis, foi o que preparou a formação da Europa no sentido social; a praticidade dos sábios romanos, entre os quais, literatos, juristas, intelectuais, filósofos, etc., deram o ímpeto social para o desenvolvimento da Europa e para seu desenvolvimento civilizacional; assim, a cultura romana é a segunda base, o segundo fundamento, que deu forma a Europa; enquanto que o helenismo deu forma a cultura europeia, a latinidade deu amplidão e universalidade a esta cultura e a institui sob a práxis romana; na verdade, a latinidade desenvolveu o modo de vida das sociedades antigas, os acoplando e os melhorando de modo tal que se criou uma sociedade extremamente voltada à práxis.

3. Terceiro, a cultura cristã; a cultura cristã foi o terceiro marco da formação da Europa; o cristianismo foi o que abalizou a formação da Europa entre os erros e acertos do helenismo e da latinidade; o cristianismo foi o elemento purificador dos excessos do helenismo e dos excessos da latinidade; a vitalidade da religião cristã, entre seus intelectuais, filósofos, teólogos, etc., deram o ímpeto religioso necessário para que a Europa não se perdesse ou em idealismo ou em praticismo; assim, a cultura cristã é a terceira base, o terceiro fundamento, que deu forma a Europa; na verdade, o cristianismo deu forma final a Europa; o cristianismo desenvolveu o que o helenismo tinha de bom e desenvolveu o que a latinidade tinha de benéfico, e os acoplou num sentido doutrinal-ético que permitiu tanto a formação de uma doutrina sóbria quanto de uma praticidade sóbria. Com efeito, a Europa se tornou intelectualmente uma sociedade helenista, socialmente uma sociedade romana, e religiosamente uma sociedade cristã.

Ora, estas são as glórias da Europa, as quais infelizmente foram se desintegrando a medida que a secularização adentrou os núcleos da cultura europeia, permeando cristãos, judeus e árabes, e desembocando nos paradigmas pós-modernos. O secularismo que tomou conta do núcleo da cultura europeia, ao se consumar plenamente na fragmentação social, torna a cultura europeia sujeita a doutrinas e práticas que atentam contra os elementos fundantes da Europa.

A secularização da Europa criou um monstro, o qual destrói a si mesmo e tudo aquilo que busca lutar contra esta secularização. As glórias da Europa foram tornadas em elementos infaustos devido ao secularismo.

 

II

 

No entanto, ao se mencionar a secularização da Europa, se pensa que a vida europeia foi algo perfeito, tal como um paraíso na terra; no entanto, como se sabe a vida na Europa sempre foi permeada por uma duplicidade sombria e opaca, conquanto não houvesse secularidade; o problema foi a secularidade justamente porque saiu do que é humano para algo anti-humano e/ou como gostam de afirmar os arautos da pós-modernidade: algo transhumano; a secularidade gerou um anti-humanismo e um transhumanismo que desfigurou a face da Europa e que continua a desfigurar cada vez mais.

Assim, para se entender adequadamente a crise da Europa, se há de entender também os problemas que rondaram a Europa em sua existência até o domínio do secularismo; a isso chamar-se-á de “confusões europeias”; e as confusões europeias evidenciam essa duplicidade sombria e opaca que rondou a Europa em sua história: intrigas, conspirações, usurpações, assassinatos, guerras, etc., foram assomadas com excesso de riqueza, poder, notáveis líderes e intelectuais, um áureo desenvolvimento da religião cristã, etc.; na história da Europa, glória e duplicidade caminham juntas: enquanto haviam esta duplicidade em meio a conspirações e coisas similares, também havia em contrapartida um desenvolvimento humano notável.

Todavia, mesmo diante de confusões e problemas humanos, a glória da Europa está em ter sido a parte da civilização após o advento de Cristo que mais conseguiu se desenvolver humanamente; e desenvolveu-se enquanto teve Cristo por Rei; ao deixarem de lado o senhorio de Cristo, tornaram-se novamente bestializados, e abriu-se o caminho para a hidra da secularização.

As confusões europeias deixaram de ter um viés puramente humano, e se tornaram em confusões permeadas por feitiçaria e bruxaria; soma-se a isso, o fato de que a secularização que foi agravada em Hegel trouxe de volta o ímpeto das antigas religiões xamânicas do crescente fértil, e assim o culto a Moloque, a Baal, etc., foi ressuscitado na Europa.

Os “senhores” da Europa ao deixaram Cristo de lado por causa da secularização acabaram por se bestializar em práticas de bruxaria e feitiçaria. As confusões europeias deixaram de ser confusões humanas e se tornaram em luta contra Deus. Esta é a consequência-mor do secularismo na esfera religiosa em toda a cultura europeia.

