I
A maneira como se lida com o pecado diz mais do que o
próprio pecado; pois, ao constatar a vileza de muitos que se dizem “cristãos”,
e de muitos líderes religiosos, a respeito do pecado, ao invés de mostrar o
pecado de outrem, mostraram o próprio pecado, a saber, que são (1) adulterinos
e (2) licenciosos.
1. A prática do adultério pode ser definida de três
modos a partir da Sagrada Escritura: primeiro, se tem os que praticam
adultério, e estes podem ser perdoados se se arrependerem verdadeiramente;
segundo, se tem os que tem o hábito de praticar o adultério, os adúlteros, e
estes só encontram lugar para arrependimento depois de um longo tratamento
espiritual; terceiro, se tem aqueles que promovem, propagam e semeiam o
adultério, os adulterinos, os quais não encontram lugar para arrependimento,
isto é, são imperdoáveis.
Ora, ao se lidar com o pecado do adultério ou se
mostra o erro do adultério em si ou então se mostra a conduta adulterina
daqueles que falam do adultério ou de qualquer outro pecado; o modo de lidar
com pecados sexuais, as mais das vezes, desvelam a conduta adulterina de muitos
que dizem “cristãos” e de muitos líderes religiosos. Pois, o escárnio e os
melindres da falsa superioridade moral diante do pecado de adultério, desvela
uma mente e um coração dominados pela adultericidade, ou seja, se tem um
ente adulterino, alguém que esconde a conduta adulterina sob o véu do escárnio
contra pecados sexuais.
2. A prática da licenciosidade pode ser aferida a
partir da condição do coração de alguém ao lidar com o pecado alheio; a
licenciosidade é um dos pecados capitais, um dos maus pensamentos; e segundo
São Genádio Escolário as filhas da licenciosidade são oito[1]:
cegueira da mente, imprudência, instabilidade, condenação, excesso de
amor-próprio, ódio a Deus, amor ao mundo e medo/desespero do futuro. Ora, os
licenciosos ao lidar com o pecado alheio manifestam uma ou mais destas oito
características em si mesmos e as espelham em outrem.
Os
licenciosos, através das filhas da licenciosidade, manifestam orgulho e soberba
contra o pecado alheio; analogamente, seria um porco se achar superior ao outro
porco porque vê a lama na qual este porco está. Os licenciosos lidam com o
pecado alheio com os melindres da falsa superioridade moral para esconder
pecadores ainda piores que praticaram.
A
conduta dos licenciosos diante do pecado é dialética: acham-se superiores aos
pecadores que confessaram seus pecados, enquanto nesta vil “superioridade”
escondem atrocidades morais imperdoáveis. As máscaras dos licenciosos são
subterfúgios diante dos pecados alheios para velar pecados terríveis que
cometeram, muitos dos quais pecados imperdoáveis.
Por
isso, os licenciosos, assim como os adulterinos, ao lidar com o pecado alheio, manifestam
a viciosidade que escondem na alma com relação aos próprios pecados, isto é, a
auto-amnésia na consciência; aqueles que escondem os próprios pecados lidam com
os pecados alheios como se fossem “deus”, e ainda o fazem com completo
desconhecimento a respeito do assunto; por isso, os licenciosos lidam com o
pecado alheio como se fosse permissão para que continuem a praticar pecados
ainda piores.
II
Além
obviamente das características evocadas, se pode aclarar a conduta dos
adulterinos e dos licenciosos com relação ao pecado alheio doutro modo; pois, a
adultericidade e a licenciosidade não se manifestam somente enquanto
tais e do modo acima descrito; as mais das vezes as ações dos adulterinos e dos
licenciosos são veladas por supostas “boas intenções” sobre a conduta
alheia, mas que escondem venenos piores do que as serpentes do deserto.
Com
isso, se pode sumariar as seguintes ações dos adulterinos e/ou dos licenciosos
com relação ao pecado alheio:
1. Não
investigam a verdade (cf. Sl 10.4), e tomam partido a partir de informações
parciais, aquilo que é chamado pela sabedoria salomônica de “balança enganosa”,
a qual é abominação a Deus (cf. Pv 11.1).
2. Não
possuem honra (cf. Pv 18.3), e se tornaram ainda mais desonrados ao tentarem “vituperar”
o pecado alheio, pois assim se mostram como os fariseus que o Senhor Jesus
Cristo repreendeu severamente (cf. Mt 23.3-4).
3. Não
toleram falhas morais menos piores do que as que cometem (cf. Mt 18.23-35), e
assim buscam honras diante dos homens escondendo as infâmias que praticaram
(cf. Mt 23.5-7).
4. Não
praticam a verdadeira misericórdia (cf. Tg 2.13a), antes promovem a
imoralização da misericórdia para vituperar os pecados tornados conhecidos e
esconderem os próprios pecados, os quais sempre são piores do que os pecados
alheios que se tornaram conhecidos.
[...]
