30/03/2026

O cristianismo imaginário

I

 

A dualidade, ou o dualismo, entre imaginação e realidade é algo que se manifesta naqueles que foram assomados por alguma doença mental, seja de doenças graves seja de doenças que num primeiro momento são imperceptíveis; esta dualidade, por sua vez, é assaz prejudicial para a saúde psíquica de um indivíduo, e por consequência, da sociedade.

Esta dualidade cria uma falsa imagem mental a respeito do que o indivíduo diz e o que o indivíduo faz; isto é chamado em relação a conduta de hipocrisia, ou em casos mais abruptos de descaro; mas, a gravidade do problema vai muito além das máscaras da hipocrisia ou dos males do descaro; a gravidade da dualidade entre imaginação e realidade é a calcificação de uma doença que afeta todo o ser do indivíduo e não apenas sua mente.

E isto afeta tudo no indivíduo, até mesmo a concepção religiosa; na verdade, essa dualidade entre imagem mental e realidade é a causa de muitas pessoas professarem a fé cristã e não viverem de acordo com a fé professada; as mais das vezes, fala-se que isso é hipocrisia ou algo similar; em alguns casos, este juízo de valor está correto; mas na maior parte das vezes, o que ocorre é justamente a dualidade entre imaginação e realidade; pois, se se coloca a imaginação sob o que é irreal, o indivíduo passa a imaginar tudo o que quer como se fosse algo real mesmo se não houver fundamento real.

Por isso, muitos cometem as mais terríveis abominações e ainda se dizem “cristãos”, porque imaginam algo irreal como se fosse real: isto é, imaginam que são cristãos quando a conduta que possuem diz totalmente o contrário. E isto é algo aterrador do ponto de vista da fé, pois a esquizofrenização da relação entre imagem mental e realidade, não só destrói a inteligência, mas putrifica a personalidade. Além do que, isso é a base donde se desenvolve as várias espécies de esquizofrenia psíquica. Pois, o esquizofrênico não só é aquele que diz ser outrem, mas aquele que diz ser algo quando a própria conduta diz totalmente o inverso.

Deste modo, a dualidade entre imaginação e realidade é a causa das pessoas pensarem o irreal, e viverem o irreal como se fosse algo real; no sentido cinematográfico, é a instituição da Matrix; neste caso, da Matrix na conduta sócio-pessoal, já que acaba-se por instituir um condicionamento psicológico que se assoma a toda uma sociedade: a de indivíduos que criam imagens irreais na mente e vivem como se estas imagens irreais fossem a própria realidade; nos termos descritos, criam-se bolhas onde é permitido a hipocrisia e o descaro. Outrossim, é que em relação a religião, a partir disto cria-se um cristianismo imaginário ou um cristianismo a gosto do freguês.

 

II

 

O cristianismo imaginário manifesta-se não de maneira oficial, mas na conduta daqueles que se dizem “cristãos”; pois, aqueles que imaginam de maneira irreal que cometendo abominações ainda podem se dizer cristãos, são de fato os que estão esquizofrenizados pela dualidade entre imaginação e realidade. Esta esquizofrenização faz com que aqueles que professam ser “cristãos”, contradigam a fé que dizem professar com falta de retidão e com falta de moralidade – em tempos hodiernos, principalmente com imoralidade sexual.

Assim, observa-se as seguintes características do cristianismo imaginário:

(i) professam a fé, mas praticam coisas que vituperam totalmente o que professam (cf. Mt 23.27-28); e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que não falarem coisas hediondas diminui a gravidade de praticarem coisas hediondas. O cristianismo imaginário gera esquizofrenia linguística, e vice-versa.

(ii) professam os artigos da fé, mas não vivem em retidão; confessam a fé enquanto doutrina, mas vivem em práticas abomináveis (cf. Jr 5.26-31); e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que confessarem algo os livra de terem que ter conduta digna inerente ao que professaram. O cristianismo imaginário gera uma casta anti-sinceridade, e vice-versa.

(iii) participam dos elementos exteriores da fé, até se portam exteriormente como fiéis, mas a graça não atua no coração posto a imoralidade e a falta de retidão em que vivem (cf. Jr 5.25); e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que participar de elementos eclesiais os torna fiéis enquanto estão vivendo em prostituição e imoralidade. O cristianismo imaginário gera uma religiosidade morta e mortífera, e vice-versa.

(iv) tentam amenizar ou atenuar as imoralidades que cometem através da falta de disciplina ou falta de repreensão bíblica (cf. Hb 12.8); e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que a atenuação de uma imoralidade desfaz o mal moral da culpa do pecado, quando na verdade a tentativa de atenuar a imoralidade ou a falta de retidão é afrontar a Deus; por isso, cria-se uma falsa concepção de misericórdia, onde a misericórdia é utilizada para embasar todo tipo de imoralidade e de falta de retidão (cf. Rm 6.1). O cristianismo imaginário gera imoralização da misericórdia, e vice-versa.