Com isso, ao se evocar as glórias da Europa e a desfiguração destas glórias por causa do secularismo, se deve também descrever que as glórias e as inglórias da Europa não é monopólio europeu; o monopólio das guerras, intrigas e usurpações não é somente parte da Europa, mas é algo que permeia a vida humana desde sempre; da antiga Mesopotâmia, ao auge do Império Babilônico, o Império Medo-Persa, o Império Grego, o Império Romano, etc., todas as civilizações foram permeadas por glórias e inglórias; a diferença é que após uma glória tamanha alcançada pela civilização cristã, a mesma se secularizou de tal modo que a fez regredir aos piores estágios dos povos xamânicos; a Europa cristã se secularizou de tal modo que se tornou em Europa xamânica; e isso é um fato inegável.

E, ao invés de se aperceber deste fato, cria-se uma imagem irreal do que foi de fato a Europa; criou-se uma imagem envernizada da cultura europeia como se a mesma tivesse sido no passado de uma perfeição celeste; a Europa nunca foi perfeita; todavia, a degradação chegou a um nível tão abrupto que a falta de compreensão sobre a realidade tenta rememorar um tipo de perfeição inexistente para tentar “conter” esta degradação.

Todavia, como é evidente, esta degradação não tem solução rápida; pois, o problema da Europa não foi a falta de perfeição, mas sim a decadência abaixo do limite humano aceitável; a inglória que emana da Europa secularizada é tão medonha que fora suficiente para desfigurar as glórias passadas - e assim um “Alzheimer” total tomou conta da memória da Europa. A Europa já não sabe quem foi, e por isso não pode entender quem é e nem quem será; pois, a falta de memória é a falta de presente e falta de futuro.

Ora, este Alzheimer existencial e histórico da Europa, não somente tem por consequência a perda da memória da Europa propriamente dita, mas é expressão da degeneração da Europa em vias de submissão a poderes de mando, ou na expressão mais moderna, na subserviência ao Estado Total (seja no âmbito nacional, seja no âmbito internacional); no passado muitos imperadores ditos cristãos se mascararam através da fé para implementar um Estado Total sob invólucros cristãos; o Império Bizantino foi submetido a isso em muitos momentos, e em alguns casos isso chegou até influir na religião cristã, onde as decisões eclesiais foram moldadas pela vontade de poder de líderes que se diziam cristãos mas na verdade queriam usurpar a autoridade divina sobre a Santa Igreja, como por exemplo, na vil condenação das obras de Orígenes, na hedionda perseguição contra São Máximo o Confessor, etc.

E nisto está a raiz primeira da secularização da Europa; pois, o início da secularização da Europa é semeado com a aceitação da usurpação contra a maior das autoridades da Santa Teologia, a saber, Orígenes; a vituperação da autoridade de Orígenes, a maior e a mais abalizada autoridade em teologia e filosofia, algo reconhecido por todos os Padres da Igreja, e por grandes filósofos, germinara as sementes da secularização da Europa cristã; e como foi algo muito aceito na época, o que evoca um certo assombro, os frutos da usurpação no momento inicial foram velados através de conquistas e grandes construções; mas a consequência adveio, demorou mais adveio, e fora cabal, total e inalterável - o fim do Império Bizantino e o fim da cultura greco-cristã. Aliás, se menciona que a maior parte das confusões europeias sempre foram motivadas por usurpação contra autoridades - e o caso de Orígenes é a mais abrupta e hedionda usurpação já feita contra uma autoridade no âmbito religioso.

E, após esta usurpação inominável, o que selou o destino da Europa cristã para seu fim, ainda que isso tenha demorado séculos para ocorrer, fez ressurgir no âmbito da cultura europeia, em toda a extensão do que foi o Império Romano, as confusões inerentes a época da religião primeira; por esta razão houve nesta época um ressurgir das antigas culturas mesopotâmicas; aliás, houve um aperfeiçoamento pleno da cultura do crescente fértil através do surgimento do Islam; o Islam é o grau máximo do aperfeiçoamento da cultura mesopotâmica; com efeito, após o selamento do destino da Europa cristã por causa da usurpação contra Orígenes, isso fez necessário o surgimento do elemento corregedor, ou elemento de correção - o Islam. O Islam surge como necessidade histórica dado as infâmias que se instauraram na civilização europeia, tal como os impérios da antiguidade surgiam para combater as infâmias do povo de Israel.

E aqui está a sabedoria necessária para se compreender o futuro da Europa; a Europa cristã como se conhece certamente definhará e acabará; no entanto, cumpre àqueles que disto se apercebem, salvaguardar o que é necessário da cultura europeia para o futuro, para que após as consequências da secularização dissolverem, se possa novamente reedificar a cultura europeia; e, que ninguém se assuste, esta é a mais otimista das esperanças em relação a Europa.

 

III

 

A consequência final desta secularização pode ser evocada a partir da Queda de Constantinopla; pois, como fora dito, se para se entender o séc. XX seria necessário ter como ponto de apoio Berlim, para se entender toda a crise da Europa, há de se retornar a Constantinopla, a antiga capital do Império Bizantino; e se evoca aqui a Queda de Constantinopla, não porque fora da cultura bizantina apenas que surgira a secularidade da Europa, mas porque a secularidade da Europa foi “processualizada” do mesmo modo como ocorrera a secularização de Constantinopla; embora a secularização da Europa seja uma secularização muito mais abrupta do que a secularização que dominou a capital do Império Bizantino.

