Prólogo.
1. A vós, prezados srs. da escolástica reformada,
resolvi escrever depois que vi um post na rede social a respeito de Origenes;
na postagem vós falastes que Orígenes é o “patrono do pelagianismo” e o
“patrono do sinergismo”; e isso além de desrespeito com o maior dos
teólogos, demonstra um profundo desconhecimento da obra que restou deste que no
dizer do maior inimigo dos cristãos “foi o homem que atingiu o ápice do
saber universal” - isto quem diz é o maior filósofo depois de Aristóteles.
E se se fosse apenas evocar o argumento de autoridade isso já seria suficiente
para aclarar a honra e a dignidade de Orígenes.
E as bases que vós citastes para estabelecer este
argumento incorrem no mesmo erro do imperialismo que dominou a vida eclesial do
séc. VI, no qual o infame Justianiano atentara contra as obras de Orígenes
ordenando destruí-las. Veja-se bem: passaram-se 1500 anos e a inveja contra a
autoridade de Orígenes continua a mesma; e é lamentável que vós continuais
propagando este vilipêndio inominável. Na verdade, se vós como protestantes
querem uma visão adequada sobre Orígenes deveriam ler Bullinger, que pelo menos
em relação a Orígenes é um pouco razoável.
Com efeito, Orígenes não é pelagiano e nem é o “patrono
do pelagianismo” (nem é o patrono do sinergismo)[1],
pois a definição de Orígenes a respeito da salvação através da graça (cf. Ef
2.8-9), apesar de muitíssima de suas obras terem sido destruídas, é a visão
mais equilibrada sobre este assunto[2].
2. Ora, se os srs. tivessem lido os comentários
bíblicos restantes de Orígenes, principalmente o que restara do Comentário ao
Evangelho de João (obra que já está traduzida em português) e do Comentário a
Romanos (obra que em breve será traduzida), saberiam que do pensamento
origenista não é pelagiano e nem dá base para o pelagianismo (ou o que se chama
na teologia protestante de sinergismo). Uma coisa é o pensamento de Orígenes,
outra coisa é o que Orígenes recolheu das diversas opiniões a respeito de um assunto
- e o que restou de Orígenes são justamente críticas as opiniões que ele
recolhia na análise de determinado assunto[3].
Na verdade, em seus escritos sobre a questão da
salvação e da graça, Orígenes lutava contra os gnósticos que nesta época
propagam uma doutrina da providência divina que era determinista ao extremo;
Orígenes se opôs ao determinismo gnóstico, o qual ainda continua a influenciar
algumas linhas da cristandade, inclusive entre os infames calvinianos dos quais
os srs. são parte.
Com isso, tendo diante de mim vossa crítica a
Orígenes, lhes respondo com as palavras que vem a seguir em defesa de Orígenes.
Louvado seja Deus porque concedera à cristandade um homem genial e santo como
Orígenes, e anátema a todos aqueles que ainda incorrem em invejas e
maledicências contra Orígenes.
E minha resposta a vós consistirá em duas partes: a
primeira, na qual elenco a grandeza da glória de Orígenes; a segunda, na qual
confuto a opinião de Teófilo Gale.
Parte I: A Grandeza da Glória de Orígenes.
3. A grandeza da glória humana de Orígenes pode ser
aferida a partir do que São Jerônimo dissera: “A grandeza da glória de
Orígenes fica evidente” em “seu gênio imortal, como ele entendia de
dialética, assim como de geometria, aritmética, música, gramática e retórica, e
ensinava todas as escolas de filosofia, de tal maneira que tinha também alunos
diligentes em literatura secular, aos quais dava aulas diariamente, e as
multidões que acorriam a ele eram maravilhadas. Ele os recebia na esperança de
que, por meio dessa literatura secular, pudesse firmá-los na fé em Cristo”[4];
ora, a sentença de São Jerônimo é formidável, e demonstra no que consiste a
grandeza da glória de Orígenes.
4. Orígenes, para a tradição patrística, é o homem de
diamante; e não só em relação ao conhecimento ou a santidade, mas em relação a
todas as virtudes e qualidades humanas que podem ser aferidas em um homem.
Santo Atanásio dissera que Orígenes era um eruditíssimo e laborioso escritor[5]; e
Santo Atanásio diz isso em sinal de elogio e em razão da autoridade (auctor)
e da ortodoxia de Orígenes. E São Gregório de Nissa afirmara que Orígenes é o
príncipe da cultura cristã, da filosofia cristã[6].