(v) inventam um cristianismo não-bíblico, já que deliberadamente e obstinadamente rejeitam os preceitos bíblicos (cf. Jr 6.10); dizem ter fé, mas rejeitam o fundamento da fé; e fazem isso porque imaginam irrealisticamente que podem ser cristãos vivendo contra as Escrituras ao rejeitarem o que as Escrituras ensinam (cf. Jr 8.9b, 9.6). O cristianismo imaginário gera um cristianismo anti-bíblico, e vice-versa.

Estas são apenas algumas características do cristianismo imaginário; existem inúmeras outras; pois, o cristianismo imaginário não só cria outro cristianismo em relação a conduta, na permissividade vil e abominável com a falta de retidão e com as mais variadas formas de prostituição, mas também institui de maneira passiva outros critérios para a formulação da fé - ou dito em outros termos, cria-se uma ampla gama de novas proposições (sofismas) as quais são todas contra o verdadeiro fundamento da fé. Na verdade, o cristianismo imaginário gera um cristianismo movido de acordo com mercado negro das novidades globalistas.

Aliás, neste mesmo sentido, o cristianismo imaginário cria uma falsa percepção de no que constitui a fidelidade a fé reta e sólida; pois, os cultores do cristianismo imaginário criam a dualidade entre Escritura e Tradição: (1) desprezam sofisticamente a Tradição em nome de um falso biblicismo, (2) ou em nome de supostamente seguirem a Tradição desprezam e desobedecem aos mandamentos bíblicos; etc. O cristianismo imaginário despreza o fundamento da fé, a Escritura, e desfigura a regra paralela ao fundamento da fé, a Tradição; ou em casos ainda mais abruptos, ainda escarnecem da regra próxima da fé, o Magistério (Catolicismo) ou princípio magisterial (Ortodoxia).

 

III

 

Ora, ao ter se evocado algumas características do cristianismo imaginário, convém mencionar também no que consiste o credo do cristianismo imaginário, o qual é uma perversão total do credo bíblico e apostólico; as crenças do cristianismo imaginário são anti-bíblicas ao mesmo tempo em que busca usurpar a Tradição Apostólica.

Pois, tudo que é anti-bíblico é usado para usurpar a Tradição Apostólica. E, de fato, tudo no cristianismo imaginário é anti-bíblico, embora o cristianismo imaginário arrole para si uma falaciosa biblicidade ou um falacioso tradicionalismo, os quais demonstram o ideologismo inerente ao cristianismo imaginário.

Eis, portanto, o credo do cristianismo imaginário:

1. O cristianismo imaginário afirma a crença em Deus, mas num “deus” inventado de acordo com a esquizofrenia linguística ou com a imoralização da verdade.

2. O cristianismo imaginário afirma a crença em Jesus, mas num Jesus inventando de acordo com a incontinência de cada um; o Jesus do cristianismo imaginário é pior do que os “Jesuses” dos teóricos da busca do Jesus Histórico.

3. O cristianismo imaginário afirma a crença no Espírito Santo, mas em espiritualidades desordeiras e irracionais; para o cristianismo imaginário a desordem e a irracionalidade se tornam parte da espiritualidade.

4. O cristianismo imaginário afirma a crença na salvação, mas numa salvação que não tem boas obras (cf. Tg 2.17-26); o cristianismo imaginário propaga que a salvação é obtida sem necessidade de retidão na conduta.

5. O cristianismo imaginário afirma a crença na Igreja, mas numa “igreja” que muda de acordo com as novidades e com os ventos de doutrinas.

6. O cristianismo imaginário afirma a necessidade da doutrina social, mas que não é doutrina social e sim ideologia social com invólucros religiosos; para o cristianismo imaginário o social se torna mais importante do que a doutrina.

7. O cristianismo imaginário afirma a necessidade do amor, mas não do amor verdadeiro e sim de um “amor” que que rejeita os preceitos da verdade. A caridade para o cristianismo imaginário é uma caridade sem verdade.

8. O cristianismo imaginário afirma que seguem o caminho da obediência, mas desobedecem obstinadamente aos preceitos bíblicos; aliás, para o cristianismo imaginário qualquer um que fale sobre preceitos ou mandamentos é egoísta ou egocêntrico.

9. O cristianismo imaginário afirma que adoram a Deus, mas propagam a prostituição litúrgica; para o cristianismo imaginário a liturgia muda de acordo com o gosto do freguês; aliás, para o cristianismo imaginário a prostituição litúrgica se torna algo normal.

Estes são os principais artigos do credo do cristianismo imaginário, os quais são total perversão da fé reta e sólida; assim sendo, a partir do credo do cristianismo imaginário se consegue compreender os caminhos de muitos que dizem “cristãos”, mas na verdade seguem um cristianismo inventado a partir da corrupção da imaginação de homens vis e iníquos.

Na verdade, este tem sido o retrato da cristandade em tempos hodiernos; deixaram o verdadeiro cristianismo em função de um cristianismo imaginário, simplesmente para agradar as massas em práticas abomináveis a Deus.

Que Deus, pois, preserve do engano aqueles que o servem em retidão e santidade para que fiquem livres dos tentáculos do cristianismo imaginário. 

θεῷ χάρις


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