Por isso, entender a Queda de Constantinopla corretamente abaliza o entendimento sobre a crise da Europa. Pois, as práticas hediondas que se instauraram em Constantinopla no passado, são em menor expressão, os erros da cultura europeia dos últimos séculos. Anteriormente, fora mencionado duas ações terríveis praticadas em Constantinopla, a usurpação contra Orígenes e a perseguição contra São Máximo o Confessor; e estas são apenas duas das muitas ações terríveis praticadas; entretanto, em suma, nestes dois exemplos evocados se tem o que é necessário para se entender a causa da Queda de Constantinopla.

1. Em relação a usurpação contra Orígenes, se evidenciam três coisas: (i) primeiro, a inveja contra aqueles que são superiores moralmente e intelectualmente; ora, não podendo os imbecis e invejosos falar nada contra Orígenes, trataram de atacar sua imensa obra; e as mentiras e falácias inventadas contra as obras de Orígenes, sem terem conseguido sequer “refutar” algum destes erros demonstram que Orígenes foi vituperado por causa da inveja e da maledicência devido a sua superioridade moral e intelectual em relação a todos os outros teólogos da cristandade; e não só entre os teólogos, mas também entre os filósofos.

(ii) Segundo, as sandices e maledicências dos medíocres contra as autoridades teológicas; ora, os medíocres se levantaram contra a mais alta e a maior autoridade teológica não por conta de erro ou heresia, mas devido a sandice que a burrice e a luxúria promovem entre aqueles que pensam ter alguma capacidade diante de supostos erros e desvios daqueles que são mais excelentes. As sandices inventadas contra Orígenes demonstram a sobre-excelência de Orígenes tanto em teologia quanto em filosofia, e evidenciam a burrice que começou a tomar conta da dita intelectualidade europeia desde então.

(iii) Terceiro, a tentativa de se sobrelevar a uma autoridade através da usurpação; ora, as sandices inventadas contra a obra de Orígenes foi a tentativa de homens medíocres e imbecis, e de líderes públicos que queriam dominar a fé, de tentarem se sobrelevar a uma autoridade teológica; usurparam Orígenes para tentar destruir sua autoridade; e embora tenham destruído quase toda a obra de Orígenes, e tenham-no anematizado de maneira vil e afrontosa, a autoridade de Orígenes em nada foi minada, pois os usurpadores que acharam que se sobrelevaram a autoridade de Orígenes destruindo sua obra acabaram por escrever em tábuas de bronze o destino da cultura cristã, a saber, ser usurpada, dominada e destruída.

2. Em relação a perseguição contra São Máximo o Confessor, se evidenciam três coisas: (i) primeiro, o ódio contra quem vive uma vida santa; ora, a vida santa de São Máximo o Confessor se tornara no juízo da sociedade constantinopolitana da época; a santidade de São Máximo desvelou a hipocrisia e o descaro do cristianismo em Constantinopla em seu tempo; por isso, São Máximo o Confessor fora odiado, pois sua vida santa testemunhara da doutrina correta; e quando os homens ímpios querem perverter a doutrina a primeira coisa que fazem é odiar e promover ódio contra os que vivem em santidade.

(ii) Segundo, as ações promovidas em conjunto para ridicularizar a retidão da fé verdadeira; ora, o ódio contra São Máximo o Confessor na sociedade constantinopolitana de sua época se tornara em ações conjuntas entre a sociedade e os líderes públicos a fim de tentarem ridicularizar a retidão da fé verdadeira; vituperaram São Máximo publicamente para escarnecerem e ridicularizarem a fé verdadeira na tentativa de destruir a fé, mas o testemunho e a perseverança de São Máximo o Confessor fizeram com que a chama da fé verdadeira e da doutrina correta permanecessem acesas.

(iii) Terceiro, a tentativa da sociedade de destruir a firmeza de uma fé impoluta; ora, as ações promovidas pela sociedade corrupta para tentar ridicularizar São Máximo o Confessor foi na verdade a tentativa de minar e destruir a firmeza de uma fé impoluta; São Máximo foi torturado e ridicularizado pela sociedade de sua época como espetáculo para o mundo (cf. 1Co 4.9); no entanto, o caráter impoluto e a firmeza granítica da fé de São Máximo foi a pior condenação aos seus concidadãos: enquanto estavam rindo, ridicularizando, torturando e escarnecendo de São Máximo o Confessor estavam na verdade calcinando o próprio lugar no inferno; etc.

[...]