Estes e outros tantos testemunhos demonstram o porquê segundo o dito de São
Jerônimo, Orígenes é adamatino, é Adamâncio, o homem de diamante, dado a
excelência de seu conhecimento, o fulgor de sua santidade e a nobreza de suas
qualidades humanas[7].
5. Ademais, Orígenes, para a tradição patrística, é o
gênio imortal da cristandade; Orígenes é o maior dos gênios que já surgiram no
cristianismo; os bispos de várias partes do mundo solicitavam a visita de
Orígenes para soluções de problemas eclesiais, teológicos, filosóficos e
intelectuais; a corte imperial o recebia com grande honra; etc.
O gênio imortal de Orígenes manifesta-se no domínio
pleno que Orígenes tivera das disciplinas filosóficas e do saber teológico; Orígenes
foi mestre sem igual em dialética, geometria, música, aritmética, gramática,
retórica, lógica, literatura greco-romana, disciplinas as quais ensinava todo
dia em multidões de alunos de todas as partes do mundo, de pessoas símplices
aos grandes da terra, de teólogos a filósofos, de cristãos a ateus, todos
acorriam a Orígenes para ouvir de sua sabedoria – assim como ocorria com Salomão
(cf. 2Cr 9.23).
Do mesmo modo, Orígenes era mestre sem igual na
Sagrada Escritura; ensinava e pregava todos os dias sobre os textos bíblicos
aos mais variados tipos de ouvintes, dos catecúmenos aos experientes na fé;
todos os dias Orígenes ensinava proficuamente sobre os livros da Sagrada
Escritura – e no dia do Senhor, no domingo, pregava pelo menos duas vezes ao
dia na Santa Liturgia.
E tudo isso Orígenes fazia, seja nas disciplinas
filosóficas seja na teologia sagrada, a fim de que pudesse firmar seus ouvintes
na fé em Cristo: aos que já eram cristãos a fim de edificá-los, aos que não
eram cristãos a fim de levá-los a cristo; Orígenes foi um dos maiores
evangelizadores de todos os tempos, levando em sua época milhares de pessoas a
salvação em Cristo.
6. Ademais, Orígenes, para a tradição patrística, é o
mais santo entre os teólogos; em Orígenes se tem a grandeza de um homem santo;
São Gregório Taumaturgo afirmara sobre Orígenes: “Pois meu propósito é falar
de alguém que tem, de fato, a aparência e a reputação de ser um homem, mas que
parece, para aqueles que são capazes de contemplar a grandeza de seu calibre
intelectual, ser dotado de poderes mais nobres e quase divinos”, pois, “meu
assunto trata daquilo que há de mais divino no homem, e daquilo que nele tem
maior afinidade com Deus, daquilo que está de fato confinado aos limites desta
forma visível e mortal, mas que, no entanto, se esforça com mais ardor para
alcançar a semelhança de Deus. E meu objetivo é mencionar isso, e dedicar-me a
assuntos mais importantes, e também expressar minha gratidão à Divindade, por
ter-me sido concedido encontrar um homem que superou as expectativas dos homens”[8]. Ora,
se São Gregório Taumaturgo, um homem que em vida foi usado por Deus em
milagres, prodígios e maravilhas, testemunha isso e muito mais a respeito de
Orígenes, então se tem uma prova indubitável da santidade de Orígenes.
7. Outrossim, é que Orígenes, em toda a história da
cristandade, foi o filósofo e teólogo que mais sofrera com a inveja; nunca
ninguém na história da cristandade foi tão invejado quanto Orígenes; isso por
si demonstra a grandeza de Orígenes; quanto maior a inveja contra alguém maior
é a grandeza deste alguém; e sobre a inveja contra Orígenes não somente o
atesta São Gregório Taumaturgo e outros, mas o próprio São Jerônimo também
afirma: “A Roma imperial consentiu com sua condenação e até convocou um
senado para censurá-lo, não — como clamam os cães raivosos que agora o
perseguem — por causa da novidade ou heterodoxia de suas doutrinas, mas porque
os homens não conseguiam tolerar a incomparável eloquência e o conhecimento
que, uma vez que ele abria os lábios, faziam os outros parecerem mudos”[9]; a
inveja contra Orígenes, como dissera São Jerônimo, não se manifesta por causa
de erros e heresias, mas pela sobre-excelência de Orígenes, que superava
qualquer intelectual, filósofo e teólogo; e isso gerou inveja dos medíocres e
daqueles que quiseram subjugar a cristandade sob o domínio imperial.
