03/06/2026

Os adulterinos e os licenciosos

I

 

A maneira como se lida com o pecado diz mais do que o próprio pecado; pois, ao constatar a vileza de muitos que se dizem “cristãos”, e de muitos líderes religiosos, a respeito do pecado, ao invés de mostrar o pecado de outrem, mostraram o próprio pecado, a saber, que são (1) adulterinos e (2) licenciosos.

1. A prática do adultério pode ser definida de três modos a partir da Sagrada Escritura: primeiro, se tem os que praticam adultério, e estes podem ser perdoados se se arrependerem verdadeiramente; segundo, se tem os que tem o hábito de praticar o adultério, os adúlteros, e estes só encontram lugar para arrependimento depois de um longo tratamento espiritual; terceiro, se tem aqueles que promovem, propagam e semeiam o adultério, os adulterinos, os quais não encontram lugar para arrependimento, isto é, são imperdoáveis.

Ora, ao se lidar com o pecado do adultério ou se mostra o erro do adultério em si ou então se mostra a conduta adulterina daqueles que falam do adultério ou de qualquer outro pecado; o modo de lidar com pecados sexuais, as mais das vezes, desvelam a conduta adulterina de muitos que dizem “cristãos” e de muitos líderes religiosos. Pois, o escárnio e os melindres da falsa superioridade moral diante do pecado de adultério, desvela uma mente e um coração dominados pela adultericidade, ou seja, se tem um ente adulterino, alguém que esconde a conduta adulterina sob o véu do escárnio contra pecados sexuais.

2. A prática da licenciosidade pode ser aferida a partir da condição do coração de alguém ao lidar com o pecado alheio; a licenciosidade é um dos pecados capitais, um dos maus pensamentos; e segundo São Genádio Escolário as filhas da licenciosidade são oito[1]: cegueira da mente, imprudência, instabilidade, condenação, excesso de amor-próprio, ódio a Deus, amor ao mundo e medo/desespero do futuro. Ora, os licenciosos ao lidar com o pecado alheio manifestam uma ou mais destas oito características em si mesmos e as espelham em outrem.

Os licenciosos, através das filhas da licenciosidade, manifestam orgulho e soberba contra o pecado alheio; analogamente, seria um porco se achar superior ao outro porco porque vê a lama na qual este porco está. Os licenciosos lidam com o pecado alheio com os melindres da falsa superioridade moral para esconder pecadores ainda piores que praticaram.

A conduta dos licenciosos diante do pecado é dialética: acham-se superiores aos pecadores que confessaram seus pecados, enquanto nesta vil “superioridade” escondem atrocidades morais imperdoáveis. As máscaras dos licenciosos são subterfúgios diante dos pecados alheios para velar pecados terríveis que cometeram, muitos dos quais pecados imperdoáveis.

Por isso, os licenciosos, assim como os adulterinos, ao lidar com o pecado alheio, manifestam a viciosidade que escondem na alma com relação aos próprios pecados, isto é, a auto-amnésia na consciência; aqueles que escondem os próprios pecados lidam com os pecados alheios como se fossem “deus”, e ainda o fazem com completo desconhecimento a respeito do assunto; por isso, os licenciosos lidam com o pecado alheio como se fosse permissão para que continuem a praticar pecados ainda piores.

 

II

 

Além obviamente das características evocadas, se pode aclarar a conduta dos adulterinos e dos licenciosos com relação ao pecado alheio doutro modo; pois, a adultericidade e a licenciosidade não se manifestam somente enquanto tais e do modo acima descrito; as mais das vezes as ações dos adulterinos e dos licenciosos são veladas por supostas “boas intenções” sobre a conduta alheia, mas que escondem venenos piores do que as serpentes do deserto.

Com isso, se pode sumariar as seguintes ações dos adulterinos e/ou dos licenciosos com relação ao pecado alheio:

1. Não investigam a verdade (cf. Sl 10.4), e tomam partido a partir de informações parciais, aquilo que é chamado pela sabedoria salomônica de “balança enganosa”, a qual é abominação a Deus (cf. Pv 11.1).

2. Não possuem honra (cf. Pv 18.3), e se tornaram ainda mais desonrados ao tentarem “vituperar” o pecado alheio, pois assim se mostram como os fariseus que o Senhor Jesus Cristo repreendeu severamente (cf. Mt 23.3-4).

3. Não toleram falhas morais menos piores do que as que cometem (cf. Mt 18.23-35), e assim buscam honras diante dos homens escondendo as infâmias que praticaram (cf. Mt 23.5-7).

4. Não praticam a verdadeira misericórdia (cf. Tg 2.13a), antes promovem a imoralização da misericórdia para vituperar os pecados tornados conhecidos e esconderem os próprios pecados, os quais sempre são piores do que os pecados alheios que se tornaram conhecidos.

[...]