E estes dois exemplos evocados, o da usurpação contra Orígenes e o da vituperação de São Máximo o Confessor, demonstram os erros que infelizmente passaram a dominar a sociedade bizantina dos sécs. VI e VII; estes erros, vez ou outra, retornavam e sempre com agudeza ainda maior; e estes erros foram a causa da apostasia de Constantinopla, e o que levou ao fim do Império Bizantino; Constantinopla foi saqueada e conquistada por causa da apostasia que se avolumou de maneira horrenda na sociedade bizantina.

E, embora a maior parte prefira não mencionar isso, principalmente em se tratando dos ortodoxos, é um fato que a Queda de Constantinopla foi juízo de Deus pela maldade e apostasia que se assomou nesta cidade que em tempos antigos foi uma das joias da cristandade e da cultura europeia. E, por ter sido juízo de Deus, é um fato inegável que Constantinopla nunca mais tornará a ser erguida. O juízo de Deus foi lançado contra Constantinopla, e nada e nem ninguém tornará a reedificar esta cidade.

 

IV

 

Assim, para se compreender a crise da Europa e suas consequências, há de se fazer uma anamnese da Europa, tendo em vista os “processos” inerentes as crises de Constantinopla antes do fim do Império Bizantino; ora, para se fazer isso, é necessário analisar três aspectos que concorrem em conjunto para se fazer uma anamnese da Europa, os quais são: primeiro, a memória intelectual da Europa; segundo, os estágios do Alzheimer da cultura europeia; terceiro, o destino proveniente da secularização.

1. Primeiro, a memória intelectual da Europa; ora, diante de um presente secularizado, e de um futuro desesperançado, convém indagar sobre o passado; mais propriamente pela memória intelectual da Europa; pois, ainda que no passado houvessem coisas ruins, é no passado que a Europa vai recuperar sua memória para entender seu presente e compreender para onde caminha (futuro); na verdade, a memória intelectual da Europa é onde se desvela se há possibilidade de conter ou não o hediondo secularismo que se alastra de maneira incontrolável; os erros e as glórias do passado são um fanal para indicar o caminho: tanto para se evitar os mesmos erros quanto para encaminhar nas sendas gloriosas da virtude e da honra.

Além do que, a memória intelectual da Europa não simplesmente diz respeito a feitos ou conquistas propriamente ditas intelectuais, mas ao desenvolvimento de um horizonte de consciência que acoplou a cultura helênica, a cultura romana e a cultura cristã de modo a criar um modo de vida que sublimou a vida greco-romana, bem como acoplou à ordem social fundamentos religiosos racionais; assim, a memória intelectual da Europa não é para criar um saudosismo doentio, mas para designar o caminho correto para a reconfiguração da própria Europa diante do secularismo; pois, o secularismo ou cria Alzheimer histórico ou gesta saudosismo utópico.

Mas, no que consiste a memória intelectual da Europa? A memória intelectual da Europa consiste em: (i) manter o núcleo da cultura helênica; (ii) conservar o ímpeto da cultura romana; (iii) cultivar a consciência cristã; (iv) abrir-se para as múltiplas manifestações da verdade; (v) preservar-se da barbárie (seja ela proveniente donde for e do que for); (vi) cultivar e ensinar a vida de acordo com a lei moral natural.

Portanto, na memória do que a Europa teve de bom, de belo e de verdadeiro, se abstrai o que é necessário de como a Europa deve entender seu estado atual, e se semeia os gérmens do que a Europa deve esperar do futuro. A honra para com o passado, engendra a virtude e a honra para o presente, a fim de que a colheita dos frutos no futuro seja benéfica e frutuosa.

2. Segundo, os estágios do Alzheimer da cultura europeia; ora, se não se entender adequadamente a memória intelectual da Europa, pode-se até não se gestar um saudosismo utópico, mas com absoluta certeza se gerará um Alzheimer na cultura europeia; este Alzheimer destrói a identidade cultural da Europa, bem como retira a possibilidade de qualquer memória intelectual adequada sobre as glórias do passado; e este Alzheimer não se institui totalmente de uma vez, mas vai sendo instaurado por estágios; ora, os estágios do Alzheimer da cultura europeia são assim sumariados: (i) ceticismo em relação a verdade; (ii) rejeição da religião; (iii) rejeição da humanidade; (iv) dogmatismo imoralista; (v) sedução para o extremo; (vi) transmutação de todos os valores; etc.

Estes estágios são subsequentes, e muitas vezes um ou outro advêm em conjunto; com isso, estes estágios instituem um Alzheimer tão profundo na cultura europeia ao ponto de a Europa não saber mais quem foi; e a falta da Europa em compreender a própria história é o que a torna sujeita as prostituições intelectuais do secularismo, tornando a cultura europeia sujeita as fragmentações da pós-modernidade, tornando a túnica da Europa um tecido retalhado e totalmente fragilizado.

Com efeito, estes estágios vão se assomando aos poucos, e um estágio prepara o seguinte; por isso, em cada estágio que se instaura se forma uma camada cástica indestrutível, e a medida que se instauram outros estágios, mais camadas cásticas vão se formando; e assim este Alzheimer da cultura europeia se torna cada vez mais difícil de ser apercebido; quanto mais profundas se tornam as raízes destes estágios mais difícil é a percepção das consequências dos mesmos, e, por conseguinte, mais trabalhosa se torna a busca por alguma solução.