8. Ora, tendo aclarado alguns aspectos sobre a
grandeza da glória de Orígenes, convém esclarecer alguns aspectos sobre sua
obra, a fim de explicar no que de fato consistem as reais dificuldades com as
obras de Orígenes; Orígenes escrevia, ditava, ensinava e pregava todos os dias;
e não só em teologia, mas também em filosofia, ciência e literatura; e tudo
isso era transcrito por alguns que o serviam para preservar seus ensinamentos
por escrito; como eram obras transmitidas oralmente, e dado o volume de escrita
e o ritmo sobre-humano de trabalho, Orígenes não teve tempo para revisar a
maior parte de suas obras.
E na transmissão oral ocorrem dois problemas: a
pessoalidade da transmissão e o problema da corrupção por quem transcreve; toda
a Igreja Antiga reconheceu que muitas das obras de Orígenes foram corrompidas
justamente porque foram mal transcritas e mal copiadas pelos amanuenses, seja
por desatenção seja por inveja (muito provavelmente por causa de inveja).
De fato, e isso é algo surpreendente, Orígenes
escreveu durante quase 50 anos mais de centenas de páginas por dia, entre
homilias, cartas, lições, comentários, tratados, explicações, etc.; nunca
ninguém em nenhuma área do saber teve tanta prolixidade como Orígenes;
certamente, Orígenes foi o autor mais prolífico da história.
9. Além disso, na filosofia, sem sombra de dúvida,
Orígenes está em pé de igualdade com Platão e Aristóteles; o dito de São
Jerônimo afirmado no início comprova isso, e o dito de São Vicente de Lérins
também comprova isso: “O esplendor de seu conhecimento e de sua erudição em
geral era tal que havia poucos pontos de filosofia divina, e quase nenhum de
filosofia humana, que ele não dominasse completamente”[10];
e se não se aceita a autoridade de São Jerônimo, então que se aceite o
testemunho de Porfírio, o maior inimigo dos cristãos, que diz que Orígenes “foi
o homem que atingiu o ápice do saber universal” – o dito de Porfírio põe
Orígenes em pé de igualdade com Platão e Aristóteles.
10. Com efeito, a influência de Orígenes na filosofia
é tão grande que os maiores filósofos platônicos da era cristã tem a influência
plena do neoplatonismo origenista - na verdade o platonismo e o neoplatonismo
da era cristã, em suma, é origenismo; ora, Plotino, Porfírio, e outros
filósofos platônicos e neoplatônicos tem sua seiva intelectual e filosófica em
Orígenes; além do que, menciona-se que além da teologia, intelectualmente e
filosoficamente, Santo Agostinho é um neoplatônico origenista; aliás, até o
método de escrita e análise de Santo Agostinho é uma imitação menos perfeita e
mais compacta do método de Orígenes; o estilo das obras de Agostinho é o estilo
origenista. E o que se dirá então dos Padres Capadócios, os mais geniais entre
os Padres da Igreja, os quais foram totalmente esmerilados na teologia e na
filosofia pela influência de Orígenes. De fato, Orígenes é o maior dos
platônicos na era cristã, e poder-se-ia também afirmar, sem nenhum exagero, que
Orígenes fora o maior dos filósofos da era cristã.
11. Outrossim, é que os títulos dos Padres da Igreja
são expressão menos perfeita dos títulos do próprio Orígenes; por esta razão, um
dos Padres da Igreja afirmara que Orígenes foi a pedra de amolar de todos nós, isto
é, de todos os Santos Padres; por isso, Orígenes é o maior dos Padres da
Igreja; não somente o maior dos Padres da Igreja, mas o maior dos teólogos.
Além disso, Orígenes é santo; sem sombra de dúvida
Orígenes deve ser chamado de Santo Orígenes o Teólogo; pois, ninguém na
história da cristandade foi mais digno do título de “Teólogo” do que Orígenes;
a grandeza da glória de Orígenes o faz ele ser muitíssimo superior a junção de
todos os Santos Padres latinos e gregos.
E segredo que amo Santo Agostinho e amo Santo Tomás de
Aquino, mas depois de estudar os textos restantes de Orígenes, e analisar
aspectos de sua obra e influência, pude constatar como fato indubitável que
Orígenes é muito maior de que o aquinate e o bispo de Hipona juntos.