Ora, estas características evocadas são úteis para se aperceber se alguém ao lidar com o pecado alheio o faz com santidade e honra ou se o faz porque é um adulterino e licencioso; pois, a maneira como alguém lida com o pecado diz cabalmente quem essa pessoa é; por isso, os adulterinos e os licenciosos se escondem sob as capas da decência, quando na verdade promovem as mais abruptas desonras e infâmias.

A facilidade com que os adulterinos e os licenciosos falam do pecado alheio, não é porque entendem de pecado ou similares, mas porque escondem os próprios pecados. Os adulterinos e os licenciosos odeiam a Deus e manifestam este ódio no modo como lidam com o pecado alheio. Deste modo, o pecado alheio muito mais do que mostrar sobre o alguém que pecou, mostra muito mais sobre aqueles que tem de lidar com esse pecado e sobre aqueles que falam sobre esse pecado.

Pois, os adulterinos e os licenciosos ao lidar com pecados sexuais, acabam por engendrar pecados sexuais ainda piores – por exemplo, fora isso que ocorrera na impregnação da perversão sexual entre os cristãos de Corinto (cf. 1Co 5.1-3). Os adulterinos e os licenciosos são sementeira de perversão sexual: não só de adultérios ou fornicações, mas da prostituição a pedofilia, do voyeurismo a pornografia, da henogamia aos incestos, etc., isso tudo é semeado por adulterinos e licenciosos.

Todavia, que se saiba que aqueles que decaem nos pecados sexuais, mesmo os mais graves, ainda podem encontrar lugar para arrependimento, mas os adulterinos e os licenciosos por terem semeado tais pecados são expressão do caminho do inferno (cf. Pv 7.27), isto é, estão destinados ao inferno.

 

III

 

Ora, a adultericidade e a licenciosidade possuem consequências ainda piores do que as manifestas nos pecados sexuais; pois, uma vez que os pecados sexuais são praticados pela influência dos adúlteros e dos licenciosos, estes pecados semearão a obstinação na mente e no coração; e esta obstinação uma vez que nasce no coração, torna-se em obstinação contra a verdade; assim, peca-se sexualmente não mais por conta de safadeza, ou sensualidade desordenada, ou incontinência na libido, ou fraqueza sexual, etc., mas de quando isso peca-se sexualmente por obstinação contra a verdade.

E obstinação contra a verdade é blasfêmia contra o Espírito Santo, como afirmara Santo Tomás de Aquino[2]; pois da aversão a verdade surge a obstinação, e vice-versa; com isso, se qualquer tipo de pecado é obstinação contra a verdade, então não é mais o pecado por fraqueza ou por influência demoníaca, etc., mas é pecado por obstinação contra a verdade, a blasfêmia contra o Espírito Santo.

Se se tem uma geração de adulterinos e de licenciosos, então a geração seguinte será uma geração de obstinados contra a verdade; e de fato é isso que ocorrera: uma geração de adulterinos e de licenciosos fora formada, e influenciara tudo em relação a perversão sexual, e isso ocasionou a formação de uma nova geração, a geração da obstinação contra a verdade; e isso é algo gravíssimo, pois a castificação adulterina e licenciosa é a formação de uma geração que tem por hábito a blasfêmia contra o Espírito Santo, ou seja, uma geração destinada ao inferno.

Portanto, os adulterinos e os licenciosos engendram naqueles que tem falhas no caráter e naqueles que ainda não formaram a personalidade, os vícios inerentes a obstinação contra a verdade; e isto pode ser analogamente explicado através do processo da polinização: a abelha pega o pólen de uma flor e sai polinizando por onde voa; do mesmo modo é com a influência dos adulterinos e os licenciosos, por onde estes passam e onde ficam acabam por polinizar todas as espécies de obstinação contra a verdade.

E os adulterinos e os licenciosos engendram em outros os gérmens do orgulho que despreza a Deus, manifesto nas várias espécies de obstinação contra a verdade. Onde se tem adulterinos e licenciosos logo se terá abruptas manifestações de obstinação contra a verdade; e isso infelizmente é um fato inegável.

E, por fim, e para concluir este breve artigo, também se menciona que os adulterinos e os licenciosos engendram a obstinação contra a liberdade; pois, onde há obstinação contra a verdade haverá obstinação contra a liberdade, e vice-versa; e a obstinação contra a liberdade se manifesta nas várias ações e pecados contra a liberdade em si e contra a liberdade de outrem; e do mesmo modo como a obstinação contra a verdade, a obstinação contra a liberdade é blasfêmia contra o Espírito Santo.

Os adulterinos e licenciosos instituem uma casta espiritual anti-liberdade, fazendo com que muitos se formem em ordem a não-liberdade, isto é, engendram uma influência de obstinação contra a liberdade por onde passam; etc. 

θεῷ χάρις



[1] cf. São Genádio Escolário, Fundamental Questions, [IV], 7. 

[2] cf. Santo Tomás de Aquino, Super Evangelium S. Matthaei Lectura, cap. XII, lect. 2. 


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