O Alzheimer da cultura europeia é o atestado de óbito da sociedade ocidental; goste-se ou não, aceite-se ou não, a cultura europeia ao ser permeada por este Alzheimer, esquecera-se de quem é, e se tornou o que jamais deveria ser – a própria antípoda de tudo o que fora no passado. 

3. Terceiro, o destino proveniente da secularização; ora, se os estágios do Alzheimer da cultura europeia foram instaurados, então a secularização nasce, cresce e se desenvolve; e do mesmo modo como cada um destes estágios possui suas consequências específicas, e ao serem todos instaurados se tem outras consequências ainda piores, a secularização não só tem suas terríveis consequências, mas instaura um fado inalterável sobre a Europa; ou mais propriamente, um destino irrevogável para a Europa, o destino da secularização.

Ora, o destino proveniente da secularização semeia três sementes: (i) a semente da assolação; (ii) a semente da negação; (iii) a semente da tormenta existencial. Assim, a primeira semente ao frutificar gera destruição; a segunda semente ao frutificar gera negação de tudo o que existe (que toma forma filosófica na dialética negativa); e a terceira semente ao frutificar gera desespero, desencanto e tempestades psíquicas.

Portanto, o destino proveniente da secularização é cabal e total: nada escapa e tudo é açambarcado pelas maldições inerentes a secularização; pois, a semente de assolação gera destruição; e a Europa ao perder sua identidade se submeteu a várias doutrinas e práticas que semeiam assolação. Deste modo, a Europa perdeu sua primogenitura intelectual e espiritual ao vender-se em troca dos pratos de lentilhas dos porcos secularistas.

E, infelizmente, este destino cumprir-se-á a risca; só haverá algum futuro para a cultura europeia se no presente for preservado algo de bom, tal como Santo Agostinho, São Bento, e outros, preservaram o que havia de bom em meio as assolações que antecederam a Queda do Império Romano Ocidental; somente assim, algo de bom da cultura europeia será preservado para o futuro; pois, o destino do secularismo, levará a Europa para sua própria destruição; e este é o fado da cultura europeia, iniciado de maneira inalterável devido a usurpação inominável contra a autoridade de Orígenes.

[...]

Ora, estes três aspectos demonstram alguns pressupostos do que é necessário para se fazer uma anamnese da Europa, e para se fazer uma anatomia do estado existencial da Europa; a chaga mortal que assola a Europa não tem solução rápida: e a gravidade desta chaga demonstra que é dificílimo até mesmo curar esta doença; na verdade, se sabe que o destino da Europa cristã fora selado; no entanto, é possível conservar e preservar alguns elementos para que a cultura europeia não se perca em meio a esta terrível secularização; esta é a tarefa primordial diante da hidra da secularização; aliás, esta é a única atitude frutífera em vista da preservação de algo bom para o futuro; pois, uma coisa é certa e cabal: a Europa cristã não existe mais e não voltará a existir durante séculos; mas, como fora dito, é necessário entender e compreender o que se deve salvaguardar da cultura europeia para o futuro.

Certamente, isso pode parecer pessimismo; todavia, não é pessimismo; seria pessimismo se houvesse possibilidade de se vencer a hidra do secularismo; mas, infelizmente, onde a hidra do secularismo já se estabeleceu a mesma se torna algo invencível; isso é realismo, não pessimismo; aliás, não compreender isso seria idealismo utópico; a realidade europeia se mostra como algo em plena decadência, decadência essa que não será parada por nada.

Assim, diante da realidade europeia se deve ter um realismo sincero, e não saudosismo dos imperialismos do passado ou utopias grimóricas para o futuro; a glória da Europa não está em impérios ou imperadores famosos, mas sim na concórdia entre os ensinamentos da revelação e as conclusões da reta razão; na verdade, só se preservará algo de bom da Europa se houver obediência aos mandamentos divinos e o cultivo da reta razão.

 

Epílogo

 

Assim, conclui-se esta meditação sobre a Europa, a qual poderia também ser chamada de uma meditação anamnésica sobre a Europa, já que se procurou descrever a crise da Europa e sua causa; embora já se tenha mencionado um ou outro aspecto a respeito disso em outros escritos, nesta meditação se pode evocar uma linha tênue de compreensão que explica e desvela plenamente no que consiste a crise da Europa, e, por consequência qual o destino da Europa e de toda a civilização ocidental.

Ora, se no passado Ortega y Gasset procurando entender a crise da Europa de sua época evocou Berlim como seu ponto de partida, para se entender a causa da crise da Europa foi necessário voltar a antiga capital do Império Bizantino, Constantinopla, para se entender donde provém o núcleo de sentido do secularismo que assola a Europa desde o séc. XIV; este secularismo foi semeado no séc. VI, mas só frutificou de maneira plena na baixa idade média, no final do séc. XIV e no início do séc. XV; e os frutos deste secularismo ainda permanecerão por séculos antes de serem dissolvidos.