12. A autoridade de Orígenes viera não somente de sua
vida santa, e de sua obra, mas também do saber que Orígenes reuniu ao redor de
si; a biblioteca de Orígenes é a maior e a mais importante biblioteca da Igreja
Antiga; Orígenes reuniu consigo manuscritos bíblicos, de filósofos, de autores
orientais, etc., enfim de todo o saber da época; Orígenes tinha em mãos os
autógrafos dos textos bíblicos, tinha os últimos manuscritos de obras de
Pitágoras, textos perdidos de Platão e de Aristóteles, e de outros filósofos e
intelectuais; grande parte do saber que havia sido perdido na queima da
biblioteca de Alexandria, e do qual havia ainda apenas algumas cópias
sobreviventes fora preservado e conservado por Orígenes em sua biblioteca; mas,
infelizmente com a destruição da obra de Orígenes, sua biblioteca também fora
destruída, e assim se perdeu as últimas cópias de obras de Pitágoras, Platão,
Aristóteles, os autógrafos dos textos bíblicos do novo testamento, e outros
textos importantes.
13. E pelo fato de ter reunido os autógrafos dos
textos bíblicos, Orígenes abalizou a crítica bíblica para plena formação do
cânon do Novo Testamento; quem aferiu, comparou, abalizou, definiu e organizou
o cânon do Novo Testamento, a partir dos instrumentos da crítica, e dos
argumentos teológicos, fora Orígenes; e Orígenes o fizera com maestria
incomparável; o cânon do Novo Testamento, depois definido cabalmente pela
Igreja como um todo, fora abalizado e confirmado por Orígenes.
A formação do cânon do Novo Testamento, e os critérios
de fechamento do cânon, foram abalizados e estabelecidos pelo homem de
diamante. A Hexapla é apenas um dos testemunhos da maestria de Orígenes
com relação a crítica textual sóbria do texto sagrado e de sua tarefa em
abalizar a regra do cânon escriturístico.
13. Ora, estes aspectos evocados são mais do que
suficientes para demonstrar quem é Orígenes, e no que consiste o dito de São
Jerônimo sobre a grandeza da glória de Orígenes; o homem de diamante da
cristandade, o homem com os nervos de aço, da santidade que exala o perfume de
Cristo, da sabedoria mais fulgurosa do que os ensinamentos salomônicos, do
teólogo maior, do filósofo que podia falar de igual para igual com Platão e
Aristóteles, etc.; este é Orígenes, e esta é a grandeza de sua glória tal como
outorgada por Deus.
Por isso, aqueles que atentaram e os que atentam
contra Orígenes estabelecem-se como algozes da cristandade; além do que, se
alguém quisesse analisar a imensa obra de Orígenes isso seria algo impossível de
se fazer, dado a extensão imensa de sua obra; um autor de mais de seis mil
(6.000) livros não pode ser analisado com simplismos e reducionismos de imbecis
e invejosos; todavia, sem compreenderem isso, os invejosos conseguiram destruir
a obra de Orígenes para anematizá-lo e não deixar margens para que ele pudesse
ser defendido a partir do que ele mesmo escreveu.
Com efeito, contra Orígenes cometera-se a maior das
covardias intelectuais entre os homens; mas isso não muda a grandeza da glória
de Orígenes; não se tem mais sua imensa obra, mas se tem o testemunho dos
Santos Padres sobre a grandeza da glória de Orígenes; e isso é o que conta.
Glória a Deus pelos Santos Padres que souberam sempre
reconhecer e honrar sem meios termos a dádiva divina outorgada a Santa Igreja
através de Orígenes.
Parte II: A Confutação da Opinião de Teófilo Gale.
14. Depois de ter explicado no que consiste a grandeza
da glória de Orígenes, passemos, pois, para a confutação da opinião de Teófilo
Gale; ora, se se fosse utilizar do argumento de autoridade, a partir do que já
fora afirmado, a opinião de Teófilo Gale seria desautorizada de antemão; o
testemunho dos Santos Padres são mais autorizados do que o testemunho de outros
estudiosos; no entanto, como convém a reta razão também este proceder
confutatório, se seguirá a confutação da opinião de Teófilo Gale e de outros,
as quais já estão confutadas pelo testemunho dos Santos Padres sobre a grandeza
da glória de Orígenes e de sua ortodoxia e ortopraxia.
15. [A opinião de Teófilo Gale] A opinião de Teófilo
Gale é manifestação do erro inerente a heresia protestante, a de se acharem
superiores a quem lhes é imensamente superior intelectualmente. Não há ninguém
na história da cristandade que possa falar de Orígenes como se lhe fosse
superior.