Ora,
estas características evocadas são úteis para se aperceber se alguém ao lidar
com o pecado alheio o faz com santidade e honra ou se o faz porque é um
adulterino e licencioso; pois, a maneira como alguém lida com o pecado diz
cabalmente quem essa pessoa é; por isso, os adulterinos e os licenciosos se
escondem sob as capas da decência, quando na verdade promovem as mais abruptas
desonras e infâmias.
A
facilidade com que os adulterinos e os licenciosos falam do pecado alheio, não
é porque entendem de pecado ou similares, mas porque escondem os próprios
pecados. Os adulterinos e os licenciosos odeiam a Deus e manifestam este ódio
no modo como lidam com o pecado alheio. Deste modo, o pecado alheio muito mais
do que mostrar sobre o alguém que pecou, mostra muito mais sobre aqueles que
tem de lidar com esse pecado e sobre aqueles que falam sobre esse pecado.
Pois,
os adulterinos e os licenciosos ao lidar com pecados sexuais, acabam por
engendrar pecados sexuais ainda piores – por exemplo, fora isso que ocorrera na
impregnação da perversão sexual entre os cristãos de Corinto (cf. 1Co 5.1-3). Os
adulterinos e os licenciosos são sementeira de perversão sexual: não só de
adultérios ou fornicações, mas da prostituição a pedofilia, do voyeurismo a
pornografia, da henogamia aos incestos, etc., isso tudo é semeado por
adulterinos e licenciosos.
Todavia,
que se saiba que aqueles que decaem nos pecados sexuais, mesmo os mais graves,
ainda podem encontrar lugar para arrependimento, mas os adulterinos e os
licenciosos por terem semeado tais pecados são expressão do caminho do inferno
(cf. Pv 7.27), isto é, estão destinados ao inferno.
III
Ora,
a adultericidade e a licenciosidade possuem consequências ainda piores
do que as manifestas nos pecados sexuais; pois, uma vez que os pecados sexuais
são praticados pela influência dos adúlteros e dos licenciosos, estes pecados semearão
a obstinação na mente e no coração; e esta obstinação uma vez que nasce no
coração, torna-se em obstinação contra a verdade; assim, peca-se sexualmente
não mais por conta de safadeza, ou sensualidade desordenada, ou incontinência
na libido, ou fraqueza sexual, etc., mas de quando isso peca-se sexualmente por
obstinação contra a verdade.
E
obstinação contra a verdade é blasfêmia contra o Espírito Santo, como afirmara
Santo Tomás de Aquino[2]; pois da aversão a verdade
surge a obstinação, e vice-versa; com isso, se qualquer tipo de pecado é
obstinação contra a verdade, então não é mais o pecado por fraqueza ou por
influência demoníaca, etc., mas é pecado por obstinação contra a verdade, a
blasfêmia contra o Espírito Santo.
Se se
tem uma geração de adulterinos e de licenciosos, então a geração seguinte será
uma geração de obstinados contra a verdade; e de fato é isso que ocorrera: uma
geração de adulterinos e de licenciosos fora formada, e influenciara tudo em
relação a perversão sexual, e isso ocasionou a formação de uma nova geração, a
geração da obstinação contra a verdade; e isso é algo gravíssimo, pois a
castificação adulterina e licenciosa é a formação de uma geração que tem por
hábito a blasfêmia contra o Espírito Santo, ou seja, uma geração destinada ao
inferno.
Portanto,
os adulterinos e os licenciosos engendram naqueles que tem falhas no caráter e naqueles
que ainda não formaram a personalidade, os vícios inerentes a obstinação contra
a verdade; e isto pode ser analogamente explicado através do processo da
polinização: a abelha pega o pólen de uma flor e sai polinizando por onde voa;
do mesmo modo é com a influência dos adulterinos e os licenciosos, por onde
estes passam e onde ficam acabam por polinizar todas as espécies de obstinação
contra a verdade.
E os
adulterinos e os licenciosos engendram em outros os gérmens do orgulho que
despreza a Deus, manifesto nas várias espécies de obstinação contra a verdade. Onde
se tem adulterinos e licenciosos logo se terá abruptas manifestações de
obstinação contra a verdade; e isso infelizmente é um fato inegável.
E, por
fim, e para concluir este breve artigo, também se menciona que os adulterinos e
os licenciosos engendram a obstinação contra a liberdade; pois, onde há obstinação
contra a verdade haverá obstinação contra a liberdade, e vice-versa; e a
obstinação contra a liberdade se manifesta nas várias ações e pecados contra a
liberdade em si e contra a liberdade de outrem; e do mesmo modo como a
obstinação contra a verdade, a obstinação contra a liberdade é blasfêmia contra
o Espírito Santo.
Os
adulterinos e licenciosos instituem uma casta espiritual anti-liberdade, fazendo
com que muitos se formem em ordem a não-liberdade, isto é, engendram uma
influência de obstinação contra a liberdade por onde passam; etc.
θεῷ χάρις!
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