Portanto, a atitude diante de secularismo já foi em parte evocada, e assim, deve-se caminhar cada vez mais para se entender no que consiste este secularismo e as crises europeias, para que pelo menos as consequências deste secularismo possam ser diminuídas ao máximo possível, a fim de se preservar o que a cultura europeia tem de bom, em função do bem comum e para a glória maior de Deus. 

E termina aqui esta meditação. θεῷ χάρις! 


08/02/2026

Sobre a Reconstrução da Fenomenologia

I

 

A fenomenologia desenvolvida por Husserl é um dos pontos altos do pensamento ocidental; principalmente, porque na filosofia moderna não surgiu quase nada de bom – a fenomenologia é uma das poucas exceções; não para menos, diante do deserto da inteligência que assola os homens modernos, a fenomenologia é como um oásis; por isso, a reflexão sobre a fenomenologia se sobreleva ao horizonte de consciência dos homens modernos de tal modo que se torna quase que um método inalcançável – e por esta razão, muitos tendem a desprezar a fenomenologia tanto quanto desprezam o método escolástico.

Mas, que é a fenomenologia? Duas respostas são evocadas: (1) Olavo de Carvalho diz que “a fenomenologia é uma auto-reflexão e um autoconhecimento. É o autoconhecimento da consciência, enquanto capacidade cognitiva”[1]; e, (2) segundo Husserl, “a fenomenologia é a doutrina universal das essências, em que se integra a ciência da essência do conhecimento”[2].

Ora, estas duas definições dão um norte básico do que é a fenomenologia; em sentido definitório, a fenomenologia é a “doutrina universal das essências”, isto é, a doutrina que busca compreender as essências ou núcleo de sentido de cada ente; e em sentido demonstrativo, a fenomenologia é a auto-reflexão que conduz ao autoconhecimento, a fim de que a consciência se torne consciente das operações cognitivas. Portanto, a fenomenologia busca compreender a essência das coisas, para que a consciência se torne autoconsciência de si, a fim de conduzir o intelecto ao saber real.

Deste modo, a fenomenologia tanto diz respeito a atitude fundamental do indivíduo que busca conhecer, quanto do conhecimento de fato adquirido; a fenomenologia não só mostra a atitude do conhecimento, mas também a atitude do sujeito cognoscitivo; com efeito, a fenomenologia não só é um método escolar, mas também um método conscientivo.

 

II

 

A breve descrição da fenomenologia nestes termos tem por propósito evocar uma tarefa a respeito da reconstrução da fenomenologia; mas por que? A fenomenologia foi em parte esterilizada por seu próprio cultor; por esta razão se faz necessário laborar para reconstruir a fenomenologia.

E por que a fenomenologia foi esterilizada? Esta é uma indagação dificílima de se responder; pois, a atitude final de Husserl em relação a fenomenologia não foi um erro de desatenção ou paralogismo; Husserl esterilizou a fenomenologia de modo consciente; e não é fácil se entender a real razão; parece que seja por ter visto Heidegger acoplar o saber fenomenológico ao nacional-socialismo; como se sabe, isto trouxe uma grande tristeza e desgosto para Husserl, ao ver seu mais genial aluno usar a filosofia fenomenológica para embasar o nazismo.

Certamente, foi por esta razão que Husserl esterilizou a fenomenologia e “desmontou” a mesma; mas, a esterilizou não de maneira cabal, apenas para por fim a infâmia de utilizar sua descoberta e sua filosofia para propósitos nefastos; e o modo como Husserl esterilizou a fenomenologia não foi a destruição do próprio filosofar fenomenológico, mas sim o impedimento de se utilizar a fenomenologia com propósitos ideológicos.

E parece que ao fazer isso, Husserl, de maneira velada, deixou aberto o caminho para a reconstrução da fenomenologia em outra época; disto tenho plena certeza; pois, Husserl não esterilizaria de modo cabal a fenomenologia, mas o fizera de modo parcial para tirar de seus discípulos enviesados pelo nacional-socialismo o ímpeto fenomenológico; o mestre morreu antes do nazismo cometer suas maiores atrocidades, mas não se foi deste mundo sem impugnar a utilização de sua filosofia por homens descarados.

Portanto, creio ser uma das mais importantes tarefas da filosofia hodierna se aperceber disso e novamente retomar o ímpeto da fenomenologia husserliana; os alunos de Husserl e os continuadores da fenomenologia não se aperceberam disso; houveram filósofos notáveis que utilizaram-se do método fenomenológico, e escreveram obras imortais; mas, o núcleo central do desenvolvimento fenomenológico continua com a impugnação de Husserl – certamente, esperando para ser reavaliado e abalizado de modo correto.