Mas, vamos às sentenças de Teófilo Gale:
(i) A primeira sentença de Gale que os srs. se
utilizam é a que ele fala sobre a vaidade da ética pagã; num sentido está
correto, pois se se analisar apenas do ponto de vista da fé, a ética pagã
literalmente é herética; todavia, do ponto de vista racional, a ética dita pagã
tem muito a contribuir, principalmente no que diz respeito a vida natural e as
virtudes naturais; de fato, a ética pagã não fala sobre a graça, mas a graça
não anula o que é próprio da natureza, lembrando o dito de Santo Tomás de que a
graça não tolhe, mas aperfeiçoa a natureza (cf. STh Ia, q. 1, a. 8, ad 2);
portanto, se se for apenas do ponto de vista racional, a ética pagã tem muita
validade, e como Orígenes também era um filósofo e ensinava numa escola
filosófica, suas ponderações a este respeito estão corretíssimas, dado o
caráter racional dos ensinamentos sobre a ética natural. Ora, os srs.
calvinianos tem uma formulação da Graça Comum assaz secularizada e ainda querem
criticar Orígenes porque ele valorizava a ética pagã nas coisas puramente
naturais; a doutrina calviniana é muito pior do que os srs. criticam de
Orígenes neste quesito; basta lembrar do plágio que os calvinianos fazem das
ideias zwinglianas; num geral, os calvinianos tem dificuldade em confiar na
reta razão em assuntos naturais geralmente porque são em sua maior parte uma
corja de imbecis; etc.
(ii) A segunda sentença de Gale que os srs. se
utilizam é a que Gale critica Orígenes porque supostamente Orígenes fizera a
fonte de sua obra a confiança na reta razão, na boa natureza, no
livre-arbítrio, das coisas ditas em nosso poder, nas sementes da virtude, etc.;
ora, como fora dito Orígenes também era um filósofo, e um filósofo procede em
relação ao saber racional com a confiança e o fundamento nestes aspectos;
quanto a isso não há nenhuma heresia e nem desprezo a Revelação de Deus; estes
aspectos dizem respeito ao lume da luz interior; e na filosofia a reta razão
impera, a boa natureza é honrada, o livre-arbítrio é valorado, as sementes da
virtude são ensinadas e inculcadas; neste quesito, Orígenes foi o mestre maior
entre os platônicos e entre os neoplatônicos. E não venham os srs. com estas
loucuras de querer acusar de heresia o proceder filosófico na filosofia, porque
isso é loucura defasada e pietizada que os srs. desordenadamente propagam. A
sentença de Gale é infame e imbecilizante, e os srs. ainda propagam esta
imbecilização.
(iii) A terceira sentença de Gale que os srs. se
utilizam é que Gale afirma que os Padres Gregos, entre os quais Orígenes,
absorveram o pensamento filosófico com avidez, os quais segundo Gale exaltavam
estes aspectos sem fim e nem medida; ora, Gale comete erro de princípio; de
fato, os Padres Gregos valoravam o uso da reta razão, do pensamento filosófico,
como preparação para o saber teológico, e nisto Orígenes superou seu
predecessor, São Clemente de Alexandria; mas Orígenes não confundiu as esferas
de ação da filosofia e da teologia, embora em sua obra, assim como por exemplo
em Santo Agostinho, não haja separação cabal entre filosofia e teologia - o que
em sentido teórico só ocorrerá plenamente com Santo Alberto Magno; ora, para
comprovar isso bastaria que os srs. lessem a Epistola ad Gregorium para
entender como Orígenes estabelece este assunto; etc. Aliás, neste sentido
Orígenes é clementino, e amplia com uma erudição e saberes ainda maiores o
preceito pedagógico do grande professor alexandrino. Os Padres Gregos não
valorizavam a sabedoria filosófica sem medida, apenas a valoravam no âmbito
humano como a glória maior que o intelecto natural nesta vida alcançou sobre a
compreensão da verdade.
16. [Os argumentos de Gale] Os argumentos
básicos utilizados por Gale, tal como evocado pelos senhores, baseia-se em
cinco pressupostos, os quais são: (i) para Gale, Orígenes tinha uma indiferença
a respeito do livre-arbítrio; (ii) para Gale, Orígenes tinha uma suposição de
que a Lei da Natureza é suficiente para nos conduzir a viver bem; (iii) para
Gale, Orígenes tinha uma suposição muito elevada na defesa dos méritos e da
perfeita justiça; (iv) para Gale, Orígenes ocasionara a destruição da livre
eleição, predestinação, etc.; (v) para Gale, Orígenes negou e destruiu a noção
de pecado original, da graça, etc.
