Entre as árvores ouvi Amor cantar,
e docemente em suas palavras estive a meditar;
lembrei-me de vós, Senhora,
e minha mente com uma espora
ruminou vossa fermosura de tal modo
que fiquei desejoso de mais vos ter amado,
vos possuído e vos acariciado;
ah, Senhora, Senhora, que vos fazeis
cada vez mais desejável, e ainda dizeis
que sou eu quem a elogia demais;
mas, é vossa virtude que faz elogiá-la mais e mais,
pois com vossa fermosura brilhando sempre estais.
Ao ouvir o sabiá cantar,
entendi que era por muito vos amar,
vos querer e vos desejar;
ah, Senhora, sei que estais longe,
e isto me causa e vos causa grande dor;
mas lembrei-me do dito de um monge:
a distância é separação espacial entre aqueles que tem Amor.
A lonjura é da Fortuna um divertimento
para tentar tirar de vós o meu tento
que sempre está em fogo ardendo
de desejo de vos ter comigo;
oh, papel, na desdita do Amor quem será meu amigo?
Ah, Senhora, pensar em ti
traz a memória desejosos encontros,
que acalentam as virtuoses que senti,
a ponto de deixar a todos esperançosos,
pois a Graça do Amor quando se manifesta
é dadiva a quem o experimenta,
mas também é bênção para quem o entende
e o compreende; pois Amor não se vende,
e a todos outorga sua bondade sem olhar
a quem; assim, ao sobre o Amor para vós cantar
testemunho aos homens o meu Amor
contando sobre o vosso inestimável valor.
Diante do sincero Amor,
qualquer provação ou dor
se torna em ímpeto para a vida;
e se a tribulação faz a alma ficar repartida,
o Amor torna a provação suportável,
pois pela tribulação o coração se torna mais amável;
oh, Amor, gracioso, bondoso, sofredor,
abençoado e abençoador,
seja a tua regra o meu ditame,
seja o teu valor sem reclame,
seja a tua bênção a minha canção,
e isto seja ao Deus Altíssimo uma louvação.
Oh, Amor, da verdade o maior valor,
és o estrondo da bondade
que em ecos cósmicos flui
a todos que o reverenciam com ardor
demonstrando e vivenciando que nas fases da idade,
mesmo em tempestades, o castelo do Amor não rui;
o valor do Amor está manifesto
em duas coisas que os homens tem perto:
o espelho, no qual se contemplam,
pois os que se contemplam se amam;
e o banheiro, no qual se lavam,
pois amar é a todo momento se limpar.
Senhora, se pudesses pensar
em meu Amor, e se pudesses analisá-lo,
certamente isso a faria meditar
e ponderar, e ainda que não fosse possível compreendê-lo,
entenderias que tudo o que fiz foi por a amar;
ah, Senhora, que estais a cada dia mais bela
e mais frondosa, que grande mistério:
vossa fermosura me é um refrigério
e vossa face cada vez mais digna de meritério;
se soubesses, Senhora, a medida
do Amor, serieis a mais felicitada,
pois pelo Amor és mui abençoada.
A bênção do Amor me foi concedida
para vos amar; e que dádiva
é vos amar, Senhora da virtude aplainada;
sei que és alegre, mas o Amor a faz
ainda mais feliz, de tal modo que vossa face
mui aprazível se embeleza em sorriso que satisfaz;
ah, Senhora, Senhora, teu sorriso é enlace
que assaltou o castelo de meu coração de uma vez;
não por alguma coisa que fez,
mas pura e simplesmente por vê-la alegre,
sabendo que esta alegria é pelo meu Amor entregue;
e que a alegria de minha amada a todos pregue.
A dignidade de um homem
está em amar a mulher como um singular bem;
saiba, Senhora, que dos bens que conheço
o Amor é o maior e o mais importante;
por isso, diante de vós a Deus peço
que o Amor sempre aumente
em vosso coração, pois a alegria que demonstraste
ao vos amar meu coração acalentaste;
vê-la alegre porque vos amo
é um mérito que a mim reclamo;
dos bons prazeres da vida um dos mais graciosos
é ver vossas bochechas dançarem em traços amorosos.
Oh, Amor, que traz alegria até na dor;
vosso fogo é um bom impulsionador
para as benesses da vida, as quais por causa
do Amor se tornam da virtude causada
o Preceptor que guia para a sinceridade;
vosso Amor é singelo em expressão,
grande e mui rico em bondade,
ardoroso e fogueroso em proximidade,
sincero e leal na carinhosidade,
firme e ardente em reciprocidade;
eis vosso Amor, tão belo e verdadeiro,
porque vos amo de modo altaneiro.
O Amor é fogo apaziguador,
é um riacho aguador,
que corre calmo, sereno e sempre límpido,
a fim de conduzir-te de modo desimpedido
a meus braços, que em ternura e cuidado
vos ama de modo lapidado;
o Amor, que sublime pulula no coração,
és da bondade uma singular honração;
pois o Amor emana do Bem como bênção,
sendo do viver a melhor definição;
quem ama e quem é amado
enfrenta qualquer vicissitude ou fardo.
Canção, vede como é grande o Amor;
se ninguém ouvidos me der, pelo menos saberás
que o Amor sempre testemunharás.
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