Com isso, se põe como tarefa a iniciativa de reconstruir a fenomenologia, de retomá-la ao se dissolver a impugnação de Husserl; todavia, mantendo esta impugnação diante do descaro daqueles que querem utilizar a filosofia e/ou a ciência para propósitos ideológicos; na verdade, chega-se a conclusão de que a reconstrução da fenomenologia é uma das maiores necessidades da filosofia contemporânea. É uma hercúlea iniciativa, mas que tem de ser levada adiante o mais rápido possível.

 

III

 

E o caminho desta hercúlea iniciativa para reconstruir a fenomenologia é disposto em três partes; considerei por bem seguir este caminho tendo em vista a proposição de Heidegger sobre os problemas fundamentais da fenomenologia em três partes[3]; analisei esta proposição de Heidegger, que estruturalmente tem grande utilidade, a abalizei e reelaborei o que considerei adequado, sem os desvios da filosofia heideggeriana, para fazer uma análise reconstrutória da fenomenologia.

Com isso, estas três partes são assim sumariadas:

Ø   Parte I: A elucubração sobre o Ser. Ora, nesta parte são elucubrados os pressupostos e os aspectos fundamentais da elucubração do Ser; pois, a elucubração sobre o Ser é o núcleo da fenomenologia; a volta às coisas só é possível com o entendimento sobre o Ser; portanto, o lema fenomenológico é a volta para se elucubrar sobre o Ser tal como o mesmo está disposto na realidade, seja nas coisas seja nos entes – principalmente nos entes.

Ø   Parte II: O Ser em geral. Ora, nesta parte são elucubrados os aspectos concernentes ao próprio Ser: seus modos, emanações, distinções e propriedades; pois, o Ser está manifesto em cada núcleo de sentido da ordem da realidade; desvelar este sentido e aclará-lo constitui-se tarefa da filosofia - e da ciência; pois, o Ser em geral diz respeito a todas as manifestações do Ser, seja em si mesmo e por si mesmo, isto é, substancialmente, seja através de coisas e/ou entes, isto é, acidentalmente.

Ø   Parte III: A ideia de fenomenologia. Ora, após se por adequadamente a questão sobre o Ser, tanto no sentido do método filosófico quanto no sentido propriamente dito ontológico, se prossegue para compreender no que consiste a ideia de fenomenologia; pois, a fenomenologia está intimamente ligada a compreensão sobre o Ser; pois, do Ser emana o núcleo de sentido dos entes, os quais, ao serem existentes também se tornam um “ser”. Logo, a ideia de fenomenologia tem em si mesma um núcleo ontológico; e por ter um núcleo ontológico, tem uma estrutura lógica; por isso, a fenomenologia inicia sob um fundamento lógico e desenvolve-se sob um fundamento ontológico.

Deste modo, nestas três partes se tem o que considerei necessário adequar para designar e/ou evocar a fim de pressupor e levar adiante a reconstrução da fenomenologia; pois, embora a fenomenologia tenha se auto-esterilizado, como fora dito no início, e tenha sido deformada por vários filósofos, a necessidade de reconstruí-la está em vista de dissolver esta esterilização, bem como em livrá-la das aporias que se assomaram nesta notável escola filosófica. Este caminho proposto tem este objetivo.

 

IV

 

Ora, em relação a primeira parte – a elucubração sobre o Ser – se a subdivide em quatro seções, as quais são:

a) O Ser. [o que é o Ser? / o conhecimento do Ser / os graus de emanação do Ser / a participação / os tipos de ser]

b) A essência e a existência. [o que é essência? / os tipos de essência / o que é existência? / os modos da existência / a relação entre essência e existência / o ente, a essência e a existência]

c) A natureza e a consciência. [o que é natureza? / as esferas da natureza / os tipos de natureza / o que é consciência? / a natureza da consciência / as operações da consciência / apêndice: a filosofia da revelação]

d) A apreensão lógica. [o que é lógica? / as operações do intelecto / o que é apreensão lógica? / a lógica pura / o ato judicante]

E, nestas quatro seções, se tem o que concerne a ponderação sobre o Ser do ponto de vista puramente filosófico, pelo lume da luz interior; pois, o Ser não está velado; na verdade, o Ser está totalmente desvelado em tudo aquilo que participa do ato de ser; portanto, a existência dos entes demonstra suas essências, de modo que seja pela natureza seja pela consciência se tem a abstração do saber que está dado na realidade; e este saber abstraído é confirmado pela apreensão lógica. Assim, a elucubração sobre o Ser não somente versa sobre um tópico ontológico, mas engendra lógica e epistemologia em conjunto dialógico.