Analisemos estes aspectos:
(i) Obviamente, a crítica de Gale tem o tipo de
ambiguidade inerente a quem desconhece o assunto analisado; primeiro, Gale
acusa Orígenes de super-valorar o livre-arbítrio, depois o acusa de ter uma
indiferença a respeito do livre-arbítrio (em suma, contradição de termos formal,
ou seja, burrice e imbecilidade); e como fora afirmado, Orígenes não era
indiferente nem super-valorava o livre-arbítrio, apenas combatera com veemência
o erro da dialética gnóstica quanto a potência do livre-arbítrio nas coisas
naturais. Com efeito, Orígenes não era indiferente ao que os antigos chamavam
de livre-arbítrio, apenas sabia analisá-lo de maneira adequada em seu devido
contexto na filosofia e na teologia.
(ii) E nisto Orígenes está totalmente correto; quanto
as coisas humanas, a Lei da Natureza, ou Lei Natural, é suficiente para a vida
humana; evidentemente a Lei Natural não é salvífica, mas é ordenadora para o
que concerne a vida humana neste mundo; pelos preceitos da Lei Natural se
consegue haurir um modo de vida virtuoso neste mundo; etc. Aliás, quanto a isso
os srs. deveriam consultar o comentário de Orígenes a Rm 2.12-16.
(iii) A defesa de Orígenes dos méritos e da perfeita
justiça está em concórdia com o ensinamento racional sobre a vida humana; os
méritos dizem respeito as ações virtuosas praticadas com relação a vida humana;
e a perfeita justiça diz a aplicação da ordem no todo da vida humana; Orígenes
defendia os méritos porque aqueles que alcançam nesta vida alguns méritos são
dignos de honra pelos méritos alcançados; e a vida meritória engendra a
perfeita justiça para a vida humana, a de dar a cada um o que lhe convém (cf.
Rm 13.7). O problema é que os srs. calvinianos confundem mérito ou vida
meritória com meritocracia; na vida humana é possível, pela Lei da Natureza,
alcançar méritos grandiosos; mas isso não significa que o ser humano
espiritualmente seja aceito diante de Deus por seus méritos, senão isso seria
ato meritocrático; Orígenes nunca ensinou meritocracia, mas sempre valorou a
vida meritória nas coisas humanas ao mesmo tempo em que valorou o poder da
graça para a salvação do ser humano.
(iv) Orígenes não ocasionou a destruição da ideia de
livre eleição, predestinação e similares; basta ler seu comentários bíblicos
aos textos que falam de eleição, predestinação e similares, e ver-se-á o que
Orígenes ensina a este respeito; na verdade, quem mais falou sobre eleição,
predestinação e similares entre os Padres da Igreja fora Orígenes; o
ensinamento origenista concatena adequadamente o ensinamento sobre a eleição e
a predestinação com a compreensão sobre a liberdade humana, sobre a necessidade
de perseverança nos fiéis, etc. Com efeito, Orígenes demolira fora o falso
determinismo gnóstico que tem uma compreensão defasada sobre a eleição, sobre a
predestinação, sobre o livre-arbítrio, etc., a qual infelizmente ainda é
propagada por muitos calvinianos.
(v) Orígenes não negou a ideia de pecado original e
nem negou a eficácia da graça; embora o termo pecado original surja com Santo
Agostinho, Orígenes não negou os efeitos do Pecado no ser humano quanto as
questões espirituais, Orígenes apenas ensinava que mesmo após o Pecado há no
ser humano ainda algumas coisas boas no tocante a vida natural; do mesmo modo,
Orígenes não negava a eficácia da graça, mas não menosprezava os méritos
humanos em função de uma compreensão gnóstica da graça; Orígenes foi um pregador
da graça de Deus, e em seus comentários bíblicos e homilias sempre deixou claro
a necessidade da graça para a salvação do pecador, mas nunca deixou que isso se
transformasse na rejeição gnóstica dos méritos na vida natural.
17. Além disso, os srs. também evocam a opinião de
Jansênio, a qual nem deter-me-ei a analisar porque incorre exatamente nos
mesmos erros das sentenças de Gale. No entanto, convém ainda analisa as
críticas de São Jerônimo que os srs. evocam; como se sabe São Jerônimo traduziu
e divulgou muitas obras de Orígenes, e o tinha como um grande mestre
intelectual que em seus comentários o ensinara muitíssimo; a biblicidade de São
Jerônimo é a biblicidade origenista; a teologia bíblica de São Jerônimo é
edificada sobre as imensas possibilidades da exegese bíblica abertas pelos
comentários bíblicos de Orígenes; São Jerônimo foi um grande comentarista das
Sagradas Escrituras porque aprendeu de Origenes o Comentador das Sagradas
Escrituras; etc.
18. Os srs. evocam as sentenças de São Jerônimo contra
o pelagianismo; numa destas sentenças, São Jerônimo evoca a pressuposição de
que a doutrina de Pelágio era apenas um ramo da doutrina de Orígenes, como diz
a Ctesifonte: “muito de seu ensino pode ser rastreado até Orígenes”[11]; conquanto
São Jerônimo tenha sido abrupto contra o pelagianismo - algo corretíssimo -
suas críticas ao pensamento origenista nestas obras, como se mostra evidente
pelo propósito das mesmas, se dá não tanto por erros de Orígenes, mas pela
utilização errônea do pensamento origenista por muitos escritores, tal como
Rufino e outros; São Jerônimo não critica propriamente a Origenes, mas a
utilização pelagiana de Orígenes para tentar fundamentar o pelagianismo; pois,
uma coisa é Orígenes ter descrito as possibilidades desta doutrina, o que
acertou com precisão assombrosa, e outra coisa é Orígenes ter defendido esta
doutrina; Orígenes nunca defendeu estas heresias, mas as explicou tão bem
explicado que chega até parecer que era adepto de algumas delas.
Ora, Orígenes não era pelagiano ou algo similar, mas
descreveu o pelagianismo bem antes do mesmo ser propagado por Pelágio, pelas
razões já aduzidas; o ensino dos pelagianos ser rastreado até Orígenes não
significa que Orígenes era o precursor do pelagianismo, pois como se sabe
Orígenes apenas descreveu esta heresia antes dela tomar forma com Pelágio,
porque era uma doutrina gnóstica que assolou a Igreja no período apostólico e
no período dos Pais Apostólicos (sécs. I-II), e que perdurou posteriormente,
até tomar forma cabal com Marcião, Pelágio, Ário e outros.
19. Outrossim, é que em relação ao pensamento de
Orígenes há de se entender inicialmente duas coisas: primeiro, o que Orígenes
analisou e descreveu; segundo, o que Orígenes propriamente desenvolveu.
Ora, quanto ao primeiro, Orígenes descreveu todas as
escolas filosóficas e teológicas até sua época, e ainda catalogou e descreveu
os erros e acertos de cada uma, e isto em meio as suas numerosas análises sobre
todo e qualquer assunto; por exemplo, em meio a um comentário bíblico maior, se
a explicação do texto sagrado se defrontasse com algum erro e/ou heresia,
Orígenes parava a explicação bíblica, e analisada este erro e/ou heresia em
todas suas possibilidades, e depois retornava para a explicação bíblica; ele
também fazia isso em relação a literatura e a filosofia.
E em relação ao segundo, é onde se tem o pensamento
propriamente dito de Orígenes, que se desvela principalmente em seus muitos
comentários bíblicos, tratados filosóficos e também em suas milhares de
epístolas. E, infelizmente, com a destruição da obra de Orígenes, só restaram
as críticas contra o que ele descreveu, e não restou quase nada sobre o que ele
propriamente desenvolveu.
20. Outro aspecto é que a tentativa de colocar
Orígenes como o cultor do pelagianismo, ou o antecessor do pelagianismo,
incorre em erro de falácia histórica e de falácia de princípio, e também
evidencia uma neurose terrível em relação a heresia pelagiana; pois, o núcleo do
pelagianismo remonta ao primeiro século, ao gnosticismo, não a Orígenes;
Orígenes apenas abalizou estas opiniões e as ordenou como análise de parte de
uma escola filosófica que infelizmente ganhou expressão teológica.
De fato, os gérmens do pelagianismo não surgem com
Orígenes, mas Orígenes o catalogou e descreveu suas características antes mesmo
de Pelágio incorrer em suas heresias; Pelágio apenas desenvolveu algo comum aos
gnósticos e a dialética do determinismo gnóstico, algo que Orígenes lutou
contra a vida inteira. Atribuir a Orígenes a patronicidade do pelagianismo, ou
do que os srs. calvinianos chamam de sinergismo, é um erro crasso tanto no
sentido histórico quanto no sentido principiológico.