 

V

 

Ora, em relação a segunda parte – o Ser em geral – se a subdivide em cinco seções, as quais são:

a) A diferença entre Ser e ente. [as distinções entre ser e ente / a natureza do Ser / a natureza do ente / a diferença entre coisas e entes / o primado ontológico do indivíduo]

b) A articulação fundamental do Ser: essência e existência. [a dialógica entre essência e existência / o Ser nas essências / a ordem da realidade e a existência dos entes/ a essência do Ser / a existência do Ser]

c) Os modos de Ser. [as emanações do Ser / o Ser em si / O Ser nos entes e a partir dos entes / os tipos de modos de ser / a dialógica do ato de ser]

d) A unidade e a multiplicidade do Ser. [a unidade do Ser / a multiplicidade do Ser / a dialógica da unidade / a dialógica da multiplicidade / o um e o múltiplo]

e) A verdade do Ser. [a verdade e o Ser / as múltiplas manifestações da verdade / o Ser e a sinfonia da verdade / as verdades do Ser / as verdades sobre o Ser / o ato de ser e a verdade]

E, nestas cinco seções, se tem o que concerne a elucubração sobre o Ser em geral; nisto, propriamente, se evoca muitos princípios ontológicos, pois o ser se articula fundamentalmente entre essência e existência, tanto a partir dos modos de ser, quanto nas esferas de verdade das emanações do Ser; pois, a elucubração sobre o Ser em geral é o que se chama propriamente de ontologia; e a ontologia não é um saber vago ou dogmático, antes a ontologia é um saber real; o Ser é possível de ser conhecido de fato; e isto não apenas é um dado sobre a realidade, pois o Ser é o ponto arquimédico da própria realidade – a quem Heráclito sabiamente e acertadamente chamara de λόγος.

 

VI

 

Ora, em relação a terceira parte – a ideia de fenomenologia – se a subdivide em cinco seções, as quais são:

a) A ontologia. [o que é ontologia? / as divisões da ontologia / a ordem ontológica da realidade / a estrutura fenomênica do ôntico / a dialética da ontologia / ontologia e numerologia pitagórica]

b) O conhecimento. [o que é conhecimento? / o saber / gnosiologia e ontologia / a gnosiologia real / o coração como núcleo ontológico / o inteligível / o intelecto / o conhecimento e a perfeição da alma]

c) O método fenomenológico. [o que é o método fenomenológico? / os estágios do método fenomenológico / a realidade e os fenômenos / a aplicação do método fenomenológico / a filosofia fenomenológica]

d) O conceito de filosofia. [que é filosofia? / as divisões da filosofia / a história da filosofia / o filosofar / o filósofo / a sabedoria / a sabedoria e a fenomenologia]

e) A tarefa da filosofia. [a elucubração sobre a realidade / o lume da luz interior / o conhecimento dos entes / o conhecimento do Ser / os transcendentais / os princípios / a ordem dos princípios / as disciplinas filosóficas / as ciências]

E, nestas cinco seções, se tem o que concerne a ideia de fenomenologia; e aqui se tem o ponto de partida da pesquisa fenomenológica que é orientada sob uma sólida ontologia real, que fora abalizada, definida e demonstrada nas duas partes anteriores, com seus elementos amalgamados; na verdade, a análise fenomenológica concatena as três partes constituintes da filosofia, mais a parte prática ou filosofia moral (ética); portanto, a análise fenomenológica inicia na coesão lógica, perfaz a análise de toda a extensão da compreensão sobre o ente móvel, se sublima na análise do Ser e da ordem da realidade, e desemboca na reflexão sobre vida ordenada ou virtuosa.

Ora, tendo delineado estas três partes, conclui-se a apresentação de como se procederá no caminho em via da reconstrução da fenomenologia.

 

***

 

Epílogo. E, tendo descrito no que consistirá esta invectiva da reconstrução da fenomenologia, para levar adiante estas questões evocadas serão refletidos sobre estes tópicos em vários escritos: artigos, opúsculos, lições e tratados; não vou de antemão descrever em específico todos estes escritos, mas quando surgir algum escrito que estiver ordenado a esta invectiva estará mencionado ou no início (proêmio ou prólogo) ou no final (epílogo), que é parte da invectiva da reconstrução da fenomenologia; posteriormente, só ordená-los de acordo com o assunto e a tríplice estrutura que é evocada neste escrito; se conseguir concluir tudo que pretendo escrever neste sentido – oxalá que Deus assim me permita levar a cabo mais este projeto! -, depois escreverei um escrito a parte para delinear a ordem em que estes escritos sobre a fenomenologia devem ser dispostos. E termina aqui este opúsculo informativo a respeito da reconstrução da fenomenologia. Laudate Deo! 



[1] Olavo de Carvalho, Inteligência e Verdade: Ensaios de filosofia [1ª ed. Campinas, SP: Vide Editorial, 2021], pág. 112. 

[2] Edmund Husserl, A Ideia da Fenomenologia [Lisboa: Edições 70, 2018], pág. 22. 

[3] cf. Martin Heidegger, Os Problemas Fundamentais da Fenomenologia [Petrópolis, RJ: Vozes, 2012], § 6, pág. 40-41. 


Políticos-Feiticeiros

A maior parte dos líderes mundiais são do Demônio veros serviçais; a política dominada pela feitiçaria é do mal uma infame tapeçaria. ...