Na história do desenvolvimento do pelagianismo, assim
como de todas as outras heresias antigas, Origenes não é o cultor das mesmas,
mas apenas aquele que as catalogou e descreveu em todas suas possibilidades; se
Orígenes tivesse sido levado a sério neste ponto, e a inveja não tivesse se
avolumado contra ele, nenhuma destas heresias teria ganhado força, pois
Orígenes teve a hercúlea iniciativa de descrevê-las em suas todas suas nuances
e possibilidades para alertar e possibilitar a confutação destas heresias
mortíferas.
Com efeito, Orígenes foi o maior heresiológo da
história da Igreja, pois ninguém descreveu tantas heresias e com tanta precisão
quanto Orígenes; em sentido anamnésico, Orígenes foi o “profeta” que anteviu as
grandes heresias.
21. E, por fim, gostaria de tecer algumas
considerações finais, pois por ora o que fora dito basta para o propósito
referido no início; como fora dito, a grandeza da glória de Orígenes fora algo
atestado e comprovado pelos Santos Padres; e não somente pela Santa Igreja, a
glória de Orígenes foi reconhecida em todo o mundo por humildes e poderosos,
por filósofos e pessoas símplices; todo o mundo da época conhecia e reconhecia
Orígenes como a maior autoridade no saber seja na filosofia seja na teologia.
Portanto, que as palavras evocadas contra as
imbecilóides críticas de alguns autores protestantes contra Orígenes seja
suficiente para aclarar que as críticas protestantes contra o pensamento
origenista é fruto da mesma inveja do séc. VI de quando foram hediondamente
destruídas quase todas as obras de Orígenes.
A grandeza da glória de Orígenes não foi ofuscada por
homens invejosos e vis: a usurpação contra Orígenes custou à cristandade o
domínio na cultura, e isso é um preço alto demais que a cristandade pagou por
aceitar indolentemente a usurpação contra a maior autoridade em todos os campos
da sagrada teologia.
22. E termina aqui esta breve apologia em prol de Orígenes. Bendito seja Deus por todas as coisas. Amém.
[1] Esta dialética dissociada entre
monergismo e sinergismo é loucura da teologia protestante; além de ser uma
distinção mal aplicada, não convém ao equilíbrio patrístico (e escolástico) a
respeito da salvação pela graça.
[2] E chega-se a esta conclusão a
partir de uma correta doxografia das opiniões de Orígenes; pois, mesmo que sua
imensa obra tenha sido quase que totalmente destruída, restaram muitas análises
e ponderações sobre suas ideias; e em relação a compreensão sobre a graça,
tanto a natural quanto a salvífica, as proposições origenistas são assaz
ortodoxas. A doxografia de Orígenes comprova isso de maneira apodítica.
[3] Orígenes neste quesito procedia como Aristóteles. O Filósofo primeiro
coletava e organizava as várias opiniões a respeito de um assunto, depois as
analisava, e por fim, desenvolvia o saber concernente a este tópico; Orígenes
fazia exatamente isso; o problema é que com a destruição das obras de Orígenes,
restaram apenas as críticas contra os argumentos coletados como se fossem as
próprias sentenças de Orígenes.
[4] São
Jerônimo, De Viris Illustribus, cap. LIV.
[5] cf. Santo
Atanásio, Epistola IV ad Serapionem, n. 9.
[6] cf. São
Gregório de Nissa, De Vita B. Gregorii Thaumaturgi, In: PG XLVI,
905.
[7] Aqui menciona-se um fato curioso,
que pode ser aferido corretamente a partir dos testemunhos sobre Orígenes,
principalmente daqueles que estudaram pessoalmente com ele, tal como São
Gregório Taumaturgo, etc.; diz-se que Orígenes possuía uma beleza tão grande,
que as mulheres concorriam para escutá-lo simplesmente para ficar olhando para
ele. Ora, com isto também se pode afirmar que Orígenes foi o “galã” da
cristandade.
[8]
São Gregório Taumaturgo, Oration and Panegyric Addressed to Origen, cap.
II.
[9] São
Jerônimo, Epístola 33, n. 4.
[10] São Vicente
de Lérins, Communitorium, cap. XVII, 43.
[11] São
Jerônimo, Epístola 133, n. 3.
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